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Duas

Caldo de Canudinho e Veludo Rubro

O silêncio que se seguiu à partida de Emanuel no auge da crise de febre de Sara e do surto de Eduarda foi o mais denso que o tríplex já presenciara. Durante as primeiras horas da madrugada, as duas mulheres permaneceram em seus respectivos cantos, separadas por paredes de gesso e um abismo de ressentimento. No entanto, o som da respiração pesada de Sara, que agora lutava contra um princípio de congestão pulmonar, atravessava as frestas das portas.

Eduarda estava sentada na beira de sua cama, os pés balançando levemente, observando o reflexo da lua no piso de madeira. A adrenalina do confronto havia passado, deixando um vazio incômodo. Ela pensou em Emanuel. Pensou no modo como ele a olhara antes de sair: não com o habitual instinto de proteção, mas com uma repulsa gélida. Aquilo a aterrorizava mais do que qualquer grito de Sara.

Lentamente, Eduarda se levantou. Ela caminhou até a cozinha, seus passos não emitindo som algum. Abriu a despensa e a geladeira, selecionando legumes, frango e ervas frescas. Com uma precisão quase cirúrgica, começou a picar os ingredientes. O som da faca contra a tábua de madeira era rítmico, calmante. Ela preparou um caldo, deixando-o apurar até que o aroma preenchesse o andar de baixo.

Quando a sopa estava pronta, Eduarda colocou uma porção em uma tigela de cerâmica fina, preparou uma bandeja com um copo de suco de laranja natural e subiu as escadas. Ela entrou no quarto de Sara sem pedir permissão.

Sara estava em um estado deplorável. O suor havia encharcado os lençóis de seda, e ela tremia, apesar do calor excessivo de seu corpo. Ao ver Eduarda entrar com a bandeja, Sara tentou se sentar, mas seus músculos falharam.

— O que é isso? — a voz de Sara era um fiapo seco. — Veio terminar o serviço com veneno?

Eduarda não respondeu imediatamente. Ela colocou a bandeja na mesa de cabeceira e sentou-se na beira da cama, pegando uma toalha pequena e molhando-a em uma bacia com água morna que trouxera escondida sob a bandeja.

— É sopa de frango — disse Eduarda, a voz desprovida da habitual manha. — E não tem veneno. Se eu quisesse você morta, Sara, eu teria deixado você se sufocar com a própria teimosia enquanto o Emanuel estava aqui.

Eduarda começou a passar a toalha na testa de Sara, limpando o suor com uma delicadeza que beirava o carinho. Sara tentou recuar, mas a fraqueza era maior que seu orgulho.

— Por que está fazendo isso? — Sara perguntou, fechando os olhos enquanto a água morna aliviava a queimação em sua pele.

— Porque o Emanuel não consegue trabalhar se estiver preocupado com você — Eduarda mergulhou a toalha novamente na água. — E porque, por mais que eu odeie admitir, este apartamento fica silencioso demais sem os seus saltos batendo no chão. Você é o caos que mantém ele acordado, Sara. Eu sou o descanso. Mas ninguém consegue descansar se o caos estiver morrendo no quarto ao lado.

Sara abriu os olhos, observando o rosto pálido e concentrado de Eduarda. Pela primeira vez em anos, ela não viu a "sonsa" ou a "manipuladora". Viu uma mulher que entendia a estrutura daquele relacionamento triplo melhor do que ela própria.

— Você sabe que ele me ama, não sabe? — sussurrou Sara, a vulnerabilidade da doença baixando suas guardas.

— Eu sei — Eduarda pegou a colher e soprou o caldo antes de levar à boca de Sara. — Ele ama o seu fogo, a sua vulgaridade, o modo como você desafia o controle dele. Se você sumisse, ele passaria o resto da vida procurando por você em outras mulheres, e eu nunca seria o suficiente para preencher esse buraco. Eu aceito cuidar de você porque você faz parte do equilíbrio dele.

Sara aceitou a sopa. O calor do alimento pareceu trazer um pouco de vida de volta aos seus membros. Durante aquela hora, no silêncio da madrugada, as duas não brigaram. Eduarda ajudou Sara a trocar a camisola úmida por uma limpa, penteou os cabelos loiros agora embaraçados e garantiu que ela tomasse os antibióticos.

— Obrigada — murmurou Sara, antes de cair em um sono profundo e, desta vez, tranquilo.

Eduarda ficou observando-a por alguns minutos. Ela percebeu que Sara não era apenas uma rival; era a âncora que permitia que Emanuel não flutuasse para longe na suavidade excessiva de Eduarda. Elas eram os dois extremos de um homem que precisava de tudo para se sentir inteiro.

A trégua durou exatamente uma semana.

À medida que a saúde de Sara retornava, sua língua afiada e sua arrogância também voltavam. Eduarda, por sua vez, retornou ao seu papel de menina dengosa assim que ouviu a chave de Emanuel girar na fechadura na noite em que ele decidiu voltar para casa.

Emanuel entrou no tríplex com cautela, como quem entra em um campo minado. Ele trazia flores e duas caixas de joias. Estava determinado a restaurar a ordem. Ele sentia falta da presença das duas, do cheiro de cada uma, e até mesmo da tensão que o mantinha alerta.

— Meninas? — chamou ele, deixando as chaves no aparador.

Sara desceu as escadas primeiro. Estava radiante em um vestido de cetim dourado, os lábios pintados de um vermelho escandaloso, saltos agulha que faziam o som que Eduarda mencionara.

— Sentiu saudades, meu amor? — Sara se jogou nos braços dele, beijando-o com uma possessividade renovada. — Eu quase morri sem você, mas a sua bonequinha de porcelana até que serviu de enfermeira.

Eduarda apareceu logo atrás, caminhando devagar, os olhos brilhando ao ver Emanuel. Ela não correu. Ela parou a alguns passos e esperou, com aquela expressão de quem fora abandonada em uma tempestade.

— Emanuel... — ela sussurrou.

Emanuel se soltou de Sara e caminhou até Eduarda, abraçando-a com força.

— Eu sinto muito por ter saído daquela forma — disse ele, olhando para as duas. — Eu preparei algo especial para hoje. Quero uma noite romântica. Nós três. Sem brigas, sem acusações. Apenas nós.

Ele as guiou até a sala de jantar, onde um buffet de luxo fora entregue. Velas perfumadas, vinho de safra especial e uma música suave de jazz preenchiam o ambiente. Emanuel sentou-se na cabeceira, com Sara à sua direita e Eduarda à sua esquerda.

— Eu trouxe presentes — disse ele, entregando as caixas.

Para Sara, um bracelete de ouro maciço com diamantes cravados. Para Eduarda, um colar de pérolas negras, discreto e caríssimo.

— É lindo, Emanuel — disse Eduarda, deslizando os dedos pelas pérolas. — Combina com o meu vestido novo.

— O meu é muito mais brilhante — comentou Sara, estendendo o pulso para que a luz das velas refletisse nos diamantes. — Combina com a minha personalidade.

Emanuel sorriu, sentindo que, talvez, a paz fosse possível. O jantar correu bem nos primeiros trinta minutos. Ele contou sobre os novos projetos, as viagens planejadas, e as duas ouviram, competindo discretamente por quem prestava mais atenção.

— Eu estava pensando — disse Emanuel, servindo mais vinho —, que poderíamos passar o próximo mês na nossa casa em Ibiza. Só nós três. Longe do estresse do estúdio e da faculdade da Duda.

— Eu adoraria — disse Eduarda, colocando a mão sobre a de Emanuel. — Eu preciso de sol e de silêncio para estudar meus livros de arte.

— Silêncio em Ibiza? — Sara soltou uma risada debochada. — Eduarda, você é tão sem noção. Ibiza é feita para festas, para o caos, para gente viva! O Emanuel quer me levar para as melhores boates, não para ver você ler sobre pintores mortos em uma espreguiçadeira.

— Ele disse que quer descansar, Sara — Eduarda retrucou, a voz perdendo a suavidade. — Você só pensa em si mesma e no seu barulho vulgar.

— Vulgar? — Sara largou os talheres com um estalo metálico contra o prato de porcelana. — Lá vamos nós de novo. Emanuel, você ouviu isso? Eu acabei de sair de uma gripe mortal e ela já está me atacando!

— Eu não estou atacando! — Eduarda fez beicinho, os olhos marejando instantaneamente. — Eu só queria um momento romântico com você, Emanuel. Mas a Sara sempre transforma tudo em um carnaval.

— Um carnaval que você adora participar, Emanuel, não minta! — Sara se inclinou para frente, o decote generoso quase tocando a mesa. — Você prefere mil vezes estar comigo em uma festa do que ouvindo ela gaguejar sobre museus.

Emanuel sentiu a enxaqueca retornar com força total. A trégua de uma semana, o cuidado de Eduarda com Sara, tudo parecia ter sido um sonho feio que agora dava lugar à realidade de sempre.

— Eu pedi uma noite sem brigas — disse Emanuel, sua voz soando como um trovão baixo.

— Então mande ela parar de ser sonsa! — gritou Sara.

— E mande ela parar de ser agressiva! — choramingou Eduarda.

Emanuel levantou-se abruptamente, a cadeira arrastando no chão com um ruído estridente. Ele olhou para as duas mulheres que amava e odiava em medidas iguais. Sara, vibrante, siliconada, excessiva e honesta em sua brutalidade. Eduarda, tímida, manhosa, delicada e mortal em sua manipulação sensível.

— A trégua acabou, não foi? — perguntou ele, retórico.

— Ela começou — disse Sara, apontando para Eduarda.

— Eu só queria paz! — Eduarda escondeu o rosto nas mãos.

Emanuel caminhou até o bar e serviu-se de uma dose pura de uísque. Ele percebeu que a noite romântica fora um erro. Não existia romance entre aquelas três pessoas; existia uma disputa de território, uma guerra de atrito onde ele era o prêmio e o campo de batalha ao mesmo tempo.

— Vocês duas são impossíveis — disse Emanuel, virando o uísque de uma vez. — Sara, você é uma criança egoísta que não suporta não ser o centro das atenções. Eduarda, você é uma mestre em se fazer de vítima para conseguir o que quer.

— Emanuel! — as duas exclamaram em uníssono, chocadas com a franqueza dele.

— É a verdade! — ele gritou, batendo o copo na bancada. — Eu tentei ser o mediador. Eu tentei dar joias, tentei dar jantares, tentei dar atenção igual. Mas vocês não querem a minha atenção, vocês querem a derrota da outra!

Ele caminhou até a sala de estar, pegando o controle do sistema de som e desligando o jazz suave. O silêncio que se seguiu foi cortante.

— Querem saber? — Emanuel continuou, voltando para a mesa. — Já que vocês não conseguem ter uma noite romântica, vamos ter uma noite de negócios. Sara, você quer ir para Ibiza para festas? Pois bem, você vai pagar a sua parte. Eduarda, você quer silêncio? Pois bem, eu vou te colocar em um hotel fazenda sozinha por uma semana.

— Você não faria isso... — Eduarda soluçou, olhando para ele com descrença.

— Eu já fiz. Acabei de reservar os voos separados no meu celular — ele mentiu, apenas para ver a reação delas.

Sara empalideceu. A ideia de ir para Ibiza sem o financiamento de Emanuel ou, pior, sem a presença dele para ostentar, era um pesadelo. Eduarda, por sua vez, entrou em pânico com a ideia de ser isolada do homem em quem se apoiava para tudo.

As duas se olharam. Por um breve segundo, o medo de perder Emanuel superou o ódio mútuo.

— Emanuel, querido... — Sara começou, mudando o tom para algo mais sedutor, levantando-se e caminhando até ele. — Não seja tão drástico. Nós vamos nos comportar. Não vamos, Duda?

Eduarda levantou-se rapidamente, limpando as lágrimas e correndo para o outro lado de Emanuel, segurando o braço dele.

— Sim, Emanuel... por favor. Eu prometo que não falo mais de museus se a Sara prometer não gritar. Eu só quero ficar com você.

Emanuel observou as duas. Ele sabia que era uma mentira. Sabia que, em dez minutos ou no dia seguinte, a guerra recomeçaria. Mas ele também sabia que aquele era o seu vício. Ele precisava daquela adoração competitiva para se sentir vivo. Ele precisava ser o sol em torno do qual aqueles dois planetas opostos orbitavam, colidindo constantemente.

— Provas — disse Emanuel, cruzando os braços. — Me provem que podem passar o resto da noite sem uma única palavra de ofensa.

Sara olhou para Eduarda. Eduarda olhou para Sara.

— A sopa estava boa — disse Sara, as palavras saindo com dificuldade, como se estivesse mastigando vidro. — Obrigada por não me deixar morrer.

Eduarda forçou um sorriso, embora seus olhos ainda brilhassem com uma ponta de triunfo.

— O seu bracelete é muito bonito, Sara. Realmente brilha tanto quanto você.

Emanuel soltou um suspiro de alívio, embora soubesse que era temporário. Ele as puxou para perto, uma em cada braço.

— Ótimo. Agora vamos terminar o jantar. E depois... — ele baixou a voz, um brilho perigoso surgindo em seus olhos — ...depois eu vou decidir quem se comportou melhor para ganhar o resto da noite.

A competição mudou de foco, mas não de intensidade. Durante o resto do jantar, Sara e Eduarda trocaram elogios passivo-agressivos e olhares que prometiam vingança, enquanto Emanuel desfrutava do papel de rei em seu tríplex de vidro.

Ele sabia que a paz era uma ilusão, uma construção frágil feita de pérolas negras e diamantes. Mas enquanto ele pudesse manter as duas sob seu controle, enquanto pudesse alternar entre a manha de uma e a vulgaridade de outra, ele continuaria sendo o mestre daquela tinta, desenhando um destino caótico e luxuoso na pele daquelas duas mulheres que, no fundo, só queriam ser a única.

A noite terminou com as duas no quarto dele, uma de cada lado, em um silêncio armado que só Emanuel conseguia suportar. Ele adormeceu sentindo o cheiro do perfume doce de Eduarda e do perfume impactante de Sara, sabendo que, ao amanhecer, a primeira faísca transformaria aquele oxigênio em chamas novamente. E ele estaria lá para queimar com elas.