Duas namoradas
Ouro e Cinzas: A Inconfidência do Desejo
O motor do SUV de Emanuel roncava suavemente enquanto eles subiam as ladeiras íngremes e sinuosas de Ouro Preto. O cenário que se descortinava pelas janelas era um mergulho profundo no Brasil colonial: casarões de fachadas brancas com molduras coloridas, telhados de barro envelhecidos pelo tempo e torres de igrejas barrocas que pareciam tocar o céu nublado.
No banco do passageiro, Eduarda estava em transe. Seus olhos grandes e expressivos brilhavam a cada nova esquina. Ela vestia um vestido de linho bege, romântico e fluido, com um cardigã de lã fina por cima. Parecia uma personagem saída de um romance de época, perfeitamente integrada à atmosfera melancólica e histórica da cidade.
— Olhe aquilo, Emanuel! — sussurrou ela, apontando para o chafariz de pedra na Praça Tiradentes. — É como se o tempo tivesse parado. Consigo quase ouvir o som das carruagens. É tão... poético.
— É realmente impressionante, Duda — respondeu Emanuel, as mãos firmes no volante. Ele apreciava a arquitetura, a ordem das pedras e o peso da história. Para ele, Ouro Preto era um exercício de respeito ao passado.
Do banco de trás, no entanto, veio um som que parecia o de um pneu furado, mas era apenas o suspiro de desprezo de Sara.
— Poético? Eduarda, isso aqui é um cenário de filme de terror — disparou Sara, ajeitando os óculos escuros de grife que ocupavam metade do seu rosto. — Essas ruas são um atentado contra qualquer par de sapatos que custe mais de cem dólares. E esse cheiro de mofo? É isso que você chama de atmosfera?
Sara estava vestida como se estivesse a caminho de um clube em Ibiza: um conjunto de alfaiataria rosa choque, extremamente justo, que realçava cada curva de seus seios siliconados, e saltos finos que ela já estava começando a odiar antes mesmo de descer do carro.
— Não é mofo, Sara, é história — disse Eduarda, sem desviar os olhos da janela, a voz carregada de uma doçura defensiva. — É o cheiro da terra, das pedras que viram tanta coisa...
— É cheiro de poeira e falta de shopping center — rebateu a loira, cruzando os braços e fazendo o decote saltar. — Emanuel, por que não fomos para um resort em Porto de Galinhas? Lá tem Wi-Fi que funciona e gente que não parece que saiu de um livro de história do colégio.
— Nós precisávamos de algo diferente, Sara — Emanuel disse, tentando manter a paciência enquanto estacionava perto de uma pousada colonial de alto padrão. — A Eduarda queria ver os museus, e eu achei que o ar da montanha faria bem para todos nós.
Assim que desceram do carro, o contraste entre as duas ficou ainda mais evidente. Eduarda caminhava com leveza pelas pedras irregulares, parando para tocar as paredes de adobe, enquanto Sara cambaleava, xingando cada vez que o salto de seu sapato prendia entre um paralelepípedo e outro.
— Eu vou quebrar o tornozelo! — gritou Sara, agarrando-se ao braço de Emanuel com força. — Emanuel, me carrega ou eu juro que volto para Belo Horizonte a pé!
— Se você tivesse usado tênis, como eu sugeri... — começou Emanuel, mas foi interrompido por um olhar fulminante.
— Tênis? Eu não uso tênis para viajar com o meu namorado, Emanuel. Eu tenho padrões. Ao contrário de certas pessoas que se vestem como se fossem camponesas do século dezoito.
Eduarda parou e olhou para trás, um sorriso tímido e levemente superior nos lábios.
— O estilo daqui pede conforto, Sara. É uma questão de sensibilidade com o ambiente.
— Sensibilidade o meu rabo, Eduarda! — Sara sibilou, soltando o braço de Emanuel para tentar se equilibrar sozinha. — Você só gosta disso aqui porque é tão sem graça quanto essas pedras cinzas.
O check-in na pousada foi um campo de batalha à parte. Eduarda ficou encantada com os móveis de madeira maciça, as camas com dossel e o silêncio do pátio interno. Sara, por outro lado, fez um escândalo porque não havia elevador e o sinal de celular era instável dentro das paredes grossas de pedra.
— Não tem academia? — Sara perguntou à recepcionista, com uma expressão de horror genuíno. — O que as pessoas fazem aqui o dia todo? Rezam?
— Elas caminham, conhecem as igrejas, os museus da Inconfidência... — explicou a moça, constrangida.
— Ótimo. Vou virar uma beata — resmungou Sara, voltando-se para Emanuel. — Se eu não tiver um drink decente em trinta minutos, eu vou começar a quebrar essas antiguidades.
Emanuel massageou as têmporas. O plano era passar a tarde no Museu da Inconfidência, algo que Eduarda planejava há semanas.
— Vamos almoçar primeiro — decidiu ele. — Comida mineira.
O restaurante escolhido era um porão charmoso, com luz de velas e paredes de pedra aparente. Eduarda pediu um tutu de feijão com couve e lombo, saboreando cada garfada com um prazer quase infantil.
— É a melhor comida que já provei — disse ela, limpando o canto da boca com o guardanapo de pano. — Sinto o tempero caseiro, o amor no preparo...
— Eu sinto o colesterol entupindo minhas artérias só de olhar — disse Sara, que havia pedido apenas uma salada, que reclamou estar "murcha". — E esse feijão parece comida de presídio. Emanuel, como você consegue comer isso?
— É cultura, Sara — Emanuel respondeu, embora sua mente estivesse focada no estresse acumulado. — Tente aproveitar. O sabor é autêntico.
— Autêntico é o meu mau humor — ela retrucou, bebendo uma taça de vinho tinto com pressa. — Depois daqui, vamos para algum lugar que tenha música de verdade? Ou vamos passar a tarde olhando para estátuas de santos decapitados?
— Vamos ao museu — disse Eduarda, o tom de voz subindo um pouco, demonstrando uma firmeza rara. — Eu quero ver os manuscritos, as roupas da época. Quero sentir a energia do lugar onde os heróis estiveram.
— Heróis? Eram um bando de barbudos que não queriam pagar imposto, Eduarda. Acorda! — Sara soltou uma risada ruidosa que fez outros clientes olharem. — Você é tão romântica que chega a ser patética.
No museu, a tensão explodiu. Eduarda caminhava lentamente, lendo cada legenda, absorvendo a tragédia de Tiradentes com lágrimas nos olhos. Ela se apoiava em Emanuel, sussurrando perguntas sobre a história do Brasil, buscando nele o conhecimento que ele adorava compartilhar.
— Veja, Manu... a cela deles. Como deve ter sido difícil lutar por um ideal e terminar assim — disse Eduarda, segurando a mão dele.
Emanuel sentiu o aperto suave e retribuiu, sentindo-se o protetor daquela sensibilidade. Mas a paz durou pouco. Sara, que andava dez metros à frente, bufando e fazendo barulho com os sapatos, voltou para perto deles.
— Emanuel, eu não aguento mais! — ela exclamou, as mãos nos quadris. — É uma sala cheia de pedaço de pau e papel velho. Eu quero ir para o hotel, colocar um biquíni e tentar pegar um sol naquela piscina minúscula, já que é a única coisa que resta.
— Sara, a Eduarda quer terminar de ver a exposição — Emanuel disse, a voz ficando rígida. — Tenha um pouco de respeito.
— Respeito? Eu estou aqui há uma hora servindo de sombra para vocês dois! — Sara se aproximou de Emanuel, ignorando o espaço pessoal de Eduarda. — Você está me ignorando o dia todo por causa dessa... dessa guia turística amadora. Eu também estou aqui. Eu também sou sua namorada. E eu estou morrendo de tédio!
— Você é tão egoísta, Sara — Eduarda disse, a voz trêmula. — Você não consegue ver nada além do seu próprio umbigo. O mundo é maior do que a sua aparência e o seu conforto.
Sara virou-se para ela, os olhos faiscando de ódio.
— E você é uma sonsa, Eduarda! Usa essa fachada de "intelectual sensível" para prender o Emanuel em passeios que só você gosta. Você sabe que ele prefere estar em um lugar moderno, mas você faz essa carinha de coitada e ele cai. Você é uma manipuladora de museu!
— Chega! — Emanuel interveio, a voz ecoando pelas galerias de teto alto. — Nós vamos sair. Agora.
— Mas Emanuel, eu ainda não vi a parte do Aleijadinho... — começou Eduarda, as lágrimas finalmente transbordando.
— Nós vamos embora, Eduarda. Eu não aguento mais ser o juiz de vocês duas em público.
A volta para a pousada foi um deserto de palavras. Emanuel caminhava à frente, os ombros tensos. Eduarda vinha logo atrás, soluçando baixinho, parecendo uma flor murcha após uma tempestade. Sara fechava a fila, batendo o pé e bufando, vitoriosa por ter interrompido o passeio, mas furiosa por ainda estar naquela "cidade de mortos".
Ao chegarem ao quarto — uma suíte ampla que Emanuel havia reservado para os três, tentando promover uma união que agora parecia impossível —, a briga recomeçou com força total.
— Você estragou o meu dia! — Eduarda gritou, jogando o cardigã sobre a cama. — Eu esperei meses por essa viagem!
— E eu estou esperando um minuto de diversão desde que pisei nesse fim de mundo! — Sara rebateu, começando a tirar a roupa para colocar o biquíni, exibindo o corpo perfeito e as marcas de bronzeado artificial. — Emanuel, olha para ela. Ela está fazendo o show de novo. A mística de Ouro Preto agora é o choro da Eduarda.
Emanuel sentou-se na poltrona de couro, fechando os olhos.
— Eu só queria um final de semana tranquilo — ele disse, a voz carregada de uma exaustão que vinha da alma. — Eu trouxe vocês para cá para tentarmos nos entender. Mas parece que a cada quilômetro que nos afastamos de casa, vocês se odeiam mais.
Eduarda aproximou-se dele, ajoelhando-se no chão e colocando as mãos em seus joelhos, o rosto banhado em lágrimas.
— Manu... eu só queria compartilhar algo bonito com você. Algo que tivesse significado. Ela só quer aparecer, só quer luxo... ela não te entende como eu.
Sara soltou uma risada sarcástica, terminando de amarrar o biquíni minúsculo que deixava seus seios siliconados em evidência.
— Eu não te entendo? — Sara caminhou até eles, parando atrás da poltrona de Emanuel e passando as mãos por seus ombros, as unhas longas e vermelhas traçando o contorno de seu pescoço. — Eu entendo que você é um homem de carne e osso, Emanuel. Um homem que trabalha duro e precisa de prazer, de fogo, de alguém que o desafie. Não de uma menina que chora por causa de Inconfidentes mortos há duzentos anos.
Emanuel sentiu o toque frio de Eduarda em seus joelhos e o calor provocante de Sara em seu pescoço. Era a eterna dicotomia de sua vida.
— Vocês estão me rasgando ao meio — ele murmurou.
— Então escolha — disse Sara, inclinando-se para sussurrar em seu ouvido. — Fique aqui com a melancolia dela ou venha comigo para a área da piscina. Vamos abrir um espumante e esquecer que essa cidade existe.
— Não vá, Manu... — Eduarda suplicou, apertando as mãos dele. — Fica aqui comigo. Vamos ler sobre os poetas de Ouro Preto, vamos aproveitar o silêncio... é tão romântico aqui.
Emanuel abriu os olhos e olhou de uma para a outra. A beleza frágil e intelectual de Eduarda, que o conectava a algo superior, e a beleza agressiva e carnal de Sara, que o prendia ao presente.
— Eu vou sair — disse Emanuel, levantando-se e desfazendo o contato com ambas. — Vou caminhar sozinho pelas ladeiras. Quando eu voltar, espero que vocês tenham encontrado uma forma de conviver neste quarto sem que eu tenha que chamar a polícia.
— Você vai me deixar sozinha com essa louca? — Sara exclamou, indignada.
— Você vai me deixar aqui chorando? — Eduarda perguntou, desolada.
— Vou — respondeu Emanuel, pegando seu casaco. — Porque agora, a única coisa histórica que eu quero ver é o fim dessa discussão.
Ele saiu, batendo a porta de madeira pesada. O som ecoou pelo corredor da pousada.
Dentro do quarto, o silêncio durou apenas alguns segundos.
— Viu o que você fez? — Sara disparou, pegando sua toalha de praia. — Ele está farto de você e dessa sua mania de ser a "vítima da história".
Eduarda levantou-se, limpando o rosto com as costas das mãos. Seu olhar não era mais de tristeza, mas de um desafio silencioso e profundo.
— Ele saiu porque não aguenta a sua vulgaridade, Sara. Você é como esse sol que você tanto busca: brilha muito, mas queima e cansa. Eu sou a sombra, e é na sombra que ele descansa de você.
Sara parou na porta, olhando para Eduarda com um desprezo que escondia uma ponta de dúvida.
— Aproveite sua sombra, Eduarda. Porque quando a noite cair e o frio dessas montanhas chegar, é o meu calor que ele vai procurar debaixo desses lençóis de luxo.
Sara saiu, batendo a porta com tanta força que o quadro de um santo na parede tremeu.
Eduarda caminhou até a janela e olhou para as luzes que começavam a se acender nas ladeiras de Ouro Preto. Ela sabia que a luta por Emanuel era como aquela cidade: feita de pedras duras, subidas difíceis e uma história que nunca terminava de ser escrita. Ela pegou o frasco de perfume que ele lhe dera, espalhando o cheiro de flores brancas pelo quarto, preparando o terreno para o retorno dele.
Enquanto isso, Emanuel caminhava pelas ruas desertas, sentindo o ar frio da noite mineira. Ele olhava para as igrejas iluminadas e pensava que, assim como Ouro Preto, seu relacionamento era um monumento à contradição. Havia ouro, havia cinzas, e havia um desejo que, por mais que o esgotasse, ele ainda não estava pronto para abandonar. A viagem mal começara, e as ladeiras daquela paixão tripla prometiam ser muito mais perigosas do que os paralelepípedos da cidade.