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Duas namoradas

Venenos de Família e Juramentos de Posse

O retorno de Ouro Preto havia deixado um gosto amargo na boca de Emanuel. O silêncio no apartamento, após dias de discussões sob o céu mineiro, não era de paz, mas de exaustão. Ele tentava se concentrar na papelada do escritório, espalhada pela mesa da sala, mas sua mente vagava para a complexidade daquela vida a três. Sara estava no quarto, provavelmente testando algum novo creme caríssimo ou postando fotos da viagem onde, convenientemente, Eduarda não aparecia. Já Eduarda tinha recebido a visita da mãe, Dona Margarida, uma mulher de valores rígidos e olhar julgador que nunca escondeu o descontentamento com o arranjo de vida da filha.

Emanuel levantou-se para buscar um café na cozinha, mas parou no corredor ao ouvir vozes vindas do quarto de hóspedes, onde Eduarda e a mãe conversavam. A porta estava entreaberta, e o tom baixo, mas incisivo, de Margarida cortou o ar como uma lâmina.

— Eu não te criei para isso, Eduarda — dizia a mulher, a voz carregada de uma decepção que parecia pesar toneladas. — Eu não criei minha filha para dividir homem com ninguém, muito menos com aquela... aquela mulher vulgar que desfila por aqui como se fosse a dona do mundo.

Emanuel sentiu o sangue latejar nas têmporas. Ele parou, oculto pela sombra do corredor, a mão apertando o batente da parede.

— Mãe, não é assim... — a voz de Eduarda saiu pequena, embargada. — O Emanuel cuida de mim. Ele me protege. Nós temos uma conexão que você não entende.

— Protege? — Margarida soltou uma risada seca, desprovida de humor. — Ele te protege de quê, minha filha? Da dignidade? Ele te mantém aqui como uma boneca de porcelana numa prateleira, enquanto a outra fica com a parte vibrante da vida dele. Você é a sombra, Eduarda. Você é o que sobra quando ele está cansado daquela loira. Você merece um homem que ame só a você. Um homem que te coloque num altar e não te obrigue a disputar um espaço no sofá com uma mulher que te despreza.

— Mas eu o amo — sussurrou Eduarda, e Emanuel pôde imaginar as lágrimas começando a rolar por seu rosto pálido.

— O amor não deve ser uma humilhação constante — continuou a mãe, implacável. — Olhe para você. Está sempre manhosinha, sempre pedindo migalhas de atenção. Você está se apagando. Saia daqui, Eduarda. Procure alguém que te dê um lar de verdade, onde você não seja apenas a "namorada número dois". Esse Emanuel é um egoísta que gosta de ser servido por duas escravas emocionais.

Emanuel não conseguiu mais se conter. A fúria, acumulada por meses de mediação e estresse, explodiu em seu peito. Ele empurrou a porta com força, fazendo-a bater contra a parede. O estrondo fez Margarida dar um sobressalto e Eduarda soltar um pequeno grito de susto.

— Acho que a senhora já disse o suficiente, Dona Margarida — disse Emanuel, a voz baixa, mas vibrante de uma raiva controlada que era muito mais perigosa do que um grito.

Margarida levantou-se da cama, ajeitando o colar de pérolas com uma dignidade forçada. Ela encarou Emanuel de frente, sem recuar.

— Escutar atrás das portas é condizente com o tipo de caráter que eu imaginei que você tivesse, Emanuel.

— O que é condizente com o meu caráter é o fato de eu sustentar, proteger e amar a sua filha de uma forma que a senhora nunca tentou entender — rebateu ele, dando um passo para dentro do quarto. — A senhora entra na minha casa e tenta envenenar a cabeça da Eduarda contra o que construímos aqui?

— Construíram? — Margarida apontou para a filha, que agora chorava abertamente, encolhida em um canto. — Você construiu um harém moderno para satisfazer o seu ego. Você a transformou numa dependente, numa menina que não sabe mais quem é sem o seu aval.

— Eu a transformei na mulher que ela escolheu ser! — Emanuel exclamou, voltando-se para Eduarda. — Eduarda, você concorda com isso? Você acha que eu te humilho?

Eduarda olhou de um para o outro, os olhos grandes e úmidos refletindo um pânico absoluto. Ela odiava confrontos, e ter os dois pilares de sua vida — a mãe e o namorado — em rota de colisão era seu pior pesadelo.

— Eu... eu não sei... — ela gaguejou, buscando a mão de Emanuel.

— Veja! — Margarida interveio. — Ela tem medo de você, Emanuel. Você é um controlador. Ela não consegue nem ter uma opinião própria na sua frente.

Nesse momento, Sara apareceu na porta, atraída pela gritaria. Ela estava encostada no batente, os braços cruzados sobre os seios siliconados, um sorriso sarcástico brincando em seus lábios perfeitamente pintados de rosa.

— Ora, ora, se não é a reunião de família mais animada do ano — provocou Sara. — A sogrinha finalmente resolveu dizer as verdades que a "Dudinha" não tem coragem de admitir?

— Cale-se, Sara! — Emanuel ordenou, sem desviar os olhos de Margarida.

— Não me calo, não — Sara deu um passo para dentro, ignorando o clima pesado. — Na verdade, a velha tem razão em uma coisa, Manu. A Eduarda é uma coitada que vive de migalhas. Mas a diferença é que ela gosta disso. Ela usa essa carinha de santa para fazer você se sentir o vilão e, depois, o herói.

— Não fale assim dela! — Margarida voltou sua fúria para Sara. — Você é a influência mais nefasta nesta casa. Uma mulher sem pudor que corrompe qualquer noção de família.

Sara soltou uma gargalhada ruidosa, jogando o cabelo loiro para trás.

— Eu sou real, querida. Eu não finjo ser uma boneca de pano para ganhar carinho. Se o Emanuel me quer, é pelo que eu sou, não por pena. Já a sua filha... ela é uma parasita emocional.

— Chega! — o grito de Emanuel silenciou o quarto. — Dona Margarida, a senhora vai embora agora. Eu não vou permitir que ninguém, nem mesmo a mãe dela, venha aqui desrespeitar a forma como vivemos.

— Eu vou — disse Margarida, pegando sua bolsa com mãos trêmulas. — Mas eu vou esperando o dia em que minha filha vai acordar e perceber que está desperdiçando a juventude sendo metade de algo, quando poderia ser o todo de alguém.

Ela caminhou até Eduarda, beijou-lhe a testa com uma frieza melancólica e saiu do quarto sem olhar para trás. Emanuel ouviu a porta da frente bater, e o silêncio que se seguiu foi cortante.

Eduarda desabou em soluços profundos, cobrindo o rosto com as mãos. Emanuel sentiu uma mistura de raiva e uma proteção possessiva que beirava a obsessão. Ele caminhou até ela e a puxou para cima, forçando-a a olhar para ele.

— Você quer ir embora, Eduarda? — perguntou ele, a voz rouca. — Você quer procurar esse "homem que ame só a você" como sua mãe disse?

— Não, Manu... não... — ela soluçou, agarrando-se à camisa dele. — Eu quero você. Eu só não aguento mais as pessoas falando que eu sou errada... que eu sou menos...

— Você não é menos — Emanuel disse, apertando-a contra o peito, os olhos fixos em Sara, que observava a cena com uma expressão indecifrável. — Você é minha. E a Sara também é minha. Eu não aceito que ninguém questione isso.

Sara deu um passo à frente, a postura desafiadora.

— "Minha", Emanuel? Que possessivo. Você ficou realmente tocado com o que a velha disse, não foi? Atingiu o ponto fraco do grande mediador? A ideia de que a gente pode perceber que você é quem mais ganha nessa história?

Emanuel largou Eduarda e caminhou até Sara. Ele era mais alto, e a sombra de seu corpo a cobriu.

— Eu ganho? — ele perguntou, a voz baixa e perigosa. — Eu carrego o peso das crises de vocês duas. Eu trabalho para que nada falte a nenhuma das duas. Eu aguento as brigas, os ciúmes, as manipulações. E agora tenho que aguentar sogra dizendo que eu sou um egoísta?

— E você não é? — Sara desafiou, colocando a mão no peito dele. — Você adora ter duas mulheres aos seus pés. Adora ver a gente se matando por um beijo seu. Admita, Manu. O veneno da mãe dela te irritou porque é verdade. Você nos divide para nos conquistar.

Emanuel segurou o pulso de Sara, não com força para machucar, mas para mostrar que ele ainda tinha o controle.

— Eu não divido nada. Eu multiplico o que eu tenho para dar. Se vocês não estivessem satisfeitas, já teriam ido embora. Mas vocês continuam aqui. Por quê?

Sara hesitou por um segundo, o brilho de deboche em seus olhos vacilando diante da intensidade de Emanuel.

— Porque você é um vício, Emanuel — ela sussurrou. — Um vício maldito que a gente não consegue largar.

Eduarda, sentindo-se excluída daquela conexão tensa, aproximou-se e abraçou Emanuel por trás, escondendo o rosto em suas costas.

— Não deixa ela falar assim, Manu... — pediu Eduarda, a voz manhosinha voltando. — Eu te amo. Eu não me importo com o que minha mãe diz. Eu só quero que você me prometa que nunca vai me deixar.

Emanuel fechou os olhos, sentindo as duas mulheres. O calor de Sara à sua frente, o perfume forte e a atitude agressiva; e a suavidade de Eduarda atrás de si, o cheiro de baunilha e a dependência emocional. A fúria contra Margarida ainda queimava, mas era alimentada por aquela necessidade de posse.

— Eu não vou deixar nenhuma de vocês — Emanuel declarou, como um juramento sombrio. — Mas eu quero que fique claro: esta casa é o meu domínio. Eu não quero mais ouvir uma palavra sobre "procurar outro homem" ou sobre quem é mais ou menos importante. Vocês duas me pertencem da mesma forma.

Sara soltou um risinho, mas não se afastou.

— O rei deu o seu decreto — ironizou ela, embora tenha encostado o corpo no dele. — Mas e se a gente se cansar do trono, Manu? E se a "santinha" resolver seguir o conselho da mamãe?

Emanuel olhou para Eduarda, que o encarava com uma adoração quase infantil.

— Ela não vai — disse ele, com uma certeza absoluta que fez Eduarda estremecer de prazer e medo. — Ela sabe que lá fora ninguém vai cuidar dela como eu cuido. Ninguém vai entender o silêncio dela como eu entendo.

— E eu? — Sara perguntou, arqueando a sobrancelha.

— Você gosta do fogo, Sara. E lá fora, o mundo é frio e comum demais para você. Você precisa de alguém que saiba domar essa sua vulgaridade e transformá-la em algo que só eu posso ter.

A tensão sexual e emocional no quarto era sufocante. Emanuel sentia que tinha vencido a batalha contra Margarida, mas a guerra interna continuava. Ele puxou Sara pela nuca, forçando um beijo agressivo, enquanto a mão livre buscava a de Eduarda, trazendo-a para o círculo.

— Minhas — ele repetiu contra os lábios de Sara.

Eduarda aceitou o beijo que veio em seguida com uma entrega total, sentindo-se validada em sua dor. Para ela, a possessividade de Emanuel era a prova de amor que a mãe dizia que não existia. Se ele lutava por ela, se ele expulsava a própria sogra de casa para defendê-la, então ela era especial.

Sara, por outro lado, sentia a adrenalina do conflito. Ela odiava a mãe de Eduarda, mas adorava ver Emanuel perder a compostura racional. Para ela, o amor era uma disputa de poder, e naquele momento, Emanuel estava reafirmando sua coroa.

— Sua mãe nunca mais entra aqui, Eduarda — Emanuel disse, afastando-se o suficiente para olhar para as duas. — Se ela não consegue respeitar a minha vida, ela não tem lugar nela.

— Tudo bem, Manu... — Eduarda concordou, limpando as últimas lágrimas. — Eu só quero você.

— Ótimo — Emanuel disse, a voz voltando ao tom prático e frio, embora seus olhos ainda estivessem carregados. — Agora, eu vou voltar para o meu trabalho. Sara, pare de provocar a Eduarda por hoje. Eduarda, vá lavar o rosto e pare de chorar. Eu não quero mais drama nesta casa hoje.

Ele saiu do quarto, deixando as duas mulheres sozinhas. Sara olhou para Eduarda com um sorriso de canto.

— Viu só, Dudinha? O papai ficou bravo. Você quase conseguiu ser expulsa de casa pela própria mãe.

— Ele me defendeu, Sara — Eduarda disse, a voz agora mais firme, um brilho de triunfo em seu olhar sensível. — Ele escolheu a mim contra ela.

— Ele escolheu a propriedade dele, querida. Não se iluda — Sara rebateu, caminhando em direção à porta. — Mas aproveite o seu momento de "protegida". Amanhã é outro dia, e eu ainda tenho aquele bracelete de diamantes que brilha muito mais que as suas lágrimas.

Sara saiu rebolando, o som de seus saltos ecoando como um desafio constante. Eduarda ficou sozinha no quarto, olhando-se no espelho. Ela via a fragilidade que a mãe tanto criticava, mas também via o poder que essa fragilidade exercia sobre Emanuel. Ela tocou o local onde o pequeno coelhinho estava tatuado, sentindo-se marcada.

Na sala, Emanuel tentava ler um contrato, mas as palavras dançavam diante de seus olhos. Ele pensava em Margarida e no veneno que ela tentara injetar. "Um homem que ame só a você". A frase ecoava como uma maldição. Ele sabia que o que sentia não era o amor convencional que a sociedade pregava. Era algo mais primitivo, mais controlador, uma necessidade de ter o espectro completo da feminilidade sob seu teto: a doçura e a fúria, a paz e o caos.

Ele não era um egoísta, dizia a si mesmo. Ele era um provedor de um mundo que elas não encontrariam em nenhum outro lugar. E enquanto elas estivessem ali, disputando seu olhar e sua proteção, ele seria o senhor daquele pequeno e conturbado império. A mãe de Eduarda poderia ter razão sobre a moralidade da situação, mas ela não entendia nada sobre a força do vício que unia aqueles três.

Emanuel respirou fundo, fechou a pasta de documentos e olhou para o corredor. Ele sabia que, em poucos minutos, uma delas — ou ambas — apareceria para buscar seu perdão, seu toque ou sua atenção. E ele estaria pronto para dar, desde que as regras continuassem sendo as dele. Ouro Preto tinha ficado para trás, mas a inconfidência do desejo estava apenas começando a cobrar seu preço.