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Duas namoradas

O Intruso no Paraíso de Vidro

O silêncio no corredor do prédio era quebrado apenas pelo som metálico do elevador chegando ao décimo segundo andar. Emanuel saiu com a pasta de couro pesando em um dos braços, a mente ainda processando os números da última reunião. Ao virar a esquina em direção à sua porta, ele parou bruscamente.

Eduarda estava ali, equilibrando duas sacolas de papel cheias de mantimentos orgânicos, mas ela não estava sozinha. Um homem alto, de ombros largos e um sorriso que parecia ensaiado para capas de revista, segurava outras três sacolas para ela. Ele vestia um terno cinza sob medida, sem gravata, exalando uma autoconfiança que Emanuel reconheceu imediatamente como uma ameaça.

— É sério, Eduarda, você não deveria carregar tanto peso — dizia o homem, a voz um barítono suave que ecoava pelo corredor. — Uma mulher delicada como você merece ser mimada, não sobrecarregada.

Eduarda soltou uma risadinha tímida, aquele som cristalino e manhoso que Emanuel conhecia tão bem. Ela ajeitou uma mecha de cabelo atrás da orelha, o rosto levemente corado.

— Ah, Sr. Rodrigo, o senhor é muito gentil. Eu achei que conseguiria trazer tudo do carro de uma vez, mas me enganei.

— Rodrigo, por favor — corrigiu ele, aproximando-se um pouco mais do espaço pessoal dela. — Vizinhos não precisam de formalidades. Especialmente vizinhos tão encantadores.

Emanuel pigarreou, o som saindo mais seco e ríspido do que pretendia. Os dois se viraram. Eduarda abriu um sorriso de alívio, enquanto Rodrigo manteve o sorriso predatório, apenas ajustando-o para uma cordialidade polida.

— Emanuel! Você chegou cedo — disse Eduarda, aproximando-se para um beijo rápido no rosto dele.

— Cheguei na hora certa, pelo visto — respondeu Emanuel, os olhos fixos no vizinho. — Quem é o cavalheiro?

— Rodrigo, o novo morador da 1204 — o homem estendeu a mão livre, a que não segurava as sacolas. — Vi sua esposa... perdão, sua namorada, sofrendo com as compras e não pude ignorar.

— Obrigado pela ajuda, Rodrigo. Eu assumo daqui — disse Emanuel, pegando as sacolas das mãos dele com uma firmeza que beirava a hostilidade.

— Sem problemas. Foi um prazer, Eduarda. Espero que as flores que enviei ontem tenham chegado bem. Lavandas combinam com a sua aura.

Emanuel sentiu um nó no estômago. Flores? Lavandas? Ele olhou para Eduarda, que apenas desviou o olhar, subitamente interessada na fechadura da porta. Rodrigo deu um aceno casual e seguiu pelo corredor, o som de seus sapatos caros ecoando como um desafio.

Assim que entraram no apartamento, Emanuel largou as sacolas na bancada da cozinha com força excessiva.

— Flores, Eduarda? Desde quando vizinhos mandam flores para mulheres comprometidas?

Eduarda começou a tirar as frutas das sacolas, seus movimentos lentos e deliberadamente sensíveis.

— Ele foi apenas educado, Emanuel. Ele se mudou semana passada e eu o ajudei a identificar qual era o dia da coleta de lixo reciclável. Ele mandou um cartão de agradecimento com um arranjo. Não é nada de mais.

— Nada de mais? O cara estava praticamente te devorando com os olhos no corredor — Emanuel cruzou os braços, a irritação subindo de nível. — E você, dando risadinha?

— Você está sendo injusto — murmurou ela, os olhos começando a brilhar com as lágrimas que ela sempre tinha de reserva. — Eu me sinto tão sozinha nesta casa ultimamente. Você está sempre trabalhando ou... ou discutindo com a Sara. O Rodrigo foi apenas gentil. Ele me nota, Emanuel. Ele diz coisas bonitas.

— Ele é um estranho, Duda! — Emanuel deu um passo à frente, mas foi interrompido pelo som da porta do quarto se abrindo.

Sara apareceu, usando um conjunto de ginástica que consistia em pouco mais do que tiras de lycra neon. Ela segurava uma garrafa de água e tinha uma expressão de puro deboche no rosto loiro.

— Ah, o drama do vizinho novo! — Sara soltou uma risada ruidosa, caminhando até a geladeira. — Eu vi o tal Rodrigo hoje de manhã. O cara é um gato, Emanuel. E ele tem um bom gosto incrível para flores, devo admitir. Aquelas lavandas no vaso da sala estão deixando o apartamento com cheiro de gente rica, finalmente.

— Você também, Sara? — Emanuel bufou.

— O quê? Eu sou realista. O cara está cercando o território — Sara deu um gole na água, encostando-se na bancada e olhando para Eduarda com desprezo. — Mas a sonsa ali está adorando, não está, Duda? Finalmente alguém que cai nesse seu papo de "sou uma florzinha que precisa de rega".

— Eu não estou fazendo nada! — Eduarda soluçou, cobrindo o rosto com as mãos. — Ele é apenas um homem educado. Coisa que falta muito nesta casa!

— Educado? — Sara riu de novo. — Ele quer te levar para a cama, querida. E do jeito que você é carente, vai acabar caindo no papo dele só para fazer ciúmes no Emanuel.

— Chega, Sara! — Emanuel gritou, a paciência esgotada. — Eu não quero saber do vizinho, não quero saber de flores e não quero saber de brigas hoje!

O jantar foi uma tortura de silêncios e olhares cortantes. Eduarda mal tocou na comida, mantendo-se encolhida na cadeira, a imagem da mágoa silenciosa. Sara, por outro lado, parecia energizada pela tensão, provocando Emanuel com toques por debaixo da mesa enquanto lançava farpas verbais contra Eduarda.

No dia seguinte, as coisas escalaram. Emanuel estava no meio de uma videoconferência importante quando o interfone tocou. Ele ignorou, mas o som persistente o obrigou a atender.

— Sim? — atendeu ele, ríspido.

— Sr. Emanuel? Aqui é da portaria. Tem um entregador aqui com um pacote para a Srta. Eduarda. É um kit de café da manhã gourmet. O remetente é o Sr. Rodrigo da 1204.

Emanuel sentiu o sangue latejar nas têmporas.

— Não aceite. Mande devolver — disse ele, desligando o aparelho.

Ele saiu do escritório e encontrou Eduarda na sala, lendo um livro perto da varanda.

— O seu "vizinho educado" acabou de tentar mandar um café da manhã para cá — disse ele, a voz fria. — Eu mandei devolver.

Eduarda levantou-se, o livro caindo no chão.

— Por que você fez isso? — a voz dela subiu, perdendo a suavidade. — Ele disse que queria se desculpar se o encontro no corredor ontem causou algum mal-estar. Era um gesto de paz!

— Gesto de paz o cacete, Eduarda! O cara está te assediando dentro da minha própria casa!

— Talvez ele só veja o que você não vê mais! — gritou ela, as lágrimas agora rolando livremente. — Ele me mandou uma mensagem hoje cedo perguntando se eu queria ir à exposição de arte no centro. Ele disse que eu pareço o tipo de mulher que aprecia as coisas finas da vida.

Emanuel parou.

— Ele tem o seu número? Como ele conseguiu o seu número?

Eduarda hesitou, o que foi a resposta de que ele precisava.

— Eu... eu dei na semana passada. Para caso houvesse algum problema com o condomínio...

— Você deu o seu número para um estranho que mora no mesmo andar? — Emanuel estava incrédulo.

— E por que não daria? — Sara interveio, saindo do banheiro enrolada em uma toalha, o cabelo loiro pingando no tapete. — Se o dono da casa não dá atenção, a vizinhança agradece. Eu se fosse você, Duda, aceitava o convite da exposição. O Rodrigo dirige um conversível, sabia? Vi ele saindo da garagem. Combina muito mais com você do que esse clima de velório que o Emanuel carrega.

— Você está incentivando isso, Sara? — Emanuel virou-se para a loira, os olhos faiscando. — Você quer que ela saia com outro cara?

— Eu quero é ver o circo pegar fogo, Emanuel! — Sara sorriu, uma expressão predatória. — Quem sabe assim você para de ser tão certinho e acorda para o que tem em casa. Ou talvez você prefira que eu vá à exposição com ele? Garanto que eu saberia apreciar o conversível muito melhor que a santinha.

— Você não vai a lugar nenhum com ele! — Eduarda gritou para Sara. — Ele me convidou! Ele gosta da minha companhia!

Emanuel sentiu que estava perdendo o controle de tudo. Suas duas namoradas estavam agora brigando não por ele, mas pela atenção de um terceiro elemento que havia se infiltrado na dinâmica tóxica deles.

— Ninguém vai sair com ninguém! — Emanuel sentenciou. — Eu vou falar com esse Rodrigo agora mesmo.

— Não! — Eduarda correu até ele, agarrando seu braço. — Você vai passar vergonha, Emanuel! Vai parecer um louco ciumento!

— E eu sou o quê, Eduarda? Um espectador? — Ele a afastou bruscamente.

Ele saiu do apartamento e caminhou os poucos metros até a porta 1204. Ele não bateu; ele esmurrou a madeira.

A porta se abriu segundos depois. Rodrigo apareceu impecável, como se estivesse esperando por visitas. Ele olhou para Emanuel com uma calma irritante.

— Algum problema, vizinho?

— Fique longe da minha mulher — disse Emanuel, a voz baixa e perigosa. — Pare de mandar flores, pare de mandar comida e apague o número dela. Estou sendo claro?

Rodrigo soltou uma risada curta, encostando-se no batente da porta.

— "Sua" mulher? — Rodrigo arqueou uma sobrancelha. — Engraçado, eu vejo duas mulheres naquele apartamento. E nenhuma delas parece particularmente feliz ou satisfeita. Eu só estou oferecendo o que falta a elas. Especialmente à Eduarda. Ela é uma joia, Emanuel. Mas joias precisam de luz para brilhar, não de sombras e estresse.

Emanuel avançou, segurando Rodrigo pelo colarinho da camisa cara.

— Se você chegar perto dela de novo, eu acabo com você.

— Você vai me bater? — Rodrigo não se moveu, o sorriso ainda no lugar. — Na frente das câmeras do corredor? Vá em frente. Mas isso só vai provar para a Eduarda que você é exatamente o que ela teme: um homem bruto que não sabe lidar com sentimentos.

Emanuel soltou o colarinho, sentindo o nojo subir pela garganta. Ele percebeu que Rodrigo estava jogando um jogo em que ele, Emanuel, não sabia as regras. Era o jogo da sedução, da imagem, da manipulação sutil. O mesmo jogo que Eduarda jogava, mas com uma roupagem masculina e agressiva.

Ele voltou para o apartamento, batendo a porta. Eduarda e Sara estavam na sala, em um silêncio tenso.

— Satisfeito? — perguntou Eduarda, a voz fria. — Você foi lá fazer um escândalo. Ele acabou de me mandar uma mensagem dizendo que sente muito por eu ter que lidar com um homem tão instável.

— Ele mandou uma mensagem agora? — Emanuel estendeu a mão. — Me dá esse celular.

— Não! É meu! — Eduarda recuou.

— Me dá o celular, Eduarda!

— Deixa ela, Emanuel! — Sara entrou no meio, empurrando o peito dele. — Você está agindo como um animal! Se ela quer falar com o vizinho, o problema é dela! Você não é dono de ninguém!

— Eu sustento esta casa! Eu protejo vocês! — Emanuel gritou, a veia da testa quase saltando.

— Você nos sufoca! — retrucou Sara. — Você quer que a gente fique aqui, trancadas, esperando você decidir qual das duas quer comer na noite, enquanto você se afoga em trabalho! O Rodrigo é um sopro de vida nesta droga de lugar!

Emanuel olhou para as duas. Eduarda, chorando e escondendo o celular contra o peito. Sara, desafiadora, defendendo o direito de serem cortejadas por outro. Ele se sentiu um estranho em seu próprio lar.

— Querem saber? — Emanuel disse, a voz subitamente calma, aquela calma que precede a destruição. — Se o Rodrigo é tão maravilhoso, se ele é o "sopro de vida", fiquem com ele.

Ele caminhou até o quarto, pegou uma mala pequena e começou a jogar algumas roupas dentro.

— O que você está fazendo? — Eduarda correu atrás dele, o pânico substituindo a mágoa. — Emanuel, não! Era só uma brincadeira, eu não ia sair com ele!

— Brincadeira? Você deu o seu número, você aceitou flores, você alimentou o ego de um cara que me desrespeitou na minha cara! — Emanuel fechou o zíper da mala.

— Emanuel, para com isso! — Sara apareceu na porta, a pose de deboche desaparecendo. — Você não vai embora por causa de um vizinho idiota.

— Eu não vou embora por causa dele. Eu vou embora por causa de vocês — disse ele, encarando as duas. — Eu tentei equilibrar o impossível. Tentei dar a você, Eduarda, a proteção que você tanto chora para ter. E tentei dar a você, Sara, a intensidade que você exige. Mas a verdade é que nenhuma de vocês me respeita. Vocês usam qualquer um, até um vizinho oportunista, para me atingir.

Ele caminhou em direção à porta da sala.

— Emanuel, por favor! — Eduarda agarrou sua perna, caindo de joelhos, voltando ao seu papel de vítima desesperada. — Eu te amo! Eu só queria que você sentisse ciúmes, que você mostrasse que se importa!

— Você conseguiu, Eduarda — disse ele, olhando para baixo. — Eu senti. E o que eu senti me deu nojo.

Ele se soltou e abriu a porta. Rodrigo estava parado no corredor, fumando um charuto eletrônico, observando a cena com um divertimento indisfarçável.

— Indo viajar, Emanuel? — perguntou Rodrigo.

Emanuel não respondeu. Ele apenas caminhou até o elevador.

— Emanuel! — Sara gritou da porta. — Se você sair por essa porta, não volta mais!

— Essa é a ideia, Sara — respondeu ele, enquanto as portas do elevador se fechavam.

Lá dentro, o silêncio finalmente o envolveu. Mas não era a paz que ele esperava. Era um vazio pesado. Ele sabia que, assim que ele saísse do prédio, Rodrigo entraria. Ele sabia que Eduarda usaria suas lágrimas para seduzir o novo vizinho, e que Sara usaria sua agressividade para competir por ele. O ciclo continuaria, apenas com um novo mestre de cerimônias.

Emanuel saiu para a rua, o ar frio da noite batendo em seu rosto. Ele olhou para cima, para as luzes do décimo segundo andar. Ele tinha perdido a batalha pelo seu território, mas, pela primeira vez em anos, ele conseguia respirar sem o cheiro sufocante de lavanda ou o peso opressor do perfume doce de Sara.

Ele caminhou até o seu carro, sabendo que a guerra no apartamento 1201 estava apenas começando, e que desta vez, ele não estaria lá para recolher os estilhaços de vidro. O intruso não era Rodrigo; o intruso, ele percebeu, era qualquer resquício de sanidade que ele ainda tentava manter naquele paraíso de aparências.