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Duas namoradas

O Eco de um Choro Pequeno

O sol de sábado entrava pelas frestas da persiana da sala, iluminando as partículas de poeira que dançavam no ar. O apartamento, geralmente um campo de batalha de perfumes caros e palavras afiadas, exalava um cheiro inusitado: talco, leite morno e pomada de assadura. No centro do tapete felpudo, Eduarda estava sentada com as pernas cruzadas, os olhos brilhando com uma ternura que Emanuel raramente via de forma tão pura. Em seu colo, o pequeno Léo, um bebê de apenas oito meses, agarrava-se à gola de seu vestido leve enquanto tentava, sem muito sucesso, enfiar o próprio pé na boca.

— Veja, Emanuel! — exclamou Eduarda, a voz saindo em um tom agudo e melodioso, quase um arrulho. — Ele conseguiu pegar o chocalho sozinho. Ele é tão inteligente, não é?

Emanuel, que estava parado no portal da cozinha com uma caneca de café esquecida na mão, não respondeu de imediato. Ele estava hipnotizado. Ver Eduarda naquela posição, com os cabelos levemente bagunçados e uma expressão de paz absoluta, despertava nele algo que sua lógica pragmática sempre tentara suprimir. Ele não via apenas o filho de uma amiga de Eduarda; ele via um rascunho do que poderia ser o futuro deles.

— É... ele é um garotinho esperto — murmurou Emanuel, aproximando-se com cautela, como se temesse que qualquer movimento brusco pudesse quebrar o encanto daquela cena doméstica.

Ele se agachou ao lado de Eduarda. O bebê parou o que estava fazendo e fixou os olhos grandes e curiosos no rosto de Emanuel. Houve um segundo de avaliação mútua antes de Léo soltar um riso banguela e esticar os braços gordinhos em direção ao queixo de Emanuel.

— Acho que ele gostou de você — disse Eduarda, encostando a cabeça no ombro de Emanuel. — Ele sente que você é um homem bom, um protetor.

Emanuel sentiu um aperto estranho no peito. Ele imaginou, por um breve momento, como seria se aquele apartamento não fosse o palco de disputas de ego, mas sim um lar preenchido por brinquedos e pelo som de passos pequenos. Eduarda, com sua doçura inerente e sua necessidade de cuidar, parecia ter nascido para aquilo. Ela não era mais a mulher insegura que buscava proteção; ela era a fonte da proteção.

— Você leva jeito para isso, Duda — disse ele, passando o dedo indicador pela palma da mão pequena do bebê, que imediatamente a fechou com força. — Ficou bem em você. Esse... esse papel.

Eduarda sorriu, um sorriso que não carregava nenhuma das segundas intenções habituais. Era genuíno.

— Eu adoro bebês, Emanuel. Eles são tão puros. Eles não fingem, não gritam para machucar... eles só precisam de amor.

O momento de idílio, porém, foi estilhaçado pelo som estridente de um salto agulha batendo contra o piso de porcelanato do corredor. A porta do quarto principal se abriu e Sara surgiu, parecendo uma visão saída de um editorial de moda de Milão. Ela usava um vestido de seda vermelho, curto e justo, e terminava de colocar um par de brincos de ouro que balançavam agressivamente a cada movimento de sua cabeça.

— Mas o que é esse cheiro de azedo? — perguntou Sara, parando no meio da sala e franzindo o nariz com um nojo indisfarçável. — Emanuel, eu espero que você não tenha deixado leite fora da geladeira.

— É o Léo, Sara — explicou Eduarda, sem desviar os olhos do bebê. — Ele acabou de mamar. É um cheiro natural de criança.

Sara olhou para o tapete como se houvesse um alienígena sentado ali. Ela se aproximou, mantendo uma distância de segurança de pelo menos dois metros, como se a "infantilidade" fosse uma doença contagiosa que pudesse estragar sua maquiagem impecável.

— Natural? — Sara soltou uma risada ruidosa e seca. — É repulsivo. E esse barulho de plástico batendo? Emanuel, eu tive uma enxaqueca horrível a noite toda e agora tenho que aguentar esse projeto de gente babando no meu tapete de designer?

— É só por este final de semana, Sara — Emanuel disse, levantando-se e tentando manter a voz calma. — A amiga da Eduarda teve uma emergência. Não custa nada ajudarmos.

— "Ajudarmos"? — Sara arqueou uma sobrancelha perfeitamente desenhada. — Eu não assinei nenhum contrato de babá, querido. Eu tenho uma reserva no spa para as duas da tarde e pretendo passar o resto do dia em paz, não ouvindo choros e trocando fraldas cheias de... seja lá o que sai de dentro disso.

Nesse exato momento, como se tivesse entendido o insulto, Léo soltou o chocalho e começou a choramingar. O choro subiu de volume rapidamente, tornando-se um grito agudo que ecoou pelas paredes minimalistas do apartamento.

— Viu só! — gritou Sara, cobrindo os ouvidos com as mãos manicuradas. — Começou a sirene! Eduarda, faça essa coisa parar agora! É insuportável!

Eduarda pegou o bebê no colo, começando a balançá-lo suavemente.

— Ele só está assustado com o seu tom de voz, Sara! Você entrou aqui gritando, ele sente a sua energia negativa.

— Minha energia? — Sara deu um passo à frente, os olhos faiscando. — A minha energia é de uma mulher que paga caro para viver em um lugar sofisticado, não em uma creche de subúrbio! Emanuel, faça alguma coisa!

Emanuel olhou de uma para a outra. De um lado, Eduarda, com o bebê aninhado em seu peito, sussurrando palavras de conforto, parecendo uma madona moderna. Do outro, Sara, a personificação da impaciência e da vaidade, cujo único instinto "materno" parecia ser o de proteger seus próprios interesses e sua estética.

— Sara, acalme-se — disse Emanuel, sentindo a tensão costumeira voltar a habitar seus ombros. — É um bebê. Ele não está fazendo por mal.

— Ele é um parasita de atenção, igual à quem está segurando ele! — retrucou Sara, apontando para Eduarda. — Ela aceitou cuidar dessa criança só para ficar fazendo essa ceninha de "mãe de família" para você, Emanuel. Não seja idiota, ela está te manipulando de novo!

— Isso não é verdade! — Eduarda exclamou, as lágrimas começando a surgir, misturando-se à agitação do bebê. — Eu só queria ajudar uma amiga!

— Você queria era mostrar para o Emanuel que é a "escolha certa" porque sabe trocar uma fralda — Sara desdenhou, caminhando até o bar e servindo-se de um copo de água com gelo, as mãos tremendo de irritação. — Pois saiba que isso é patético. Ninguém quer uma vida cheia de catarro e noites sem dormir.

Emanuel aproximou-se de Eduarda e, para a surpresa de ambas, pegou Léo no colo. O bebê, sentindo a firmeza dos braços masculinos, diminuiu o choro para um soluço intermitente, agarrando-se à camiseta de Emanuel.

— Eu não acho patético, Sara — disse Emanuel, a voz baixa e firme. — Na verdade, é revigorante ver algo real nesta casa, que não seja uma disputa por quem tem o melhor sapato ou quem faz o melhor drama.

Sara quase engasgou com a água. O rosto dela ficou vermelho sob a base de alta cobertura.

— Você está defendendo... isso? — Ela apontou para o bebê. — Emanuel, você odeia bagunça! Você odeia barulho!

— Eu odeio o barulho de discussões inúteis — corrigiu ele, olhando para o pequeno Léo, que agora tentava morder o botão de sua camisa. — Isso aqui... isso é vida. É futuro.

Eduarda olhou para Emanuel com uma adoração renovada. Naquele momento, ela sentiu que tinha vencido uma batalha silenciosa. Ela se levantou e parou ao lado dele, as mãos unidas, observando o homem que ela amava segurar uma criança com uma ternura que ela sempre sonhara em ver.

— Você seria um pai maravilhoso, Emanuel — sussurrou Eduarda, alto o suficiente para que Sara ouvisse.

Sara soltou um som de puro escárnio, batendo o copo na bancada.

— Pai? Emanuel? — Ela riu, mas havia uma nota de insegurança em sua voz. — Ele mal consegue lidar com vocês duas sem querer fugir para o escritório. Imagine um moleque chorando 24 horas por dia. Ele ia pedir o divórcio da vida em uma semana.

— Talvez — disse Emanuel, sem desviar os olhos do bebê. — Ou talvez eu finalmente tivesse um motivo para querer voltar para casa mais cedo.

O impacto daquelas palavras atingiu Sara como um tapa físico. Ela sempre se orgulhara de ser a mulher que trazia a excitação, o sexo, o desafio. A ideia de que Emanuel pudesse desejar a calmaria doméstica de Eduarda — e, pior, que pudesse desejar um filho com ela — era um golpe em sua autoconfiança de aço.

— Quer saber? — Sara pegou sua bolsa de grife no sofá. — Fiquem aí brincando de "casinha". Eu vou sair. Esse cheiro de talco está me dando náuseas e eu não vou ficar aqui assistindo a esse teatro de mau gosto.

Ela caminhou em direção à porta, os saltos estalando como tiros no silêncio que se seguiu.

— Sara? — Emanuel chamou.

Ela parou, de costas, os ombros tensos.

— O quê?

— Traga um pacote de fraldas tamanho G quando voltar. As que a amiga da Duda deixou estão acabando.

Sara não respondeu. Ela apenas saiu, batendo a porta com tanta força que um dos quadros na parede da sala ficou torto.

O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som da respiração pesada de Léo, que finalmente havia adormecido no ombro de Emanuel. Eduarda aproximou-se e, com uma delicadeza infinita, ajeitou a cabecinha do bebê.

— Ela nos odeia agora, não é? — perguntou Eduarda, a voz carregada de uma falsa preocupação que escondia um brilho de triunfo.

— Ela só não sabe lidar com o que não pode controlar — respondeu Emanuel, sentindo o peso morno e reconfortante da criança. — E ela não pode controlar isso.

Ele caminhou até o sofá e sentou-se, mantendo Léo em seu colo. Eduarda sentou-se ao lado dele, encostando a cabeça em seu ombro, observando o peito do bebê subir e descer.

— Você realmente pensou nisso? — perguntou ela. — Sobre ter um filho nosso?

Emanuel demorou a responder. Ele olhou para a sala luxuosa, para os móveis caros e para a vida que ele havia construído sobre um equilíbrio precário entre duas mulheres opostas. Por um segundo, a imagem de um filho com os olhos sensíveis de Eduarda e a sua própria determinação pareceu a única coisa que fazia sentido em meio ao caos.

— Eu pensei que... — ele começou, a voz rouca — ... que talvez a gente precise de algo que nos una de verdade. Algo que não seja baseado em brigas ou em quem ganha a próxima discussão.

Eduarda sorriu, fechando os olhos. Ela sabia que aquele final de semana cuidando do bebê era apenas o começo. Ela usaria cada minuto daquela experiência para plantar a semente da família na mente de Emanuel, para torná-la a única escolha lógica, a escolha "doce".

Enquanto isso, no spa do outro lado da cidade, Sara olhava para o seu reflexo no espelho da sauna. Ela era linda, poderosa e livre. Mas, pela primeira vez, a liberdade parecia vazia. Ela imaginou Emanuel e Eduarda juntos, cuidando daquela criança, e sentiu uma pontada de algo que ela se recusava a chamar de ciúme. Era medo. Medo de que a doçura de Eduarda, que ela sempre considerou uma fraqueza, acabasse sendo a arma definitiva para tirá-la da vida de Emanuel.

— Uma fralda — resmungou Sara para si mesma, ajeitando a toalha de banho. — Ele quer que eu compre uma maldita fralda.

Ela fechou os olhos, mas a imagem do riso banguela do bebê e do olhar fascinado de Emanuel não saía de sua mente.

De volta ao apartamento, a tarde passava lenta e silenciosa. Léo acordou uma hora depois, e Emanuel, para sua própria surpresa, ajudou Eduarda a dar o banho. Ele segurou o corpo escorregadio do bebê na banheira de plástico enquanto Eduarda passava o sabonete neutro. Houve risos, respingos de água no chão de mármore e uma cumplicidade que nunca havia existido entre eles antes.

— Viu? — disse Eduarda, secando o bebê com uma toalha felpuda. — Nós formamos uma boa equipe.

— É — concordou Emanuel, limpando o rosto molhado. — Nós formamos.

Naquela noite, quando Sara voltou, ela trazia o pacote de fraldas debaixo do braço, jogando-o na mesa como se fosse um insulto. Ela encontrou os dois jantando pizza na sala, com Léo sentado em um cadeirão improvisado, tentando esmagar um pedaço de crosta de pão.

— Aqui está a sua encomenda — disse Sara, a voz carregada de sarcasmo, mas sem a agressividade de antes. — Agora, por favor, me digam que essa coisa vai embora amanhã cedo.

— Amanhã à tarde, Sara — respondeu Eduarda, com um sorriso calmo. — Quer um pedaço de pizza?

Sara olhou para a cena. Emanuel tinha um rastro de molho de tomate na bochecha e Eduarda parecia mais radiante do que nunca. O bebê soltou um grito de alegria ao ver Sara, esticando as mãos sujas de pão em direção a ela.

— Nem pensar — disse Sara, recuando. — Eu vou para o banho. E se eu ouvir um choro durante a noite, eu juro que coloco todos vocês para dormir no corredor.

Ela saiu, mas não bateu a porta desta vez.

Emanuel olhou para Eduarda e depois para o pequeno Léo. Ele sabia que a paz era temporária. Sabia que a presença de Sara e seu desprezo pela vida doméstica eram o contraponto necessário para que ele não se perdesse na doçura sufocante de Eduarda. Mas, enquanto limpava a mão do bebê, ele não pôde deixar de pensar que, talvez, o apartamento estivesse pequeno demais para as ambições que começavam a crescer em seu peito.

A experiência com o bebê fora leve, quase idílica, mas deixara uma cicatriz de desejo em Emanuel e uma ferida de insegurança em Sara. Eduarda, por sua vez, apenas observava, cuidando do bebê com a mesma paciência com que cuidava de sua teia emocional. O final de semana estava acabando, mas o eco daquele choro pequeno e daquela risada banguela ecoaria por muito tempo nas decisões que Emanuel teria que tomar em breve.