Duas namoradas
O Voo das Borboletas de Vidro
A manhã de terça-feira no apartamento de Emanuel começou com um brilho diferente no olhar de Eduarda. Ela se movimentava pela cozinha com uma leveza quase etérea, cantarolando uma melodia suave enquanto preparava o café. O motivo de tanta animação estava guardado em uma conversa de grupo no seu celular: suas três melhores amigas de infância estavam planejando uma viagem de cinco dias para uma pousada boutique no interior, um refúgio de águas termais, massagens e, acima de tudo, silêncio.
Desde o episódio com o bebê Léo, Eduarda sentia que sua posição na casa estava fortalecida, mas o desgaste emocional de mediar os conflitos entre Emanuel e Sara a deixara exausta. Ela precisava daquele respiro.
Emanuel entrou na cozinha, ainda abotoando os punhos da camisa social, o semblante carregado com a seriedade habitual de quem já está mentalmente na primeira reunião do dia.
— Bom dia, meu amor! — Eduarda se aproximou, envolvendo a cintura dele com os braços e depositando um beijo carinhoso em seu queixo. — Dormiu bem?
— Na medida do possível, Duda — respondeu ele, aceitando o carinho, mas já esticando a mão para a garrafa térmica. — Tenho uma auditoria hoje. O dia vai ser longo.
Eduarda respirou fundo, sentindo as borboletas de ansiedade no estômago.
— Emanuel, as meninas... a Bia, a Tati e a Mari... elas me convidaram para uma viagem. É só um final de semana prolongado, em uma pousada linda. Elas querem que eu vá com elas no mês que vem.
Emanuel parou com a xícara a meio caminho da boca. Ele lentamente a colocou sobre a bancada e virou-se para ela, os olhos estreitados em uma expressão de dúvida.
— Viagem? Para onde exatamente?
— É um resort de bem-estar, perto das montanhas. Coisa simples, Emanuel. Só para conversarmos, descansarmos... eu estou precisando tanto de um tempo para mim, longe de toda essa tensão aqui do apartamento.
Emanuel cruzou os braços, a postura tornando-se subitamente rígida.
— Cinco dias sozinha com elas, Eduarda? Você sabe como as coisas ficam aqui quando você não está. A Sara perde o controle, a casa vira um caos. Além disso, não acho seguro você viajar por aí sem mim. O mundo não é esse jardim de flores que você imagina.
A animação de Eduarda começou a murchar.
— Mas eu não sou uma criança, Emanuel. Eu estarei com elas, o lugar é super seguro. Eu só queria me sentir um pouco independente, sabe? Ter algo meu, fora desta bolha.
— Independência é uma palavra perigosa, Duda — disse ele, a voz baixando para aquele tom paternalista que ele usava quando queria encerrar um assunto. — Eu cuido de você para que você não precise se preocupar com essas coisas. Prefiro que você fique. Se quiser viajar, esperamos as minhas férias e eu te levo para algum lugar melhor.
— Mas não é a mesma coisa! — Eduarda insistiu, a voz começando a tremer. — Eu quero ir com as minhas amigas.
— A resposta é não, Eduarda. Não agora. É melhor para todos nós.
Antes que ela pudesse retrucar, o som de saltos altos anunciou a chegada de Sara. Ela entrou na cozinha usando um roupão de seda preta, o cabelo loiro propositalmente bagunçado, exalando uma aura de quem acabara de acordar mas já estava pronta para o combate.
— Mas que clima pesado é esse logo cedo? — Sara perguntou, abrindo a geladeira e pegando uma garrafa de água alcalina. — Dá para ouvir as vibrações negativas da porta do quarto.
— Emanuel não quer que eu viaje com as minhas amigas — disse Eduarda, buscando em Sara, por um milagre, algum tipo de apoio feminino, mesmo sabendo que era improvável.
— Ah, a viagem das "Luluzinhas"? — Sara riu, encostando-se na pia. — Eu vi as fotos daquela pousada. É um tédio total. Mas, sinceramente, Emanuel, você é um dinossauro. Deixa a menina ir. Assim eu tenho o apartamento só para mim por uns dias.
— Não é da sua conta, Sara — Emanuel cortou, seco. — E não é sobre "deixar". É sobre o que é sensato.
O interfone tocou, interrompendo a discussão. Emanuel atendeu, e sua expressão mudou de irritação para uma surpresa desconfortável.
— Minha mãe? Aqui embaixo? — Ele olhou para o relógio. — Ela não disse que viria hoje. Mande subir.
Dona Irene era a única pessoa que conseguia deixar Emanuel genuinamente nervoso. Uma mulher de princípios tradicionais, olhar observador e uma língua que não conhecia filtros. Ela sabia da situação "peculiar" do filho — viver com duas namoradas — e, embora não aprovasse abertamente, tolerava por causa do amor cego que tinha pelo "seu menino".
Cinco minutos depois, Irene entrou no apartamento. Era uma senhora elegante, de cabelos grisalhos perfeitamente alinhados e um perfume de rosas que parecia dominar o ambiente.
— Emanuel, meu filho! — Ela o abraçou, dando tapinhas em suas costas. — Estava passando por perto e resolvi ver se vocês ainda estavam vivos no meio dessa confusão que você chama de vida amorosa.
— Oi, mãe. É bom te ver — disse Emanuel, tentando forçar um sorriso.
Irene cumprimentou Eduarda com um beijo casto na bochecha e apenas acenou para Sara, que respondeu com um sorriso irônico e um "Bom dia, sogrinha", que fez os olhos da senhora faiscarem.
— Sentem-se, por favor. Eu trouxe um bolo de laranja — disse Irene, instalando-se na mesa da sala.
O café seguiu com Irene comentando sobre a família e a saúde, mas seus olhos não perdiam um detalhe. Ela notou o rosto inchado de Eduarda e a tensão nos ombros de Emanuel.
— O que houve, Eduarda? Você parece que perdeu o brilho hoje — comentou Irene, enquanto servia uma fatia de bolo.
Eduarda olhou para Emanuel, esperando que ele respondesse, mas foi Sara quem tomou a palavra, com a voz carregada de veneno e diversão.
— Ah, Dona Irene, é o seu filho sendo o "coronel" de sempre. A Eduarda quer fazer uma viagem de descanso com as amigas dela, e o Emanuel proibiu. Acredita? Em pleno século vinte e um!
Emanuel fechou os olhos por um segundo, amaldiçoando a língua de Sara.
— Eu não proibi, Sara. Eu apenas disse que não é o momento ideal — corrigiu ele, tentando manter a compostura diante da mãe.
Irene pousou o garfo no prato com um som seco. Ela olhou para o filho de um jeito que o fez se sentir com dez anos de idade novamente.
— Emanuel Silva... você fez o quê?
— Mãe, você não entende a dinâmica...
— Eu entendo muito bem — interrompeu Irene, a voz firme. — Eu criei você para ser um homem, não um carcereiro. Eduarda é uma moça dedicada, carinhosa e, pelo que vejo, aguenta muito mais do que deveria morando sob o mesmo teto que essa... — ela olhou para Sara — ... que essa situação toda.
— Ei! — Sara exclamou, mas Irene a ignorou completamente.
— Se a menina quer viajar com as amigas, por que ela não pode ir, Emanuel? Você tem medo de quê? De que ela perceba que o mundo é maior que este apartamento? Ou que você não consegue dar conta da Sara sozinho?
Eduarda sentiu uma onda de gratidão por Dona Irene. Ela nunca imaginou que a sogra, tão tradicional, sairia em sua defesa.
— Não é isso, mãe — Emanuel tentou se defender, sentindo o suor frio na nuca. — Eu só me preocupo com a segurança dela.
— Segurança? — Irene riu, uma risada curta e sem humor. — Ela vive com você e com a Sara, Emanuel. Ela já sobreviveu ao ambiente mais perigoso que eu conheço. Deixe a menina ir. Ela precisa de ar. Você está sufocando a doçura dela, e se continuar assim, quando você acordar, não vai sobrar nada para você proteger.
Emanuel olhou para Eduarda. Ela estava com os olhos fixos nele, uma mistura de esperança e tristeza. Depois, olhou para Sara, que assistia a tudo com um prazer sádico, e finalmente para sua mãe, que o encarava com uma autoridade inquestionável.
— Viu só, querido? — Sara provocou, levantando-se para pegar mais café. — Até a sua mãe acha que você está sendo um chato.
— Cale a boca, Sara — disse Emanuel, mas sem a agressividade de antes. Ele estava sendo encurralado.
Ele suspirou, passando a mão pelo rosto. A pressão de Dona Irene era o elemento que ele não conseguia controlar com lógica ou autoridade.
— Tudo bem — disse ele, por fim. — Se é tão importante assim para você, Eduarda... você pode ir.
Eduarda deu um pulinho na cadeira, as mãos indo à boca.
— Sério? Você deixa mesmo?
— Deixo — disse ele, embora a palavra parecesse amarga em sua boca. — Mas eu quero o itinerário, o nome da pousada e você vai me ligar todas as noites.
— Eu ligo! Eu prometo! — Eduarda correu até ele e o abraçou com força. — Obrigada, Emanuel! Obrigada, Dona Irene!
Irene sorriu, satisfeita com a pequena vitória.
— De nada, minha querida. Às vezes, os homens precisam de um empurrãozinho para lembrarem que as mulheres não são propriedades.
Sara, percebendo que o clima de "família unida" estava se instalando, resolveu apimentar as coisas.
— Bom, já que a Eduarda vai estar fora, Emanuel... — Sara caminhou até ele, passando a mão pelo ombro dele de forma possessiva diante da sogra — ... nós vamos ter muito tempo para nós dois. Quem sabe a gente não aproveita para redecorar o quarto? Ou fazer aquelas coisas que a Eduarda sempre acha "intensas demais"?
Irene estreitou os olhos, a desaprovação emanando de cada poro.
— Emanuel, eu espero que você se comporte como o homem que eu eduquei, e não como um adolescente deslumbrado — disse a mãe, levantando-se. — Vou embora antes que eu ouça algo que me faça querer te dar umas palmadas.
Emanuel acompanhou a mãe até a porta, sentindo o peso da derrota e da responsabilidade. Quando voltou para a sala, Eduarda já estava no celular, provavelmente enviando áudios histéricos para as amigas. Sara estava sentada no sofá, lixando uma unha com um sorriso vitorioso.
— Você está feliz agora? — Emanuel perguntou a Sara, parando diante dela.
— Eu? Estou ótima. A Eduarda ganha as férias dela, você ganha a consciência limpa e eu ganho você sem interrupções por cinco dias. Todo mundo sai ganhando, não é?
Emanuel não respondeu. Ele olhou para Eduarda, que parecia ter rejuvenescido cinco anos em dez minutos. Ele sentia um medo irracional de que aquela viagem fosse o início de um distanciamento que ele não saberia como reverter.
— Vou para o trabalho — disse ele, pegando sua pasta. — Duda, não esqueça de me passar todos os detalhes da pousada.
— Pode deixar, meu amor! — Ela correu até ele, dando-lhe um beijo de despedida cheio de energia.
Assim que a porta se fechou, Sara olhou para Eduarda.
— Você deve muito a mim e à velha, sabia? Se eu não tivesse aberto o bico, você estaria aqui mofando enquanto ele ia para o escritório.
Eduarda olhou para Sara. Pela primeira vez, não havia medo ou insegurança em seus olhos, apenas uma calma superior.
— Eu sei, Sara. Mas não pense que esses cinco dias vão ser o paraíso que você imagina. O Emanuel fica insuportável quando está preocupado. Boa sorte cuidando dele sozinha.
Sara parou de lixar a unha, o sorriso vacilando por um milésimo de segundo.
— Eu dou conta dele, queridinha. Já você... trate de voltar. Não quero ter que aguentar o mau humor dele por muito tempo se você resolver se "encontrar" nas montanhas.
Eduarda não respondeu. Ela voltou para o quarto para começar a pensar na mala. Pela primeira vez em muito tempo, o apartamento parecia pequeno demais para ela, e o horizonte, embora distante, parecia finalmente ao seu alcance.
A viagem estava marcada. O "não" de Emanuel fora quebrado pela voz da tradição de Dona Irene e pela ironia de Sara. O triângulo amoroso continuava existindo, mas uma de suas pontas estava prestes a se esticar para além das paredes de vidro daquele paraíso artificial. Emanuel, no carro a caminho do trabalho, sentia que, ao permitir que Eduarda voasse, ele corria o risco de descobrir que o chão onde ele pisava era muito mais instável do que ele jamais ousara admitir.