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É só chegar nela

O Gosto Amargo do Energético e o Calor do Moletom

A segunda-feira no Colégio Anakt sempre tinha um peso diferente, como se a gravidade fosse dobrada para compensar o descanso do final de semana. O céu lá fora estava nublado, e o ar condicionado da sala de aula parecia configurado para simular o Alasca.

Mizi entrou na sala com sua aura habitual de "dona do lugar". Ela vestia a saia curta do uniforme e uma regata branca, carregando a mochila em apenas um ombro. Entre os lábios, um pirulito de cereja que ela movia de um lado para o outro com uma destreza quase hipnótica. Ela vinha conversando com um garoto do time de basquete que sentava logo à frente de Sua.

— Sério, se você errar aquele passe de novo, eu mesma entro na quadra e te mostro como se faz — Mizi dizia, a voz saindo abafada pelo pirulito, mas mantendo aquele tom sedutor que fazia o garoto gaguejar em resposta.

Ela caminhou ao lado dele até a mesa, parando bem no corredor central, o lado esquerdo da sala. Enquanto o garoto tentava se justificar, os olhos dourados de Mizi vagaram "acidentalmente" para o lado. Sua estava sentada em sua carteira, encolhida. Ela não tinha levado casaco e seus braços pálidos estavam cobertos por arrepios, as mãos escondidas dentro das mangas da camisa social fina. Ela parecia pequena, frágil e, como sempre, mergulhada em uma melancolia profunda.

Mizi terminou a conversa com um aceno vago. Em vez de voltar para o seu lugar no fundo da sala, ela abriu a mochila com um zíper barulhento. Tirou de lá um moletom preto, idêntico ao da semana anterior, mas este parecia ainda mais macio.

Sem dizer uma palavra, ela jogou o casaco sobre a mesa de Sua.

— Pega. Você está parecendo um picolé de tristeza aí — Mizi soltou, o sarcasmo afiado servindo de escudo para o gesto gentil.

Sua levantou os olhos roxos, surpresa.

— Mizi, eu... não precisa. Eu estou bem.

— Não, não está. Suas unhas estão quase azuis, Sua. Veste logo antes que eu mude de ideia e use pra limpar a mesa — Mizi deu as costas, o pirulito estalando contra os dentes enquanto ela caminhava de volta para o lado de Ivan.

Sua hesitou por cinco segundos antes de enfiar os braços no tecido quente. O cheiro de Mizi a atingiu instantaneamente — aquele mix de morango, perfume caro e algo puramente elétrico. Ela se sentiu aquecer no mesmo instante, o rosto queimando sob a franja preta.

Lá no fundo, Ivan observava a cena com um sorriso de canto, mastigando um chiclete de menta.

— Você é muito óbvia, sabia? — Ivan sussurrou quando Mizi se sentou ao seu lado. — Daqui a pouco vai começar a marcar território com urina em volta da mesa dela.

— Cala a boca, Ivan. Eu só não quero que a melhor aluna da sala morra de hipotermia e estrague a média da turma — Mizi rebateu, pegando um caderno vazio apenas para rabiscar flores e caveiras.

A paz durou exatos dez minutos. A porta da sala foi aberta com um estrondo que fez o professor de literatura pular da cadeira. Lexy entrou como um furacão, os olhos de pupilas vermelhas faiscando de ódio. Ela nem olhou para os lados; seu objetivo era a mesa de Mizi. Mas, no meio do caminho, ela parou bruscamente.

Ela viu. O moletom preto, o mesmo que Mizi dizia ser sua peça favorita, estava envolvendo os ombros daquela garota pálida e silenciosa.

— Mas que porra é essa? — Lexy gritou, a voz ecoando por toda a sala. Ela avançou até a mesa de Sua e agarrou o capuz do moletom, puxando-o com força. — Você de novo, sua rata de biblioteca? O que você fez? Roubou isso da mochila dela?

Sua encolheu-se, o pânico subindo pela garganta.

— Não... a Mizi me emprestou... — ela tentou explicar, a voz falhando.

— Emprestou o cacete! — Lexy berrou, atraindo os olhares de Till, Hyuna e Luka do outro lado. — Ela não empresta nada pra ninguém! Você deve ter ficado se esfregando nela, pedindo esmola, sua horrorosa! Olha pra você, você é um nada!

— Lexy, para! — Hyuna levantou-se, pronta para intervir, mas alguém foi mais rápida.

Mizi já estava de pé. Ela atravessou a sala com uma velocidade predatória. Antes que Lexy pudesse insultar Sua novamente, Mizi segurou o pulso da namorada, apertando-o com força suficiente para fazê-la soltar o moletom.

— Chega, Lexy. Agora — Mizi disse. Sua voz não era sedutora agora. Era fria, cortante, como uma lâmina de gelo.

— Mizi! Olha o que essa garota está fazendo! Ela está usando as suas coisas! — Lexy tentou se fazer de vítima, mas a expressão de Mizi não mudou.

— Eu dei pra ela. Eu quis dar. E eu estou cansada dessa sua insegurança barata e desse seu jeito de tratar as pessoas como se fossem lixo — Mizi soltou o pulso de Lexy com um gesto de nojo. — A gente terminou, Lexy. Sai da minha sala. Agora.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Até o professor parecia ter medo de respirar. Lexy piscou, as lágrimas começando a transbordar.

— Você... você está terminando comigo? Por causa dessa esquisita?

— Não é por causa dela. É por causa de você — Mizi deu as costas, voltando para sua mesa. — Tchau, Lexy.

Lexy soltou um soluço alto, cobriu o rosto com as mãos e saiu correndo da sala, batendo a porta.

Mizi sentou-se, soltando um suspiro pesado. Ela abriu a mochila, tirou uma lata de energético de 500ml e a abriu com um estalo seco. Ela começou a beber, gole atrás de gole, o líquido descendo rápido demais, como se ela estivesse tentando apagar um incêndio interno. Quando a lata ficou vazia, ela a amassou com uma única mão, jogou-a no lixo, deitou a cabeça sobre os braços na mesa e fechou os olhos.

— Mizi? — Ivan chamou baixinho.

— Me deixa, Ivan. Vou dormir até o fim do mundo — ela resmungou, e em poucos minutos, estava apagada.

O restante das aulas passou em um clima estranho. O sinal do intervalo tocou, e a sala se esvaziou. Ivan tentou chacoalhar o ombro de Mizi.

— Ei, bela adormecida. Hora de comer açúcar.

— Não... — ela murmurou sem abrir os olhos. — Não vou. Me deixa aqui.

Ivan suspirou. Ele sabia que quando Mizi entrava naquele estado de letargia pós-estresse, nada a tirava dali. Ele ficou na sala, sentado ao lado dela, mexendo no celular enquanto o silêncio reinava.

O tempo voou. As aulas após o intervalo foram rápidas, e logo o sinal da saída ecoou pelos corredores. Os alunos começaram a recolher suas coisas. Ivan olhou para o relógio e depois para Mizi, que ainda dormia profundamente. Ele olhou para a porta e viu o grupo de Sua se preparando para sair.

Uma ideia maliciosa e desesperada brilhou nos olhos pretos de Ivan.

— Ei! Sua! — Ivan gritou, fazendo a garota pular de susto.

Sua parou no corredor, olhando para ele com desconfiança. Hyuna, Till e Luka pararam logo atrás dela.

— O que foi, projeto de diabético? — Till perguntou, a mão já fechada em punho por hábito.

— Eu estou super atrasado! — Ivan mentiu descaradamente, jogando a mochila nas costas. — Tenho que pegar o ônibus agora ou minha mãe me mata. Sua, você pode acordar a Mizi? Ela não pode ficar trancada na escola.

— Eu? Por que eu? — Sua perguntou, sentindo o coração acelerar.

— Porque você está com o moletom dela! Considera isso o pagamento do aluguel! Valeu, falou! — Ivan saiu correndo pela porta antes que qualquer um pudesse protestar.

— Esse cara é um completo imbecil — Till resmungou. — Vamos, Sua, a gente te espera lá fora.

— Não... podem ir — Sua disse, apertando as alças da mochila. — Eu só... eu acordo ela e vou logo em seguida.

Hyuna olhou para a amiga com uma mistura de preocupação e malícia.

— Tem certeza?

— Tenho. Vão logo.

O grupo saiu, e Sua ficou sozinha na sala de aula silenciosa com Mizi. A luz do entardecer entrava pelas janelas, banhando a sala em tons de laranja e ouro. Sua caminhou lentamente até o fundo da sala. Mizi parecia um anjo caído, o cabelo rosa e azul bagunçado sobre os braços, a respiração lenta e profunda.

Sua estendeu a mão, hesitante.

— Mizi? — chamou baixinho. Sem resposta. Ela tocou o ombro da garota. — Mizi, acorda. Todo mundo já foi embora.

Mizi se mexeu. Um resmungo baixo saiu de sua garganta. Ela levantou a cabeça devagar, os olhos dourados semicerrados, injetados de sono e da energia residual do energético. Ela piscou algumas vezes, focando a visão na figura à sua frente.

— Sua...? — a voz de Mizi saiu rouca, uma oitava abaixo do normal, vibrando no peito de Sua.

— O Ivan teve que ir... ele pediu pra eu te acordar.

Mizi não respondeu de imediato. Ela se levantou da cadeira com uma lentidão calculada. Ela era mais alta que Sua, e sua presença parecia preencher todo o espaço entre as carteiras. Antes que Sua pudesse dar um passo para trás, Mizi agiu.

Com um movimento rápido e fluido, Mizi segurou os ombros de Sua e a empurrou contra a mesa do professor, que estava logo atrás. O impacto não foi doloroso, mas o som da mochila de Sua batendo na madeira ecoou na sala vazia.

— M-Mizi? O que você está fazendo? — Sua gaguejou, o rosto a centímetros do de Mizi.

Mizi não disse nada. Ela apenas se aproximou mais, prensando o corpo de Sua contra a mesa. Ela inclinou o quadril para frente, enfiando o joelho firmemente entre as pernas de Sua, pressionando sua intimidade através do tecido da saia.

Sua soltou um arquejo audível, as mãos agarrando as bordas da mesa para não cair. O calor que emanava de Mizi era sufocante.

— Você é muito barulhenta para alguém que quase não fala, sabia? — Mizi sussurrou, o olhar dourado descendo para os lábios de Sua e voltando para seus olhos. — Passou o dia inteiro com o meu cheiro no corpo... você tem ideia do que isso faz comigo?

— Eu... eu não... — Sua não conseguia formar uma frase. A pressão do joelho de Mizi estava fazendo sua cabeça girar, uma sensação elétrica disparando por seu corpo.

Mizi aproximou o rosto, roçando o nariz no de Sua. Ela podia sentir a respiração descompassada da garota menor.

— Você é tão bonita quando está assustada — Mizi continuou, a voz como um veneno doce. — Dá vontade de ver até onde você aguenta antes de quebrar.

Mizi inclinou a cabeça, fechando os olhos e aproximando os lábios dos de Sua. Sua fechou os olhos, esperando o impacto, o coração batendo tão forte que parecia que ia explodir. Ela sentiu o hálito de Mizi, o calor de sua boca a milímetros da sua...

E então, o contato sumiu.

Sua abriu os olhos, confusa e trêmula. Mizi tinha se afastado bruscamente, um sorriso sarcástico e vitorioso nos lábios. Ela pegou sua mochila do chão com uma mão só, jogando-a no ombro.

— A gente se vê amanhã, "nuvenzinha" — Mizi disse, a voz voltando ao tom casual. — Tenta não sonhar muito comigo.

Ela caminhou até a porta, saindo da sala sem olhar para trás, deixando Sua sozinha, com as pernas bambas e a mente em completo caos.

***

Duas horas depois, Sua estava em seu quarto, sentada no chão, encostada na cama. Ela ainda usava o moletom de Mizi. Suas mãos ainda tremiam levemente. Ela pegou o celular e discou o número de Hyuna.

— Hyuna? — a voz de Sua saiu falha.

— Oi, amiga! E aí, conseguiu acordar a fera? O Till e o Luka estão aqui em casa, a gente ia começar uma partida de RPG. Quer entrar na call?

— Quero... chama eles. Eu preciso contar uma coisa.

Segundos depois, o som de notificação do grupo soou. As vozes de Till e Luka preencheram o quarto.

— E aí, Sua? Sobreviveu ao encontro com a deusa do caos? — Till brincou, embora houvesse um fundo de preocupação.

— A probabilidade de você ter saído daquela sala sem um comentário sarcástico da Mizi é de zero por cento — comentou Luka.

Sua respirou fundo, fechando os olhos.

— Gente... a Mizi... ela me prensou contra a mesa.

Houve um silêncio súbito na linha.

— Ela o quê? — Hyuna perguntou, a voz subindo uma oitava.

— Ela me prensou na mesa — Sua repetiu, as palavras saindo em um fluxo desesperado. — Ela colocou o joelho entre as minhas pernas, ela disse coisas... disse que eu era bonita assustada. Ela quase me beijou! Eu senti a boca dela, gente! E depois... ela simplesmente saiu da sala como se nada tivesse acontecido!

— PORRA! — Till gritou do outro lado, o som de algo caindo (provavelmente sua cadeira) ecoando na chamada. — Eu vou matar aquela garota! Eu vou quebrar a cara dela e do Ivan junto!

— Sua, você está bem? — Hyuna perguntou, o tom agora era de puro choque. — Isso é... isso é muito pesado, até pra Mizi.

— Eu não sei — Sua confessou, puxando as mangas do moletom para cobrir as mãos. — Eu só sei que eu não consigo parar de tremer. E o pior de tudo... o pior de tudo é que eu não queria que ela tivesse parado.

O silêncio que se seguiu na chamada foi o mais longo da vida de Sua. Ela sabia que, a partir daquele momento, nada no terceiro ano seria igual. A guerra entre o lado direito e o lado esquerdo da sala tinha acabado de se tornar pessoal. Muito pessoal.