É só chegar nela
O Gosto de Cereja e o Nó no Peito
O sol da manhã de terça-feira parecia zombar do estado de nervos de Sua. Ela mal tinha pregado o olho, revirando-se entre os lençóis enquanto a sensação do joelho de Mizi entre suas pernas e o hálito de hortelã assombravam seus sentidos. Ao chegar ao portão da escola, ela sentiu um tranco no ombro.
— Eu vou acabar com ela — rosnou Till, as veias do pescoço saltadas. Ele estava sendo fisicamente contido por Hyuna, que o segurava pela mochila e pelo braço. — Me solta, Hyuna! Aquela metida a besta não pode sair por aí fazendo o que quer com a Sua!
— Till, se acalma! — Hyuna exclamou, fazendo força para não ser arrastada pelo emo revoltado. — Você vai ser expulso se arrumar briga logo cedo. Deixa a Sua processar o que aconteceu!
— O processamento cognitivo de um trauma emocional é prejudicado por intervenções violentas, Till — pontuou Luka, caminhando calmamente ao lado deles com seu tablet em mãos. — Estatisticamente, um confronto agora só resultaria em detenção para você e mais estresse para a Sua.
— Eu não me importo com estatística! — Till se desvencilhou com um solavanco, mas parou ao ver Mizi e Ivan atravessarem o pátio.
Mizi estava radiante. Ela usava uma camiseta branca justa que realçava suas curvas e um pirulito de cereja preso no canto da boca. Ivan vinha ao lado dela, terminando de comer um donut coberto de chocolate, parecendo alheio ao drama iminente.
— Mizi! — O grito de Till cortou o barulho do pátio.
Desta vez, Hyuna não conseguiu segurá-lo. Till marchou em direção à garota de cabelos coloridos, parando a poucos centímetros dela. Mizi nem piscou. Ela apenas tirou o pirulito da boca, soltando um estalo úmido, e olhou para Till com um tédio soberano.
— O que foi, cinzeiro? Esqueceu como se usa o desodorante e veio pedir o meu perfume? — Mizi debochou, a voz sedutora carregada de sarcasmo.
— Para de brincar com a Sua! — Till apontou o dedo para o peito dela. — Eu vi como ela chegou ontem. Você acha que pode usar as pessoas só porque é bonita e popular? Deixa ela em paz, ou eu juro que...
Mizi soltou uma risada curta, um som que fez os alunos ao redor pararem para observar. Ela deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Till, que recuou um milímetro, instintivamente intimidado pelo brilho dourado nos olhos dela.
— Eu não estou brincando com ela, Till — Mizi disse, a voz subitamente séria, desprovida de qualquer deboche. — O que eu faço com a Sua é problema meu e dela. E, pra sua informação, eu gosto de levar as coisas que eu começo até o fim.
Antes que Till pudesse responder, Mizi se virou para Sua, que estava parada a alguns metros, parecendo querer desaparecer dentro do próprio uniforme. Mizi caminhou até ela com uma confiança predatória. Sem dizer uma palavra, ela tirou o pirulito de cereja da própria boca — brilhando com sua saliva — e, com uma delicadeza desconcertante, o enfiou entre os lábios entreabertos de Sua.
— Bom dia, nuvenzinha — Mizi sussurrou, piscando para a garota que ficou estática, sentindo o gosto doce e quente de cereja invadir seu paladar.
Mizi deu meia-volta e caminhou para sua mesa no fundo da sala, deixando um rastro de choque para trás. Ivan deu um tapinha no ombro de um Till paralisado e seguiu a amiga, rindo baixinho.
— Ela... ela fez mesmo isso? — Hyuna perguntou, boquiaberta.
Sua não conseguia falar. O pirulito ainda estava em sua boca, e o gosto de Mizi parecia estar impregnado em cada papila gustativa. Ela sentia que ia entrar em combustão espontânea.
Durante o intervalo, o clima não melhorou. Sua estava sentada com o grupo em uma mesa afastada, segurando a sacola de papel com o moletom de Mizi. Ela precisava devolver. Era a coisa certa a se fazer. Mas o incidente do pirulito a tinha deixado tão desorientada que ela sentia que suas pernas eram feitas de gelatina.
— Vai lá, Sua. É só entregar e sair — encorajou Hyuna, dando um empurrãozinho no braço da amiga.
— A probabilidade de um resultado negativo é mínima agora, dado que ela já demonstrou interesse público — acrescentou Luka, ajustando os óculos.
Till estava em um canto, emburrado, chutando o pé da mesa, mas até ele parecia ter desistido de tentar impedir. Sua se levantou, caminhou três passos em direção à mesa central onde Mizi e Ivan estavam, mas ao ver Mizi rindo de algo que Ivan dizia, o pânico a dominou. Ela deu meia-volta e correu de volta para o grupo.
— Eu não consigo! — Sua escondeu o rosto nas mãos. — O gosto de cereja ainda está na minha boca, eu sinto que se eu chegar perto dela, eu vou desmaiar!
— Que patético — resmungou Till, embora seus olhos estivessem fixos em Ivan, que parecia estar olhando para ele de volta.
Nesse momento, Mizi se levantou e, para a surpresa de todos, puxou Ivan pelo braço em direção à mesa do grupo dos quatro. Ivan parecia confuso, mas não resistiu.
— Ei, Till — Mizi disse ao chegar, ignorando a tensão óbvia. — O Ivan queria te perguntar uma coisa sobre aquela prova de história, mas ele é um covarde.
— Eu não sou covarde! — Ivan protestou, ficando levemente vermelho. — Eu só...
Mizi não terminou de ouvir. Seus olhos caíram para os pés de Sua.
— Seu cadarço está desamarrado, pequena. Você vai acabar caindo e estragando esse rostinho — Mizi disse, e antes que alguém pudesse reagir, ela se abaixou.
A garota mais popular da escola estava de joelhos no chão do refeitório, amarrando o tênis de Sua. O silêncio ao redor era ensurdecedor. Mizi fez um laço perfeito e, ao se levantar, suas mãos subiram "casualmente" pela cintura de Sua, ajeitando a saia cinza que estava levemente torta. Com um toque de mestre, ela afastou uma mecha da franja preta de Sua, seus dedos roçando a testa pálida da garota.
— Prontinho. Muito melhor — Mizi sorriu, um sorriso que não era para a plateia, mas apenas para Sua.
Mizi então se virou para Ivan, empurrando-o levemente para perto de Till.
— Agora, vocês dois, resolvam essa tensão antes que eu mesma tenha que bater a cabeça de vocês um contra o outro. Vamos, Ivan, o Till não morde... a menos que você peça.
Ivan soltou uma risada nervosa e, surpreendentemente, começou a falar com Till sobre um jogo de basquete que passaria na TV. Mizi observou por um segundo, satisfeita, e então saiu andando, deixando para trás um grupo completamente desorientado e uma Sua que parecia ter esquecido como se respira.
A última aula do dia era livre, e a sala de aula estava mergulhada em um murmúrio baixo. Mizi, exausta de sua própria performance, tinha caído no sono sobre a mesa, o rosto virado para o lado oposto da sala. Ivan e Till estavam, milagrosamente, conversando em voz baixa no fundo da sala sobre bandas de rock, enquanto Hyuna e Luka faziam uma vigília ao redor de Sua.
— Agora é a sua chance, Sua — sussurrou Hyuna. — Ela está dormindo. É só deixar o moletom na mesa e voltar. Sem pressão, sem pirulito, sem joelhos.
Sua respirou fundo. Ela pegou o moletom, que agora estava limpo e dobrado, e caminhou até o fundo da sala. Suas mãos tremiam tanto que o plástico da sacola fazia barulho. Ela chegou perto da mesa de Mizi. O rosto da garota estava sereno, as pontas azuis do cabelo rosa espalhadas pela madeira.
Sua tocou o ombro de Mizi com a ponta dos dedos.
— Mizi...? — sussurrou.
Mizi abriu os olhos devagar. Ela não parecia irritada por ter sido acordada; pelo contrário, um brilho de satisfação surgiu em seu olhar dourado ao ver quem era. Ela se espreguiçou, o movimento fazendo sua regata subir, e pegou o moletom das mãos de Sua.
— Obrigada, nuvenzinha. Achei que você ia ficar com ele pra dormir abraçada — Mizi provocou, a voz rouca de sono.
Sua sentiu o rosto queimar e fez menção de se virar para fugir para seu lugar seguro no lado esquerdo da sala. Mas, antes que pudesse dar o primeiro passo, a mão de Mizi disparou e envolveu seu pulso. O toque era firme, mas não machucava.
Mizi a puxou de leve para mais perto, entelando seus dedos nos de Sua. O contraste da pele pálida de Sua com a cor natural de Mizi era gritante.
— Ei — Mizi disse, olhando nos olhos roxos de Sua com uma intensidade que parecia sugar todo o oxigênio da sala. — Me dá um beijo?
O cérebro de Sua simplesmente desligou. Por um segundo, ela pensou ter ouvido errado, mas o sorriso de canto de Mizi confirmava o pedido absurdo.
— O-o quê? — Sua gaguejou, sentindo que ia desmaiar.
— Um beijo. Aqui. Agora — Mizi repetiu, aproximando o rosto.
Sua entrou em combustão. Ela puxou a mão com tanta força que quase caiu para trás e correu para sua mesa como se sua vida dependesse disso. Ela se jogou na cadeira, enterrando o rosto nos braços.
— O que foi? O que aconteceu? — Hyuna perguntou, desesperada.
— Ela... ela pediu um beijo! — Sua sussurrou alto, a voz esganiçada de pânico. — Do nada! Na frente de todo mundo!
Hyuna e Luka se entreolharam. Till, que tinha ouvido do fundo, parou de falar com Ivan e encarou Mizi, que apenas deu de ombros e voltou a fechar os olhos, com um sorriso vitorioso no rosto.
O sinal da saída tocou, e Sua foi a primeira a sair da sala, sendo seguida de perto por seus amigos. Ela precisava de ar, precisava de distância, precisava entender por que seu coração parecia uma escola de samba dentro do peito.
O grupo parou na porta principal da escola, onde o fluxo de alunos era intenso. Sua estava encostada no muro de tijolos aparentes, tentando recuperar o fôlego enquanto Hyuna tentava acalmá-la.
— Ela só está provocando, Sua. É o jeito dela — dizia Hyuna.
— É uma tática de dominação social — explicou Luka.
De repente, Sua sentiu um empurrão leve em seus ombros, fazendo-a bater as costas contra o muro com um pouco mais de força. Ela soltou um ganido de surpresa. Pensando que era algum aluno apressado, ela começou a se virar para reclamar, mas o aroma de morango a paralisou.
Mizi estava ali. Ela não parou para conversar. Ela nem sequer olhou para os amigos de Sua, que ficaram estáticos ao redor. Mizi apenas passou por trás de Sua e, em um movimento rápido e audacioso, inclinou-se e pressionou os lábios quentes contra a nuca de Sua, bem onde os fios pretos começavam a crescer.
O beijo foi demorado o suficiente para que todos na saída da escola pudessem ver. O calor da boca de Mizi contra a pele sensível do pescoço de Sua fez a garota pálida soltar um suspiro trêmulo, suas pernas fraquejando.
Mizi se afastou, limpando o canto da boca com o polegar, e continuou andando como se tivesse acabado de cumprimentar um conhecido.
— Até amanhã, Sua — Mizi disse alto, sem olhar para trás, enquanto se juntava a um Ivan que tentava esconder o riso atrás da mão.
Sua ficou ali, encostada no muro, sentindo o lugar onde Mizi a beijara formigar como se tivesse sido atingido por um raio. O barulho da escola parecia distante. Ela só conseguia ouvir o próprio coração e sentir o gosto remanescente de cereja em sua boca.
— Ela... ela me beijou no pescoço — Sua sussurrou para o nada. — Na frente de todo mundo.
— É — Till disse, a voz estranhamente calma, enquanto observava Ivan e Mizi sumirem na esquina. — Ela beijou.
Hyuna abraçou a amiga, rindo de nervoso.
— Bem-vinda ao mundo da Mizi, Sua. Acho que a sua vida tranquila de ler livros no canto acabou oficialmente hoje.
Sua fechou os olhos, sentindo o calor do sol da tarde em seu rosto, mas tudo o que ela conseguia pensar era que, pela primeira vez em sua vida melancólica, ela não se sentia horrorosa. Ela se sentia vista. E o brilho dourado de Mizi era a coisa mais assustadora e maravilhosa que já tinha acontecido com ela.