É só chegar nela
Hortelã, Vertigem e o Roubo de um Beijo
O segundo ano do ensino médio sempre foi um território previsível para Sua. Ela conhecia cada mancha de mofo no teto da sala de aula, o ritmo exato em que o professor de física batia o giz no quadro e o silêncio reconfortante que seus amigos — Hyuna, Till e Luka — ofereciam quando a melancolia pesava demais em seus ombros. Mas a terça-feira começou com uma anomalia que quebrou todo o seu sistema de segurança: o lugar de Mizi, no lado direito da sala, estava vazio.
Ivan estava lá, é claro. Ele parecia mais inquieto do que o normal, mastigando um chiclete de uva com uma força desnecessária e olhando para a porta a cada cinco minutos. Sua tentou se concentrar no livro de poesias de Sylvia Plath, mas seus olhos roxos teimavam em vagar para a cadeira vazia. Onde ela estava? Mizi nunca faltava, a menos que estivesse dormindo demais, mas nem Ivan parecia saber de nada.
— Ela não atende o celular — Sua ouviu Ivan resmungar para ninguém em particular, enquanto chutava o pé da mesa.
— Talvez ela tenha percebido que a vida é um lixo e decidiu não sair da cama — Till comentou do outro lado, a voz carregada de seu habitual pessimismo rebelde.
— A probabilidade de Mizi faltar sem um motivo lúdico ou puramente hedonista é de apenas 5% — Luka acrescentou, ajustando os óculos enquanto revisava suas anotações de biologia.
Sua sentiu um aperto estranho no peito. O incidente do beijo na nuca no dia anterior ainda ardia em sua pele. Ela passara a noite tocando o local, perguntando-se se Mizi estava apenas jogando ou se havia algo real naquela audácia toda.
O primeiro horário passou como um arrastar de correntes. Quando o sinal para o segundo horário tocou — uma aula livre devido à ausência de um professor —, a porta da sala se abriu com um estrondo familiar.
Mizi entrou. Ela não parecia doente ou cansada. Pelo contrário, seu cabelo rosa com pontas azuis estava perfeitamente bagunçado, e ela vestia uma regata preta que deixava seus braços à mostra. Ela caminhou direto para Ivan, rindo de algo no celular.
— Onde você estava, sua jumenta? — Ivan exclamou, embora o alívio fosse visível em seu rosto pálido.
— Dormi — Mizi respondeu com aquela voz sedutora que parecia vibrar nas paredes da sala. — O despertador tocou, eu olhei para ele, ele olhou para mim, e decidimos que o divórcio era a melhor opção.
Eles conversaram por alguns minutos, Ivan reclamando da falta de açúcar no sangue e Mizi zombando de sua dependência por doces. Sua tentou manter a cabeça baixa, escondida atrás da franja preta, mas sentia o olhar dourado de Mizi percorrendo a sala.
De repente, o som de passos se aproximou do lado esquerdo. Sua endureceu.
— Com licença, Luka — disse Mizi, com uma cortesia sarcástica.
Luka apenas deu de ombros e se afastou um pouco. Mizi arrastou uma cadeira vazia e sentou-se ao lado de Sua. O perfume de morango e algo elétrico invadiu o espaço pessoal de Sua, fazendo seus pulmões reclamarem pela falta de ar.
— Oi, nuvenzinha — Mizi disse, apoiando o queixo na mão e encarando Sua com uma intensidade que poderia derreter aço.
— Oi, Mizi — Sua respondeu, a voz quase um sussurro.
— Você parece tensa. O que foi? Sentiu minha falta no primeiro horário? — Mizi inclinou-se para frente, o sorriso de canto revelando uma covinha que Sua nunca tinha notado antes.
— Eu só... estava estudando.
— Você sempre está estudando. Relaxa um pouco — Mizi enfiou a mão no bolso e tirou uma pequena bala verde, envolta em papel brilhante. — Toma. É de hortelã. Ajuda a refrescar a alma.
Sua hesitou, mas aceitou a bala. Seus dedos roçaram os de Mizi por um milésimo de segundo, e uma descarga elétrica percorreu seu braço. Ela desembrulhou a bala e a colocou na boca. O sabor refrescante e forte da hortelã inundou seus sentidos, mas não foi o suficiente para acalmar seu coração.
Mizi não saiu do lugar. Ela começou a falar sobre coisas aleatórias — um filme que viu, como o café da cantina era horrível, como Ivan era irritante. Mas, enquanto falava, seu olhar começou a vagar.
Sua percebeu. Mizi não estava mais olhando para seus olhos. O olhar dourado desceu para o pescoço de Sua, onde o beijo do dia anterior fora depositado, e depois desceu mais. Mizi observava as coxas de Sua, que estavam expostas pela saia do uniforme, e depois seus seios, que subiam e desciam rapidamente devido à respiração curta.
Era um olhar faminto. Descarado. Mizi não estava tentando esconder que estava despindo Sua com os olhos.
Sua sentiu o rosto queimar. Ela tentou fechar as pernas com mais força, puxando a bainha da saia para baixo, mas o olhar de Mizi era como um toque físico.
— Mizi... por que você está me olhando assim? — Sua perguntou, a voz trêmula de nervosismo.
— Assim como? — Mizi perguntou, a voz descendo uma oitava, tornando-se perigosamente sedutora. — Só estou admirando a vista, Sua. Eu já te disse que você é a coisa mais bonita dessa sala, não disse?
Sua não soube o que responder. O silêncio entre as duas tornou-se pesado, carregado de uma eletricidade que parecia prestes a explodir. O grupo de amigos de Sua observava de longe, Till com a mão no cabo de sua mochila como se estivesse pronto para um combate, Hyuna com uma expressão de choque e Luka apenas observando a dinâmica social com curiosidade científica.
O sinal para o intervalo tocou, rasgando o silêncio da sala.
Imediatamente, os alunos começaram a se levantar, ansiosos para sair daquela estufa de hormônios e livros. Ivan levantou-se e ficou perto da porta, esperando por Mizi.
— Vamos, Mizi! A fila da cantina vai estar enorme! — Ivan gritou.
Till, Hyuna e Luka também se levantaram, parando a alguns metros da mesa de Sua.
— Vamos, Sua? — Hyuna chamou, lançando um olhar de aviso para Mizi.
Sua fez menção de se levantar, mas Mizi foi mais rápida. Em um movimento fluido, Mizi levantou-se e parou bem na frente de Sua, bloqueando seu caminho. Antes que Sua pudesse protestar, as mãos de Mizi desceram e envolveram sua cintura, puxando-a para cima.
Sua ficou de pé, prensada entre a mesa e o corpo de Mizi. O contato físico foi imediato e avassalador.
— Espera um pouco, pessoal — Mizi disse, sem tirar os olhos de Sua. — Eu ainda não terminei minha conversa com a nuvenzinha.
— Mizi, larga ela — Till deu um passo à frente, mas Ivan o segurou pelo braço.
— Relaxa, revoltado — Ivan disse, embora ele mesmo parecesse surpreso com a audácia de Mizi. — Deixa elas se entenderem.
Sua sentia as mãos de Mizi firmes em sua cintura, os dedos longos pressionando o tecido da camisa social. Ela estava tonta. O cheiro de Mizi, o calor de seu corpo e a proximidade excessiva faziam o mundo ao redor desaparecer.
— Você ainda está com a bala de hortelã na boca, Sua? — Mizi sussurrou, o rosto a milímetros do dela.
— E-estou... — Sua respondeu, os olhos roxos arregalados.
— Que bom. Porque eu adoro hortelã.
Sem dar tempo para Sua processar a frase, Mizi inclinou a cabeça e selou seus lábios nos dela.
Não foi um beijo casto ou delicado. Foi um beijo de posse, profundo e faminto. Sua soltou um arquejo de surpresa, que Mizi aproveitou para aprofundar o contato, sua língua encontrando a de Sua com uma agilidade predatória.
Sua sentiu seus joelhos fraquejarem. Se não fossem as mãos de Mizi segurando sua cintura com tanta força, ela teria caído. O sabor da hortelã passou de uma boca para a outra, refrescante e ardente ao mesmo tempo. Mizi explorava cada canto da boca de Sua, roubando não apenas a bala, mas o fôlego e a sanidade da garota.
Ao redor delas, o tempo parou. Till soltou um palavrão audível, Hyuna cobriu a boca com as mãos e Luka simplesmente parou de anotar qualquer coisa em seu tablet, seus olhos amarelos arregalados por trás dos óculos. Até Ivan parecia ter esquecido que estava com fome.
Mizi se afastou lentamente, o som do beijo partindo ecoando na sala agora silenciosa. Ela tinha a bala de hortelã entre os dentes, um brilho de triunfo absoluto nos olhos dourados.
— Obrigada pela bala, Sua — Mizi disse, a voz mais sedutora do que nunca, enquanto passava o polegar pelo lábio inferior de Sua, que estava úmido e inchado. — O gosto é muito melhor assim.
Sua ficou estática, as mãos tremendo, o coração batendo tão forte que ela sentia o pulso no pescoço. Ela olhou para Mizi, depois para seus amigos, e depois para Ivan. Ninguém dizia nada.
Mizi deu um tapinha leve na bochecha de Sua, soltou sua cintura e caminhou em direção à porta com uma leveza irritante.
— Vamos, Ivan. Agora eu estou com fome de verdade — Mizi chamou, passando pelo grupo dos quatro sem nem olhar para trás.
Ivan olhou para Till, depois para Sua, e deu de ombros antes de seguir a amiga.
— Que porra... acabou de acontecer? — Till finalmente conseguiu falar, a voz carregada de uma confusão violenta.
Hyuna correu até Sua, segurando seus ombros.
— Sua! Você está viva? Meu Deus, ela... ela literalmente roubou a bala da sua boca!
Sua levou a mão aos lábios, sentindo ainda o formigamento e o frio da hortelã. Ela olhou para a porta por onde Mizi tinha saído.
— Ela me beijou — Sua sussurrou, e pela primeira vez, não havia apenas medo ou confusão em sua voz. Havia algo mais. Uma centelha de algo que ela nunca se permitira sentir.
— A análise comportamental sugere que Mizi não está mais apenas provocando — Luka disse, aproximando-se com sua calma habitual. — Isso foi uma declaração de intenções. Uma bem pública, por sinal.
— Eu vou matar ela — Till repetiu, mas desta vez não havia tanta convicção. Ele parecia mais chocado do que qualquer outra coisa. — Como ela ousa fazer isso na nossa frente?
— Ela é a Mizi, Till — Hyuna suspirou, olhando para Sua com preocupação. — Ela faz o que quer. A pergunta é: o que a Sua vai fazer?
Sua não respondeu de imediato. Ela sentou-se lentamente na cadeira, as pernas ainda tremendo. Ela olhou para o lado direito da sala, para a cadeira vazia de Mizi. O aroma de morango ainda pairava no ar.
— Eu não sei — Sua finalmente disse, fechando os olhos. — Mas eu não acho que consiga voltar a ler meus livros hoje.
O intervalo passou como um borrão. No pátio, os sussurros já haviam começado. A notícia de que Mizi, a garota mais desejada da escola, tinha "atacado" a garota melancólica do grupo dos nerds se espalhou como fogo em palha seca.
Sua sentia os olhares queimando em suas costas enquanto caminhava com seus amigos. Ela se sentia exposta, nua, mas ao mesmo tempo, havia uma estranha sensação de poder. Mizi a escolhera. Entre todas as pessoas daquela escola, Mizi decidira que Sua era a única que merecia sua atenção, seu moletom e seus beijos roubados.
Quando voltaram para a sala para o último horário, Mizi já estava lá. Ela estava sentada em sua mesa, conversando animadamente com Ivan, mas no momento em que Sua entrou na sala, Mizi parou de falar.
Seus olhos se encontraram.
Mizi não desviou o olhar. Ela deu um sorriso de canto, levou dois dedos à testa em uma saudação informal e voltou a conversar com Ivan.
Sua sentou-se em seu lugar, abrindo o caderno. Ela tentou escrever, mas sua mão ainda tremia. Ela olhou para o lado e viu que Ivan estava olhando para Till. Till percebeu e mostrou o dedo do meio para o garoto de cabelos pretos, que apenas riu e mandou um beijo no ar, fazendo Till ficar vermelho de raiva.
— Eles são todos loucos — murmurou Hyuna ao lado de Sua.
— Talvez — Sua respondeu, sentindo o gosto da hortelã voltando à sua memória. — Mas talvez a loucura seja melhor do que o silêncio.
Ao final do dia, enquanto guardava suas coisas, Sua sentiu um papelzinho cair de dentro de seu estojo. Ela o abriu com curiosidade.
"O moletom fica com você hoje. Te vejo amanhã, nuvenzinha. Tenta não viciar no meu gosto."
Sua amassou o papel, sentindo um sorriso involuntário puxar os cantos de sua boca. Ela olhou para o fundo da sala, mas Mizi e Ivan já tinham ido embora.
— Vamos, Sua? — Till chamou da porta.
— Vamos — ela respondeu, pegando sua mochila.
Enquanto caminhava para fora da escola com seus amigos, Sua sentia que o peso em seus ombros tinha diminuído. A melancolia ainda estava lá, um traço inerente de sua alma, mas agora havia um brilho dourado misturado ao roxo de seus pensamentos. O terceiro ano, que antes parecia um túnel escuro e interminável, agora brilhava com a promessa de mais balas de hortelã e beijos roubados.
E, pela primeira vez em muito tempo, Sua não se sentiu horrorosa. Ela se sentiu desejada. E isso era mais do que qualquer livro de poesia poderia lhe ensinar.