Eddsworld outher space
Fantasmas de Pijama e o Cheiro de Açúcar Queimado
A tela do celular de Tord brilhava como uma supernova no breu do quarto. Ele observava as três bolinhas cinzas digitando e parando, digitando e parando, até que a resposta de PK finalmente veio, cortante como um estilhaço de vidro:
— "Carente de atenção? Engraçado vindo do cara que fugiu no meio de um show porque não aguentava ver que eu era o centro das atenções sem precisar de um robô gigante. E os cupcakes eram ótimos, Tom achou. Já você... bem, você sempre teve um paladar amargo para tudo que é doce. Passar bem, Commie."
Tord rosnou, jogando o telefone contra o travesseiro. Ele queria socar a parede, mas o som de algo batendo contra o vidro de sua janela o interrompeu. *Clack. Clack.*
Eram pedrinhas.
Ele se levantou, bufando, e escancarou a janela. Lá embaixo, nas sombras do jardim, duas figuras familiares e levemente patéticas acenavam. Paul e Patrick usavam seus uniformes habituais, parecendo deslocados na tranquilidade suburbana de Durdam Lane.
— O que vocês estão fazendo aqui? — sussurrou Tord, irritado. — São três da manhã!
— Viemos ver como está o nosso "Líder Vermelho" — disse Paul, com um cigarro apagado no canto da boca. — A base está um tédio sem você gritando ordens. Quando é que você volta para o plano de dominação mundial? As armas novas chegaram.
Tord massageou as têmporas.
— Eu não estou com cabeça para isso agora. Tenho... problemas locais para resolver.
Patrick inclinou a cabeça para o lado, farejando o ar como um perdigueiro.
— Caramba, que cheiro de doce é esse? O seu ex está por perto, por acaso?
O corpo de Tord retesou instantaneamente. Seus olhos se estreitaram em fendas perigosas.
— O que você disse?
— Ah, qual é, senhor — disse Paul, levantando as mãos em sinal de rendição. — A gente era tudo amigo na faculdade, lembra? Eu e o Pat passamos tempo demais sentados na cozinha de vocês enquanto você tentava desvendar esquemas táticos e ele fazia aquelas fornadas de bolinhos de baunilha. Eu nunca esqueceria esse cheiro de açúcar queimado. É a marca registrada do PK.
— Não fale dele como se o conhecesse — rosnou Tord, a voz carregada de uma possessividade que ele tentava esconder há anos. — Ele é só um vizinho irritante agora. Nada mais.
— Sei, sei — murmurou Patrick com um sorriso sarcástico. — Enfim, já que você está de folga da tirania, por que não vem com a gente até o posto avançado? Temos um estoque de uísque norueguês que o Paul "confiscou" de uma carga.
Tord olhou para trás, para o quarto vazio e para o celular que ainda exibia a mensagem desaforada de PK. O silêncio da casa de Edd era sufocante.
— Tudo bem. Eu preciso de um porre.
Ele desceu pela calha com a agilidade de quem já fez aquilo mil vezes e seguiu os dois subordinados pela escuridão.
Duas horas depois, a situação era deplorável. No pequeno escritório improvisado que servia de base avançada, Tord estava jogado em uma cadeira de metal, com a gravata frouxa e a visão levemente duplicada. O uísque era forte, e a raiva acumulada era o combustível perfeito para a embriaguez.
— Eu devia... eu devia mandar um exército para a casa da frente — balbuciou Tord, encarando o fundo do copo. — Só para ele ver quem é que manda.
— Você está bêbado, senhor — disse Patrick, limpando uma mancha de graxa da mesa. — E está com o celular na mão há dez minutos tentando escrever "sinto sua falta".
Tord arregalou os olhos e guardou o aparelho no bolso rapidamente.
— Eu não ia escrever isso! Eu ia escrever... "sinto falta da... da minha arma favorita". Isso.
— Claro — ironizou Paul, bocejando. — Olha, o sol vai nascer daqui a pouco. É melhor você voltar para casa antes que o Edd acorde e perceba que o passarinho fugiu da gaiola.
Tord tentou se levantar, mas o mundo deu uma volta completa ao redor de seu eixo. Ele caiu sentado novamente.
— Eu não consigo andar. Minhas pernas estão... desobedientes. Onde está o carro de vocês?
— Viemos de carona em um caminhão de entregas, senhor — explicou Patrick. — Não temos veículo aqui.
Tord soltou um xingamento em norueguês que faria um marinheiro corar.
— E como eu vou voltar? No frio? A pé?
Paul deu de ombros e apontou para o telefone de Tord.
— O seu ex tem carro, não tem? Aquele jipe caindo aos pedaços que ele decorou com luzes de LED? Liga para ele.
— Eu prefiro morrer congelado — declarou Tord com dignidade bêbada.
— Ele não vai deixar você morrer — disse Paul. — Ele sempre teve um ponto fraco por vilões dramáticos.
Foram necessários mais dez minutos de persuasão e outra dose de uísque para que Tord cedesse. Com os dedos trêmulos, ele discou o número que nunca teve coragem de apagar. Chamou uma, duas, três vezes.
— Se for o Tom querendo mais cupcakes, eu juro que vou... — A voz de PK soou rouca e irritada do outro lado.
— Sou eu — interrompeu Tord, tentando manter o tom autoritário, mas falhando miseravelmente quando sua voz falhou. — Eu estou... em um lugar. E não consigo voltar.
Houve um silêncio longo do outro lado da linha. Tord quase desligou, mas então ouviu um suspiro pesado.
— Manda a localização, seu idiota.
Vinte minutos depois, um jipe preto, decorado com adesivos de caveiras neon e luzes roxas embaixo do chassi, parou derrapando na frente do galpão. A porta se abriu e PK desceu.
Tord quase soltou uma risada, mesmo no estado em que estava. PK usava um pijama de peça única de My Little Pony, com um capuz que tinha orelhas e uma crina de arco-íris. Seus cabelos estavam mais bagunçados que o normal e ele calçava pantufas de garras.
— Não diga uma palavra — avisou PK, apontando o dedo para Tord enquanto caminhava em sua direção. — Nem uma maldita palavra.
Paul e Patrick, observando de longe, não conseguiram se conter.
— Belo pijama, PK! — gritou Paul, rindo. — O Rainbow Dash combina com a sua personalidade explosiva!
— Vai para o inferno, Paul! — PK gritou de volta, agarrando Tord pelo braço e arrastando-o para o carro. — E você, entra logo antes que eu mude de ideia e te deixe aqui para virar picolé de comunista.
O trajeto de volta foi tenso. O rádio de PK estava ligado em um volume baixo, tocando uma música indie melancólica que falava sobre erros do passado e estradas sem saída. A letra parecia descrever exatamente o clima dentro daquele carro.
Tord, encostado na janela, observava as luzes da cidade passando. O álcool o tornava sentimental, uma característica que ele odiava.
— Por que você veio? — perguntou Tord, a voz sumida.
— Porque eu sou um imbecil — respondeu PK, apertando o volante com força. — Porque, apesar de você ser um egocêntrico que me abandonou no momento mais importante da minha carreira, eu ainda tenho a decência que você não tem.
— Eu não te abandonei — mentiu Tord, virando o rosto para ele. — Eu tive... obrigações.
— Obrigações? — PK soltou uma risada amarga, parando o carro em um sinal vermelho. — Ver você com aquela garota no meu show foi uma obrigação? Me deixar esperando por uma ligação que nunca veio por dois anos foi uma obrigação? Você é um covarde, Tord.
— Você não entende o peso que eu carrego! — Tord aumentou o tom de voz, a discussão escalando rapidamente. — Eu tenho um império para construir! Eu não podia me distrair com... com um DJ de festas de faculdade!
— "Distrair"? — PK virou-se para ele, o olho azul brilhando de raiva sob a luz do painel. — Eu não era uma distração, eu era a única coisa real na sua vida de mentiras!
Eles continuaram discutindo aos gritos até o jipe estacionar bruscamente na frente da casa de Edd. O sol começava a pintar o céu de laranja e rosa. PK desligou o motor e o silêncio que se seguiu foi pesado, carregado de eletricidade.
Tord olhou para PK. O rosto do rapaz estava iluminado pela luz da manhã, e por um segundo, a raiva nos olhos bicolores pareceu dar lugar a algo mais suave, uma espécie de cansaço compartilhado. PK respirou fundo, olhando para Tord como se esperasse algo. Como se, por um milagre, o norueguês fosse dizer as palavras certas.
— Liam... — sussurrou Tord.
PK inclinou-se levemente, o coração batendo rápido. *Ele mudou?*, pensou por um segundo. *Ele vai finalmente pedir desculpas?*
Tord soltou um soluço bêbado e limpou o nariz.
— Você fica ridículo nesse pijama. Parece um marshmallow estragado. E seu carro cheira a chiclete barato.
O brilho nos olhos de PK morreu instantaneamente, substituído por uma frieza glacial.
— Sai do meu carro. Agora.
— Com prazer — Tord abriu a porta, tropeçando para fora.
— E Tord? — PK chamou antes que ele fechasse a porta. — Não me liga mais. Nem se estiver morrendo.
O jipe arrancou, deixando uma nuvem de fumaça e o som de pneus cantando para trás. Tord ficou parado na calçada por um momento, sentindo o mundo girar, antes de entrar furtivamente em casa e subir para o quarto. Ele desabou na cama e apagou antes mesmo de tirar as botas.
Algumas horas depois, o som de vozes animadas no andar de baixo o acordou. Sua cabeça parecia que ia explodir a qualquer momento. Ele se levantou, lavou o rosto com água gelada e desceu as escadas, tentando manter a postura de quem não tinha passado a noite bebendo com mafiosos e sendo resgatado por um pônei humano.
Na sala, Matt estava sentado no chão, admirando seu próprio reflexo em uma colher de prata. Edd e Tom entraram pela porta da frente, ambos com sorrisos largos e carregando copos de café para viagem.
— Onde estão todos? — perguntou Tord, a voz rouca, sentando-se no sofá.
— Ah, Tord! Bom dia! — Edd exclamou, radiante. — Você não vai acreditar. Saímos para caminhar e acabamos encontrando o PK no jardim dele. Ele estava limpando o jipe.
Tord sentiu um nó no estômago.
— E daí?
Edd deu uma cotovelada amigável no braço de Tom, que parecia estranhamente satisfeito.
— E daí que o Tom usou o charme dele! Adivinha quem conseguiu o número do vizinho descolado?
Edd apontou para Tom com as duas mãos, como se estivesse apresentando um prêmio.
Tom deu um gole no seu café, desviando o olhar por um segundo, um sorrisinho de canto brincando em seus lábios.
— Ah, é... foi... foi eu. Ele é um cara legal quando você para pra conversar. Ele até me convidou para ver o estúdio dele depois.
Tord sentiu o sangue ferver. A imagem de PK no pijama de My Little Pony, a discussão no carro, o cheiro de açúcar queimado... e agora Tom, com aquele sorriso presunçoso, segurando a "chave" para o mundo que Tord acreditava ser apenas seu.
— Ótimo — disse Tord, sua voz saindo tão fria que Matt parou de olhar para a colher. — Maravilhoso. Espero que vocês sejam muito felizes trocando receitas de cupcake.
Ele se levantou e caminhou em direção à cozinha, seus punhos cerrados ao lado do corpo. Por dentro, Tord estava gritando. Ele tinha acabado de declarar guerra contra um alienígena disfarçado de DJ e contra o seu próprio melhor amigo (ou quase isso), e a pior parte era que ele não tinha a menor ideia de como vencer aquela batalha sem perder o que restava do seu coração de ferro.