Eddsworld outher space
O Jogo de Sombras e a Pipoca Amarga
A luz azulada do celular de Tom iluminava seu rosto inexpressivo enquanto ele lia a mensagem que acabara de receber. No grupo da casa, o silêncio era absoluto, exceto pelo som de Matt testando diferentes ângulos para uma selfie no corredor.
— Ei, Tom — disse Edd, entrando na sala com uma lata de cola na mão. — Você está encarando essa tela há cinco minutos. É o PK?
Tom deu um meio sorriso, algo raro e quase imperceptível.
— Ele me convidou para o cinema. Hoje à noite.
— O quê?! — Tord, que estava fingindo ler um manual de instruções para um lança-chamas portátil no canto do sofá, quase derrubou o livreto. — O vizinho esquisito? Por que ele chamaria você?
— Talvez porque eu não seja um ditador narcisista com sérios problemas de abandono? — Tom respondeu, sem desviar os olhos do aparelho. — Ele quer ver *Terrifier*. Diz que gosta de filmes onde palhaços se dão mal.
Tord sentiu uma fisgada de irritação pura. Ele conhecia aquele jogo. PK não estava apenas convidando Tom; ele estava enviando uma mensagem de guerra. Liam sabia perfeitamente que Tord odiava filmes de terror slasher e que, nos velhos tempos, eles costumavam assistir a clássicos de ação norueguêses. Chamar Tom para ver um filme de palhaços era um insulto personalizado.
— Eu não iria se fosse você — resmungou Tord, tentando parecer desinteressado. — Aquele cara é instável. Ele tem um gambá gigante, Tom. Um gambá!
— Ofélia é um amor — defendeu Edd, animado. — E eu acho que o Tom devia ir. Você precisa sair dessa casa, Tom. O ar aqui dentro está começando a cheirar a pólvora e desespero.
Três dias se passaram em uma tensão crescente. Tord tentava agir como se não se importasse, mas passava horas polindo suas armas na varanda, apenas para observar PK saindo para passear com Ofélia. Toda vez que os olhos de PK cruzavam com os de Tord, o rapaz mais novo fazia questão de rir de algo no celular, claramente fingindo estar em uma conversa hilária com Tom.
Na noite do encontro, Tom estava surpreendentemente arrumado. Ele usava sua jaqueta azul clássica, mas havia penteado o cabelo de uma forma que não parecia ter acabado de levar um choque, e o cheiro de álcool barato fora substituído por um perfume amadeirado.
— Uau, Tom! Você parece... quase humano! — exclamou Matt, batendo palmas. — Se eu não fosse tão incrivelmente atraente, eu ficaria com ciúmes.
— Valeu, Matt — Tom pegou as chaves. — Vou passar lá para pegar ele.
Tord observou da janela enquanto Tom atravessava a rua. PK abriu a porta e, por um momento, até Tord teve que admitir que ele estava... diferente. PK usava uma calça jeans preta justa, cheia de correntes, e uma camisa de rede por cima de uma regata neon. O estilo era andrógino, ousado e irritantemente atraente. Ele usava um delineador pesado que destacava ainda mais seus olhos de cores diferentes.
— Ele parece um personagem de anime que deu errado — murmurou Tord para as cortinas.
— Ele parece incrível — corrigiu Edd, surgindo atrás dele. — O que você vai fazer agora, Tord? Ler um livro?
— Vou dar uma volta — mentiu Tord, pegando seu casaco vermelho. — Preciso de ar puro.
O "ar puro" de Tord consistia em seguir o carro de Tom a uma distância segura, usando um par de óculos escuros e um bigode falso de plástico que ele encontrou na caixa de fantasias de Matt.
No cinema, o clima entre Tom e PK era surpreendentemente leve. Enquanto esperavam na fila da pipoca, PK não parava de gesticular, contando uma história caótica sobre como quase foi preso no Canadá por tentar libertar todos os guaxinins de um parque.
— E aí o guarda me olhou e disse: "Garoto, isso é vandalismo". E eu respondi: "Não, isso é justiça social para os bandidos mascarados!" — PK riu, encostando o ombro no de Tom.
Tom soltou uma risada genuína, algo que Tord, observando de trás de um cartaz de papelão do filme da Barbie, não via há anos.
— Você é louco, PK — disse Tom, pegando o balde de pipoca. — Mas é uma loucura refrescante.
— Melhor que a loucura "vou-dominar-o-mundo-com-robôs", certo? — PK piscou, o olho azul brilhando maliciosamente.
Eles entraram na sala escura. Tord, agachado entre as poltronas da última fileira, tentava ouvir a conversa, mas o som dos gritos do filme e o barulho de mastigação tornavam tudo difícil. Ele viu, porém, quando PK se inclinou para sussurrar algo no ouvido de Tom, e como Tom sorriu de volta, aproximando-se mais.
A cada flerte, Tord sentia uma pontada de algo que ele se recusava a chamar de ciúme. Era indignação territorial, ele dizia a si mesmo.
Quando o filme acabou, a adrenalina do terror deixou PK ainda mais elétrico. Eles saíram do cinema rindo das mortes exageradas.
— Aquele cara no meio da serra foi hilário! — PK exclamou, descendo as escadas rolantes. — Quem morre daquele jeito?
— Alguém que não assistiu filmes de terror o suficiente — respondeu Tom.
Foi nesse momento que a sorte de Tord acabou. Ao tentar se esconder atrás de uma lixeira giratória, seu bigode falso ficou preso na borda e, ao puxar, ele acabou tropeçando e caindo bem no meio do corredor, aos pés de Tom e PK.
O silêncio que se seguiu foi constrangedor. Tord olhou para cima, os óculos escuros pendurados em uma orelha só.
— Tord? — Tom cruzou os braços, a expressão de diversão desaparecendo instantaneamente. — O que diabos você está fazendo aqui?
— Eu... eu estava... — Tord se levantou rapidamente, limpando o casaco vermelho. — Eu estava em uma missão de reconhecimento! Este shopping é um ponto estratégico para... para...
— Para ser um stalker patético? — PK interrompeu, a voz carregada de veneno. O brilho animado em seus olhos sumira, substituído por uma mágoa profunda que ele tentava mascarar com agressividade. — Você não consegue me deixar em paz por um segundo, não é? Precisa estragar tudo!
— Eu não estou estragando nada! Estou protegendo o Tom de um alienígena maníaco! — gritou Tord, perdendo a compostura.
— Protegendo? — Tom deu um passo à frente, ficando entre os dois. — Tord, você cruzou a linha. Isso não é sobre segurança, é sobre o seu ego ferido porque o PK não quer mais saber de você!
A discussão escalou rapidamente. Palavras amargas sobre o passado foram arremessadas como granadas. PK observava os dois, sentindo o peito apertar. Ele vira aquela cena antes: Tord tentando controlar tudo ao seu redor, agindo como se as pessoas fossem peças de um tabuleiro.
— Chega! — gritou PK, com os olhos marejados. — Eu cansei disso! Cansei de vocês dois!
Antes que Tom pudesse impedi-lo, PK virou as costas e saiu correndo em direção à saída do shopping. Ele não parou até chegar em um beco escuro e silencioso a algumas quadras de distância, onde o som do tráfego era apenas um zumbido distante. Ele se encostou na parede de tijolos, tentando controlar a respiração trêmula.
— PK! Espera! — A voz de Tom ecoou no beco.
PK limpou o rosto rapidamente com a manga da camisa de rede.
— Vai embora, Tom. Vai ficar com o seu amigo psicopata.
— Ele não é meu amigo agora — disse Tom, aproximando-se devagar, mantendo uma distância respeitosa. — Ele é um idiota. E eu sinto muito por ele ter estragado a noite.
PK soltou um riso seco, abraçando o próprio corpo. O ar da noite estava ficando frio.
— Ele sempre faz isso. Ele entra na vida das pessoas, bagunça tudo e depois age como se fosse a vítima. Eu tentei ignorar, Tom. Juro que tentei. Mas ver ele ali... me segurando... me faz sentir como se eu nunca pudesse escapar do que aconteceu no ensino médio.
Tom suspirou, tirando sua jaqueta azul.
— Você não precisa escapar dele sozinho. E você definitivamente merece alguém que não te trate como um projeto ou uma distração.
Ele estendeu a jaqueta para PK. O rapaz hesitou, mas o frio falou mais alto. Ele vestiu a peça, que ficou enorme em seu corpo menor, o cheiro de Tom — uma mistura de sabão e algo familiar — o envolvendo como um abraço.
— Obrigado — sussurrou PK.
Eles caminharam juntos de volta para Durdam Lane em um silêncio confortável. A raiva de PK fora substituída por uma melancolia suave. Quando chegaram à porta da casa de PK, ele parou e olhou para Tom sob a luz amarelada do poste.
— Sabe... — começou PK, olhando para os pés. — Seus olhos são estranhos.
Tom arqueou uma sobrancelha.
— Eu sei. Abismos negros, sem alma, blá blá blá.
— Não — PK deu um passo à frente, olhando profundamente nas órbitas escuras de Tom. — Eles são lindos. Como o universo. É estranho, mas quando eu olho para eles, eu me sinto... em casa. Como se eu não precisasse fingir ser esse "PK caótico" o tempo todo.
Tom sentiu o rosto esquentar, uma sensação que ele raramente experimentava. Ele olhou para o rosto de PK, notando os detalhes que a luz do dia às vezes escondia.
— E eu gosto dos seus dentes — disse Tom, sua voz baixando de tom. — O espacinho no meio. É fofo. Faz você parecer... real.
PK soltou uma risadinha nervosa. O silêncio voltou, mas desta vez era carregado de uma expectativa doce. PK se inclinou rapidamente e depositou um beijo suave na bochecha de Tom.
— Boa noite, Tom. E obrigado pelo filme.
Ele entrou em casa antes que Tom pudesse processar o gesto. Tom ficou parado na calçada por longos minutos, um sorriso bobo e involuntário crescendo em seu rosto.
No entanto, o clima de paz durou pouco. Assim que Tom atravessou a rua e entrou em sua própria casa, deu de cara com Tord sentado na poltrona da sala, as luzes apagadas, apenas com o brilho de um cigarro eletrônico iluminando seu rosto sombrio.
— Você se divertiu? — perguntou Tord, a voz gélida.
— Muito — respondeu Tom, fechando a porta. — E antes que você comece, Tord, eu não quero ouvir.
Tord levantou-se bruscamente, caminhando até Tom até ficarem cara a cara.
— Você não entende, Tom. Você está brincando com fogo. O PK não é para você. Ele é... ele é parte do meu passado. Você está apenas tentando me atingir ficando com ele.
Tom soltou uma risada ruidosa e sarcástica.
— O mundo não gira em torno de você, Tord! Eu não estou com o PK para te irritar. Eu estou com ele porque ele é incrível, engraçado e me faz sentir algo que não seja tédio ou raiva.
— Eu estou te avisando — Tord rosnou, aproximando-se perigosamente. — Fique longe dele. Ele não é o que você pensa.
— Ou o quê? — Tom desafiou, sem recuar um milímetro. — Você vai me atirar com um tanque? Vai chamar seu exército? Faça o que quiser, Tord. Mas eu não vou deixar você interferir nisso. O PK merece ser feliz, e se for comigo, você vai ter que engolir seu orgulho norueguês e aceitar.
Tord cerrou os dentes, os olhos brilhando com uma fúria contida. Ele queria dizer tantas coisas, queria gritar que PK era dele por direito de história, mas as palavras ficaram presas na garganta.
— Você vai se arrepender disso, Tom — disse Tord, antes de subir as escadas pisando forte.
Tom ficou sozinho na sala escura. Ele ainda sentia o calor do beijo de PK na bochecha e o peso da jaqueta que agora estava com o vizinho. Ele sabia que as coisas iam ficar complicadas, que a guerra fria com Tord estava prestes a se tornar um conflito aberto, mas pela primeira vez em muito tempo, Tom sentia que tinha algo pelo qual valia a pena lutar.
Lá fora, na casa da frente, PK observava pela janela, segurando a jaqueta azul contra o peito, sem saber que seu segredo estelar estava prestes a mudar a vida de todos naquela rua para sempre.