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Eddsworld outher space

Neon, Culpa e Batidas Cardíacas

As semanas em Durdam Lane haviam se tornado uma rotina bizarra de cores vibrantes e tensões silenciosas. PK agora era uma presença constante na casa de Edd, trazendo uma energia caótica que variava entre sessões de videogame barulhentas e Ofélia tentando comer as cortinas de Matt. Tom e PK estavam em um estágio que Edd descrevia como "fase de lua de mel pré-namoro", trocando olhares significativos e saindo para bares de jazz escondidos na cidade.

Tord, por outro lado, sentia-se como um estranho em sua própria sala de estar. Cada risada que PK direcionava a Tom era como um prego sendo martelado em sua paciência. Ele tentara de tudo: ignorar, provocar, sabotar. Nada funcionava. O norueguês, acostumado a conquistar nações, não conseguia reconquistar o território de um coração que ele mesmo havia negligenciado anos atrás.

— Chega — rosnou Tord para o espelho do banheiro em uma sexta-feira à noite. — Eu não vou ficar aqui assistindo o Tom ganhar esse jogo. Se o Liam quer seguir em frente, eu também vou.

Ele decidiu que era hora de voltar à ativa. Ele era Tord Larsson, afinal. Ele tinha carisma, dinheiro e uma aura de perigo que costumava atrair as pessoas como mariposas para uma lâmpada.

O primeiro encontro foi com uma mulher chamada Sarah, uma entusiasta de armas que Tord conheceu em um fórum online. No papel, era perfeito. Na prática, Sarah era intensa demais até para os padrões dele. Ela passou o jantar inteiro descrevendo como gostaria de ser enterrada em um tanque de guerra, e Tord, pela primeira vez na vida, sentiu medo de ser a próxima vítima de alguém.

O segundo encontro foi com um rapaz chamado Julian, um artista plástico. Julian era frio, monossilábico e passou três horas criticando o tom de vermelho do moletom de Tord, chamando-o de "agressivo e sem nuances". Tord quase o jogou pela janela do restaurante.

O terceiro foi a gota d'água. Uma garota que não parava de falar sobre seus gatos e como eles tinham "energias astrais". No meio da conversa sobre o signo lunar do gato persa dela, Tord simplesmente se levantou, deixou o dinheiro na mesa e saiu sem dizer uma palavra.

Frustrado e com o ego ferido, ele não queria voltar para casa. Ele não queria ver Tom e PK dividindo um balde de pipoca no sofá. Ele dirigiu até o centro da cidade, onde as luzes de neon cortavam a neblina, e parou na frente da "The Void", uma boate subterrânea conhecida pelo som pesado e pela clientela eclética.

Lá dentro, o ar estava saturado com o cheiro de cigarro, suor e álcool caro. A batida do techno vibrava no peito de Tord, abafando seus pensamentos. Ele foi direto para o bar e pediu algo forte.

— Você parece alguém que precisa de uma distração — disse uma voz feminina ao seu lado.

Tord virou-se e viu uma mulher atraente, com cabelos curtos e platinados e um vestido de couro que deixava pouco para a imaginação. Ela tinha um sorriso predatório que, em qualquer outra noite, teria feito Tord se sentir em casa.

— Você não tem ideia — respondeu ele, aceitando o convite silencioso.

Eles começaram a conversar. Ela se chamava Roxy. Ela era direta, flertava com habilidade e suas mãos não paravam quietas, ora tocando o braço de Tord, ora ajustando a gola de seu casaco. Tord forçou-se a entrar no clima. Ele a puxou para mais perto, sentindo o perfume doce dela, e começou a retribuir as investidas.

— Por que não vamos para algum lugar mais... privado? — Roxy sussurrou no ouvido dele, a mão descendo perigosamente pelas costas de Tord.

Tord sorriu, sentindo que finalmente estava vencendo a sombra de PK. Ele se inclinou para beijá-la, mas, naquele exato momento, a música mudou. A batida tornou-se mais frenética, uma mistura de sintetizadores dos anos 2000 com um baixo moderno e agressivo. Era uma transição perfeita. Técnica demais para ser um DJ comum.

Tord olhou para o palco elevado, onde a cabine do DJ estava envolta em fumaça colorida. E lá estava ele.

PK.

Ele usava fones de ouvido neon e uma camisa transparente que brilhava sob as luzes ultravioletas. Ele estava em seu elemento, movendo-se com uma confiança que Tord raramente via em Durdam Lane. Os olhos bicolores de PK estavam fechados enquanto ele ajustava os controles, uma expressão de puro êxtase no rosto.

O mundo de Tord parou. Roxy continuava falando algo sobre um reservado no andar de cima, mas ele não ouvia mais nada. A culpa o atingiu como um soco no estômago. Ver PK ali, sendo o artista que Tord sempre soube que ele era, fez todo o esforço de "seguir em frente" parecer uma piada de mau gosto.

— Eu... eu não posso — disse Tord, afastando Roxy bruscamente.

— O quê? Você está brincando? — Roxy olhou para ele, incrédula.

— Sinto muito. Emergência — Tord nem olhou para trás. Ele atravessou a pista de dança, empurrando as pessoas, seus olhos fixos no palco.

Ele esperou o set de PK terminar. Quando outro DJ assumiu, Tord viu PK descendo os degraus nos fundos, limpando o suor da testa com uma toalha. Tord o interceptou perto da saída dos funcionários, um corredor estreito e mal iluminado.

— Você está me seguindo de novo? — PK disparou assim que viu o vulto vermelho. Sua voz estava carregada de desprezo imediato. — Pelo amor de Deus, Tord! Você não tem um exército para comandar ou um espelho para se admirar?

— Eu não estava te seguindo! — Tord rebateu, a voz rouca. — Eu vim aqui para me divertir. Para tentar esquecer que você existe!

— Ah, claro! — PK soltou uma risada sarcástica, jogando a toalha no ombro. — E como está indo esse plano? Porque você parece um maníaco parado no escuro me esperando. O Tom sabe que você é um stalker profissional ou ele está ocupado demais sendo um namorado decente?

— Não coloque o Tom no meio disso! — Tord deu um passo à frente, encurralando PK contra a parede. — Eu tentei, Liam! Eu saí com três pessoas hoje! Eu tentei ficar com uma garota ali no bar agora mesmo!

PK cruzou os braços, os olhos bicolores faiscando.

— E por que não ficou? Ela era feia demais para o seu padrão real?

— Porque eu vi você! — gritou Tord, sua respiração pesada batendo no rosto de PK. — Porque eu vi você lá em cima e tudo o que eu conseguia pensar era no quanto eu sou um merda por ter te deixado naquele show anos atrás! Eu tentei seguir em frente, mas não consigo tirar você da maldita cabeça!

O silêncio caiu sobre o corredor, quebrado apenas pelo som abafado da música vindo da pista. PK piscou, a guarda baixando por um segundo antes de se reerguer com mais força.

— Mentira — sussurrou PK, a voz tremendo. — Você só está dizendo isso porque não suporta perder. Você não me ama, Tord. Você só ama o fato de que eu era seu.

— Você não sabe de nada — Tord murmurou, o desespero tomando conta de seu julgamento.

Em um movimento brusco, Tord segurou o rosto de PK e o beijou. Foi um beijo agressivo, desesperado, carregado de anos de ressentimento e desejo reprimido. PK tentou empurrá-lo no início, suas mãos batendo no peito de Tord, mas o contato físico desencadeou uma memória muscular que ele não conseguia controlar.

PK soltou um gemido abafado e, para sua própria surpresa e horror, retribuiu. Ele puxou o cabelo de Tord, trazendo-o para mais perto, enquanto a raiva se transformava em uma paixão faminta.

— No andar de cima — ofegou Tord entre os beijos. — Eu tenho uma chave.

Eles subiram as escadas quase tropeçando um no outro. Tord abriu a porta de um dos quartos privativos da boate — um espaço pequeno com um sofá de veludo vermelho e luzes baixas. Assim que a porta se fechou, a racionalidade foi deixada no corredor.

Tord dominou o espaço, suas mãos explorando cada centímetro do corpo de PK com uma urgência quase violenta. Ele queria marcar PK, queria apagar qualquer vestígio de Tom daquela pele. PK, por sua vez, estava perdido em um turbilhão de confusão. Ele odiava Tord, ele realmente odiava, mas o toque do norueguês era como uma droga que ele havia passado anos tentando desmamar.

— Você ainda é meu — sussurrou Tord no ouvido de PK, sua voz grave enviando calafrios pela espinha do rapaz. — Diga. Diga que você ainda é meu.

— Eu... eu te odeio — PK respondeu, embora suas pernas estivessem entrelaçadas na cintura de Tord, puxando-o para mais perto.

A intimidade que se seguiu foi intensa e detalhada. Tord era possessivo, cada toque carregado de uma necessidade de controle que beirava a obsessão. PK se entregou ao caos, deixando que as sensações abafassem a culpa que já começava a corroer as bordas de sua mente. Naquele quarto, sob a luz neon filtrada, eles não eram vizinhos ou inimigos; eram apenas dois fragmentos de um passado quebrado tentando se encaixar à força.

Quando o silêncio finalmente retornou, o peso da realidade caiu como uma bigorna.

PK afastou-se, sentando-se na borda da cama improvisada enquanto tentava recompor suas roupas. Suas mãos tremiam violentamente.

— O que foi que eu fiz? — sussurrou ele, a voz cheia de autorrepulsa.

Tord, ainda recuperando o fôlego, estendeu a mão para tocar o ombro de PK.

— Liam...

— Não encosta em mim! — PK levantou-se de um salto, seus olhos cheios de lágrimas de raiva. — Isso não muda nada, Tord! Isso foi um erro. Um erro horrível!

— Um erro? — Tord levantou-se, a fúria voltando a mascarar sua vulnerabilidade. — Você não parecia achar que era um erro há cinco minutos!

— Eu estava bêbado de música e adrenalina! — gritou PK. — O Tom... o Tom é uma pessoa de verdade. Ele se importa comigo. E você... você só se importa em ganhar! Você usou meu passado contra mim!

— Eu não usei nada! Você quis tanto quanto eu!

— Eu vou embora — disse PK, pegando sua jaqueta no chão. — E se você contar uma palavra disso para o Tom, eu juro que explodo a sua casa com você dentro.

PK saiu do quarto sem olhar para trás, deixando Tord sozinho na penumbra vermelha. Tord socou a parede, sentindo uma dor aguda nos nós dos dedos, mas a dor no peito era muito pior. Ele tinha conseguido o que queria, e ainda assim, sentia-se mais derrotado do que nunca.

Tord chegou em casa por volta das cinco da manhã. Ele entrou na sala como um furacão, batendo a porta com força desnecessária.

— Tord? — Edd apareceu no topo da escada, esfregando os olhos, usando seu pijama verde. — Onde você estava? A gente ficou preocupado...

— Me deixa em paz, Edd! — Tord rosnou, passando por ele.

— Ei, não precisa falar assim — Matt apareceu atrás de Edd, segurando um de seus espelhos de mão. — A gente só queria saber se você estava bem. Você parece... péssimo.

— Eu disse para me deixarem em paz! — Tord virou-se para Matt, seus olhos brilhando com uma maldade súbita. — Por que você não vai cuidar da sua cara fútil e para de se meter na vida dos outros? Ninguém se importa com o que você pensa, Matt!

O rosto de Matt caiu. Seus lábios tremeram e ele baixou o espelho, os olhos brilhando com lágrimas instantâneas. Edd colocou a mão no ombro de Matt, encarando Tord com uma expressão de profunda decepção.

— Qual é o seu problema, Tord? — perguntou Edd, a voz baixa e séria.

Tord não respondeu. Ele subiu para o seu quarto e trancou a porta, sentindo-se o maior lixo do planeta. Ele sabia que tinha passado dos limites, mas a culpa pelo que fizera com PK e a traição implícita a Tom estavam transformando-o em um monstro que ele não conseguia conter.

Na casa da frente, PK estava sentado no chão do seu quarto, abraçado aos joelhos. Ofélia aproximou-se e cutucou sua mão com o nariz úmido, mas ele não reagiu.

Ele olhou para o celular. Havia uma mensagem de Tom, enviada à meia-noite: *"Espero que o set tenha sido incrível. Mal posso esperar para te ver amanhã. Durma bem, estrela."*

PK soltou um soluço sufocado. O cheiro de Tord ainda estava em sua pele, um lembrete constante da sua fraqueza. Ele gostava de Tom, ele realmente gostava. Tom era calmo, seguro, um porto seguro no meio da sua vida caótica. Mas Tord... Tord era o incêndio que ele não conseguia apagar.

— O que eu vou fazer? — sussurrou ele para o quarto vazio.

Ele deveria contar a Tom? Se contasse, perderia a única coisa boa e estável que teve em anos. Se não contasse, viveria uma mentira sob o olhar atento e vitorioso de Tord.

O clima em Durdam Lane, que antes era de uma comédia caótica, agora parecia o prelúdio de uma tragédia. E enquanto o sol nascia, iluminando as casas vizinhas, o segredo daquela noite permanecia como uma bomba-relógio, esperando apenas o momento certo para destruir tudo o que eles haviam construído.