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Eddsworld outher space

Eclipse de Vidro e Gravidade Zero

— Você não cansa de ser um hipócrita, Tord? — A voz de PK era um sussurro ríspido, abafado pelo som da chuva que batia contra o vidro do carro.

Eles estavam estacionados em um beco qualquer, a poucos quilômetros de Durdam Lane. O interior do veículo cheirava a cigarro, couro e ao perfume cítrico que PK usava para tentar esconder o rastro do norueguês em sua pele.

— Eu não chamaria de hipocrisia — Tord respondeu, encostando a cabeça no banco e soprando a fumaça de seu charuto para longe. — Eu chamaria de... manutenção de interesses. Você gosta disso tanto quanto eu, Liam. Não tente fingir que é uma vítima.

— Eu sou um lixo, isso sim — PK rebateu, cobrindo o rosto com as mãos. — O Tom me mandou uma mensagem perguntando se eu queria ir ao museu amanhã. Ao museu, Tord! Ele é genuíno. E eu estou aqui, em um carro escuro, deixando você fazer o que quer comigo.

Tord sentiu aquela pontada familiar de culpa, mas ela era rapidamente sufocada pela sensação de triunfo. Cada encontro escondido, cada toque proibido que trocavam nos últimos dias, o deixava mais leve. Era como se, ao possuir PK em segredo, ele estivesse retomando uma parte de sua própria juventude que fora roubada.

— Então pare — disse Tord, embora sua mão estivesse subindo pela coxa de PK, os dedos apertando o tecido da calça jeans. — Pare de vir quando eu chamo. Pare de me beijar de volta.

PK soltou um gemido de frustração e virou o rosto para Tord. Seus olhos bicolores estavam nublados, uma mistura de desejo e autorrepulsa.

— Eu não consigo. E você sabe disso.

O que se seguiu foi o de sempre: um conflito que virava contato físico, uma luta por dominância que terminava em respirações ofegantes e promessas de que "aquela seria a última vez". Mas nunca era.

Nos dias seguintes, o isolamento de PK tornou-se evidente. Ele parou de frequentar a casa de Edd, parou de sugerir maratonas de filmes e evitava as ligações de Tom. Tord, sentindo-se o mestre das marionetes, usava cada oportunidade para provocar o amigo.

— Sabe, Tom — disse Tord, enquanto polia uma de suas pistolas na sala de estar —, eu acho que o vizinho colorido finalmente percebeu que você é um pouco... entediante. Ele mal tem aparecido. Talvez ele tenha encontrado alguém com mais "vibe", como ele diz.

Tom, que estava afinando o baixo, nem levantou a cabeça, mas a tensão em seus ombros era visível.

— Cala a boca, Tord. Ele só está ocupado com o estúdio.

— Ocupado? — Tord soltou uma risada seca. — Ou talvez ele só tenha se cansado de fingir que gosta de ouvir você reclamar da vida enquanto bebe Smirnoff.

— Eu disse para calar a boca! — Tom levantou-se bruscamente, o baixo produzindo um som estridente. — O PK não é como você. Ele não desiste das pessoas por capricho.

A tensão estava prestes a explodir quando um envelope neon foi deslizado por debaixo da porta da frente. Edd o pegou, os olhos brilhando ao ler o conteúdo.

— É um convite! — exclamou Edd. — O PK vai dar uma festa na casa dele hoje à noite. Ele diz que é um "evento de reconciliação com a vizinhança". E todos nós estamos convidados. Até você, Tord.

Tord arqueou uma sobrancelha. PK estava tentando retomar o controle? Interessante.

A festa estava em pleno vapor quando os quatro amigos atravessaram a rua. A casa de PK parecia um organismo vivo, pulsando com luzes estroboscópicas roxas e verdes. Ofélia, a gambá gigante, circulava entre os convidados com um laço de fita no pescoço, recebendo petiscos de pessoas vestidas com roupas scene e clubber.

PK estava no centro de tudo. Ele parecia radiante, mas havia uma sombra sob seus olhos que apenas Tord conseguia identificar.

— Fico feliz que tenham vindo! — PK gritou por cima da música, abraçando Edd e Matt. Quando chegou a Tom, ele hesitou por um segundo antes de lhe dar um beijo rápido nos lábios. — Senti sua falta, Tom.

— Eu também — Tom respondeu, sua voz suavizando instantaneamente.

Tord observava do canto da sala, um copo de ponche na mão. Ele esperou por uma brecha, um momento em que Tom se afastasse para pegar uma bebida, e deslizou para trás de PK.

— Bela festa, Liam — sussurrou Tord perto do ouvido dele. — Mas sinto que você está forçando um pouco a barra. O que foi? O peso da consciência está te deixando animado demais?

PK retesou o corpo, mas não se virou.

— Vá se ferrar, Tord. Hoje não. Hoje eu sou do Tom.

— Veremos — Tord provocou, sua mão roçando deliberadamente as costas de PK antes de se afastar.

No meio da noite, PK subiu ao pequeno palco improvisado na sala. Ele pegou o microfone, os olhos fixos em Tom.

— Certo, pessoal! — PK anunciou. — Eu quero fazer algo especial. Tom, você me daria a honra de me acompanhar em uma música?

A multidão aplaudiu. Tom, surpreso, subiu ao palco e pegou uma das guitarras elétricas de PK. Eles trocaram um olhar de cumplicidade que fez o estômago de Tord revirar.

As notas iniciais de *Supermassive Black Hole* ecoaram pela casa. A voz de PK subiu em um falsete perfeito, carregado de uma energia crua que hipnotizou a todos. Tom tocava com uma precisão técnica impressionante, seus dedos deslizando pelas cordas com uma agressividade que combinava perfeitamente com a batida.

Era uma performance magnética. PK dançava ao redor de Tom, e por um momento, a conexão entre eles era tão tangível que parecia uma barreira física contra o resto do mundo. Tord sentiu a raiva borbulhar. Ele não podia deixar aquilo continuar. Ele precisava quebrar aquele encanto.

Assim que a música terminou e eles desceram do palco sob aplausos fervorosos, Tord interceptou PK perto da mesa de bebidas.

— Você acha que cantar uma música apaga o que fazemos no meu carro? — Tord disse, sua voz baixa e carregada de veneno. — Você é um ótimo ator, Liam. Quase me convenceu de que realmente ama esse alcoólatra.

— Eu o amo! — PK sibilou, os olhos marejados de fúria. — O que eu tenho com você é uma doença, Tord. E eu estou tentando me curar. Agora sai da minha frente antes que eu faça um escândalo.

PK virou as costas, mas seu coração estava disparado. Ele precisava de uma distração. Ele viu um grupo de seus antigos colegas de DJing em um canto, rodeados por garrafas de tequila e absinto. Eles estavam em meio a uma competição de "quem aguenta mais".

— Ei, PK! — um deles gritou. — Vem mostrar pra esses amadores como se faz no Canadá!

Tom, que tinha acabado de se aproximar, deu um sorriso desafiador.

— No Canadá? Eu bebo Smirnoff no café da manhã. Eu consigo vencer qualquer um aqui, inclusive o anfitrião.

PK olhou para Tom, depois para Tord, que observava de longe com um sorriso de escárnio.

— É um desafio, Thomas? — PK perguntou, um brilho perigoso surgindo em seus olhos. — Então vamos lá. Quem cair primeiro limpa a casa amanhã.

A competição foi brutal. Rodada após rodada de doses puras, a multidão ao redor gritando e incentivando. Edd e Matt tentaram intervir, mas foram ignorados. Tom e PK bebiam como se estivessem tentando afogar todos os seus problemas em álcool.

Eventualmente, a festa começou a se dissipar. As pessoas foram embora ou desmaiaram pelos sofás. Tord, frustrado por ter sido ignorado durante a competição, acabou saindo da casa mais cedo, resmungando sobre "amadores".

Tom e PK acabaram isolados no canto da varanda interna, ambos visivelmente embriagados, o mundo girando em cores neon.

— Você... — Tom começou, sua voz arrastada — ...você toca muito bem, PK.

— E você... — PK riu, tropeçando e caindo contra o peito de Tom — ...você é muito teimoso. Eu ganhei a competição.

— Ganhou nada. Eu ainda estou de pé. Mais ou menos.

Tom segurou o rosto de PK. A embriaguez removeu todas as barreiras de cinismo e dúvida que ele costumava carregar. Ele via apenas o garoto à sua frente, o garoto que o fazia sentir algo além de vazio.

— Eu gosto de você, PK — disse Tom, sua voz profunda e sincera. — De verdade.

PK sentiu as lágrimas subirem. A culpa por Tord tentou emergir, mas o álcool a sufocou. Ele queria Tom. Ele precisava da bondade de Tom para limpar a sujeira que sentia por dentro.

— Então me prova — PK sussurrou.

O beijo que se seguiu não teve nada de calmo. Foi uma explosão de necessidade reprimida. Eles se pegaram com uma força que os levou a esbarrar nas paredes, derrubando decorações enquanto subiam as escadas em direção ao quarto de PK.

Lá dentro, com a porta trancada e apenas a luz de um abajur de lava iluminando o ambiente, eles se entregaram um ao outro. Foi a primeira vez deles como um casal oficial, e a embriaguez transformou o ato em algo transcendental.

Para Tom, estar com PK era uma experiência que ele não conseguia descrever com palavras humanas. Enquanto ele se movia, sentia como se as leis da gravidade tivessem sido revogadas.

— PK... — Tom ofegou, sua testa encostada na do outro — ...é como se eu estivesse flutuando. Eu não consigo respirar direito. É como se você fosse... cósmico.

PK o puxou para mais perto, suas pernas envolvendo a cintura de Tom com força. Naquele momento, ele não era o espião alienígena Ymir, nem o ex-namorado traumatizado de Tord. Ele era apenas PK, e ele estava sendo amado por alguém que via o universo em seus olhos negros.

Enquanto o clímax os atingia, PK sentiu uma onda de energia percorrer seu corpo, algo que ele nunca sentira com Tord. Era uma conexão que transcendia o físico, algo que vibrava em uma frequência que ele nem sabia que possuía. Eles desabaram nos lençóis, exaustos e suados, o silêncio do quarto sendo preenchido apenas pelo som de suas respirações sincronizadas.

— Eu nunca... — Tom começou, tentando encontrar as palavras — ...nunca senti nada assim.

— Nem eu — PK respondeu, aninhando-se no peito de Tom. — Por favor, não me solta.

— Nunca — prometeu Tom, fechando os olhos e caindo em um sono profundo e sem sonhos.

***

Enquanto a paz reinava em Durdam Lane, a centenas de quilômetros dali, em uma instalação subterrânea de segurança máxima, o ambiente era de puro terror.

A sala de interrogatório era iluminada por luzes fluorescentes frias que zumbiam irritantemente. No centro da sala, duas figuras estavam presas a cadeiras metálicas por algemas de energia. Umbra, com seus cabelos escuros e expressão de puro ódio, e Fenhir, que parecia mais cansado do que assustado.

O General, um homem de rosto vincado e cicatrizes que contavam histórias de guerras que o público nunca saberia, caminhava lentamente ao redor deles.

— Eu vou perguntar apenas mais uma vez — disse o General, sua voz sendo um trovão baixo. — Onde estão os outros dois? Onde estão Galaczor e Ymir?

Umbra cuspiu no chão, o líquido brilhando com uma leve tonalidade arroxeada sob a luz.

— Você acha que nós somos como vocês, humanos? — Umbra sibilou. — Nós não somos traidores. Se Ymir e Galaczor estão escondidos, é porque o plano de enfraquecer este planeta patético continua. Vocês são apenas gado esperando pelo abate.

O General parou na frente de Fenhir, que mantinha o olhar fixo no chão.

— E você? — o General perguntou. — Vai manter o silêncio enquanto seus companheiros sofrem?

Fenhir deu um sorriso triste, revelando dentes levemente mais afiados que os de um humano comum.

— Nós não sabemos onde eles estão. A queda da nave causou interferência nos nossos rastreadores neurais. Ymir desapareceu logo após o impacto. Para todos os efeitos, ele pode estar morto. Ou pode estar vivendo entre vocês, esperando o sinal.

O General suspirou e virou-se para seus assistentes, que observavam atrás de um vidro reforçado.

— Eles não vão falar por vontade própria — disse o General. — E o tempo está acabando. Nossos satélites detectaram um aumento na atividade de sinal vindo de órbita. Os ARKOPS estão se aproximando.

Ele caminhou até um terminal e apertou um botão, ativando uma tela que exibia transmissões de notícias de todo o mundo.

— Se não podemos encontrar os infiltrados pelo monitoramento, faremos com que os próprios humanos os entreguem — declarou o General. — Acione o protocolo de pânico. Alerte a Organização Mundial de Saúde e os governos. Digam que há um vírus, uma anomalia genética, qualquer coisa. Exijam exames de sangue obrigatórios para cada cidadão do planeta.

— Senhor — um dos cientistas interveio —, isso causará um caos sem precedentes. As pessoas vão entrar em colapso.

— Deixe que entrem — o General respondeu, seus olhos fixos na imagem de um mapa-múndi sendo preenchido por pontos vermelhos. — Eu prefiro um mundo em caos do que um mundo conquistado. Se esses monstros estão disfarçados de vizinhos, amigos ou amantes... nós vamos arrancá-los da luz do dia.

O General olhou para Umbra e Fenhir uma última vez antes de sair da sala.

— Preparem os anúncios. Amanhã, a caçada começa. E que Deus ajude qualquer um que esteja escondendo um desses seres sob seu teto.

Naquela noite, enquanto Tom dormia abraçado a PK, sem saber que segurava em seus braços a própria definição de perigo, o mundo lá fora começava a se armar contra o desconhecido. O eclipse de vidro que protegia a identidade de Ymir estava prestes a ser estilhaçado pela força bruta da sobrevivência humana.