Eddsworld outher space
Ruído Branco e a Metamorfose do Medo
A casa de Edd nunca foi um exemplo de estabilidade, mas a manhã de terça-feira elevou o caos a um novo patamar. O que deveria ser apenas mais uma tentativa de Tord de construir um "cortador de torradas a laser" acabou atraindo a atenção de um protótipo de robô sentinela que ele havia descartado no lixo semanas atrás. O robô, movido por uma inteligência artificial vingativa e mal programada, não apenas se reativou, como decidiu que a casa da frente — a residência de PK — era uma ameaça à segurança global.
O estrondo foi ouvido em três quarteirões. Quando a fumaça baixou, a casa de PK era pouco mais que um esqueleto de madeira e tijolos, com Ofélia, a gambá, milagrosamente ilesa, mastigando um pedaço de drywall carbonizado.
— Gente, minha casa... — PK murmurou, parado na calçada, segurando apenas um sintetizador portátil e um par de fones de ouvido. — Ela fez *boom*.
— Não se preocupe, vizinho! — Edd disse, colocando a mão no ombro dele enquanto Matt tentava salvar um espelho que voou da janela. — Você pode ficar com a gente enquanto a reconstrução acontece. Temos um sofá confortável e o Tord prometeu que não vai mais deixar o lixo eletrônico ganhar consciência.
— Eu não prometi nada — Tord resmungou, embora seus olhos estivessem fixos em PK com uma intensidade que beirava a satisfação oculta.
As semanas seguintes transformaram a dinâmica da casa de Edd em um campo de minas emocional. PK e Tom agiam como o casal que o mundo não sabia que precisava, dividindo fones de ouvido e trocando beijos rápidos na cozinha. Tord, no entanto, parecia ter perdido qualquer senso de sutileza. Ele agora lançava investidas diretas, sentando-se propositalmente perto de PK durante os filmes e fazendo comentários de duplo sentido que faziam Tom rosnar.
A paz, se é que se podia chamar assim, foi estilhaçada durante o jantar. A televisão estava ligada em um canal de notícias quando um gráfico vermelho e austero ocupou a tela.
— "Atenção, cidadãos" — a âncora anunciou com uma voz desprovida de emoção. — "O Governo Mundial acaba de instaurar o Protocolo de Identidade Biológica. Devido à confirmação de infiltrados de origem não identificada em nossa sociedade, todos os residentes devem se apresentar aos postos de saúde para exames de sangue obrigatórios. A recusa ou a falsificação de resultados resultará em detenção imediata."
PK sentiu um frio súbito atravessar sua espinha. Não era apenas o medo do governo; era uma sensação física, como se suas veias estivessem sendo preenchidas com nitrogênio líquido. Ele sentiu uma pressão insuportável no peito, um zumbido que começou atrás de seus olhos e se espalhou para fora.
— Que bobagem — Tom disse, pegando o controle remoto. — Outra paranoia política para distrair a gente do preço da Smirnoff.
Ele apertou o botão para desligar, mas a TV não obedeceu. Em vez disso, a imagem da âncora começou a se distorcer. O som transformou-se em uma estática ensurdecedora, um ruído branco que parecia vibrar em sintonia com a respiração ofegante de PK.
— Ei, o que está acontecendo? — Edd perguntou, levantando-se.
Tom puxou o cabo da tomada com força, mas a tela continuou acesa, brilhando com uma estática roxa e furiosa. PK estava paralisado, suas mãos agarrando a borda da mesa. Pequenas faíscas azuis saltavam de seus dedos para a madeira.
— PK? Você está bem? — Matt perguntou, preocupado.
No segundo seguinte, a TV explodiu silenciosamente em uma nuvem de vidro e luz, e a energia da casa caiu por completo. PK soltou o ar que nem sabia que estava segurando, e a luz voltou gradualmente.
— Lei de Murphy — PK sussurrou, sua voz trêmula. — Minha azar é tão grande que afeta a rede elétrica. Desculpem.
O clima ficou pesado. No dia seguinte, todos foram ao posto de saúde. O exame foi rápido, uma picada de agulha que deixou PK tonto. O resultado sairia em duas semanas.
Para tentar aliviar a tensão, Edd e Matt decidiram que precisavam de uma "noite de garotos" em um restaurante chique do outro lado da cidade, deixando Tom, Tord e PK sozinhos na casa.
— Vão lá, divirtam-se — Tom disse, empurrando Edd para fora da porta. — Nós vamos ficar bem.
Assim que a porta se fechou, o ar na sala mudou. Tord foi o primeiro a se mover, jogando-se no sofá com uma elegância predatória.
— Então — Tord começou, olhando para PK, que estava sentado entre ele e Tom —, agora que os "pais" saíram, o que vamos fazer para passar o tempo? Eu tenho algumas ideias que não envolvem exames de sangue.
— Eu estava pensando em um filme — Tom interveio, passando o braço pelos ombros de PK, reivindicando seu território. — Algo calmo.
— Calmo é para velhos, Thomas — Tord provocou, inclinando-se para frente e tocando deliberadamente o joelho de PK. — PK gosta de emoção. Não é, Liam? Você sempre gostou do perigo.
PK olhou de um para o outro. No fundo, uma parte caótica de sua mente estava adorando aquilo. Ver os dois homens mais perigosos e complicados que conhecia lutando por sua atenção era um combustível inebriante. Ele imaginou, por um segundo fugaz, como seria se não precisasse escolher. Um trisal? A ideia o fez corar furiosamente, mas ele a guardou para si.
— Vamos apenas ver um filme de ação — PK sugeriu, tentando manter a voz firme.
Eles se acomodaram. Tom à esquerda, Tord à direita. Durante o filme, a guerra de afeto tornou-se física. Tom segurava a mão de PK, polegar acariciando os nós de seus dedos. Tord, do outro lado, passava o braço por trás do pescoço de PK, seus dedos brincando com as mechas coloridas do cabelo do rapaz, descendo ocasionalmente para a nuca.
— Você está tenso, Liam — Tord sussurrou, sua voz vibrando contra o ouvido de PK. — Precisa relaxar.
— Ele está bem, Tord — Tom rebateu, apertando a mão de PK. — Deixe-o em paz.
— Eu não estou fazendo nada que ele não queira — Tord sorriu, aproximando o rosto do de PK.
PK sentiu a pressão aumentar novamente. O medo do exame, a confusão sobre seus sentimentos e a sobrecarga sensorial daquela proximidade dupla fizeram algo dentro dele estalar. Ele sentiu uma descarga elétrica percorrer seus braços.
*BUM.*
A lâmpada da sala estourou, lançando cacos de vidro sobre o tapete e mergulhando o cômodo em um breu absoluto.
— Mas que droga! — Tom gritou. — Como isso aconteceu? A fiação desta casa está possuída?
— Eu disse que minha sorte é um desastre — PK disse na escuridão, sua voz soando estranhamente distante. — Lei de Murphy, gente. Sério.
— Acho que é um sinal para irmos dormir — Tord disse, sua voz soando estranhamente satisfeita no escuro.
Eles se despediram com uma tensão que poderia ser cortada com uma faca. PK correu para o banheiro, precisando de água fria no rosto. Ele trancou a porta e apoiou as mãos na pia, ofegante.
— Calma, Liam. É só o estresse. É só a pressão — ele murmurou para si mesmo.
Ele levantou o olhar para o espelho e o grito ficou preso em sua garganta.
Sua pele, antes pálida, estava assumindo um tom esverdeado doentio e vibrante. Seus olhos heterocromáticos haviam desaparecido, substituídos por duas orbes completamente negras, profundas como o vácuo do espaço. Seu cabelo, tingido de cores scene, agora brilhava em um azul neon natural, e duas antenas finas e trêmulas brotavam de seu couro cabeludo.
— Não, não, não... — ele soluçou, olhando para suas mãos.
A pele de seus dedos começou a se esticar e derreter, transformando-se em tentáculos escuros e viscosos que chicoteavam o ar involuntariamente. Ele tropeçou para trás, derrubando os frascos de xampu.
— PK? — A voz de Tom veio do outro lado da porta, acompanhada por batidas fortes. — Está tudo bem aí dentro? Ouvimos um barulho.
— PK, abra a porta — Tord ordenou, sua voz séria.
— Eu... eu estou bem! — PK gritou, sua voz soando distorcida, como se houvesse duas frequências falando ao mesmo tempo. — Eu só... eu caí! Não entrem! Estou sem roupa!
— Você está bem mesmo? — Tom perguntou, a preocupação evidente.
— Sim! Só me deem um minuto! — PK respondeu, encostando-se na porta, sentindo seu corpo lutar para manter a forma humana.
Enquanto ele fechava os olhos com força, flashes de memória começaram a perfurar sua mente como agulhas quentes.
Ele viu uma nave em chamas cruzando a atmosfera terrestre. Viu o rosto gélido e imponente do Imperador ARKOPS, sua voz ecoando em sua consciência: *"Ymir, você é a nossa vanguarda. Enfraqueça-os. Estude-os. Prepare o caminho para a conquista."*
Ele viu Galaczor, Umbra e Fenhir. Lembrou-se do riso deles enquanto planejavam a destruição de mundos. Ele não era Liam Peekers. Ele era Ymir, um conquistador de mundos, uma arma biológica mandada para destruir as pessoas que agora chamava de amigos.
— Não... — ele sussurrou, as lágrimas negras escorrendo por suas bochechas verdes. — Eu não sou isso.
Com um esforço de vontade hercúleo, ele visualizou sua forma humana. Sentiu a dor agonizante de seus ossos se quebrando e se realinhando, seus tentáculos recuando para se tornarem dedos novamente, suas antenas murchando para dentro do crânio.
Ele abriu o chuveiro, deixando a água quente lavar o suor e o medo. Quando saiu, olhou-se no espelho. Ele parecia humano novamente, mas sabia que era uma máscara frágil. O exame de sangue... o governo... tudo daria errado em duas semanas.
Ele saiu do banheiro e encontrou Tom esperando no corredor. Tord já havia se retirado, provavelmente para planejar algo em seu quarto. Tom o envolveu em um abraço apertado.
— Você está pálido, estrela — Tom disse, beijando sua testa.
Eles foram para o quarto de Tom. Deitados na cama, PK se aninhou contra o peito de Tom, ouvindo as batidas rítmicas do coração humano dele. Era um som tão frágil, tão mortal.
— Tom? — PK chamou no escuro.
— Sim?
— Eu te amo muito — PK disse, sua voz embargada. — Eu amo o Edd, o Matt... até o Tord, de um jeito estranho. Eu nunca faria nada para machucar vocês. Juro. Não importa o que aconteça, lembre-se disso.
Tom estranhou o tom de despedida, o peso daquelas palavras, mas atribuiu ao estresse da explosão da casa e do anúncio do governo.
— Eu sei, PK. Eu também te amo. Agora durma. Está tudo bem.
PK fechou os olhos, mas o sono não trouxe paz. Em seus sonhos, ele não via o céu azul da Terra, mas o brilho frio das estrelas distantes e o som de uma frota de invasão que ele sabia, no fundo de sua alma alienígena, que estava a caminho. E ele era o único que poderia detê-la, ou ser o motivo de sua vitória.