Encontro?!!
O Pequeno Rebento de Sangue e a Redenção do Lorde Vermelho
O castelo de gelo de Guy Crimson, outrora um monumento ao silêncio gélido e ao terror absoluto, havia se transformado em algo que nenhum demônio primordial ousaria prever em seus pesadelos mais febris: uma creche de luxo. Desde que Rimuru encontrara a pequena Camille na floresta, a rotina do governante do Norte fora virada do avesso.
A pequena demônio de cabelos vermelhos e olhos amarelos não era apenas uma protegida; ela era o centro gravitacional de duas das entidades mais poderosas do mundo. E naquele dia, Rimuru decidira que Camille precisava de um novo guarda-roupa.
— Guy, olhe para isto! — exclamou Rimuru, girando Camille diante de um espelho de cristal. — Ela não parece uma absoluta princesa?
Camille usava um vestido de veludo carmesim com babados de renda branca que combinavam perfeitamente com o tom de seus cabelos. Rimuru, em sua forma feminina, usava um vestido de seda azul que realçava suas curvas e sua pele alva, parecendo a figura materna perfeita.
Guy, sentado em seu trono com uma expressão que oscilava entre o orgulho e o cansaço, observava a cena. Camille fez uma pequena reverência desajeitada para ele e soltou um som de satisfação, embora continuasse muda.
— Ela parece uma versão minúscula e irritante de mim — comentou Guy, embora seus olhos vermelhos brilhassem com uma afeição óbvia. — Mas por que ela precisa de dez vestidos diferentes por dia?
— Porque é um desfile, Guy! — Rimuru colocou as mãos nos quadris, lançando um olhar severo ao Lorde Vermelho. — Camille precisa aprender sobre estilo. Agora, pare de reclamar e venha aqui. Ela quer que você segure a mão dela para a "caminhada real".
Guy soltou um suspiro profundo, mas levantou-se. O mediador do mundo, o ser que decidia o destino das nações, caminhou até a pequena órfã e estendeu o dedo indicador. Camille agarrou-o com sua mãozinha minúscula e começou a caminhar orgulhosamente pelo salão do trono, enquanto Rimuru aplaudia.
— Você está mimando demais essa criança, Rimuru — murmurou Guy, embora estivesse ajustando o passo para que a menina não tropeçasse.
— E você é quem compra as bonecas de platina para ela, então não venha falar de mim — rebateu Rimuru com um sorriso vitorioso.
A paz doméstica, no entanto, foi interrompida pelas obrigações políticas. Uma reunião de emergência com os generais demônios e alguns representantes das terras vizinhas fora convocada. Guy tentou deixar Camille com Rain e Misery, mas a menina agarrou-se à sua perna com uma força surpreendente para o seu tamanho, os olhos amarelos transbordando lágrimas.
— Ela quer atenção, Guy — disse Rimuru, pegando a menina no colo. — Vamos levá-la.
— Uma reunião de guerra com uma criança? — Guy arqueou uma sobrancelha.
— Se alguém reclamar, eu pessoalmente os transformo em picolé — Rimuru declarou, e Guy soube que ele não estava brincando.
A sala de reuniões estava tensa. Generais de armaduras pesadas e demônios de alta classe aguardavam o Lorde Vermelho. Quando as portas se abriram, a visão que os recebeu foi surreal. Guy Crimson sentou-se na cabeceira da mesa, mas em vez de mapas de guerra, ele colocou diante de si um conjunto de papéis de desenho e gizes de cera mágicos.
Camille foi instalada confortavelmente no colo de Guy.
— Podem começar o relatório — ordenou Guy, sua voz fria e autoritária, enquanto simultaneamente ajudava Camille a escolher entre o giz de cera verde e o roxo.
— Milorde — começou um general, hesitante —, as fronteiras do oeste estão...
— Espere — interrompeu Guy, pegando o giz da mão de Camille. — Não, pequena, o dragão deve ser vermelho, como eu. Veja.
O general parou, boquiaberto. Guy estava desenhando um dragão estilizado enquanto o relatório sobre possíveis invasões era lido. Rimuru, sentado ao lado, servia pequenos pedaços de fruta na boca de Camille, que mastigava feliz enquanto observava o "papai Guy" desenhar.
A reunião progrediu de forma bizarra. Sempre que um assunto ficava sério demais e Camille soltava um resmungo de tédio, Guy parava a discussão para brincar de "cadê o demônio?" escondendo o rosto atrás da capa, para o deleite da menina.
— Guy, dê limites a ela — sussurrou Rimuru, quando Camille tentou pegar a coroa de Guy para usar como tigela para seus doces.
— Ela só quer brincar, Rimuru — defendeu Guy, entregando a coroa para a menina sem um pingo de hesitação.
Os generais trocaram olhares de puro pânico. O Lorde Vermelho fora completamente domado por um Slime e uma criança muda.
A tarde avançou e Camille acabou adormecendo no colo de Guy durante a discussão sobre impostos. Após a reunião, Rimuru levou-a para o quarto, mas algumas horas depois, a pequena acordou assustada. Não encontrando seus pais, ela vagou pelo castelo, seus passos pequenos ecoando nos corredores de gelo, até encontrar o salão onde Guy e Rimuru estavam finalizando alguns assuntos com Rain e Misery.
Camille correu para Rimuru, estendendo os braços com um olhar de fome.
— Ah, minha querida, você acordou — disse Rimuru, sentando-se em um sofá próximo.
Sem qualquer cerimônia, Camille começou a puxar a blusa de Rimuru. Ela precisava de sustento, e o leite mágico que Rimuru providenciava era a única coisa que a acalmava completamente.
Rimuru abriu os botões superiores, preparando-se para amamentar. Guy, percebendo que Rain e alguns guardas ainda estavam na sala, sentiu uma onda súbita de ciúmes possessivo.
— Saiam! Todos vocês! — rugiu Guy, levantando-se e posicionando-se estrategicamente na frente de Rimuru e Camille para bloquear a visão de qualquer um.
— Guy, eles já viram isso antes — disse Rimuru, enquanto Camille se acoplava e começava a mamar com avidez.
— Não me importa. Ninguém olha para você assim, exceto eu — Guy rosnou, mantendo as costas voltadas para os subordinados que fugiam da sala como se suas vidas dependessem disso.
Guy permaneceu ali, como uma barreira intransponível, até que Camille terminou. A menina, agora com a barriga cheia e o rosto relaxado, soltou um longo bocejo. Ela estendeu os braços para Guy, que a pegou com uma facilidade treinada.
Camille aninhou-se no pescoço de Guy, enrolando uma mecha do longo cabelo vermelho do demônio em seus dedos pequenos. Com a outra mão, ela colocou o polegar na boca — um hábito que Rimuru estava tentando substituir por uma chupeta de cristal que Camille às vezes usava.
— Ela já dormiu? — perguntou Rimuru, ajustando suas roupas e aproximando-se.
— Quase — murmurou Guy, sentando-se no sofá com a menina ainda grudada em seu peito. — Ela não solta meu cabelo.
— Ela gosta do seu cheiro — Rimuru sorriu, sentando-se ao lado deles e apoiando a cabeça no ombro de Guy. — Você sabe que ela vai ser tão teimosa quanto você, não sabe?
— Se ela for metade tão problemática quanto você, o mundo estará em apuros — rebateu Guy, mas ele inclinou a cabeça para beijar a testa de Camille e depois a de Rimuru.
O silêncio caiu sobre o salão. O grande Lorde Demônio Primordial e o governante da Federação Jura Tempest estavam ali, em um momento de paz doméstica que desafiava toda a lógica de suas existências. Camille soltou o polegar da boca e, em um movimento reflexo, agarrou a mão de Rimuru, unindo os três em um círculo fechado.
— Sabe, Guy — começou Rimuru suavemente —, eu nunca imaginei que você seria um pai tão bom.
— Eu não sou um pai — Guy insistiu, embora estivesse balançando levemente para manter o sono da menina. — Eu sou apenas o guardião de um investimento futuro.
Rimuru riu baixo, sabendo que era mentira. Ele vira Guy ameaçar apagar a existência de um demônio apenas porque ele falara alto demais perto de onde Camille tirava sua soneca.
— Claro, Lorde Vermelho. O que você disser.
Eles ficaram ali por um longo tempo, observando a neve cair lá fora. Camille era o elo que faltava, o pequeno rebento de sangue e magia que transformara uma aliança política em uma família. E enquanto a pequena princesa do gelo dormia nos braços do ser mais perigoso do mundo, Rimuru soube que, não importa quais mistérios ou perigos os aguardassem, eles os enfrentariam juntos.
— Guy? — chamou Rimuru.
— Sim?
— Ela precisa de um pônei. Um pônei de fogo.
Guy soltou um suspiro exasperado, mas Rimuru viu o brilho de planejamento em seus olhos.
— Vou mandar Rain buscar um no reino espiritual amanhã — cedeu Guy.
— Bom garoto — Rimuru sorriu, fechando os olhos e entregando-se ao calor daquela família improvável no coração do Norte.