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Encontro

O Pacto de Marfim e Sangue

A luz do amanhecer começava a lamber as bordas das pesadas cortinas de veludo carmesim, mas dentro do quarto real, o tempo parecia ter estagnado em uma névoa de exaustão e luxúria. Lana estava desperta, observando o peito de Ana subir e descer. A loba dormia com a guarda baixa, uma visão que poucos no mundo teriam o privilégio — ou a sobrevivência — de presenciar. As orelhas de Ana se mexiam ocasionalmente, captando sons distantes do despertar do castelo, enquanto sua cauda repousava pesadamente sobre as pernas de Lana.

Lana deslizou os dedos pela cicatriz que cruzava o ombro de Ana, uma marca de prata que ela mesma havia causado em uma escaramuça meses atrás, antes de tudo isso começar. O ódio ainda latejava em algum lugar profundo, uma herança de sangue que exigia a morte daquela criatura, mas o calor que emanava de Ana era o único antídoto para o frio eterno que corria nas veias da princesa vampira.

— Você olha para mim como se estivesse decidindo entre me beijar ou cravar uma adaga no meu coração — a voz de Ana surgiu rouca, abafada pelo travesseiro, sem que ela abrisse os olhos.

Lana não recuou. Ela inclinou-se, deixando seus cabelos negros caírem sobre o rosto da loba.

— Talvez eu esteja fazendo as duas coisas mentalmente, vira-lata. Você ronca. Sabia disso? É irritante.

Ana abriu um dos olhos, o âmbar brilhando com uma diversão preguiçosa. Ela envolveu o pulso de Lana com uma mão forte e a puxou para baixo, forçando a vampira a deitar-se novamente contra seu peito quente.

— Eu não ronco. Eu rosno. Há uma diferença técnica — Ana bocejou, revelando dentes que poderiam esmagar ossos, mas que agora apenas roçavam a bochecha de Lana com uma delicadeza possessiva. — O sol está nascendo. Você deveria estar em um caixão ou algo assim, não?

— Eu sou a realeza, Ana. Temos joias encantadas e janelas protegidas para evitar o inconveniente da combustão espontânea — Lana respondeu, embora se aconchegasse mais ao calor da outra. — Mas você... você precisa ir. Se os guardas fizerem a troca de turno e encontrarem uma guerreira lobo na minha cama, nem a minha autoridade vai impedir uma execução pública.

O clima de descontração evaporou instantaneamente. Ana sentou-se na cama, a musculatura das costas se tensionando, revelando os arranhões profundos que Lana havia deixado na noite anterior. Ela olhou para as roupas rasgadas no chão, um lembrete da fúria e do desejo que as consumira.

— Onde eu vou? — perguntou Ana, a voz subitamente séria. — Meu Rei me marcou como traidora. Se eu voltar para a fronteira, serei caçada pelos meus próprios irmãos.

Lana sentiu um aperto desconfortável no peito, algo que ela se recusava a chamar de compaixão. Ela se levantou, caminhando nua até um móvel de ébano, onde pegou uma adaga de punho adornado e um pequeno frasco de vidro.

— Existe um lugar — disse Lana, voltando-se para Ana. — Nas Montanhas do Sussurro. Há um monastério abandonado que fica em território neutro. Meus batedores usam o local para observar as rotas de comércio. Vá para lá. Eu enviarei suprimentos e... sangue.

Ana soltou um riso amargo, levantando-se e começando a se vestir com o que restava de seu traje de couro.

— Sangue? Você acha que eu vou viver como uma de vocês? Escondida em buracos e bebendo de frascos?

Lana aproximou-se, a diferença de altura tornando a cena quase teatral. Ela segurou o queixo de Ana, forçando-a a olhar em seus olhos vermelhos.

— Eu estou tentando salvar sua vida, sua estúpida! — sibilou a princesa. — O mundo lá fora quer nossas cabeças em estacas. Se você ficar aqui, morre. Se voltar para os lobos, morre. No monastério, você vive. E eu posso te encontrar.

Ana parou. O silêncio entre elas era denso, carregado de uma história de séculos de guerra que elas haviam traído em uma única noite de lua cheia.

— Por que você se importa tanto, Lana? — Ana perguntou, a voz baixa, quase um sussurro. — Nós nos odiamos. Você disse que eu cheirava a cachorro molhado ontem à noite.

Lana desviou o olhar por um segundo, as unhas cravando-se nas palmas das mãos.

— Porque ninguém mais me faz sentir como se eu estivesse viva — admitiu Lana, a voz falhando por um milímetro. — Viktor é um cadáver político. Meu pai é um tirano milenar. Mas você... você é fogo. E eu passei séculos no gelo.

Ana deu um passo à frente, envolvendo Lana em um abraço que não tinha nada de selvagem e tudo de desesperado. Ela enterrou o rosto no pescoço da vampira, inalando o cheiro de rosas e perigo pela última vez antes da partida.

— Se eu for para as montanhas — disse Ana contra a pele de Lana —, você virá? Não como uma princesa enviando esmolas, mas como a mulher que me mordeu até eu perder o juízo?

Lana sorriu, um sorriso cruel e belo.

— Eu vou caçar você, Ana. Como sempre fiz. Mas desta vez, o prêmio não será sua cabeça.

O momento foi interrompido por batidas pesadas na porta do quarto.

— Princesa Lana? — a voz de um guarda ecoou pelo corredor. — O Rei solicita sua presença imediata no Grande Salão. O Príncipe Viktor afirmou ter sido insultado por um de seus servos.

Lana e Ana trocaram um olhar de puro pânico controlado.

— Vá — sussurrou Lana, apontando para a sacada. — Agora!

Ana recolheu suas botas e sua espada, movendo-se com a agilidade silenciosa de um predador. Ela parou no parapeito, o vento da manhã agitando suas orelhas de lobo. Ela olhou para trás, para a pequena vampira que havia virado seu mundo do avesso.

— Não demore, sanguessuga — disse Ana, antes de saltar para a escuridão das trepadeiras que cobriam a torre.

Lana respirou fundo, limpando qualquer rastro de emoção do rosto. Ela vestiu um robe de seda preta, ajeitou o cabelo e caminhou até a porta. Ao abrir, o guarda recuou, intimidado pela aura de frieza que a princesa emanava.

— Diga ao Príncipe Viktor que se ele se sentiu insultado, é porque provavelmente mereceu — disse Lana, passando pelo guarda com a cabeça erguida. — E diga ao meu pai que estarei lá em um momento. Tenho uma "caçada" para organizar.

Enquanto caminhava pelos corredores de pedra, Lana sentia a marca no seu próprio ombro — o lugar onde Ana a havia mordido — arder sob o tecido. Era uma dor doce. Uma promessa.

Nas semanas que se seguiram, a tensão entre os reinos atingiu o ponto de ruptura. Rumores de uma "guerreira renegada" e de uma "princesa dissidente" começaram a circular pelas tabernas da fronteira. Mas, nas Montanhas do Sussurro, longe dos olhos de reis e alfas, uma fogueira queimava todas as noites.

Ana esperava. Ela caçava cervos durante o dia e uivava para a lua durante a noite, um som que não era mais de guerra, mas de chamado. E, em uma noite sem lua, quando a escuridão era absoluta, uma sombra líquida atravessou os portões do monastério abandonado.

Lana apareceu entre as colunas em ruínas, a capa de viagem suja de barro, mas os olhos brilhando com a mesma fome de sempre.

— Você demorou — disse Ana, levantando-se de perto da fogueira, a cauda balançando em um ritmo frenético que ela não conseguia esconder.

— Tive que matar três batedores de Viktor que decidiram me seguir — Lana respondeu, jogando uma bolsa de couro no chão. — E tive que roubar o melhor vinho da adega do meu pai.

Ana aproximou-se, a altura imponente fazendo sombra sobre Lana, mas desta vez não havia muros entre elas. Não havia disfarces, não havia tratados de paz.

— Você fede a cavalo e suor — zombou Lana, embora suas mãos já estivessem buscando o pescoço de Ana.

— E você continua pequena e arrogante — rebateu Ana, puxando a vampira para um beijo que cheirava a reencontro e a uma promessa de caos.

Ali, naquele lugar esquecido por Deus e pelos homens, o ódio era apenas o tempero de uma paixão que ameaçava queimar os dois reinos. Elas eram as traidoras de suas raças, as párias de seus povos, mas enquanto estivessem juntas sob o céu estrelado, elas eram as únicas criaturas verdadeiramente livres em um mundo de correntes.

— O que faremos agora? — perguntou Ana, entre beijos, enquanto carregava Lana para o manto estendido junto ao fogo.

— O que vampiros e lobos fazem de melhor, minha cara Ana — sussurrou Lana no ouvido da loba, as presas roçando o lóbulo da orelha dela. — Vamos sobreviver. E vamos fazer este mundo queimar se tentarem nos separar.

A fogueira estalou, lançando faíscas para o céu, enquanto o monastério tornava-se o santuário de uma união proibida, onde o sangue e o luar se fundiam em uma única e indomável vontade.