Encontro
Eclipse de Sangue e Cinzas
O vento uivava através das frestas das colunas jônicas do monastério, mas o som mais alto ali dentro era o da carne colidindo contra a carne. Lana estava prensada contra uma parede de pedra fria, suas pernas entrelaçadas na cintura de Ana, cujas mãos grandes e calejadas apertavam suas coxas com uma força que deixaria marcas roxas por dias. A princesa vampira não se importava; na verdade, ela cravava suas unhas de ébano nos ombros da loba, puxando-a para mais perto, querendo fundir o frio de sua pele com o incêndio que era o corpo de Ana.
— Você demorou três ciclos lunares, Lana — rosnou Ana entre beijos vorazes que desciam pelo pescoço da vampira. — Eu quase fui caçar você no seu próprio trono.
— Tente fazer isso e verá como meu pai decora as muralhas com cabeças de lobo — rebateu Lana, a voz falhando quando a língua áspera de Ana encontrou o ponto sensível logo abaixo de sua orelha. — Eu tive que despistar os espiões de Viktor. Aquele verme colocou rastreadores de sangue em todas as saídas secretas do castelo.
Ana parou por um segundo, afastando-se apenas o suficiente para olhar nos olhos vermelhos de Lana. O brilho âmbar da loba estava turvo de desejo, mas a inteligência tática de uma guerreira ainda estava lá.
— Ele suspeita? — perguntou Ana, a respiração quente batendo no rosto de Lana.
— Ele sabe que eu não estou mais interessada nos banquetes de sangue puro — Lana deu um sorriso de lado, revelando as presas. — Ele acha que eu tenho um amante humano. Mal sabe ele que estou me deitando com uma fera que poderia arrancar o braço dele com uma mordida.
Ana soltou um riso gutural e carregou Lana para o centro do salão em ruínas, onde um tapete de peles e mantas roubadas formava um ninho improvisado. Ela jogou a princesa sobre as peles com uma brutalidade que faria qualquer nobre desmaiar, mas Lana apenas se espreguiçou como um gato, os olhos desafiadores.
— Mostre-me o que você aprendeu na solidão dessas montanhas, Ana — provocou Lana, desfazendo os laços de seu corpete de viagem. — Ou será que a vida selvagem te deixou lenta?
A loba não respondeu com palavras. Ela se livrou de sua túnica de couro em um movimento único, revelando o corpo esculpido por anos de guerra e semanas de sobrevivência brutal. As cicatrizes em sua pele pareciam brilhar sob a luz das estrelas que filtravam pelo teto desabado. Ana ajoelhou-se entre as pernas de Lana, suas orelhas de lobo movendo-se para trás, um sinal de dominância absoluta.
— Eu aprendi que o ódio e a fome são a mesma coisa quando se trata de você — disse Ana, sua voz vibrando como um trovão baixo.
Ela mergulhou, capturando os lábios de Lana em um beijo que tinha gosto de vinho roubado e urgência. As mãos de Ana exploravam o corpo da vampira com uma possessividade que não admitia resistência. Ela conhecia cada curva dos 1,60m de Lana, cada centímetro de pele retinta que parecia absorver a luz ao redor. Quando a mão de Ana desceu para a intimidade de Lana, a vampira soltou um grito que ecoou pelas montanhas, arqueando as costas e cravando os dentes no ombro da loba.
— Mais... — implorou Lana, a voz transformada em um sussurro rouco. — Não ouse parar agora, sua vira-lata.
O encontro era uma sinfonia de contrastes. O frio sobrenatural de Lana contra o calor febril de Ana. A precisão cirúrgica dos movimentos da vampira contra a força bruta e instintiva da lobisomem. Ana a usava com uma fome que parecia querer consumir a própria alma da princesa. Ela virou o corpo de Lana, deixando-a de quatro sobre as peles, e segurou seus cabelos negros com força, puxando sua cabeça para trás.
— Olhe para o que você se tornou, princesa — sussurrou Ana no ouvido de Lana, enquanto seus quadris batiam contra os dela em um ritmo implacável. — Gemendo como uma cadela no cio para a inimiga do seu povo. O que seu pai diria se visse você agora?
— Ele diria... que eu finalmente encontrei algo que vale a pena matar — ofegou Lana, sentindo o prazer subir por sua espinha como eletricidade. — E eu vou matar qualquer um que tente tirar isso de mim. Inclusive você, se parar antes de eu terminar.
Ana riu, um som selvagem e livre. Ela aumentou o ritmo, suas garras arranhando levemente as costas de Lana, deixando trilhas de fogo na pele escura. O êxtase era tão intenso que as barreiras entre as espécies pareciam desmoronar. Naquele momento, não havia realeza nem exílio, apenas a necessidade visceral de duas predadoras que encontraram seu par perfeito no caos.
Quando o clímax as atingiu, foi como se o monastério tivesse sido atingido por um raio. Lana gritou o nome de Ana para a abóbada celeste, suas unhas rasgando a pele das costas da loba, enquanto Ana rugia contra a nuca da princesa, o corpo tremendo em espasmos que pareciam nunca acabar.
Minutos depois, elas jaziam entrelaçadas, o suor esfriando rapidamente no ar da montanha. A cauda de Ana envolvia a cintura de Lana de forma protetora, enquanto a vampira descansava a cabeça no peito da loba, ouvindo o coração acelerado que aos poucos voltava ao normal.
— Você não pode ficar aqui para sempre, Ana — murmurou Lana, quebrando o silêncio. — Viktor enviou batedores para o norte. É questão de tempo até encontrarem este lugar.
Ana suspirou, acariciando os cabelos de Lana com uma delicadeza que guardava apenas para aqueles momentos.
— Eu sei. O cheiro de sangue fresco e magia está ficando forte demais nestas ruínas. Mas para onde eu iria? Eu sou uma traidora para os meus e um monstro para os seus.
Lana sentou-se, cobrindo-se com uma das mantas, sua expressão tornando-se a da princesa estrategista que fora treinada para ser.
— Existe uma terra além do Mar de Névoa — começou Lana, olhando para o horizonte. — Onde as raças se misturam sem reis ou leis ancestrais. É perigoso, cheio de piratas e feras que nem nós conhecemos.
— Você está sugerindo que a herdeira do trono de vampiros fuja para o mar com uma loba foragida? — Ana sentou-se ao lado dela, um sorriso cínico brincando em seus lábios. — Isso soa como um suicídio muito romântico, Lana.
— Eu prefiro morrer lutando contra monstros marinhos ao seu lado do que passar o resto da eternidade casada com Viktor e bebendo sangue de taças de ouro — Lana virou-se para ela, a seriedade em seus olhos vermelhos era absoluta. — Eu já comecei a desviar ouro do tesouro real. Tenho um navio sendo preparado no Porto das Sombras.
Ana ficou em silêncio por um longo tempo, processando a magnitude do que Lana estava propondo. Deixar tudo para trás. A floresta, a alcateia, a guerra que definira suas vidas.
— Por que eu? — perguntou Ana. — Você poderia ter qualquer um. Poderia governar sozinha. Por que arriscar tudo por uma guerreira que você deveria odiar?
Lana estendeu a mão e tocou a cicatriz no pescoço de Ana, o lugar onde suas presas haviam deixado uma marca permanente.
— Porque você é a única que me olha e não vê uma coroa ou um monstro — respondeu Lana em voz baixa. — Você vê a Lana. E eu... eu vejo a Ana. Não a guerreira dos lobos, mas a mulher que me faz querer que o sol nunca nasça, só para que a noite dure para sempre.
Ana segurou a mão de Lana e a beijou, a ponta de sua língua roçando os nós dos dedos da vampira.
— Então que o mundo queime — disse Ana. — Eu vou com você. Até o fim do mar ou até o fim da minha vida.
— Ótimo — Lana sorriu, recuperando sua arrogância habitual. — Mas antes de partirmos, eu quero que você faça aquilo de novo. Com os dentes.
Ana soltou um rosnado de aprovação e puxou Lana de volta para as peles.
— Seus desejos são ordens, Alteza.
A noite continuou, mas agora não era apenas sobre o desejo reprimido de inimigas. Era sobre o pacto de duas fugitivas que decidiram que o amor era a única rebelião que restava em um mundo de ódio. Enquanto a lua se punha atrás das montanhas, as sombras do monastério guardavam o segredo de que, às vezes, o sangue e o luar não precisam lutar; eles podem simplesmente dançar juntos nas cinzas do passado.