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Encontro

O Horizonte de Pólvora e Sal

O Porto das Sombras fazia jus ao nome. Escondido entre falésias escarpadas que cortavam o Mar de Névoa como dentes de um gigante, o local era um refúgio para o que havia de pior — e mais livre — no mundo. O ar cheirava a peixe podre, piche e à maresia cortante que parecia querer corroer até a alma.

Lana caminhava pelo cais de madeira rangente com a confiança de quem ainda possuía o mundo, apesar de estar vestida com trapos de couro e uma capa de viagem gasta que ocultava seu rosto. Ao seu lado, Ana era uma presença imponente, uma sombra de 1,78m que fazia os piratas e mercenários mais embrutecidos desviarem o caminho. A loba usava um capuz profundo para esconder as orelhas, mas sua cauda, inquieta sob a túnica, batia contra suas panturrilhas, denunciando sua tensão.

— Eu odeio este lugar, Lana — rosnou Ana, a voz baixa e vibrante. — O cheiro de tanta gente amontoada me dá náuseas. E o mar... o mar parece um monstro esperando para nos engolir.

Lana parou diante de um brigue de dois mastros, uma embarcação negra e veloz chamada *A Heresia*. Ela se virou para a loba, um sorriso felino brincando em seus lábios.

— O mar é o único lugar onde o meu pai não pode enviar cavalaria, Ana. E onde o seu Rei não pode rastrear suas pegadas. — Ela estendeu a mão, tocando o braço musculoso da companheira. — Aguente mais um pouco. Assim que subirmos a bordo, seremos apenas nós e o horizonte.

— E os canhões — interrompeu uma voz vinda do convés.

Um homem de pele curtida pelo sol e olhos injetados de rum desceu a prancha. Era o Capitão Silas, um humano que não temia nem Deus, nem demônios, desde que o ouro fosse legítimo.

— A carga está pronta, princesa? — perguntou ele, olhando de soslaio para a figura alta encapuzada ao lado de Lana. — Ouvi dizer que o Reino de Sangue está em polvorosa. Dizem que a joia da coroa fugiu com um animal de estimação bem grande.

Ana deu um passo à frente, o rosnado começando a se formar em sua garganta, mas Lana colocou a mão em seu peito, contendo-a.

— O ouro está no fundo do navio, Silas. E se você chamar minha companheira de "animal" novamente, eu permitirei que ela mostre a você exatamente como um animal se alimenta. — Os olhos de Lana brilharam em um vermelho escarlate por sob o capuz.

O capitão engoliu em seco e fez um gesto para que subissem.

— Bem-vindas a bordo. Partimos com a maré, antes que os batedores do Rei Viktor cheguem ao porto.

O quarto do capitão havia sido cedido às duas, um espaço apertado, cheirando a carvalho e fumo, mas que para elas parecia o palácio mais luxuoso do mundo após semanas fugindo pelas florestas. Assim que a porta foi trancada e o navio começou a balançar com o movimento das ondas, a tensão acumulada explodiu.

Ana puxou o capuz, libertando suas orelhas de lobo que se agitaram com o som das cordas do navio. Ela agarrou Lana pela cintura, levantando a vampira do chão e prensando-a contra a parede de madeira da cabine.

— Finalmente — disse Ana, sua voz carregada de uma fome que não vinha apenas de estômago vazio. — Eu achei que íamos morrer naquele porto antes que eu pudesse sentir você de novo.

Lana riu, passando as pernas ao redor da cintura de Ana e puxando o rosto da loba para o seu.

— Você é tão dramática, Ana. Nós somos as predadoras mais perigosas deste continente. — Ela mordeu o lábio inferior da guerreira, sentindo o calor animal que emanava dela. — Mas confesso que o balanço deste navio está despertando instintos interessantes.

Ana soltou um rosnado de aprovação e jogou Lana sobre a mesa de mapas do capitão. Pergaminhos e bússolas voaram para o chão enquanto as duas se perdiam em um beijo selvagem, um choque de dentes e línguas que buscavam apagar o medo dos últimos dias.

As roupas foram rasgadas com uma urgência febril. Lana, em sua nudez de ébano, parecia uma estátua esculpida em ônix sob a luz bruxuleante da lanterna de óleo. Ana, robusta e marcada pelas cicatrizes da fuga, era o fogo que aquecia a imortalidade fria da princesa.

— Use as garras — sussurrou Lana, arqueando as costas enquanto as mãos de Ana exploravam suas curvas com uma crueza possessiva. — Quero sentir que ainda sou sua presa, mesmo que não haja mais floresta.

Ana não hesitou. Ela cravou as unhas levemente nos quadris de Lana, deixando marcas que seriam o único mapa que importava naquela noite. Ela desceu os beijos pelo abdômen da vampira, sentindo cada espasmo de prazer que percorria o corpo pequeno, mas resiliente, de Lana.

— Você é minha — rosnou Ana contra a pele de Lana. — Deixamos nossos reinos para trás, mas você nunca vai deixar de ser minha.

— Eu não pretendo ir a lugar nenhum, vira-lata — respondeu Lana, puxando Ana para cima dela, querendo sentir o peso total da loba.

O ato foi uma batalha de vontades. Ana penetrou Lana com uma urgência que fez a vampira gritar, um som que foi abafado pelo estalar das ondas contra o casco do navio. O ritmo era ditado pelo mar, violento e incessante. Lana cravou suas presas no ombro de Ana, bebendo um pouco do sangue quente e selvagem que a mantinha forte, enquanto Ana rugia de êxtase, sua cauda batendo contra as pernas da mesa em um ritmo frenético.

Naquele espaço confinado, o cheiro de sexo, suor e maresia criava uma atmosfera inebriante. Lana sentia-se viva de uma forma que o castelo nunca permitira. Ali, ela não era uma peça de xadrez política; ela era uma criatura de desejo, entregue à fera que aprendera a amar.

— Ana... — Lana ofegava, as unhas arranhando as costas da loba, buscando apoio enquanto o prazer a levava ao limite. — Não pare... por favor...

— Nunca — prometeu Ana, aumentando a intensidade, seus olhos âmbar brilhando na penumbra como brasas.

Quando o clímax as atingiu, foi como se o navio tivesse sido pego por uma tempestade. Elas desabaram uma sobre a outra, os corações batendo em uníssono, as respirações descompassadas preenchendo o silêncio da cabine.

Lana acariciou as orelhas de Ana, que estavam baixas e relaxadas.

— Nós conseguimos — murmurou a princesa, olhando para o teto de madeira. — Estamos longe deles.

— Por enquanto — disse Ana, deitando-se ao lado dela nas peles improvisadas no chão. — Viktor não vai desistir. Ele é um vampiro, Lana. Ele tem todo o tempo do mundo.

— Mas ele não tem você — Lana virou-se para ela, um brilho de determinação em seus olhos. — E ele não tem a menor ideia de onde estamos indo.

O silêncio foi quebrado por um estrondo vindo do convés superior. Um grito de alerta cortou o ar, seguido pelo som inconfundível de metal contra metal.

— Canhões! — gritou a voz de Silas lá fora. — Navio de guerra ao estibordo! Bandeira negra e vermelha!

Lana e Ana se olharam. O choque foi imediato.

— Viktor — sibilou Lana, saltando da mesa e pegando suas adagas. — Como ele nos encontrou tão rápido?

— O cheiro — disse Ana, vestindo suas calças de couro com agilidade sobrenatural. — Ele deve ter usado um rastreador de sangue real. Eu deveria ter imaginado.

Outro estrondo sacudiu o navio, desta vez mais perto. O brigue inclinou-se violentamente para o lado.

— Se ele quer a princesa de volta — disse Ana, desembainhando sua espada pesada, as orelhas em pé e o rabo eriçado de fúria —, ele vai ter que passar por cima de um cadáver de lobo. E eu garanto que não será o meu.

Lana vestiu sua capa, os olhos vermelhos brilhando com uma fúria antiga.

— Ele não vem me buscar, Ana. Ele vem nos matar. Ele prefere uma princesa morta a uma princesa que pertence a uma "raça inferior".

As duas subiram ao convés. O cenário era de caos. O céu noturno estava iluminado pelas chamas de um navio de guerra imenso que emergia da névoa, suas velas exibindo o brasão do Reino de Sangue. Setas de prata choviam sobre o *Heresia*, queimando a madeira e os marinheiros.

— Lana! — gritou uma voz vinda do navio inimigo. Viktor estava na proa, sua pele pálida brilhando sob a luz do fogo, uma espada de prata purificada em sua mão. — Entregue a criatura e eu prometo que sua morte será rápida!

Lana deu um passo à frente, parando na amurada do navio. Ela não parecia uma fugitiva; ela parecia a rainha que nascera para ser.

— Você sempre foi um péssimo negociador, Viktor! — ela gritou de volta, sua voz cortando o som da batalha. — Se você quer minha companheira, venha buscá-la! Mas esteja avisado: o mar está com fome hoje!

Ana posicionou-se ao lado de Lana, um rosnado gutural escapando de seu peito, um som que fez os marinheiros de ambos os navios estremecerem.

— Fique atrás de mim, Lana — disse Ana, as garras crescendo.

— Nem pensar — Lana sorriu, girando as adagas nas mãos. — Vamos mostrar a eles o que acontece quando uma vampira e uma loba decidem caçar juntas.

O navio de guerra colidiu com o brigue em uma manobra de abordagem. Ganchos foram lançados e a ponte de madeira foi estabelecida. Os soldados de Viktor, vampiros de elite treinados para a guerra, saltaram para o convés do *Heresia*.

A luta foi um borrão de violência. Ana movia-se como um ciclone de pelos e aço, decapitando inimigos com golpes brutais de sua espada, enquanto Lana era uma sombra letal, aparecendo e desaparecendo, cortando gargantas e tendões com precisão cirúrgica. Elas lutavam de costas uma para a outra, uma unidade perfeita de destruição.

Viktor saltou para o convés, seus olhos fixos em Ana.

— Sua vira-lata imunda! — ele gritou, avançando com sua espada de prata.

Ana bloqueou o golpe, o metal purificado queimando suas garras, mas ela não recuou. O impacto da força de Viktor a empurrou para trás, mas ela fincou as patas no convés de madeira, rosnando.

— Você fala demais para alguém que está prestes a ser devorado — rebateu Ana.

Enquanto Ana duelava com Viktor, Lana estava cercada por três guardas reais. Ela se moveu com uma velocidade que desafiava a visão humana, deslizando por baixo da guarda de um deles e cravando a adaga em seu coração. Mas o segundo guarda conseguiu atingi-la no ombro com uma flecha de prata.

Lana soltou um grito de dor aguda, caindo de joelhos.

— Lana! — Ana se distraiu por um segundo, o suficiente para Viktor desferir um corte profundo em sua coxa.

A loba urrou de dor, mas a visão de Lana ferida despertou algo ainda mais primitivo em seu sangue. Suas pupilas dilataram até o âmbar desaparecer, tornando-se poços de escuridão selvagem. Ela ignorou Viktor e saltou sobre os guardas que cercavam Lana, despedaçando-os com as mãos nuas em uma explosão de fúria lupina.

Ela pegou Lana nos braços, protegendo-a com seu próprio corpo enquanto as setas continuavam a cair.

— Você está bem? — perguntou Ana, a voz rouca de preocupação.

— É só... prata — ofegou Lana, arrancando a flecha do ombro com um gemido. — Eu vou sobreviver. Mas o navio...

O *Heresia* estava afundando. O fogo havia atingido o depósito de pólvora.

— Silas! — gritou Lana. — Onde está o bote?

— Já foi lançado! — respondeu o capitão, saltando para o mar. — Se quiserem viver, pulem agora!

Viktor preparava-se para um novo ataque, mas a explosão final do depósito de pólvora lançou estilhaços de madeira e fogo em todas as direções. O impacto jogou Ana e Lana para fora do navio, em direção às águas geladas do Mar de Névoa.

O frio do oceano foi um choque brutal. Lana sentiu o peso de suas roupas e da ferida de prata puxando-a para baixo. A escuridão da água parecia querer selar seu destino. Mas então, uma mão forte agarrou seu braço.

Ana, nadando com uma força sobrenatural apesar do ferimento na perna, puxou Lana para a superfície. Elas emergiram entre os destroços fumegantes. O navio de Viktor também fora danificado pela explosão, forçando-os a recuar para evitar o redemoinho do naufrágio.

— Segure-se em mim! — gritou Ana, encontrando um pedaço grande do mastro que flutuava.

Elas se agarraram à madeira, exaustas, feridas, mas vivas. O silêncio voltou a reinar sobre o mar, interrompido apenas pelo som das ondas e pelos gritos distantes dos sobreviventes. O Reino de Sangue e as Florestas dos Lobos estavam agora a quilômetros de distância, perdidos na névoa.

Lana olhou para Ana. O rosto da loba estava sujo de fuligem e sangue, mas seus olhos âmbar brilhavam com uma promessa inabalável.

— Nós perdemos o ouro — disse Lana, soltando um riso fraco e histérico. — Perdemos o navio.

— Mas ainda temos uma à outra — respondeu Ana, aproximando seu rosto do de Lana. — E o mar é grande, princesa.

Lana encostou sua testa na de Ana, sentindo o calor da loba mesmo na água gelada.

— Para onde agora?

Ana olhou para o horizonte, onde a primeira luz do amanhecer começava a quebrar a névoa.

— Para onde o vento nos levar. Desde que seja longe daqui.

Ali, à deriva no Mar de Névoa, a princesa e a guerreira selaram seu destino com um beijo que tinha gosto de sal e liberdade. Elas não eram mais ferramentas de seus povos; eram lendas em construção, duas forças da natureza que decidiram que o mundo era pequeno demais para o seu ódio, mas grande o suficiente para o seu amor proibido. A jornada estava apenas começando, e o horizonte, embora perigoso, nunca parecera tão belo.