Encontro
O Refúgio dos Renegados: Entre o Sal e a Traição
A poeira da estrada era diferente da terra úmida e ancestral da Floresta das Almas. Aqui, o solo era seco, misturado com areia e fragmentos de conchas, um lembrete constante de que o oceano era o novo mestre de suas vidas. Lana caminhava com uma claudicação leve, mas seus olhos dourados permaneciam fixos no horizonte, onde uma silhueta urbana começava a emergir da bruma matinal.
Ao seu lado, Ana respirava com dificuldade. O ferimento na coxa, causado pela lâmina de prata de Viktor, não estava fechando com a velocidade habitual de um lobisomem. O metal purificado deixara um rastro de necrose mágica que combatia o fator de cura da guerreira.
— Pare, Ana — ordenou Lana, parando sob a sombra rala de uma árvore retorcida pelo vento salino. — Se você der mais um passo, vai desmaiar antes de chegarmos aos portões.
— Eu estou bem, princesa — rosnou Ana, embora o suor frio escorresse por sua têmpora, empapando os cabelos curtos. — É apenas um arranhão de um vampiro de elite. Já tive piores.
— Não minta para mim — Lana aproximou-se, sua estatura pequena contrastando com a imponência de Ana, mesmo ferida. — Eu sinto o cheiro da prata queimando sua carne. Sente-se. Agora.
Ana obedeceu, soltando um suspiro pesado enquanto se encostava no tronco seco. Lana ajoelhou-se entre as pernas da loba, rasgando uma tira de sua própria capa de seda — agora suja de lama e sal — para improvisar um curativo. Suas mãos, delicadas mas firmes, tocaram a pele quente de Ana.
— Isso vai arder — alertou Lana, pressionando o tecido contra a ferida aberta.
Ana sibilou, as orelhas de lobo colando-se à cabeça e as unhas cravando-se na terra. Por um momento, o ódio instintivo brilhou em seus olhos, mas foi rapidamente substituído por uma vulnerabilidade que apenas Lana conseguia extrair.
— Você é uma péssima enfermeira — brincou Ana, a voz rouca.
— E você é uma péssima fugitiva — rebateu Lana, terminando o nó com uma precisão gélida. — Pronto. Isso deve conter a hemorragia mágica até encontrarmos um boticário que não faça perguntas.
Lana levantou-se e, em um gesto que desafiava milênios de protocolo real e preconceito racial, estendeu a mão para Ana. Não para ajudá-la a levantar, mas para segurá-la. Quando seus dedos se entrelaçaram, a princesa vampira não recuou. Ela apertou a mão calejada da loba com força.
— Ninguém aqui sabe quem somos, Ana — sussurrou Lana, olhando para a cidade à frente. — Pela primeira vez, não somos a Princesa e a Guerreira. Somos apenas... nós.
— "Nós" soa perigoso, Lana. Mas eu gosto.
Elas caminharam juntas em direção à cidade de Porto Livre. À medida que cruzavam os portões de ferro enferrujado, o cenário que se revelava era uma impossibilidade histórica. Vampiros caminhavam sob toldos espessos, negociando mercadorias com lobisomens que carregavam fardos pesados. Humanos, elfos e híbridos de raças esquecidas circulavam em uma harmonia tensa, mas funcional. Era um caos organizado, regido pelo ouro e pela necessidade de sobrevivência, longe da pureza estéril dos reinos do norte.
— Olhe para eles — murmurou Ana, observando um grupo de jovens lobos jogando dados com um vampiro de aparência decadente em uma taverna aberta. — Se o meu Alfa visse isso, ele arrancaria o coração de cada um deles.
— E o meu pai queimaria esta cidade até as cinzas — completou Lana. — É por isso que este lugar funciona. É construído sobre a heresia.
A presença das duas, no entanto, não passou despercebida. Lana, com sua beleza nobre e pele retinta que brilhava mesmo sob a poeira, e Ana, com sua altura imponente, orelhas alertas e o rabo que balançava ocasionalmente por puro instinto defensivo, atraíam olhares. Homens e mulheres paravam para observar a estranha dupla que caminhava de mãos dadas — uma demonstração de afeto e posse que era rara até mesmo naquele lugar sem leis.
— Estão olhando — avisou Ana, a mão livre repousando no punho da espada.
— Deixe que olhem — disse Lana, erguendo o queixo. — Eles veem duas mulheres que sobreviveram ao Mar de Névoa. Deixe que temam o que não entendem.
Elas encontraram uma estalagem chamada "O Suspiro da Sereia", um edifício de madeira de navio reaproveitada que cheirava a fumaça de cachimbo e álcool barato. O estalajadeiro, um homem de meia-idade com uma cicatriz de mordida no pescoço que parecia antiga e consensual, apenas apontou para uma chave no balcão quando Lana jogou uma moeda de ouro purificado sobre a madeira.
— Quarto nos fundos. Banho quente custa mais prata — disse o homem, sem tirar os olhos de um livro de contas.
Assim que a porta do quarto se fechou, a fachada de força de Ana desmoronou. Ela cambaleou até a cama, caindo pesadamente sobre o colchão de palha. Lana foi até ela imediatamente, desfazendo o curativo improvisado. A ferida estava pior; veias negras começavam a se espalhar a partir do corte.
— Viktor... aquele maldito — sibilou Lana. — Ele usou veneno de sombra na lâmina.
— Eu sinto como se houvesse fogo líquido correndo nas minhas veias — admitiu Ana, os olhos começando a perder o foco. — Lana... se eu me transformar... se eu perder o controle...
— Você não vai — Lana sentou-se sobre os quadris de Ana, prendendo-a contra o colchão. — Eu não vou deixar.
Lana levou o pulso à boca e cravou as próprias presas na pele escura. O sangue vampírico, carregado de magia ancestral e vitalidade roubada, começou a fluir. Ela pressionou o pulso sangrento contra os lábios de Ana.
— Beba — ordenou Lana. — Meu sangue tem propriedades curativas que podem neutralizar o veneno de Viktor. Beba, Ana. Isso é uma ordem da sua princesa.
Ana hesitou por um segundo. Beber o sangue de um vampiro era o tabu supremo para os lobisomens; criava um vínculo de sangue que era quase impossível de quebrar. Mas a dor era insuportável, e o cheiro do sangue de Lana era como o néctar dos deuses. Ela envolveu o pulso de Lana com as mãos e começou a sugar, primeiro com cautela, depois com uma avidez selvagem.
O efeito foi imediato. O calor do sangue de Lana colidiu com o frio do veneno de sombra. Ana arqueou as costas, um urro sufocado escapando de sua garganta. Suas garras cresceram e rasgaram os lençóis da estalagem, enquanto suas orelhas se agitavam freneticamente. Lana não se afastou; ela aguentou a dor das unhas de Ana cravando-se em seus braços, mantendo o pulso firme contra a boca da loba.
— Isso... — Ana soltou o pulso de Lana, ofegante, os olhos agora brilhando com uma mistura de âmbar e o vermelho carmesim de Lana. — Eu sinto você... dentro da minha cabeça.
— É o vínculo, Ana — sussurrou Lana, limpando o rastro de sangue nos lábios da guerreira. — Agora somos mais do que amantes. Somos parte uma da outra.
O desejo, potencializado pelo sangue compartilhado, explodiu entre as duas como uma carga de pólvora. Ana puxou Lana para baixo, devorando seus lábios com uma ferocidade que não buscava apenas prazer, mas a confirmação de que ainda estavam vivas. O quarto pequeno e abafado tornou-se o centro do universo.
Lana rasgou a túnica de Ana, expondo os músculos tensos e a pele que agora pulsava com uma energia renovada. Ela desceu os beijos pelo pescoço da loba, mordiscando a pele sensível logo abaixo da orelha, sentindo os tremores que percorriam o corpo de Ana.
— Você é minha medicina, Lana — rosnou Ana, girando as posições com uma agilidade que mostrava que o veneno fora derrotado. — E eu sou viciada em você.
Ana não foi gentil. Ela não tinha tempo para gentilezas enquanto o mundo lá fora as caçava. Ela usou sua força para subjugar Lana, prendendo as mãos da vampira acima da cabeça. Lana riu, um som sombrio e excitado, enquanto sentia a língua áspera de Ana traçar um caminho de fogo de seus seios até o ventre.
— Prove-me que o sangue valeu a pena — provocou Lana, as pupilas dilatadas.
O encontro foi uma tempestade de sentidos. O som da respiração pesada de Ana misturava-se aos gemidos agudos de Lana. O balanço do navio que ainda parecia estar em seus equilíbrios internos dava uma sensação de vertigem ao prazer. Ana penetrou Lana com uma urgência bruta, e a vampira respondeu cravando as presas no ombro de Ana, não para ferir, mas para ancorar-se naquele êxtase avassalador.
Elas se amaram como se cada toque fosse o último, como se o amanhã fosse uma promessa que elas não podiam cumprir. No clímax, Lana sentiu a conexão de sangue vibrar; ela viu flashes das memórias de Ana — as florestas nevadas, a primeira transformação, o momento em que a vira na floresta e sentira o ódio transformar-se em curiosidade. E Ana sentiu a solidão secular de Lana, a frieza do castelo e o calor súbito que a loba trouxera para sua eternidade.
Horas depois, enquanto o sol começava a se pôr, tingindo o quarto de tons alaranjados, elas permaneciam abraçadas. A ferida de Ana estava quase fechada, restando apenas uma cicatriz prateada que nunca desapareceria por completo.
— Nós não podemos ficar aqui por muito tempo — disse Ana, acariciando os cabelos de Lana. — Viktor... ele não é o tipo de homem que aceita a derrota.
— Eu sei — Lana suspirou, aninhando-se no peito de Ana. — Ele vai usar todos os recursos do reino. Ele vai contratar mercenários, vai subornar os governadores deste porto. Ele está ferido em seu orgulho, e nada é mais perigoso do que um vampiro nobre humilhado.
Enquanto isso, a quilômetros dali, nas margens onde o brigue *A Heresia* se tornara apenas destroços, uma figura emergia das águas. Viktor, com o rosto parcialmente queimado pela explosão e a armadura em ruínas, caminhava sobre a areia com uma determinação gélida. Ele segurava um pequeno frasco que continha uma única gota do sangue de Lana, recolhida de uma das adagas caídas.
O frasco brilhava com uma luz fraca.
— Corra o quanto quiser, minha princesa — sibilou Viktor, sua voz uma promessa de morte. — O sangue sempre volta para a origem. E eu vou saborear o momento em que cortarei a garganta daquela cadela diante dos seus olhos.
De volta à estalagem, um arrepio percorreu a espinha de Lana. Ela apertou a mão de Ana com mais força.
— Ele está vindo, não está? — perguntou Ana, sentindo a mudança no humor da companheira através do vínculo.
— Ele está — confirmou Lana, levantando-se e começando a se vestir. — Mas desta vez, não estaremos fugindo em um navio em chamas. Desta vez, este porto será o túmulo dele.
Ana levantou-se, sua ferocidade restaurada e amplificada pelo sangue de Lana. Ela pegou sua espada, a lâmina refletindo a luz do entardecer.
— Que venha. Eu estou com fome de novo.
As duas saíram do quarto, prontas para enfrentar o que quer que o destino — ou Viktor — jogasse em seu caminho. Elas eram renegadas, traidoras e amantes. Mas, acima de tudo, eram a prova viva de que, quando o sangue e o luar se encontram, nem mesmo os reis podem impedir a aurora. A guerra estava longe de terminar, mas pela primeira vez, elas tinham algo pelo qual lutar que era maior do que o dever: tinham uma à outra.