enemies to love
O Anjo de Ébano e o Despertar do Caos
A consciência retornou para Anne Isabella em ondas lentas e pesadas, como se ela estivesse emergindo de um oceano de mel. O quarto estava mergulhado em um silêncio absoluto, quebrado apenas pelo som rítmico da chuva que agora caía fina e persistente contra o vidro da janela. O ar ainda carregava o cheiro de ozônio da tempestade que passara, misturado ao aroma inebriante de couro e floresta que parecia ter se impregnado em cada fibra dos seus lençóis.
Anne tentou se mover, mas sentiu um peso sólido e quente sobre seu corpo. Ao abrir os olhos, o mundo girou por um instante. A luz fraca do poste da rua filtrava-se pelas cortinas entreabertas, lançando sombras azuladas pelo quarto.
Nick Salvatori estava deitado sobre ela.
Ele estava completamente nu, a pele bronzeada contrastando com o branco da roupa de cama. Sua cabeça estava aninhada na curvatura do pescoço de Anne, e um de seus braços musculosos envolvia a cintura dela com uma possessividade que nem o sono profundo fora capaz de relaxar. O corpo dele, com seus 1,90 de altura e músculos esculpidos, parecia uma montanha de calor protegendo-a do resto do mundo.
Anne Isabella prendeu a respiração. A visão era hipnotizante. O rosto de Nick, geralmente marcado por uma expressão de arrogância intelectual ou desejo sombrio, estava agora desarmado. Com as pálpebras fechadas e os lábios levemente entreabertos, ele parecia... calmo. Quase como um anjo de ébano caído em sua cama. Os cabelos pretos e ondulados estavam bagunçados sobre a testa, e a respiração dele era profunda e constante contra a pele dela.
Por um momento, Anne esqueceu-se de quem eles eram na escola. Esqueceu-se da guerra de notas, dos insultos sussurrados nos corredores e da inimizade que cultivaram por meses. Ali, naquela penumbra, ele era apenas Nick. O garoto que a venerava com uma intensidade que beirava o perigoso.
Uma pontada de dor aguda em sua região íntima, acompanhada por uma sede que parecia desértica, trouxe-a de volta à realidade. Suas costas também latejavam levemente pelo esforço da noite anterior. Ela tentou se desvencilhar devagar, mas, ao menor movimento, o braço de Nick se apertou ainda mais contra sua cintura, e ele soltou um resmungo baixo, enterrando o rosto em seu cabelo.
— Nick... — ela sussurrou, a voz saindo rouca. — Nick, acorda.
Ele não se mexeu. Anne Isabella olhou para o relógio digital na mesa de cabeceira. Os números vermelhos piscavam: 03:42 da manhã.
O pânico começou a serpentear por sua espinha, substituindo o torpor do prazer. Seus pais. Eles eram médicos no hospital da cidade e o plantão de sexta-feira costumava terminar por volta das quatro da manhã. Eles estariam em casa em menos de vinte minutos. Se encontrassem Nick Salvatori — o colega de classe "irritante" que Anne vivia reclamando — nu em sua cama, o mundo tal como ela conhecia deixaria de existir.
— Nick! — Ela usou um pouco mais de força, empurrando o ombro dele. — Salvatori, acorda agora!
Os olhos dele se abriram devagar. No início, estavam nublados pelo sono, mas, em segundos, a lucidez habitual retornou, escura e afiada. Ele levantou a cabeça, encarando-a com um olhar que fez o estômago de Anne dar um nó. Não havia vergonha ou confusão ali; apenas uma satisfação possessiva.
— Bom dia, Furacãozinho — ele murmurou, a voz ainda mais grave devido ao sono. Ele inclinou o rosto e deixou um beijo demorado na marca que havia deixado no pescoço dela. — Você é ainda mais bonita quando acorda.
— Nick, você tem que ir embora. Agora! — Anne disse, a urgência transbordando em suas palavras. — Meus pais. Eles vão chegar a qualquer minuto.
Nick soltou um suspiro pesado, mas não se moveu imediatamente. Em vez disso, ele se apoiou nos cotovelos, ficando por cima dela, prendendo-a com seu peso. A luz da madrugada destacava a definição de seus ombros e o desenho das veias em seus braços.
— Deixe que cheguem — disse ele, com uma indiferença que beirava a loucura. — Eu não me importo que o mundo saiba que você é minha, Isa.
— Mas eu me importo! — ela rebateu, tentando empurrar o peito sólido dele. — Eu tenho quatorze anos, Nick! Você tem quinze! Nós seríamos mortos, ou pior, mandados para colégios internos em continentes diferentes. Você quer que a gente nunca mais se veja?
Essa pergunta pareceu atingir o alvo. O olhar de Nick endureceu. A ideia de ser separado dela era claramente inaceitável para sua obsessão.
— Tudo bem — ele cedeu, rosnando baixo. — Eu vou.
Ele se levantou da cama com uma fluidez impressionante. Anne não pôde evitar que seus olhos percorressem o corpo dele enquanto ele buscava suas roupas espalhadas pelo chão. Nick era forte, mas de uma forma atlética e funcional, como um predador feito para a velocidade e o combate. Ao vestir a calça, ele se virou para ela, que ainda estava sentada na cama, enrolada no lençol.
— Por que você está me olhando assim? — ele perguntou com um sorriso de canto, aquele brilho perverso voltando aos olhos. — Gostou do que viu, pequena?
— Eu estou tentando garantir que você não esqueça nada e deixe evidências — mentiu ela, embora sentisse o rosto arder. — Onde está sua camisa?
— Ali, perto da sua escrivaninha — ele indicou com a cabeça.
Enquanto ele terminava de se vestir, Anne Isabella correu para o banheiro. Ela bebeu água diretamente da torneira, sentindo o líquido gelado aliviar a queimação em sua garganta. Ao se olhar no espelho, viu o desastre: o cabelo totalmente bagunçado, os lábios inchados e marcas de dedos e beijos por todo o colo e pescoço.
— Merda — sussurrou. — Eu pareço ter sobrevivido a um desastre natural.
— Você sobreviveu a mim — a voz de Nick ecoou da porta do banheiro. Ele já estava vestido com sua jaqueta preta, parecendo novamente o bad boy misterioso da escola, exceto pelo olhar que suavizava apenas para ela. — E eu pretendo repetir o desastre muitas vezes.
— Não se os meus pais te prenderem primeiro — ela disse, saindo do banheiro e empurrando-o em direção à janela. — Vai, Nick. Por favor.
O som de um motor de carro ecoou ao longe, na rua silenciosa. O coração de Anne disparou.
— São eles! — ela exclamou, entrando em pânico total.
Nick caminhou até a janela com calma irritante. Ele abriu o vidro, mas antes de sair, agarrou Anne pela cintura e a puxou para um beijo rápido e possessivo.
— Segunda-feira, no armário, antes da primeira aula — ele ordenou, não como um pedido, mas como um fato. — E use as cerejas. Eu quero saber que você ainda é minha mesmo quando estiver cercada por aquelas pessoas.
— Eu sou minha, Salvatori — ela tentou protestar, mas ele apenas sorriu.
— Veremos.
Ele saltou pela janela, descendo pela trepadeira com a mesma habilidade da noite anterior. Anne ficou observando até que ele desaparecesse nas sombras do terreno baldio. Segundos depois, o som do portão eletrônico da garagem se abrindo ecoou pela casa.
Anne Isabella agiu por puro instinto de sobrevivência. Ela jogou as roupas dele que ainda pudessem estar por ali dentro do guarda-roupa, arrumou a cama o melhor que pôde e vestiu um pijama de flanela pesado, de mangas compridas e gola alta, apesar do calor remanescente.
Quando ouviu os passos de seus pais no corredor, ela se jogou na cama e fingiu um sono profundo.
— Isa? — a voz de sua mãe chamou baixinho, abrindo a porta do quarto apenas uma fresta. — Querida, você está acordada?
Anne forçou um bocejo e se virou, mantendo as cobertas puxadas até o queixo.
— Mãe? — murmurou, fingindo confusão. — Que horas são?
— Quatro e vinte, meu bem. Só passei para ver se você estava bem. A tempestade foi forte, achei que pudesse ter se assustado.
— Eu dormi o tempo todo — Anne mentiu, sentindo o peso da mentira em seu peito. — Nem ouvi os trovões.
— Que bom. Descanse, amanhã tomamos café juntas.
A porta se fechou. Anne Isabella soltou o ar que nem sabia que estava prendendo. Ela sentou-se na cama, o silêncio do quarto agora parecendo pesado e carregado de segredos. Ela tocou o pescoço, sentindo a pele sensível sob o pijama.
Ela sabia que sua vida havia mudado de forma irreversível. A garota extrovertida e nerd que tirava notas altas agora tinha um segredo sombrio e musculoso que a perseguia nas sombras. Nick Salvatori não era apenas um colega ou um rival. Ele era um eclipse que havia obscurecido sua razão.
Anne deitou-se novamente, fechando os olhos. Ela ainda conseguia sentir o calor do corpo dele e o cheiro de tabaco no travesseiro. Segunda-feira parecia uma eternidade de distância, e a perspectiva de enfrentar Nick nos corredores da escola, fingindo inimizade enquanto carregava as marcas dele sob o uniforme, era ao mesmo tempo aterrorizante e viciante.
— Você é um problema, Salvatori — sussurrou para a escuridão. — O maior problema que eu já tentei resolver.
Mas, lá no fundo, Anne Isabella sabia que não queria a solução. Ela queria se perder no labirinto que Nick havia construído ao redor dela, um labirinto feito de obsessão, cerejas e o som perigoso de um coração que batia apenas por ela.
O fim de semana passou como um borrão febril. Anne mal saiu do quarto, alegando que precisava estudar para a prova de química, mas seus livros permaneciam abertos na mesma página por horas. Ela passava o tempo tocando os brincos de cereja que Nick tanto gostava, sentindo uma conexão elétrica com ele toda vez que o metal tocava sua pele.
Ela monitorava suas redes sociais, mas Nick não postava nada. Ele era um fantasma digital, o que só aumentava sua aura de mistério. No entanto, no domingo à noite, uma notificação brilhou em seu celular. Era um número desconhecido.
"Não tente esconder as marcas amanhã, Furacãozinho. Eu quero ver cada uma delas."
Anne sentiu um calafrio. Ela não sabia como ele havia conseguido o número dela, mas não ficou surpresa. Para Nick Salvatori, não existiam barreiras.
Na manhã de segunda-feira, Anne Isabella vestiu o uniforme com uma lentidão cerimonial. Ela escolheu os brincos de cereja, o som metálico agora parecendo um chamado de guerra. Ela aplicou um pouco de corretivo no pescoço, mas não o suficiente para cobrir totalmente a marca arroxeada. Uma parte dela, a parte que Nick havia despertado, queria que ele visse. Queria que ele soubesse que ele tinha sucesso em sua conquista.
Ao entrar nos portões do Saint Jude, o ar parecia diferente. Mais denso. Mais carregado. Ela caminhou em direção aos armários, o coração martelando contra as costelas.
Lá estava ele.
Nick estava encostado no armário ao lado do dela, cercado por um grupo de garotos que falavam sobre o treino de futebol, mas ele não estava prestando atenção em nenhum deles. Seus olhos estavam fixos na entrada do corredor. Quando ele a viu, um sorriso imperceptível, mas mortalmente possessivo, surgiu em seus lábios.
Ele se afastou dos amigos sem dizer uma palavra e caminhou em direção a ela. Com 1,90 de altura, ele abria caminho na multidão como um navio quebrando o gelo.
— Com licença, pequena — ele disse quando chegou perto, a voz grave silenciando as conversas ao redor.
Ele parou na frente dela, invadindo seu espaço pessoal. Anne teve que inclinar a cabeça para trás para encará-lo. Nick estendeu a mão e, na frente de todos, tocou o brinco de cereja dela, fazendo-o balançar.
— Você seguiu as instruções — ele sussurrou, apenas para ela ouvir. Seu olhar desceu para o pescoço dela, onde o corretivo falhava em esconder sua marca. — Bom saber que você aprende rápido.
— Eu não sigo instruções, Salvatori — Anne rebateu, tentando manter a fachada de inimizade, embora suas pernas estivessem trêmulas. — Eu apenas achei que essas cerejas combinavam com o meu humor hoje. Um humor azedo.
Nick soltou uma risada curta e se inclinou, sussurrando perto do ouvido dela:
— Continue mentindo para eles, Isa. Mas nós dois sabemos o que aconteceu quando você estava nua sob o meu corpo. E eu mal posso esperar para que as aulas terminem hoje.
Ele se afastou, deixando Anne Isabella sem fôlego no meio do corredor. Seus colegas de classe a olhavam com curiosidade e espanto. Anne Isabella e Nick Salvatori, os inimigos mortais, pareciam estar em uma frequência que ninguém mais conseguia sintonizar.
Ela abriu seu armário, as mãos tremendo levemente. A guerra de inteligência continuava, mas agora o campo de batalha era o corpo dela, e Nick Salvatori estava ganhando território a cada segundo. Anne Isabella percebeu que, no Saint Jude, ela podia ser a melhor em literatura e física, mas no mundo sombrio de Nick, ela era apenas a presa que amava ser caçada.
E enquanto as cerejas balançavam em seus ouvidos, Anne sorriu. A obsessão dele era o seu novo vício, e ela não tinha a menor intenção de buscar a cura.