enimes to lovers
Memórias de Outros Mundos e o Ciúme do Pan
O sol nasceu na Terra do Nunca com uma intensidade que parecia refletir o novo estado das coisas entre nós. Peter não perdeu tempo. Assim que os Meninos Perdidos se reuniram para o café da manhã — que consistia em frutas tropicais e o banquete imaginário de sempre —, ele estufou o peito, colocou as mãos nos quadris e anunciou para quem quisesse ouvir: "A Nana e eu estamos namorando. E quem reclamar vai ter que se ver com a minha espada!". Os meninos aplaudiram, alguns assobiaram e Felix apenas deu um aceno de cabeça respeitoso, embora houvesse uma sombra de melancolia em seu olhar que eu fingi não notar.
Mais tarde, fugindo da algazarra do acampamento, Peter me arrastou novamente para as profundezas da Floresta Proibida. Ele dizia que precisávamos de "privacidade real", longe dos ouvidos curiosos do Magrelo ou das luzes fofoqueiras da Sininho.
Estávamos em uma parte da floresta onde as árvores eram tão altas que suas copas formavam um teto natural, filtrando a luz em tons de esmeralda. Eu estava encostada no tronco rugoso e fresco de uma árvore milenar, e Peter estava parado bem na minha frente, com os braços apoiados na madeira, cercando-me.
— Nana, me diz uma coisa — começou ele, com aquele brilho de deboche nos olhos que indicava que ele ia falar alguma besteira. — Se um crocodilo engole um relógio e o relógio para de funcionar, o crocodilo vira um jacaré comum ou ele continua sendo um despertador quebrado?
Eu olhei para ele por um segundo, processando a pergunta sem sentido, e soltei uma risada alta, balançando a cabeça.
— Peter, você é muito burro! — exclamei, empurrando levemente o ombro dele. — Que pergunta mais idiota!
Ele deu um sorriso de lado, aquele sorriso que fazia meu estômago dar voltas, e se inclinou mais perto, sussurrando contra o meu ouvido.
— Engraçado... — disse ele, a voz descendo uma oitava, tornando-se perigosamente rouca. — Não foi bem isso que você disse ontem de madrugada.
Senti meu rosto arder instantaneamente.
— Peter! — protestei, tentando manter a compostura.
— Eu me lembro muito bem — continuou ele, ignorando meu protesto. — Você não me chamou de burro. Você dizia: "Ai, que delícia, Peter... mais, Peter...".
— Cala a boca! — eu disse, rindo de nervoso e escondendo o rosto no peito dele.
Nesse momento, Peter levou a mão até o meu corpo e, com uma possessividade que me pegou de surpresa, apertou meu peito por cima da túnica. Como a Floresta Proibida tinha aquela propriedade mágica de absorver os sons externos, mas amplificar o que acontecia ali dentro, meu gemido ecoou entre as árvores, alto e claro.
— Viu? — ele riu, soltando-me e dando um passo para trás, satisfeito consigo mesmo. — O som aqui é ótimo.
— Você é impossível — respondi, recuperando o fôlego e ajeitando minha roupa. — Mas é por isso que eu gosto de você, eu acho.
Passamos o resto da tarde ali, conversando sobre coisas bobas, planejando como irritar o Capitão Gancho na próxima semana e aproveitando a companhia um do outro. Peter era uma contradição ambulante: em um momento era o guerreiro destemido, no outro era o menino carente que precisava de atenção constante.
A noite chegou e, como já havia se tornado nosso costume, estávamos deitados na minha cabana. O clima estava ameno. Peter estava deitado com a cabeça apoiada no meu peito, enquanto eu passava os dedos por seus cabelos rebeldes. A mão dele subia e descia pela curva da minha cintura, um carinho lento e preguiçoso que me deixava em um estado de relaxamento profundo.
No entanto, uma curiosidade começou a formigar na minha mente. Eu sabia que Peter vivia no presente, mas as memórias do meu passado — da vida que eu tivera antes da Terra do Nunca — às vezes voltavam como flashes de um filme antigo.
— Peter? — chamei baixinho.
— Hum? — ele murmurou, quase pegando no sono.
— Você ia ficar bravo comigo... se eu falasse que já fiz sexo com outra pessoa antes de vir para cá?
Senti o corpo dele tencionar por um breve segundo, mas ele não se afastou. Ele levantou o rosto, apoiando o queixo no meu peito para me olhar nos olhos.
— Bravo? — Ele inclinou a cabeça. — Não. Eu sou o Peter Pan, Nana. Eu não tenho tempo para ter ciúme de fantasmas do "Mundo de Lá". Mas... por que a pergunta? Algum pirata andou falando besteira de novo?
— Não, não é isso — respondi, soltando um suspiro longo. — É que eu me lembrei de uma coisa. Antes de eu vir para a ilha, eu tinha um amigo... o nome dele era Theodore Nott. Na verdade, a gente era bem próximo.
Peter arqueou uma sobrancelha, o interesse agora totalmente desperto.
— E o que tem esse tal de Theodore?
— Eu me lembrei de uma vez que mandei uma mensagem para ele — continuei, sorrindo com a memória distante. — Ele me respondeu dizendo que eu o tinha atrapalhado em algo importante, e que era para eu ir logo até lá para continuar o que ele não tinha conseguido terminar sozinho.
Peter soltou um bufo que parecia uma mistura de riso e desdém.
— E você foi?
— Fui — confessei, sentindo minhas bochechas esquentarem. — E, Peter... depois daquele dia, eu fiquei uma semana inteira sem ir para a escola. Ele me deixou manca de verdade. E o pior é que, no dia seguinte, ele ainda queria mais.
O silêncio que se seguiu na cabana foi denso. Peter não parecia bravo, mas seus olhos brilhavam com um desafio novo. Ele se sentou na cama, puxando-me para que eu ficasse sentada de frente para ele.
— Uma semana? — perguntou ele, a voz carregada de uma competitividade juvenil. — Esse Theodore Nott acha que é grande coisa, não é?
— Ele era... intenso — respondi, tentando não rir da expressão dele.
Peter se aproximou, segurando meu rosto com as duas mãos.
— Escuta aqui, Nana. Eu não me importo com o que aconteceu naquele mundo cinza de onde você veio. Mas agora você está na Terra do Nunca. E aqui, quem dita as regras sou eu.
— Ah, é? — desafiei, cruzando os braços.
— É — afirmou ele, puxando-me para mais perto até que nossas testas se encostassem. — Se esse tal de Theodore te deixou manca por uma semana, eu vou garantir que você esqueça até como se caminha. Eu sou o Pan, lembra? Eu nunca perco uma competição.
Eu ri, sentindo o calor dele me envolver.
— Você não precisa competir com o meu passado, Peter.
— Eu não estou competindo — disse ele, selando nossos lábios com um beijo que prometia uma noite muito longa. — Eu estou apenas estabelecendo o meu território. Amanhã, quando você tentar levantar para ver o nascer do sol e suas pernas falharem, você vai se lembrar de quem é o seu verdadeiro dono.
Eu o puxei para baixo, envolvendo-o em meus braços. A Terra do Nunca era um lugar de esquecimento para muitos, mas naquela noite, enquanto Peter explorava cada centímetro do meu corpo com uma determinação renovada, eu percebi que não importava quem eu tinha sido ou com quem eu estivera.
Ali, sob o brilho das estrelas mágicas e o som da floresta que guardava nossos segredos, eu era apenas a Hanna dele. E ele, com toda a sua arrogância e doçura, era o único que conseguia fazer o tempo parar de verdade, transformando cada toque em uma eternidade que eu nunca desejaria abandonar.
— Peter? — sussurrei, quando ele parou por um segundo para me olhar.
— O que foi?
— Você é muito convencido.
Ele deu um sorriso vitorioso e desceu os beijos para o meu pescoço.
— Eu avisei, Nana. O convencimento faz parte do charme. E você ama isso.
Eu não pude negar. Eu amava. Amava a ilha, amava a liberdade e, acima de tudo, amava o fato de que, não importa quantas memórias eu trouxesse do mundo exterior, nada se comparava ao fogo que Peter Pan acendia em mim com apenas um olhar. A noite estava apenas começando, e eu sabia que, no dia seguinte, as histórias sobre Theodore Nott seriam apenas sombras desbotadas diante da realidade vibrante e avassaladora que era viver — e amar — na Terra do Nunca.