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enimes to lovers

Sombras do Passado e o Domínio do Pan

A luz pálida do amanhecer na Terra do Nunca começou a se infiltrar pelas frestas da cabana, trazendo consigo o aroma de orvalho e terra molhada. Eu estava sentada na beira da cama, sentindo o corpo pesado de uma forma deliciosa, embora uma dorzinha aguda e persistente na minha coxa me lembrasse de cada momento da noite anterior. Peter estava ao meu lado, os fios de cabelo loiro-escuro bagunçados sobre a testa, observando-me com uma mistura de orgulho e uma possessividade que ele mal tentava esconder.

— Você está bem, Nana? — perguntou ele, a voz ainda rouca de sono, mas com aquele brilho vitorioso nos olhos.

— Estou — respondi, soltando um suspiro e massageando levemente o músculo da perna. — Mas se tivéssemos continuado por mais dez minutos, eu tenho certeza de que você teria que me carregar no colo por uma semana. Minhas pernas estão parecendo gelatina.

Peter soltou uma risada curta e se inclinou para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. Ele sabia exatamente o que tinha feito. Na Terra do Nunca, as leis da natureza eram diferentes; eu não precisava me preocupar com as consequências que as garotas do "mundo de lá" temiam. Eu não menstruava, não podia engravidar; meu corpo estava suspenso em um estado de juventude e prontidão eterna, como se a própria ilha tivesse decidido que eu deveria ser apenas prazer e aventura, sem o fardo das responsabilidades biológicas.

Passei a mão pelos meus cabelos pretos, tentando ajeitar a franja que insistia em cair sobre meus olhos cor de mel. Peter me acompanhou com o olhar, sua expressão ficando subitamente séria.

— Nana... — ele chamou, fazendo-me parar o movimento. — Seja sincera. Quem é melhor? Eu ou aquele tal de Theodore?

Eu olhei para ele e não pude evitar o sorriso. Peter era competitivo até quando não precisava ser. Aproximei-me dele, sentindo o calor que emanava de sua pele, e toquei seu rosto com a ponta dos dedos.

— Você, Peter. Mil vezes você — sussurrei, vendo o alívio e o triunfo dançarem em suas pupilas.

Ele olhou fixamente para a minha boca, inclinando-se para um beijo que começou lento, mas que rapidamente ameaçou incendiar tudo de novo. Eu senti o puxão familiar no baixo ventre, mas, com um esforço de vontade, afastei-me gentilmente, encostando meu nariz no dele.

— Para — eu disse, rindo baixinho. — Se continuarmos assim, a gente vai acabar fazendo de novo agora mesmo, e eu realmente preciso conseguir andar hoje.

— Você tem razão — admitiu ele, soltando um suspiro dramático e jogando-se de volta nos travesseiros. — Mas não reclame se eu decidir cobrar esse beijo mais tarde.

Dormimos por mais algumas horas, um sono sem sonhos e restaurador. Quando acordei de vez, o sol já estava alto. Levantei-me com cuidado — a dor na coxa ainda estava lá, mas agora era apenas um eco — e fui procurar algo para vestir. Escolhi um short jeans bem curto, daqueles que iam apenas até o limite da curva da minha bunda, e uma regata branca estilo cropped que deixava minha cintura à mostra.

Por cima, coloquei uma peça que Peter tinha me dado de presente há algum tempo: um colete de couro macio, curto atrás, preso na frente apenas por uma tira fina de tecido que passava logo abaixo dos meus seios, realçando as curvas de forma sutil, mas audaciosa.

Peter, que já estava de pé, observava-me em silêncio enquanto eu calçava minhas botas de couro. Com um estalo de dedos e um brilho de magia verde, ele já estava devidamente trajado com suas roupas de folhagens, impecável como sempre.

— Sabe — disse ele, aproximando-se e parando às minhas costas —, se o Felix te vir assim, ele vai morrer de inveja de mim. Ele vai passar o dia todo lembrando que eu tenho a menina mais linda da ilha e ele não.

Eu me virei para ele e fiz uma cara fofa, inclinando a cabeça e dando um sorriso doce que costumava desarmar qualquer um.

— Você acha, Peter? — perguntei com a voz suave.

Ele soltou um suspiro, balançando a cabeça como se estivesse diante de um mistério insolúvel.

— Como é que você consegue ser assim? — perguntou ele, pegando-me pela cintura. — Tão fofa por fora, mas tão safada quando a gente está sozinho?

— É um dom, Pan — respondi, piscando para ele. — Algumas pessoas nascem com talento para voar, outras nascem com o dom da dualidade.

Ele me empurrou levemente até que minhas costas tocassem a mesa de madeira da cabana. Peter ficou parado entre minhas pernas, seus olhos percorrendo meu corpo com uma intensidade que me fez arrepiar.

— O que você tem de linda, tem de gostosa — sussurrou ele, a voz carregada de uma admiração genuína.

Ele me deu um selinho demorado e se afastou com um sorriso travesso.

— Vou caçar algo para o nosso almoço. Encontro você lá fora com os meninos?

— Estarei lá — respondi, observando-o desaparecer pela porta com a agilidade de um animal selvagem.

Terminei de ajustar minhas botas, sentindo o couro firme contra meus tornozelos. O peso delas e o estilo da minha roupa me trouxeram memórias repentinas e amargas. Eu me lembrava de me vestir assim, de forma prática e resistente, quando fazia parte dos experimentos da CRUEL. Aqueles dias sombrios no Labirinto, as provas mortais, a raiva constante de ser tratada como um rato de laboratório.

Eu já tinha contado partes disso para o Peter. Ele levou numa boa, talvez porque a Terra do Nunca fosse um lugar onde o passado importava menos do que o agora, ou talvez porque ele entendesse o que era viver em guerra. Eu contei a ele sobre como convivia apenas com meninos e sobre como meus melhores amigos — Thomas, Newt e Minho — foram minha única família.

Saí da cabana e caminhei em direção à clareira principal. Os Meninos Perdidos estavam em plena atividade, jogando uma espécie de rúgbi misturado com luta livre. Para não atrapalhar, encostei-me no tronco de uma árvore alta, observando a confusão com um sorriso. Eu estava tão distraída que nem percebi que Felix estava parado a poucos metros de mim, observando-me com uma fixação desconfortável.

De repente, senti braços conhecidos me envolvendo por trás. Peter tinha voltado. Ele não disse nada de imediato, mas senti suas mãos descerem até a barra do meu short jeans. Com um movimento deliberado, ele puxou o tecido um pouco mais para baixo, expondo um pouco menos da minha pele, mas marcando seu território de forma óbvia.

— O Felix está olhando — sussurrou ele no meu ouvido, a voz tensa de um ciúme que ele tentava disfarçar como proteção.

Eu não respondi, mas senti o clima pesar. Sem querer causar uma cena na frente de todos, segurei a mão de Peter e o puxei para longe da clareira. Começamos a andar sem rumo pelos limites da floresta, onde o som dos meninos era apenas um ruído de fundo.

— Peter, o que foi aquilo? — perguntei, parando de caminhar.

Ele parou na minha frente e, novamente, puxou a barra do meu short para baixo.

— Esse short está subindo demais — reclamou ele, cruzando os braços. — Todo mundo consegue ver... coisas que só eu deveria ver.

Eu soltei uma risada e balancei a cabeça, aproximando-me dele e colocando as mãos em seus ombros.

— É normal, Peter. Esse tecido sobe quando eu ando. Você não precisa se preocupar com o Felix ou com qualquer outra pessoa. Eu jamais trocaria você por ninguém nesta ilha ou em qualquer outro mundo.

Ele relaxou os ombros, embora ainda parecesse um pouco emburrado. Encostamo-nos em uma árvore frondosa, as sombras das folhas dançando sobre nós. O momento de tensão passou, dando lugar a uma calma melancólica.

— Você estava pensando neles de novo, não estava? — perguntou Peter, referindo-se aos meus amigos do passado. — Quando você estava se vestindo.

— Estava — confessei, olhando para as minhas botas. — Eu estava lembrando da CRUEL. De como tudo era difícil. De quantos morreram para que alguns pudessem viver.

Peter ouvia em silêncio, uma paciência rara para alguém tão inquieto.

— O Thomas e o Minho ainda estão por aí, em algum lugar do mundo — continuei, sentindo um aperto no peito. — O Minho... ele me considerava uma irmã mais nova. Eu era corredora com ele no Labirinto. Passávamos o dia todo correndo entre aquelas paredes de pedra, tentando encontrar uma saída que parecia não existir.

— Você era rápida? — perguntou Peter, interessado.

— Tinha que ser. Se você não fosse rápido, o Labirinto te engolia. O Minho me ensinou tudo o que eu sabia sobre sobrevivência antes de eu chegar aqui. Ele era duro, mas tinha o maior coração que eu já conheci. E o Newt... — Minha voz falhou por um segundo ao lembrar do loiro de sotaque marcante que não tinha tido a mesma sorte. — O Newt era a nossa cola. O que mantinha todo mundo unido.

Peter estendeu a mão e entrelaçou seus dedos nos meus, apertando-os levemente.

— Eles parecem ter sido bons meninos — disse ele, de forma simples. — Mas agora você corre em florestas que não tentam te matar com máquinas, Nana. E você corre comigo.

— Eu sei — respondi, sorrindo para ele. — E eu prefiro mil vezes as suas árvores proibidas do que as paredes de concreto da CRUEL.

Peter puxou-me para mais perto, fazendo-me sentar entre suas pernas enquanto ele se acomodava contra o tronco da árvore. Ficamos ali por muito tempo, eu contando histórias de Thomas e das suas decisões impulsivas, de Minho e seu sarcasmo inabalável, e de como a vida antes da Terra do Nunca parecia um sonho distante e esfumaçado.

— Às vezes eu sinto falta deles — admiti, encostando a cabeça no ombro de Peter. — Mas então eu olho para você, olho para os meninos correndo ali embaixo, e percebo que encontrei um tipo de paz que eu nunca achei que existisse.

Peter beijou o topo da minha cabeça, o cheiro de mato e liberdade que emanava dele acalmando qualquer resquício de tristeza em mim.

— Você é uma corredora, Nana — disse ele, com um sorriso de lado. — Mas não precisa mais fugir de nada. Aqui, você só corre se quiser. E, de preferência, atrás de mim.

Eu ri, sentindo a dor na coxa diminuir sob o calor do corpo dele. A Terra do Nunca podia ter seus perigos, suas sereias traiçoeiras e piratas vingativos, mas nada se comparava à segurança que eu sentia ali, naquele abraço. O passado era uma cicatriz, um lembrete de quem eu fora, mas o presente... o presente era Peter Pan, era a luz do sol filtrada pelas folhas e a certeza de que, pela primeira vez na vida, eu não era um experimento. Eu era apenas uma garota, amada pelo rei da ilha, vivendo uma eternidade que Theodore Nott ou a CRUEL jamais poderiam compreender.

— Peter? — chamei, fechando os olhos.

— Sim?

— Obrigada por me deixar ser quem eu sou. Mesmo quando eu sou uma corredora teimosa de short curto.

Ele soltou uma gargalhada e me apertou mais forte.

— Eu não te mudaria por nada, Nana. Mas sério... amanhã, tente usar um short um pouco mais comprido. Minha paciência com o Felix tem limites.

Eu ri, sabendo que ele estava brincando — ou talvez não —, e deixei que o silêncio da floresta nos envolvesse, grata por ter trocado um labirinto de concreto por um labirinto de magia, onde o único perigo real era o quanto eu estava perdidamente apaixonada pelo menino que nunca cresceria.