enimes to lovers
Onde Mundos se Encontram na Areia
O silêncio da montanha era apenas quebrado pelo som distante das ondas e pelo murmúrio do vento entre os picos rochosos. Eu e Peter ainda estávamos sentados naquele refúgio elevado, os corpos próximos, compartilhando a calmaria que se seguiu às minhas confissões sobre o Labirinto e a CRUEL. Eu sentia o calor da mão dele sobre a minha, um lembrete constante de que, apesar das sombras do meu passado, o presente era sólido e vibrante.
De repente, um som diferente cortou a monotonia rítmica da ilha. Não era o bater de asas de um pássaro gigante, nem o rugido de uma fera da floresta. Era o som de passos pesados e desajeitados na areia da praia, muito abaixo de onde estávamos.
Peter tensionou os músculos instantaneamente. Ele se levantou com a agilidade de um felino e caminhou até a beira do precipício, estreitando os olhos cor de mel para focar na pequena silhueta que se movia lá embaixo. Eu me arrastei até a ponta, ficando de joelhos ao lado dele, o coração começando a martelar contra as costelas com uma urgência que eu não conseguia explicar.
— Não é um pirata — sussurrou Peter, a mão indo instintivamente para o cabo de sua adaga, mas sem puxá-la. — E não é um dos meninos. Quem quer que seja, parece perdido.
Eu forcei a vista. A figura lá embaixo usava roupas gastas, de um tom cinza-azulado que eu reconheceria em qualquer lugar do universo. O porte físico era atlético, os movimentos rápidos, mesmo demonstrando exaustão. Quando ele parou por um segundo e olhou para o horizonte, o sol iluminou seu rosto.
Senti o ar escapar dos meus pulmões. O mundo pareceu girar devagar.
— Minho... — sussurrei, a voz falhando.
Peter se virou para mim, a sobrancelha arqueada em confusão.
— O quê?
— Peter, é o Minho! — exclamei, segurando o braço dele com força, os olhos brilhando de incredulidade. — É o Minho, o meu amigo que eu acabei de te contar! O corredor!
Peter olhou novamente para baixo, analisando o estranho com uma nova curiosidade. Ele percebeu o meu desespero, a alegria crua que emanava de mim. Ele poderia ter sentido ciúmes, poderia ter proibido, mas ele viu o quanto aquilo significava para a sua "Nana".
— Vá — disse Peter, dando um meio sorriso, aquele jeito de líder que sabe que não pode lutar contra o destino. — Vá até lá. Não tem problema. Eu estarei logo atrás.
Eu não esperei um segundo convite. Inclinei-me e dei um selinho rápido e estalado nele, um agradecimento mudo, e disparei montanha abaixo. Eu não usei as trilhas convencionais; eu pulei pedras, deslizei por encostas de terra e me agarrei a cipós, movida por uma adrenalina que eu não sentia desde que as portas do Labirinto se fecharam atrás de mim.
Quando meus pés finalmente atingiram a areia fofa da praia, eu não parei. Eu corria como se minha vida dependesse disso, os pulmões ardendo, o cabelo preto voando atrás de mim.
— MINHO! — gritei com toda a força que tinha, a voz ecoando pelas paredes de pedra da baía.
A figura na areia parou bruscamente e girou sobre os calcanhares, em uma postura defensiva automática. Quando ele me viu, seus ombros relaxaram e seus olhos se arregalaram.
— Hanna? — ele murmurou, a voz rouca.
Eu me joguei contra ele com tanta força que quase o derrubei na areia. Meus braços envolveram seu pescoço em um abraço esmagador, e eu enterrei o rosto em seu ombro, sentindo o cheiro de suor, poeira e daquela familiaridade que eu achava que tinha perdido para sempre.
— É você mesmo... — eu soluçava, metade rindo, metade chorando. — É você mesmo, seu trolho idiota!
Minho me abraçou de volta com a mesma intensidade, rindo com aquele som sarcástico e reconfortante que era sua marca registrada. Ele me afastou um pouco, segurando meus ombros para me olhar de cima a baixo.
— Onde é que a gente está, Hanna? Que lugar maluco é esse? E que roupas são essas? Você parece uma versão selvagem de si mesma.
— É uma longa história, Minho. Uma história muito longa — respondi, limpando as lágrimas do rosto. — Você está na Terra do Nunca.
Antes que ele pudesse perguntar o que diabos era uma "Terra do Nunca", uma sombra desceu do céu com uma suavidade sobrenatural. Peter Pan pousou a poucos metros de nós, os braços cruzados, observando a cena com uma expressão de superioridade divertida.
Minho reagiu instantaneamente, colocando-se na minha frente com os punhos cerrados.
— Quem é o garoto voador? — perguntou ele, o tom de voz ficando perigoso.
— Calma, Minho! — Eu puxei o braço dele, ficando entre os dois. — Esse é o Peter. Peter Pan. Ele é... o dono deste lugar. E ele é meu amigo.
Peter caminhou até nós, avaliando Minho com um olhar clínico. Ele viu os músculos, a postura de combate e a lealdade feroz nos olhos do asiático. Para minha surpresa, Peter estendeu a mão, não em um desafio, mas em um cumprimento de guerreiro para guerreiro.
— Então você é o famoso Minho — disse Peter, com um sorriso de lado. — A Nana fala muito de você. Diz que você é rápido.
Minho relaxou a postura, olhando da mão de Peter para o rosto dele e, finalmente, apertando-a com firmeza.
— E ela diz que você é teimoso — retrucou Minho, não se deixando intimidar. — Acho que vocês dois combinam.
Eu olhei para os dois, vendo a faísca de respeito mútuo surgir ali mesmo, na areia. Peter e Minho tinham personalidades explosivas, líderes natos e protetores ao extremo.
— Já sei que vou ter um trabalho dobrado com vocês dois juntos — comentei, revirando os olhos, mas com um sorriso imenso no rosto.
Minho soltou uma risada e me olhou de soslaio, cruzando os braços sobre o peito.
— Agora deixa eu adivinhar... — começou ele, apontando de mim para Peter e de volta para mim. — Você e o "Garoto Voador" aí namoram, não namoram?
Peter não hesitou. Ele deu um passo à frente e passou o braço pelos meus ombros, puxando-me para perto de forma possessiva e orgulhosa.
— Namoramos — afirmou Peter, olhando para Minho como se o desafiasse a dizer o contrário.
Minho soltou um assobio longo, balançando a cabeça. Para minha surpresa, ele deu um passo à frente e abraçou Peter, um abraço rápido e forte, daqueles que homens dão para selar um acordo.
— Boa sorte, Pan — disse Minho, rindo. — Essa garota aí não é para qualquer um não. Ela é teimosa, briguenta e, se você bobear, ela te deixa falando sozinho na floresta.
— Eu já percebi isso — respondeu Peter, rindo junto. — Mas eu gosto de desafios.
Eu bufei, fingindo indignação.
— Ah, pronto! Agora os dois se juntaram contra mim? Vai me trocar por ele agora, Peter?
Os dois falaram "não" ao mesmo tempo, o que me fez rir ainda mais. Minho então ficou sério por um momento, a expressão mudando como se ele tivesse acabado de se lembrar de algo desagradável.
— Ah, Hanna, quase esqueci. Eu vi a Teresa antes de vir parar aqui. Ela estava procurando por você lá no Refúgio.
Eu fiz uma careta de nojo imediata, sentindo um arrepio de repulsa percorrer minha espinha. A lembrança das traições da Teresa na CRUEL ainda era uma ferida aberta.
— Teresa? — murmurei com desdém. — Prefiro ficar sozinha com o Capitão Gancho e um crocodilo do que passar cinco minutos perto daquela garota de novo. Ela que fique por lá.
Virei as costas, fingindo que ia sair andando, mas não cheguei a dar dois passos. Peter e Minho, em uma sincronia perfeita que me assustou, esticaram os braços e me puxaram de volta pelo braço e pela cintura.
— Aonde pensa que vai, corredora? — perguntou Minho, rindo.
— Você não vai a lugar nenhum sem a gente — completou Peter, apertando-me em um abraço triplo que me deixou quase sem ar.
Eu ri, sentindo-me protegida e amada de uma forma que nunca imaginei ser possível. Ter o meu passado e o meu presente ali, unidos, era o maior milagre que a Terra do Nunca já tinha operado.
— Tudo bem, tudo bem! — exclamei, tentando me soltar daquele sanduíche de braços fortes. — Vamos logo para o acampamento. Preciso apresentar o Minho para os Meninos Perdidos. Eles vão adorar ter alguém novo para ensinar as regras... ou para ser desafiado em uma corrida.
— Uma corrida? — Minho arqueou a sobrancelha, o brilho competitivo voltando aos seus olhos. — Espero que esses moleques sejam rápidos, porque eu não pretendo pegar leve.
— Eles são rápidos — disse Peter, começando a caminhar à nossa frente, flutuando alguns centímetros acima do solo apenas para se exibir. — Mas ninguém é mais rápido que o Pan.
— É o que vamos ver, voador — provocou Minho, começando a correr levemente na areia.
Eu os segui, observando os dois começarem a discutir sobre quem tinha os melhores reflexos. O caminho de volta para a Árvore Oca foi cheio de risadas e histórias. Minho contava sobre as bizarrices do Labirinto, e Peter retribuía com contos sobre sereias que tentavam afogar piratas.
Ao chegarmos à clareira, o caos habitual dos Meninos Perdidos parou instantaneamente. Magrelo, Totó e os Gêmeos ficaram parados, boquiabertos, olhando para o estranho de traços asiáticos e roupas esquisitas que caminhava ao lado do líder deles.
— Meninos! — anunciou Peter, com a voz ecoando por todo o acampamento. — Prestem atenção! Este aqui é o Minho. Ele veio de muito longe, de um lugar cheio de muros e monstros de metal. Ele é um amigo da Nana... e agora, ele é um de nós.
Os meninos explodiram em gritos e vivas. Magrelo foi o primeiro a se aproximar, analisando os braços fortes de Minho.
— Você sabe lutar com espadas de madeira? — perguntou o menino.
Minho olhou para a "espada" de Magrelo e depois para mim, com um sorriso sarcástico.
— Garoto, eu já lutei contra coisas que fariam você chorar no colo da sua mãe. Uma espada de madeira? Isso vai ser moleza.
Eu me sentei em um tronco caído, observando Minho ser cercado pelos meninos, respondendo a perguntas absurdas com sua paciência limitada e seu humor ácido. Peter se sentou ao meu lado, passando o braço pela minha cintura e deixando que eu encostasse a cabeça em seu ombro.
— Ele vai se dar bem aqui — comentou Peter, observando Minho ensinar um golpe de imobilização para o Totó.
— Vai sim — concordei, sentindo uma paz imensa. — Ele é um sobrevivente, Peter. Assim como eu.
— Ele gosta muito de você, não gosta? — perguntou Peter, sem rastro de ciúme, apenas curiosidade.
— Como um irmão — respondi sinceramente. — Ele cuidou de mim quando o mundo era um inferno.
Peter beijou minha têmpora.
— Então eu vou cuidar dele aqui. Ninguém toca nos amigos da minha rainha.
A noite caiu sobre o acampamento, e a fogueira foi acesa. Minho estava sentado no centro de um círculo de Meninos Perdidos, contando sobre os Verdugos e sobre como ele e Thomas sobreviveram a uma noite inteira dentro do Labirinto. Os meninos ouviam com os olhos arregalados, esquecendo-se até de comer suas frutas.
Eu olhei para o céu estrelado da Terra do Nunca, a concha que Peter me dera brilhando discretamente no meu bolso. O passado de dor da CRUEL e do Labirinto parecia, pela primeira vez, algo que eu podia carregar sem me machucar. Minho estava seguro. Eu estava segura. E Peter... Peter era o centro de tudo, o menino que tinha me dado um novo lar onde as memórias não eram mais fantasmas, mas apenas histórias para serem contadas ao redor do fogo.
— Ei, Hanna! — gritou Minho, jogando uma semente de fruta em mim. — O Pan disse que amanhã vai me mostrar a Lagoa das Sereias. Ele disse que elas são bonitas, mas perigosas.
— Não acredite em nada do que ele diz, Minho! — respondi, rindo. — Elas vão tentar te puxar para o fundo só para ver se seu cabelo desarruma!
— Eu gostaria de ver elas tentarem — desafiou Minho, piscando para mim.
Peter riu e me apertou mais forte. A Terra do Nunca tinha acabado de ganhar um novo morador, e eu tinha acabado de ganhar a certeza de que, não importa de onde viéssemos, o destino sempre encontrava um jeito de reunir aqueles que se amavam sob a luz da segunda estrela à direita. E ali, entre o rei da ilha e o líder dos corredores, eu soube que minha aventura estava apenas começando.