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Entre a cruz e a espada

O Rugido da Alma e o Silêncio do Cristal

A neve caía pesada do lado de fora da mansão West, mas dentro do quarto principal, o calor era sufocante. Eu me agarrava aos lençóis de linho, sentindo uma dor que parecia rasgar minha alma ao meio. Minha barriga, agora enorme e pesada, contraía-se ritmicamente, um lembrete físico de que o tempo da nossa pequena híbrida havia chegado.

— Respire, Karen! — pedia a parteira da alcateia, uma Beta idosa de mãos firmes. — Jade já foi avisada. Ela está cruzando a floresta.

— Ela... ela não está aqui — solucei, o suor grudando meus cabelos na testa. — Onde ela está?

Jade estava na floresta em uma patrulha de emergência. O Conselho estava inquieto, e lobos renegados rondavam nossas fronteiras desde que ela me assumiu oficialmente. Eu sabia que ela viria. Eu sentia o vínculo entre nós vibrar, uma corda esticada que me ligava à Alfa Alfa.

Mais uma contração me fez gritar, um som que não parecia vir de uma humana, nem de uma Beta, mas de algo muito mais ancestral. E então, o estrondo.

A porta do quarto não foi apenas aberta; ela quase saiu das dobradiças. Jade entrou, coberta de neve e com o cheiro de sangue de lobos inimigos ainda impregnado em sua jaqueta de couro. Seus olhos estavam em um verde incandescente, o estado de Alfa total.

— Saiam todos! — rosnou ela, a voz vibrando nas paredes.

— Jade, a parteira precisa ficar... — tentei dizer, mas ela já estava ao meu lado.

Ela afastou a parteira com um olhar e se ajoelhou entre minhas pernas. Jade não era médica, mas era uma loba de instintos puros. Ela segurou minhas mãos, e a força que emanava dela pareceu absorver metade da minha dor.

— Eu estou aqui, pequena — sussurrou ela, a voz agora suave como veludo, mas carregada de uma possessividade feroz. — Nossa herdeira não vai nascer nas mãos de estranhos. Ela vai nascer nas minhas.

— Jade, dói tanto...

— Eu sei. Use minha força. Morda meu braço se precisar, mas traga nossa filha para o mundo. Agora!

Com um último grito que pareceu abalar as fundações da mansão, senti a pressão ceder. O choro que se seguiu não foi um choro comum. Foi um uivo agudo, curto e poderoso. Jade segurava nos braços uma criatura pequena, de pele alva e tufos de cabelos negros como os dela, mas com um brilho nos olhos que mudava de cor conforme a luz. Nossa pequena Luna. Nossa híbrida.

Jade a encostou no meu peito, e por um momento, a Alfa imparável chorou silenciosamente, escondendo o rosto no meu pescoço enquanto nossas respirações se tornavam uma só.

***

Um ano se passou. A mansão estava decorada com flores raras e cristais negros para a festa de um ano de Luna. Era um evento de gala, mas para mim, era um campo de batalha. Jade estava ocupada recebendo os Alfas das alcateias vizinhas, e eu, em um vestido de seda esmeralda que abraçava minhas curvas, tentava manter a compostura.

Eu me afastei da multidão para pegar um pouco de ar na galeria dos fundos, segurando uma taça de suco. Foi quando o cerco se fechou. Três membros do Conselho, anciãos de linhagens puras, me encurralaram perto das estátuas de mármore.

— Uma festa adorável, Karen — disse o ancião Silas, sua voz gotejando veneno. — É uma pena que a linhagem dos West esteja sendo manchada por uma mãe tão... limitada.

— O que quer dizer com isso? — perguntei, sentindo meu coração acelerar.

— Olhe para você — disse uma mulher Alfa, de olhar gélido. — Uma Beta. Sem linhagem, sem poder real. Você é apenas o receptáculo que Jade usou. Luna é uma híbrida rara, uma força da natureza. Ela precisa de uma madrasta Alfa, alguém que possa treiná-la, alguém que esteja à altura do trono de Jade. Você é apenas um peso morto, uma distração gordinha que Jade mantém por um capricho de proteção.

As palavras cortaram mais do que qualquer adaga de prata. Eu sabia que eles me odiavam, mas ouvir que eu não era digna de ser mãe da minha própria filha...

— Jade nunca aceitaria isso — respondi, minha voz tremendo.

— Jade é jovem e cega pela luxúria — Silas deu um passo à frente, emanando uma pressão de Alfa que me fez cambalear. — Mas o Conselho sabe o que é melhor. O melhor para Luna é ter uma mãe de verdade, não uma Beta que mal consegue se transformar. Você deveria sumir, Karen. Antes que a gente faça você sumir.

Eu recuei, as lágrimas turvando minha visão. Eu precisava sair dali. Precisava de Jade. Saí correndo pela galeria, ignorando os chamados, e fui em direção ao estacionamento. Eu só queria dirigir, sentir o vento, fugir daquelas vozes que confirmavam meus maiores medos.

Peguei as chaves do carro reserva e saí em disparada pela estrada molhada da montanha. O choro era compulsivo. "Peso morto", "mancha na linhagem". Eu amava Jade com cada fibra do meu ser, mas e se eles estivessem certos? E se minha doçura estivesse enfraquecendo a Alfa mais poderosa do mundo?

As luzes de um caminhão surgiram do nada na curva fechada. O asfalto estava escorregadio. Tentei frear, mas o carro deslizou. O som do metal retorcendo foi a última coisa que ouvi antes do silêncio absoluto.

***

O bipe constante dos aparelhos era o único som no quarto de hospital de alta segurança. Eu estava em um lugar entre a vida e a morte, um vazio branco onde as vozes do mundo exterior chegavam como ecos distantes.

Dizem que quem está em coma não ouve nada, mas eu ouvia. Eu ouvia o rosnado baixo e constante que nunca deixava o meu lado.

— Acorde, Karen — a voz de Jade estava diferente. Não era mais a voz da Alfa poderosa; era a voz de alguém quebrado. — Eu já matei Silas. Eu arranquei a garganta dele no meio do salão do Conselho quando descobri o que eles disseram para você. Ninguém mais vai te humilhar.

Senti algo quente e úmido no meu pulso. Eram as lágrimas dela.

— Luna sente sua falta — continuou ela, a voz falhando. — Ela não para de uivar. Ela não quer comer. Ela precisa da mãe dela. E eu... eu não sou nada sem a minha Beta. Eu não sou Alfa de nada se você não estiver aqui para ser o meu porto seguro.

Eu queria abrir os olhos. Queria dizer a ela que eu estava ali, que eu lutaria contra todos os anciãos do mundo por ela e por nossa filha. Mas meu corpo não obedecia.

— Se você não voltar — rosnou Jade, e desta vez o som fez as máquinas do hospital oscilarem —, eu vou destruir cada alcateia que ousou duvidar de nós. Eu vou transformar este mundo em cinzas, Karen. Não me force a ser o monstro que eles temem sem ter você para me trazer de volta.

Senti a mão de Jade apertar a minha, as garras dela arranhando levemente minha pele, um lembrete de sua natureza selvagem.

— Volte para mim, pequena — sussurrou ela, encostando a testa na minha. — É uma ordem da sua Alfa.

Na escuridão do meu coma, uma faísca brilhou. O cheiro de chuva e sândalo me puxou de volta. Eu não era apenas uma Beta. Eu não era um peso morto. Eu era a única pessoa no mundo capaz de domar Jade West. E por ela, por Luna, eu encontraria o caminho de volta através das sombras.

Meus dedos deram um leve espasmo contra a mão de Jade, e o rugido de alívio que ela soltou foi o som mais doce que já ouvi em toda a minha vida. O pesadelo estava longe de terminar, mas a Alfa Alfa estava de guarda, e desta vez, o Conselho aprenderia que não se mexe com o coração de uma loba.