Entre a cruz e a espada
O Labirinto de Vidro e a Semente do Amanhã
O despertar não foi como nos filmes. Não houve uma luz suave ou uma música angelical. Foi o cheiro — sândalo, chuva e um toque metálico de poder — que me puxou das profundezas de um oceano escuro e gelado. Quando meus olhos finalmente se abriram, o mundo era um borrão de luzes brancas e sombras altas.
— Karen? — A voz era rouca, como se não fosse usada para nada além de rosnar há semanas. — Karen, olhe para mim.
Eu foquei no rosto à minha frente. Era uma mulher linda, de uma beleza gótica e perigosa, com olhos verdes que pareciam queimar através da minha alma. Mas, por mais que meu coração desse um salto doloroso no peito, minha mente estava em branco. Um deserto de neve onde nenhuma pegada havia sido deixada.
— Quem... quem é você? — Minha voz saiu como um sussurro seco.
Vi o momento exato em que o mundo daquela mulher desmoronou. O brilho nos olhos dela vacilou, e uma dor crua, quase animal, atravessou suas feições impecáveis. Ela recuou um milímetro, as mãos tremendo sobre o lençol do hospital.
— Eu sou Jade — disse ela, a voz falhando. — Eu sou sua... eu sou sua Alfa.
As semanas seguintes foram um labirinto de vidro. Eu me sentia como uma estranha no meu próprio corpo. Eu me olhava no espelho e via uma mulher de curvas macias, pele clara e olhos doces, mas não reconhecia a história escrita em cada marca. Jade estava sempre lá. Ela era uma sombra constante, uma protetora silenciosa que me observava comer, que me ajudava a caminhar pelos jardins da mansão e que rosnava para qualquer médico que chegasse perto demais.
Ela me contava histórias. Falava de um resort, de uma gravidez escondida, de uma luta contra um conselho de lobos. Ela trazia uma menininha de cabelos negros e olhos mutáveis para o meu colo.
— Esta é Luna — dizia Jade, sua mão pousando cautelosamente sobre a minha. — Ela é nossa.
Ao tocar a pele gordinha do bebê, algo dentro de mim vibrava. Uma nota musical perdida que finalmente encontrava seu tom. Eu não lembrava do parto, mas meu corpo lembrava do amor. Luna era o meu âncora. E Jade... Jade era o enigma que eu precisava decifrar.
Um mês se passou. As memórias voltavam em flashes, como fotografias antigas queimadas nas bordas. Eu lembrava do cheiro da chuva antes de um acidente. Lembrava de uma voz gritando meu nome com um desespero que poderia mover montanhas.
Certa noite, Jade entrou no quarto usando um terno preto sob medida que exalava autoridade. Ela parecia nervosa, algo que eu estava começando a entender que era raro para a "Alfa Alfa".
— Você precisa sair destas paredes, Karen — disse ela, estendendo a mão para mim. — O médico disse que estímulos familiares podem ajudar. Vou te levar a um lugar. Só nós duas. Um vale night da realidade.
— Para onde vamos? — perguntei, sentindo um frio na barriga que não era de medo, mas de uma antecipação antiga.
— Para onde tudo deveria ter começado sem as sombras — respondeu ela.
Ela me levou a uma suíte isolada em um chalé de luxo, longe da alcateia, longe dos sussurros do conselho. O lugar era cercado por paredes de vidro que mostravam a floresta sob o luar. Havia pétalas de rosas escuras no chão e o som suave de um violoncelo vindo de algum lugar.
Jade me serviu uma taça de vinho, mas seus olhos nunca deixavam os meus.
— Eu me lembro de você na varanda — eu disse de repente, o flash de uma memória me atingindo. — Você estava brava. Você disse que eu era sua.
Jade deu um passo à frente, invadindo meu espaço pessoal. O calor que emanava dela era inebriante.
— Eu sempre digo isso — sussurrou ela, passando os dedos pelo meu maxilar. — Porque é a única verdade que importa.
— Eu estou começando a lembrar, Jade — confessei, deixando a taça de lado e focando na intensidade do seu olhar. — Não apenas dos fatos. Estou lembrando de como eu me sentia. De como meu coração batia quando você entrava na sala.
Jade puxou-me para perto, suas mãos firmes na minha cintura, apertando a carne macia com uma possessividade que me fez soltar um suspiro trêmulo.
— Então sinta agora — comandou ela, a voz de Alfa vibrando no meu peito. — Sinta o quanto eu esperei por este momento enquanto você estava naquele hospital. Sinta o quanto eu morri a cada dia que você não sabia quem eu era.
Ela me beijou. Não foi um beijo de hospital, cuidadoso e frágil. Foi um beijo de posse, de fome, de uma loba reivindicando seu par. Minhas mãos subiram para os cabelos dela, puxando-a para mais perto, enquanto as barreiras da minha amnésia derretiam sob o fogo daquela paixão.
Jade me carregou para a cama, deitando-me sobre os lençóis de seda negra. Ela se posicionou sobre mim, uma predadora admirando sua jóia mais preciosa. Suas mãos começaram a despir-me com uma urgência controlada, revelando meu corpo que ela conhecia melhor do que eu mesma.
— Você é tão linda — murmurou ela, beijando a curva do meu ombro, descendo para meus seios fartos. — Cada curva sua foi feita para as minhas mãos.
Eu ri baixinho, uma risada que soou como a Karen de antes do acidente.
— Você quer que eu engravide de novo, Jade West? — perguntei, provocando-a, enquanto sentia a excitação crescer em meu ventre. — Porque do jeito que você está me olhando, parece que quer povoar a alcateia inteira hoje à noite.
Jade parou, um sorriso sombrio e devastadoramente sexy surgindo em seus lábios. Ela se inclinou, sussurrando contra o meu ouvido enquanto sua mão descia para o calor entre minhas coxas.
— Se for para ter mais uma cópia sua, eu passaria o resto da eternidade fazendo isso — disse ela. — Eu quero marcar você de novo. Quero que seu corpo saiba, antes mesmo da sua mente, que você é a rainha deste império.
O contato inicial foi intenso. Jade era poderosa, imparável, e sua natureza Alfa transbordava em cada movimento. Quando ela se uniu a mim, senti uma conexão que transcendia a memória física. Era espiritual. Era o encontro de duas metades que haviam sido arrancadas uma da outra.
— Jade... — eu gemia, arqueando o corpo sob o dela.
— Diga meu nome — rosnou ela, o ritmo aumentando, a força de seus quadris contra os meus criando uma sinfonia de prazer e entrega. — Lembre-se de quem eu sou para você.
— Minha Alfa — respondi, as unhas cravando-se em suas costas. — Minha Jade.
Naquele momento, em meio ao calor do ato e à entrega total, a última peça do quebra-cabeça se encaixou. Eu vi tudo. O primeiro encontro na escola, as brigas no Hollywood Arts, o segredo da gravidez, a dor da separação e o amor avassalador que nos unia. Eu estava de volta. Totalmente.
O clímax veio como uma explosão de luz branca, unindo nossos corpos em um espasmo de êxtase puro. Jade desabou sobre mim, respirando pesadamente, seu rosto enterrado em meu pescoço enquanto ela marcava minha pele com beijos possessivos.
Ficamos ali por muito tempo, envoltas uma na outra, o silêncio da noite sendo apenas quebrado pelos nossos batimentos cardíacos sincronizados.
— Eu lembrei de tudo — sussurrei, acariciando os cabelos negros dela.
Jade levantou a cabeça, o olhar ansioso.
— Tudo?
— Sim. Inclusive de que você é uma teimosa que quase destruiu o conselho por minha causa — brinquei, mas com lágrimas nos olhos. — Obrigada por não desistir de mim, Jade.
Ela sorriu e beijou minha testa, sua mão descendo para repousar sobre meu ventre ainda plano.
— Eu nunca desistiria. E sinto que algo mudou aqui agora — disse ela com uma convicção que só as Alfas possuem. — Luna vai ter um irmão. Eu sinto o sangue dele chamando pelo meu.
Eu sorri, sentindo uma paz que não conhecia há meses.
— Um garotinho? — imaginei, fechando os olhos. — Ele vai ser igualzinho a você. Poderoso, imparável... e completamente rendido por mim.
Jade soltou uma risada rouca e me apertou mais forte contra si.
— Com certeza. Porque nesta família, Karen, as mulheres West podem governar o mundo, mas é o seu doce coração que governa a todas nós.
Adormecemos assim, protegidas pelas paredes de vidro e pela força de um amor que nem a morte, nem o esquecimento, foram capazes de apagar. O amanhã viria com novos desafios e novas lutas contra a alcateia, mas naquela suíte, sob a luz da lua, éramos apenas duas lobas e a semente de um novo futuro que já começava a florescer.