Entre a cruz e a espada
O Peso do Medo e o Sangue do Herdeiro
A gravidez de um herdeiro Alfa era, por si só, uma provação de resistência. Aos quatro meses e meio, meu corpo já exibia uma curvatura proeminente, uma barriga firme que abrigava o que Jade chamava de "nosso pequeno gladiador". Eu me sentia pesada, meus pés inchavam ao fim do dia e meu apetite era insaciável, mas havia uma doçura em cada chute que eu sentia. Jade, por outro lado, tornara-se uma sombra superprotetora. Ela não me deixava subir escadas sem estar logo atrás, cheirava meu pescoço obsessivamente para garantir que meus níveis hormonais estavam estáveis e passava horas com a orelha colada ao meu ventre, rosnando baixinho para qualquer um que ousasse falar alto demais perto de mim.
Naquela tarde de terça-feira, o céu de Seattle estava carregado, um cinza opressivo que parecia prever o desastre. Jade precisou ir até a sede da alcateia para resolver uma disputa territorial de última hora. Ela me beijou demoradamente antes de sair, as mãos grandes espalmadas sobre minha barriga, sentindo a agitação do bebê.
— Volto antes do jantar, pequena — prometeu ela, a voz rouca e vibrante. — Fique em repouso. Se a Luna chorar, chame a babá. Não faça esforço.
— Eu sou uma loba, Jade, não uma boneca de porcelana — brinquei, embora o cansaço estivesse pesando em meus ombros.
— Você é a minha porcelana mais preciosa — retrucou ela com um sorriso sombrio antes de desaparecer na chuva.
Duas horas depois, o telefone tocou. O som estridente cortou o silêncio da sala de estar como uma lâmina. Quando atendi, a voz do segundo em comando de Jade, um Alfa chamado Marcus, estava carregada de uma urgência que fez meu sangue gelar.
— Karen... houve um acidente na rodovia leste. O carro da Jade... um caminhão de carga perdeu o controle. Ela foi levada para o Memorial.
O mundo parou. Senti uma pontada aguda no abdômen, um aviso de que meu corpo não estava lidando bem com o choque. Meus ouvidos começaram a zunir. Jade. A poderosa, imparável e imortal Jade West não podia sofrer um acidente. Ela era a força da natureza que dobrava o destino à sua vontade.
— Ela está viva? — Minha voz saiu como um guincho sufocado.
— Ela está na cirurgia de emergência, Karen. Venha agora.
Eu não lembro como cheguei ao hospital. Lembro-me apenas de flashes: a chuva batendo no para-brisa do táxi, minha mão apertando o ventre enquanto eu sussurrava preces desesperadas para que nosso filho ficasse calmo, e o cheiro de antisséptico que me atingiu como um soco quando entrei na ala de emergência.
— Onde ela está?! — gritei para a recepcionista, ignorando os olhares curiosos. — Jade West! Eu sou a companheira dela!
Marcus apareceu no corredor, seu rosto arranhado e a expressão sombria. Ele me segurou pelos ombros antes que eu pudesse desabar.
— Ela saiu da cirurgia, Karen. Ela é forte. O carro ficou destruído, mas o corpo de Alfa dela absorveu o impacto. Ela está acordada.
Eu o empurrei e corri em direção ao quarto indicado. Quando abri a porta, o cenário era desolador. Jade estava deitada na cama hospitalar, o torso enfaixado, um corte profundo cruzando sua testa e o braço esquerdo imobilizado. Ela parecia pálida, mas seus olhos verdes se abriram instantaneamente quando senti meu cheiro.
— Jade... — solucei, tropeçando em direção à cama. — Oh meu Deus, Jade!
— Ei... — A voz dela saiu fraca, mas carregada daquela autoridade possessiva de sempre. — Pare de chorar, pequena. Você vai agitar o bebê.
Eu me ajoelhei ao lado da cama, segurando sua mão direita, a que não estava ferida. Eu tremia tanto que os dentes batiam. O medo de perdê-la tinha aberto um abismo no meu peito que nenhuma palavra de conforto poderia fechar.
— Você quase morreu! — eu gritava entre soluços, a aflição transbordando. — Como você pôde ser tão imprudente? Se você nos deixasse... se você morresse, Jade, eu não saberia como continuar!
— Eu não vou a lugar nenhum — disse ela, tentando se sentar, mas soltando um grunhido de dor que me fez entrar em pânico. — Merda de costelas... Karen, acalme-se. Eu estou bem. Estou apenas um pouco dolorida. Olhe para mim.
— Eu não consigo! — Minha respiração ficou curta. — Eu senti você sumindo... o vínculo... eu achei que você tinha ido embora!
A angústia era tanta que comecei a sentir uma pressão estranha. Não era apenas o choro. Era uma dor que começava na base das costas e irradiava para a frente, uma cólica lancinante que me fez dobrar o corpo sobre os lençóis de Jade.
— Karen? — A voz de Jade mudou instantaneamente. O tom de conforto deu lugar ao pavor absoluto. — Karen, o que foi?
— Dói... — gemi, levando as mãos ao ventre. — Jade, está doendo muito.
Uma pontada aguda, como se algo estivesse sendo arrancado, me fez soltar um grito abafado. Senti uma umidade quente entre minhas pernas e o pânico, que já era alto, atingiu níveis estratosféricos.
— Socorro! — Jade rugiu, sua voz de Alfa Alfa ecoando por todo o hospital, fazendo as janelas vibrarem. — Alguém ajude a minha fêmea! Agora!
Enfermeiros e médicos invadiram o quarto. Fui erguida da cadeira e colocada em uma maca. Eu via o rosto de Jade, que agora tentava se levantar da cama apesar dos ferimentos, sendo contida por dois seguranças.
— Não a levem para longe! — gritava ela, os olhos brilhando em um verde selvagem. — Se algo acontecer com eles, eu mato todos vocês!
— Jade! — chamei, estendendo a mão enquanto me levavam para a sala ao lado. — Não me deixe!
A dor era rítmica. Eu sabia o que era aquilo. Eu estava tendo um início de aborto espontâneo. O estresse extremo, o choque do acidente, o sistema nervoso de uma Beta carregando um feto de alta energia... meu corpo estava tentando desistir.
— Por favor, não o leve — eu implorava para o teto da sala de exames, as lágrimas escorrendo livremente. — Ele é tudo o que temos. Não leve o meu menino.
Fui sedada levemente para conter as contrações. Horas se passaram em um borrão de ultrassons, injeções de progesterona e o monitoramento constante do batimento cardíaco fetal. Eu estava em um estado de semi-consciência, sentindo apenas o frio da sala e o vazio da ausência de Jade.
Quando finalmente acordei, o ambiente estava na penumbra. O som rítmico de um monitor cardíaco era a única música. Olhei para o lado e vi que não estava em um quarto comum. Haviam movido a cama de Jade para o meu lado. Estávamos em uma suíte dupla de monitoramento intensivo.
Jade estava acordada, sentada o máximo que conseguia, sua mão esticada através do espaço entre as camas, segurando a minha com uma força desesperada.
— Você acordou — sussurrou ela. Seus olhos estavam vermelhos, e eu percebi que ela tinha chorado. Jade West nunca chorava na frente de ninguém, mas ali, na penumbra daquele quarto, ela parecia vulnerável.
— O bebê... — tentei perguntar, o medo travando minha garganta.
— Ele é um lutador, Karen. Igual à mãe. — Jade apertou minha mão, e um sorriso fraco e aliviado surgiu em seu rosto. — Eles conseguiram parar as contrações. Ele está seguro. Você está em repouso absoluto agora, mas ele está bem.
Eu soltei um suspiro que pareceu carregar todo o peso do mundo. Fechei os olhos, sentindo as lágrimas de gratidão.
— Eu tive tanto medo, Jade. Achei que tinha perdido vocês dois no mesmo dia.
— Nunca — afirmou ela. — Eu sou imparável, lembra? E esse pequeno aqui dentro... — Ela apontou para minha barriga, que agora estava calma. — Ele não desistiria de nós tão fácil.
Um médico entrou no quarto logo em seguida, segurando alguns papéis e um tablet. Ele olhou para nós dois, parecendo intimidado pela aura que Jade, mesmo ferida, ainda emanava.
— Bem, vejo que ambos estão acordados. Foi um susto enorme, Sra. West. O estresse causou um descolamento parcial, mas conseguimos estabilizar com a medicação. O feto é extremamente resiliente, o que é comum em linhagens de Alfas dominantes.
— O batimento dele está normal? — perguntei, ainda aflita.
— Mais do que normal. Está forte. — O médico sorriu e virou o tablet para nós. — Inclusive, durante o ultrassom de emergência, conseguimos uma imagem muito clara. Já que vocês estavam tão preocupados, achei que gostariam de uma confirmação definitiva.
Ele deslizou o dedo pela tela, mostrando a silhueta em preto e branco do pequeno ser que habitava em mim.
— Como suspeitávamos pelo vigor dos batimentos e pela estrutura óssea em desenvolvimento... parabéns. É um menino. Um Alfa muito saudável.
O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som dos nossos corações. Jade olhava para a tela com uma fixação quase religiosa. O herdeiro. O menino que ela tanto sentia que estava lá.
— Um menino — repetiu Jade, a voz falhando. — Meu filho.
— Ele vai ser a sua cara, Jade — eu disse, rindo baixinho através das lágrimas. — E vai me dar tanto trabalho quanto você dá.
Jade se inclinou o máximo que suas costelas permitiam, beijando minha mão com uma ternura que me desarmou.
— Ele vai ser o que ele quiser ser — disse ela —, mas ele terá a melhor mãe do mundo para ensiná-lo a ser doce. Porque se ele for apenas como eu, o mundo não vai aguentar.
— Nós vamos ficar bem? — perguntei, olhando para as faixas dela e sentindo minha própria fragilidade.
— Nós somos os West, Karen — respondeu Jade, voltando a ser a Alfa poderosa, imparável e agora, mais do que nunca, protetora. — Nós não apenas ficamos bem. Nós dominamos. E a partir de hoje, ninguém, nem o conselho, nem o destino, vai chegar perto da minha família.
Ficamos ali, de mãos dadas, duas camas de hospital unidas pela força de um vínculo que sobreviveu a acidentes e ameaças de perda. O herdeiro estava a caminho, e com Jade West ao meu lado, eu sabia que o futuro, por mais sombrio que pudesse parecer às vezes, era inteiramente nosso.