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Entre a cruz e a espada

O Altar de Sombras e a Redenção da Alfa

O espelho do banheiro parecia devolver a imagem de uma estranha. Eu me observava, as mãos acariciando a curva ainda macia do meu abdômen, marcada pelas recentes jornadas da maternidade. Um mês havia se passado desde que nosso pequeno Ethan chegara ao mundo, um bebê Alfa robusto e de pulmões fortes que exigia cada grama da minha energia. Luna, com seu um ano e meio, era um furacão de cachos negros e risadas altas, correndo pela mansão com uma energia que só a linhagem West poderia explicar.

Eu me sentia... exausta. O puerpério era um nevoeiro de noites mal dormidas, cheiro de leite e hormônios à flor da pele. Mas, acima de tudo, eu me sentia invisível.

Na noite anterior, quando Ethan finalmente adormeceu e Luna estava em seu berço, eu tentei. Vesti uma camisola de seda que Jade costumava adorar e me deitei ao lado dela, procurando o calor do seu corpo, o cheiro de sândalo que sempre foi meu porto seguro.

— Jade? — sussurrei, roçando minha mão em seu braço musculoso. — Você está acordada?

Jade mal abriu os olhos. Ela parecia carregar o peso do mundo nos ombros. As reuniões do conselho, a expansão do território e a proteção constante da nossa família a estavam consumindo.

— Karen, por favor — murmurou ela, a voz rouca de cansaço. — Eu estou sobrecarregada. Ethan acordou três vezes na noite passada e eu tenho uma reunião ao amanhecer. Vamos apenas dormir.

Ela se virou, me dando as costas. O silêncio que se seguiu foi mais doloroso do que qualquer rosnado. Eu fiquei ali, no escuro, sentindo as lágrimas queimarem. Onde estava a Jade que não conseguia tirar as mãos de mim? Onde estava a Alfa que dizia que meu corpo era o seu templo? Olhei para minhas curvas, agora mais generosas e marcadas pela vida, e me perguntei se ela finalmente tinha se cansado da "ômega doce" que não conseguia mais acompanhar seu ritmo impecável.

No dia seguinte, a insegurança era um monstro faminto no meu peito. Luna estava com a babá e Ethan dormia profundamente. Decidi ir até a sede da alcateia. Queria fazer uma surpresa, levar o café favorito de Jade e talvez conseguir um momento a sós, um vislumbre da conexão que parecia estar escapando por entre meus dedos.

Ao chegar ao prédio de vidro e concreto que servia de coração à nossa organização, o clima era tenso. Os guardas baixaram a cabeça em respeito, mas eu mal notei. Caminhei em direção ao escritório da Alfa Alfa, mas parei abruptamente diante da porta entreaberta.

Lá dentro, Jade estava de pé atrás de sua mesa maciça. Diante dela, uma mulher que eu não conhecia — alta, esguia, vestindo um terno cinza que gritava perfeição — falava em voz baixa. Era a nova assistente pessoal que o conselho impusera para "aliviar a carga" de Jade.

— Você trabalha demais, Jade — disse a mulher, a voz carregada de uma intimidade que me fez estremecer. — Uma Alfa como você merece alguém que entenda sua pressão, que saiba como relaxar seus ombros após um longo dia.

Eu vi a mão da assistente subir, deslizando pelo braço de Jade, aproximando-se do seu pescoço. Jade não se moveu, parecendo perdida em pensamentos, ou talvez, na minha mente paranoica, ela estivesse aceitando o toque.

— Karen é... doce — continuou a mulher, com um tom de desdém que cortou o ar —, mas ela é uma mãe agora. Ela está ocupada com fraldas e choros. Você precisa de fogo, Jade.

A mulher se inclinou, o rosto a centímetros do de Jade, claramente buscando um beijo. Meu coração parou. O café em minhas mãos tremeu.

— Saia. — A voz de Jade não foi um grito, foi um estalo de chicote.

Ela se afastou bruscamente, seus olhos verdes brilhando com uma fúria fria.

— Saia deste escritório agora. E passe no RH. Você está demitida. Nunca mais ouse falar da minha companheira ou tocar em mim.

A assistente empalideceu e saiu apressada, quase esbarrando em mim no corredor. Eu estava estática, as lágrimas escorrendo livremente. Jade me viu. Seus olhos suavizaram por um segundo, mas a tensão do confronto ainda estava lá.

— Karen? O que você está fazendo aqui?

— Eu... eu trouxe café — gaguejei, sentindo-me pequena, feia e inadequada. — Mas acho que você está ocupada com pessoas mais... produtivas.

— Não comece com isso — suspirou Jade, passando a mão pelo cabelo. — Aquela mulher era uma idiota. Eu já resolvi.

— Ela tinha razão em uma coisa, não tinha? — disparei, a dor do puerpério e da rejeição da noite anterior transbordando. — Eu estou ocupada com fraldas. Eu não sou mais a mulher que você desejava. É por isso que você não me toca mais? Porque eu não sou mais "fogo"?

— Karen, não seja ridícula. Eu estou exausta.

— Exaustão é uma desculpa fácil, Jade! — gritei, a voz ecoando pelo corredor. — Você nem olha para mim! Você me prometeu que eu seria sua rainha, mas me sinto como uma mobília que você esqueceu de limpar.

Virei as costas e saí correndo, ignorando o chamado dela.

Passamos uma semana em um silêncio gélido. Eu dormia no quarto de hóspedes com Ethan, alegando que não queria acordá-la. Jade saía cedo e voltava tarde. O clima na mansão era tão pesado que até Luna parecia mais quieta, sentindo a fissura no alicerce da nossa família. Eu tinha certeza: o fim estava próximo. Ela ia perceber que uma Alfa Alfa precisava de alguém que não tivesse estrias ou olheiras.

Na noite de sábado, Jade mandou um bilhete através de um dos guardas. "Vista o vestido azul que comprei para você em Paris. Esteja pronta às 20h. É uma ordem."

Meu primeiro instinto foi rasgar o bilhete. Mas a submissão natural que eu ainda sentia por ela, misturada com uma ponta de esperança, me fez obedecer. O vestido era deslumbrante, de um azul profundo que contrastava com minha pele clara e realçava minhas curvas de mãe recente.

Fui levada de carro até o centro da clareira sagrada da alcateia, um lugar onde apenas os eventos mais importantes ocorriam. Quando o carro parou, meu fôlego sumiu.

A clareira estava iluminada por milhares de pequenas luzes que pareciam estrelas caídas. No centro, uma mesa longa estava posta com o banquete mais luxuoso que já vi. Mas não havia convidados. Apenas Jade, vestida em um terno preto impecável, esperando-me sob o carvalho ancestral.

Caminhei até ela, o coração batendo contra as costelas.

— O que é tudo isso? — perguntei, a voz trêmula.

Jade não respondeu de imediato. Ela caminhou até mim e, pela primeira vez em semanas, segurou meu rosto com as duas mãos. O toque era quente, possessivo e carregado de uma adoração que me fez fechar os olhos.

— Eu sou uma idiota, Karen — sussurrou ela contra a minha testa. — Eu passei as últimas semanas tentando construir um império seguro para nossos filhos, focada em muros e fronteiras, que esqueci de cuidar do jardim que me mantém viva.

— Jade...

— Não interrompa. — Ela sorriu, aquele sorriso sombrio que sempre me desarmava. — Eu vi como você me olhou no escritório. Eu vi a dor nos seus olhos. Você achou que eu não te desejava? Karen, eu passo cada minuto do meu dia tentando não te levar para a cama, porque sei que seu corpo precisa descansar, que você está se doando para o Ethan e para a Luna. Eu me afastei porque achei que estava te protegendo do meu próprio desejo egoísta.

Ela se ajoelhou na grama macia. A Alfa das Alfas, a mulher que nunca se curvava diante de ninguém, estava de joelhos diante de mim. Ela tirou do bolso uma caixa de veludo negro. Dentro, havia um anel de diamante negro cercado por esmeraldas, as cores da nossa união.

— Nós temos os filhos. Temos a marca. Temos o sangue. Mas eu nunca fiz o que era certo. — Jade olhou nos meus olhos, e eu vi a alma da loba exposta. — Karen, você é o meu fogo. Você é a luz que me impede de me tornar o monstro que todos temem. Sem você, eu sou apenas uma predadora sem rumo.

— Jade, você está falando sério? — As lágrimas já lavavam meu rosto.

— Eu nunca falei nada tão sério em toda a minha vida. — Ela segurou minha mão. — Case-se comigo. Não em um contrato de alcateia, mas em um altar de sombras e luz, diante de todos e de ninguém. Seja minha esposa, oficialmente, eternamente. Prometo que nunca mais vou deixar o cansaço ser uma barreira entre nós.

— Sim! — exclamei, puxando-a para cima. — Mil vezes sim!

Jade se levantou e me beijou com uma ferocidade que me tirou o chão. Era um beijo que reivindicava cada centímetro do meu ser, que apagava as dúvidas da semana anterior e incendiava o puerpério com uma promessa de paixão renovada.

— Agora — murmurou ela contra meus lábios, sua mão descendo para apertar minha cintura com uma força deliciosa —, vamos comer esse banquete rápido. Porque eu planejo passar o resto da noite provando que cada curva nova do seu corpo é o meu lugar favorito no mundo.

Eu ri, sentindo-me finalmente em casa. O banquete estava delicioso, mas nada se comparava ao modo como Jade me olhava — como se eu fosse a única criatura que importava em todo o universo lupino. Naquela noite, sob as estrelas e o carvalho, eu entendi que o amor de uma Alfa como Jade West não diminuía com o tempo ou com a rotina; ele apenas se tornava uma força mais profunda, pronta para queimar qualquer um que ousasse dizer que a doçura de uma ômega não era o fogo mais quente de todos.