Entre a morte e ódio
O Veneno da Memória e a Voz da Inocência
A luz da manhã em Alexandria era de um amarelo pálido, quase doentio, filtrando-se pelas persianas da enfermaria. S/N acordou com o gosto de ferro na boca e o peso de uma traição invisível esmagando seu peito. O encontro da noite anterior com Negan, o toque de sua mão em seu rosto, a vulnerabilidade que ela permitiu que ele visse... tudo aquilo agora parecia um veneno que ela havia ingerido voluntariamente.
Como ela pôde?
Enquanto organizava os frascos de antibióticos com movimentos bruscos, as imagens do passado começaram a inundar sua mente como uma represa rompida. Ela não via o Negan que a ajudou na floresta; ela via o homem que sorria enquanto esmagava crânios. Ela ouvia o assobio aterrorizante que precedia a morte. Cada risada dele que agora parecia "charmosa" era, na verdade, o eco do sadismo que destruiu a vida de Maggie, que tirou Glenn deles, que transformou todos em escravos.
A raiva, quente e familiar, voltou a ocupar o lugar do vazio. Era mais seguro odiá-lo. O ódio era uma armadura; a compreensão era uma sentença de morte.
— S/N? Você está tentando quebrar o vidro ou organizar os remédios? — A voz de Maggie a trouxe de volta à realidade.
S/N parou, percebendo que apertava um frasco de soro com tanta força que seus nós dos dedos estavam brancos. Ela respirou fundo, tentando controlar o tremor nas mãos.
— Só estou cansada, Maggie. Muita coisa para processar depois do ataque de ontem.
Maggie aproximou-se, cruzando os braços. Seu olhar era atento, o tipo de olhar que S/N temia porque sabia que não podia esconder muita coisa da melhor amiga.
— Eu vi ele saindo daqui ontem à noite. O Negan. — O nome saiu da boca de Maggie como uma maldição. — Ele estava ferido, eu sei. Mas você parecia... diferente depois.
S/N desviou o olhar, ocupando-se com uma gaze.
— Ele é apenas um paciente, Maggie. Um recurso, como você mesma diz. Eu fiz o meu trabalho.
— Cuidado para não deixar o trabalho se tornar pessoal — avisou Maggie, a voz carregada de uma dor antiga que nunca cicatrizaria totalmente. — Ele tem um jeito de rastejar para dentro da cabeça das pessoas. Ele faz você esquecer quem ele é. Mas eu nunca vou esquecer. E espero que você também não.
— Eu não esqueci — sibilou S/N, e a intensidade de sua própria voz a surpreendeu. — Eu o odeio. Eu odeio cada centímetro daquele homem.
Maggie assentiu, embora houvesse uma sombra de dúvida em seus olhos, e saiu da sala. S/N sentiu um nó na garganta. Ela precisava sair dali. Precisava de ar, de distância, de qualquer coisa que não a lembrasse do conflito que a estava dilacerando.
Mais tarde, S/N foi designada para supervisionar as crianças enquanto os adultos reforçavam os portões. Entre elas estava Judith Grimes. A pequena Grimes tinha uma maturidade que muitas vezes assustava S/N; ela carregava o chapéu do pai e a espada da mãe com uma dignidade que parecia pesada demais para seus ombros pequenos.
Elas se sentaram em um banco perto do parquinho improvisado. S/N estava limpando um pequeno corte no joelho de Judith, um ferimento de uma queda boba enquanto corria.
— Você tem mãos muito gentis, S/N — disse Judith, observando a enfermeira trabalhar. — O Negan me disse uma vez que você tem mãos de anjo, mas que seus olhos são de alguém que já viu o fim do mundo e decidiu não desistir dele.
S/N congelou. O nome dele, saindo da boca de uma criança tão pura, soou como um sacrilégio.
— O Negan fala de mim para você, Judith? — perguntou ela, tentando manter a voz neutra.
— O tempo todo — respondeu a menina, balançando as pernas. — Às vezes, quando estamos lendo ou quando ele está me ajudando com as lições, ele para e olha para a enfermaria. Ele diz que você é a pessoa mais corajosa daqui, porque salvar as pessoas exige mais coragem do que lutar contra elas.
S/N sentiu uma pontada no coração. Ela não queria ouvir aquilo. Queria que ele fosse o vilão unidimensional de seus pesadelos, não alguém que elogiava sua coragem para uma criança.
— Judith, o Negan... ele fez coisas ruins. Coisas que você é jovem demais para entender completamente.
— Eu sei o que ele fez — disse Judith, sua expressão tornando-se subitamente séria, lembrando muito Rick Grimes. — Minha mãe me contou. O tio Daryl também. Mas ele não é mais aquela pessoa, S/N. As pessoas podem ser duas coisas ao mesmo tempo, não podem? Elas podem ser o que foram e o que escolheram ser agora.
— Às vezes o que elas foram é imperdoável — rebateu S/N, guardando o kit de primeiros socorros.
— Ele sente muito — continuou Judith, ignorando a rispidez de S/N. — Ele não diz isso para os outros porque acha que ninguém acreditaria. Mas ele me disse que a única coisa que ele realmente lamenta é que não conheceu você antes. Ele disse que, se tivesse alguém como você por perto naquela época, talvez a Lucille ainda fosse apenas um nome de mulher, e não um bastão.
S/N sentiu as lágrimas arderem em seus olhos. Ela se levantou rapidamente, incapaz de continuar aquela conversa.
— Já terminei, Judith. Vá brincar com os outros.
Ela caminhou sem rumo, suas pernas a levando inconscientemente para a área de expansão, onde o trabalho de reconstrução estava a pleno vapor. De longe, ela viu Negan. Ele estava carregando toras pesadas de madeira, o suor encharcando sua camisa, os músculos dos braços tensos pelo esforço. Ele parou por um momento para ajudar um dos moradores mais velhos a se equilibrar, oferecendo um sorriso que, para qualquer estranho, pareceria genuinamente bondoso.
S/N sentiu uma náusea súbita. O ódio e a atração colidiam dentro dela, criando uma tempestade que ameaçava destruí-la. Ela se lembrou das palavras de Judith: "Ele sente muito".
— Mentira — sussurrou ela para si mesma. — É tudo um jogo. Ele está manipulando a garota, está me manipulando, está manipulando todo mundo.
Mas então, Negan a viu.
Ele não sorriu. Ele não fez nenhuma piada obscena ou comentário sarcástico. Ele apenas parou, segurando a tora de madeira, e sustentou o olhar dela. Havia uma tristeza profunda naqueles olhos escuros, uma aceitação silenciosa de que ele sabia exatamente o que ela estava pensando. Ele sabia que ela o estava odiando novamente, e ele parecia aceitar isso como o seu justo castigo.
Ele desviou o olhar primeiro, voltando ao trabalho pesado, como se soubesse que sua simples presença era uma ofensa para ela.
S/N recuou, escondendo-se atrás de uma das casas. Ela encostou as costas na parede de madeira e deslizou até o chão, enterrando o rosto nas mãos.
— Por que você não pode ser apenas o monstro? — ela soluçou baixinho. — Seria tão mais fácil se você fosse apenas o monstro.
Ela se lembrou das noites de insônia, dos traumas que compartilhava com Carol e Daryl. Lembrou-se de como Carol a ensinara que, para sobreviver, às vezes era preciso matar a parte de si que sentia demais. Mas Negan estava fazendo o oposto. Ele estava forçando-a a sentir tudo. Ele estava arrancando as costuras que ela tinha feito em sua própria alma para não desmoronar.
Daryl apareceu no final do beco, carregando sua besta. Ele a viu ali, encolhida, e parou. Ele não perguntou o que estava errado; ele nunca perguntava. Ele apenas se aproximou e sentou-se no chão ao lado dela, mantendo uma distância respeitosa.
Eles ficaram em silêncio por um longo tempo.
— Ele é como uma infecção, Daryl — disse S/N finalmente, a voz rouca. — Você acha que está curada, e então a febre volta.
Daryl olhou para as próprias mãos, calejadas e sujas.
— Algumas feridas nunca fecham, S/N. A gente só aprende a sangrar sem fazer barulho.
— Você o odeia? — perguntou ela, olhando para o amigo.
Daryl demorou a responder.
— Pelo que ele fez? Sim. Sempre. Mas o que ele é agora... — Daryl suspirou, um som pesado. — O mundo é um lugar de merda. Às vezes, as pessoas de merda são as únicas que entendem como a gente se sente no escuro. Mas isso não significa que você tenha que gostar dele.
— Eu não quero gostar dele. Eu quero que ele desapareça.
— Mas ele não vai — disse Daryl, levantando-se e estendendo a mão para ajudá-la. — E você também não. Então você tem que decidir o que vai fazer com esse fogo aí dentro. Ou você deixa ele te queimar, ou usa ele para se manter aquecida.
S/N aceitou a mão de Daryl e se levantou. Ela limpou a poeira das calças e respirou fundo, tentando recuperar a compostura da "Enfermeira de Ferro".
— Judith me disse coisas hoje. Sobre ele.
Daryl deu um meio sorriso triste.
— Aquela garota vê o que a gente se recusa a ver. Talvez ela esteja certa. Talvez a gente esteja. No fim das contas, a verdade costuma estar em algum lugar no meio da bagunça.
S/N caminhou de volta para o centro de Alexandria. Ela passou pela horta e viu Negan novamente. Ele agora estava sentado no chão, bebendo água de um caneco de metal. Quando ele a viu passar, ele apenas acenou com a cabeça — um gesto simples, quase humilde.
S/N não retribuiu o gesto. Ela acelerou o passo, o coração batendo forte.
Naquela noite, ela voltou para sua casa vazia. O silêncio era opressivo. Ela se deitou na cama, mas o sono não vinha. As palavras de Judith ecoavam em sua mente: "Ele disse que a única coisa que ele realmente lamenta é que não conheceu você antes".
Ela se virou de lado, olhando para a faca que deixava sempre na mesa de cabeceira.
Ela o odiava. Tinha que odiá-lo. O ódio era o que a mantinha leal a Maggie, a Glenn, a todos que haviam partido. Mas, enquanto fechava os olhos, a última imagem que viu não foi o rosto de um monstro, mas o rosto de um homem quebrado, esperando no escuro por uma redenção que ele mesmo acreditava não merecer.
E o que mais a aterrorizava era que, apesar de todo o ódio, ela queria ser a pessoa que seguraria a lanterna para ele.
S/N levantou-se abruptamente, a agitação em seu sangue tornando impossível ficar parada. Ela saiu para a varanda, o ar frio da noite batendo em seu rosto. Alexandria estava silenciosa, apenas o som distante dos sentinelas nas torres.
Ao longe, perto das celas que agora permaneciam abertas por um voto de confiança precário, ela viu uma silhueta sentada em um banco de madeira. Era ele. Ele estava olhando para as estrelas, a postura menos arrogante do que o habitual.
Ela começou a caminhar em sua direção. Cada passo era uma batalha. Sua mente gritava para ela voltar, para se trancar em casa, para manter o ódio vivo e pulsante. Mas seus pés continuavam avançando.
Quando ela chegou a poucos metros, Negan não se virou.
— Eu sabia que o barulho dessas botas era seu — disse ele, a voz suave, sem o deboche costumeiro. — Você caminha como se estivesse pronta para uma cirurgia ou para um assassinato. Nunca sei qual dos dois esperar.
— Judith falou comigo hoje — disse S/N, parando atrás dele.
Negan ficou tenso por um segundo, os ombros subindo levemente.
— Aquela garota fala demais. Espero que ela não tenha te aborrecido.
— Ela disse que você fala de mim. Que diz que eu sou corajosa.
Negan finalmente se virou, olhando-a por cima do ombro. A luz da lua dava a ele uma aparência quase espectral.
— Eu não minto para crianças, S/N. Elas têm um detector de besteira muito mais afiado que o nosso.
— Por que, Negan? Por que dizer essas coisas para ela? Por que tentar parecer um homem bom através dos olhos de uma menina?
Ele se levantou lentamente, virando-se para encará-la completamente.
— Porque eu não sou um homem bom. Eu sei disso. Mas olhar para você... ver como você cuida dessas pessoas, como você carrega a dor de todo mundo e ainda consegue manter as mãos firmes... isso me faz querer ser menos lixo do que eu fui.
S/N deu um passo à frente, a raiva brilhando em seus olhos.
— Você não tem o direito de me usar como sua bússola moral! Você não tem o direito de fazer Judith acreditar que você é uma vítima das circunstâncias!
— Eu nunca disse que era uma vítima! — ele rebateu, a voz subindo de tom, mas ainda contida. — Eu sou o vilão da história de muita gente aqui, e eu aceito isso. Eu aceito o ódio da Maggie, o desprezo do Daryl, e o seu... o seu ódio é o que mais faz sentido.
— Então por que você não me deixa em paz?
Negan deu um passo em direção a ela, diminuindo a distância até que ela pudesse sentir o calor de sua respiração.
— Porque você é a única que me faz sentir que ainda existe um motivo para não caminhar direto para o meio de uma horda de errantes e acabar com tudo. Você é real, S/N. Você é a única coisa real que sobrou para mim neste lugar.
S/N sentiu a respiração falhar. Ela queria bater nele. Queria gritar que ele era um egoísta por colocar esse peso sobre ela. Mas, em vez disso, ela sentiu uma lágrima solitária escorrer por seu rosto.
— Eu odeio você — ela sussurrou, a voz quebrada.
— Eu sei — respondeu ele, estendendo a mão e, desta vez, S/N não recuou quando ele tocou seu rosto. — Mas você também está aqui. No meio da noite, falando com o homem que você diz odiar.
Eles ficaram ali, entre o ódio e a necessidade, dois sobreviventes marcados pela guerra, tentando encontrar um caminho através dos destroços de quem costumavam ser. S/N sabia que a batalha interna estava longe de terminar, mas naquela noite, sob o olhar atento das estrelas e o peso das palavras de Judith, ela permitiu que a armadura caísse apenas um pouco mais.
Porque, no fim das contas, o ódio era cansativo demais para ser carregado sozinha para sempre.