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Entre a morte e ódio

O Eco do que Restou

A noite em Alexandria nunca era verdadeiramente silenciosa. Havia o ranger constante das cercas de metal, o murmúrio do vento entre as casas vazias e, acima de tudo, o som da própria consciência de S/N, que parecia gritar mais alto do que qualquer horda de errantes. Ela estava de volta à sua varanda, mas desta vez Negan não estava lá. O vazio que ele deixou era, de certa forma, mais barulhento do que sua presença irritante.

Ela olhou para as próprias mãos. Elas ainda cheiravam a antisséptico e terra. Eram mãos que curavam, mas que também sabiam tirar a vida com uma precisão cirúrgica. S/N fechou os olhos e, por um breve momento, permitiu-se lembrar da vida antes de tudo. Das aulas de anatomia, do cheiro de café nos corredores do hospital, da esperança de que o futuro seria brilhante. Agora, o futuro era apenas um borrão de sobrevivência e luto.

— Você está fazendo aquele buraco na madeira de novo — uma voz familiar cortou o silêncio.

S/N não se mexeu. Ela sabia que era Daryl. Ele tinha um jeito de aparecer sem ser notado, como uma sombra que protegia sem exigir reconhecimento.

— É melhor do que fazer um buraco na cabeça de alguém — respondeu ela, sem abrir os olhos.

Daryl aproximou-se e sentou-se nos degraus, a alguns metros de distância. Ele carregava sua besta, como sempre, um símbolo de sua prontidão constante.

— Maggie está preocupada — disse ele, a voz rouca e direta. — Ela acha que você está se perdendo.

S/N soltou uma risada seca, desprovida de humor.

— Todo mundo aqui já se perdeu faz tempo, Daryl. Algumas pessoas só são melhores em fingir que encontraram o caminho de volta.

— Ela viu você com ele. Perto das celas.

S/N finalmente abriu os olhos e encarou o perfil endurecido de Daryl.

— E o que ela disse? Que eu sou uma traidora? Que esqueci o que ele fez com o Glenn?

— Ela não disse nada disso — Daryl virou o rosto para ela, os olhos azuis escondidos sob os fios de cabelo sujo. — Ela só está com medo por você. Aquele cara... ele é como um parasita. Ele encontra uma rachadura e se instala nela.

— Eu não sou uma rachadura, Daryl. Eu sou um muro de concreto que foi bombardeado por dez anos. Se ele está tentando se instalar, vai encontrar apenas escombros.

Daryl soltou um suspiro pesado e levantou-se.

— Apenas tome cuidado. Se ele te machucar... de qualquer jeito... eu não vou esperar pelo conselho para resolver.

— Eu sei que não — disse ela, sentindo um calor genuíno no peito pela lealdade dele. — Obrigada, Daryl.

Quando ele se foi, S/N sentiu a necessidade impetuosa de se mover. Ela não conseguia ficar naquela casa. Ela precisava de algo que a fizesse sentir que ainda tinha o controle de sua própria vida. Ela pegou sua mochila, verificou suas facas e saiu em direção aos portões.

O vigia da noite, um homem chamado Gabriel que ela mal conhecia, apenas acenou. S/N era uma das poucas autorizadas a sair para colher ervas medicinais ou buscar suprimentos de emergência a qualquer hora. Ela era útil demais para ser questionada.

A floresta era um labirinto de sombras e sons sinistros. Para S/N, era o único lugar onde ela podia ser quem realmente era: uma criatura de instinto. Ela caminhou por cerca de dois quilômetros, seus sentidos em alerta máximo. O estalar de um galho à esquerda, o rosnar baixo de um errante solitário preso em um arbusto à direita. Ela o eliminou com um movimento rápido de sua faca, sem sequer alterar o ritmo de sua respiração.

Ela chegou a uma clareira onde costumava encontrar raízes de equinácea. O luar iluminava o local, criando um cenário quase pacífico, se não fosse pelo cheiro persistente de decomposição que pairava no ar.

— Sabe, passear sozinha à noite é um convite para o desastre — a voz veio de cima.

S/N girou, a faca já em posição de ataque. Negan estava sentado em um galho grosso de uma árvore antiga, as pernas balançando casualmente.

— Você está me seguindo agora? — sibilou ela, a raiva fervendo novamente. — Eu juro por Deus, Negan, se você não parar com isso, eu vou garantir que você nunca mais caminhe sem ajuda.

Ele desceu da árvore com uma agilidade que desmentia sua idade, pousando suavemente no chão.

— Eu não estava te seguindo, docinho. Eu estava aqui primeiro. Este é o meu lugar de "pensar". É longe o suficiente para não ouvir os sermões do Gabriel e perto o suficiente para não ser comido por uma horda.

— Mentira — disse ela, aproximando-se dele. — Você sabia que eu viria para cá.

Negan deu um passo à frente, entrando na luz da lua. Ele não estava usando sua jaqueta de couro habitual, apenas uma camisa cinza gasta que mostrava as cicatrizes em seus braços.

— Talvez eu conheça seus hábitos melhor do que você gostaria — ele admitiu, o sorriso desaparecendo. — Você está sufocando lá dentro, S/N. Eu sinto o cheiro do seu desespero a quilômetros.

— Você não sabe nada sobre mim — ela retrucou, embora sua voz tivesse perdido um pouco da força.

— Eu sei que você olha para a Maggie e sente culpa — disse ele, a voz tornando-se perigosamente suave. — Eu sei que você olha para o Daryl e sente que tem que ser tão forte quanto ele, mesmo quando quer apenas desabar. E eu sei que, quando você olha para mim, você vê todas as coisas que você odeia em si mesma.

S/N avançou e o empurrou contra o tronco da árvore. Ela pressionou a ponta de sua faca contra o pescoço dele, logo abaixo da mandíbula.

— Cala a boca — ela ordenou, os olhos brilhando com lágrimas de fúria. — Você não tem o direito de dissecar a minha alma. Você é um monstro, Negan. Um assassino. Um homem que destruiu famílias por diversão.

Negan não se moveu. Ele não tentou desarmá-la. Ele apenas olhou profundamente nos olhos dela, uma expressão de aceitação absoluta em seu rosto.

— Então por que você não corta? — ele desafiou, o pomo de adão roçando na lâmina. — Acabe com isso. Mate o monstro. Salve a todos de mim. Salve a si mesma de mim.

A mão de S/N tremeu. O aço frio estava contra a pele dele, e bastaria um movimento rápido para acabar com o pesadelo. Mas ela não conseguia. Não era porque ela tinha piedade dele. Era porque, naquele momento, ela percebeu que, se o matasse, estaria matando a única pessoa que realmente a via sem as máscaras.

— Eu odeio você — ela sussurrou, a faca caindo de seus dedos e atingindo o solo macio.

— Eu sei — respondeu ele.

Ele estendeu os braços e a puxou para um abraço. Não era um abraço romântico; era um impacto. S/N enterrou o rosto no peito dele e soltou um grito abafado, um som que ela vinha guardando desde que a primeira cabeça foi esmagada naquele clareira anos atrás. Ela chorou pela perda de sua inocência, pela brutalidade do mundo e pelo fato terrível de que o homem que ela mais deveria odiar era o único que estava lá para segurá-la.

Negan apenas a segurou, sua mão grande acariciando o cabelo dela com uma ternura que ele provavelmente não demonstrava a ninguém há décadas.

— Shhh... está tudo bem — ele murmurou. — Deixe sair. O mundo não vai acabar se você quebrar por um minuto. Ele já acabou mesmo.

Eles ficaram assim por o que pareceu uma eternidade. Quando o choro de S/N finalmente diminuiu para soluços esporádicos, ela se afastou, limpando o rosto com as costas das mãos. Ela se sentia exausta, mas, pela primeira vez em anos, a pressão em seu peito havia diminuído.

— Isso não muda nada — disse ela, a voz ainda trêmula.

— Eu sei que não — concordou Negan, abaixando-se para pegar a faca dela e entregá-la pelo cabo. — Amanhã você vai me olhar com nojo de novo. Vai me dar respostas curtas e vai se certificar de que a Maggie saiba que você ainda está no time dela.

S/N pegou a faca, guardando-a na bainha.

— E você? O que você ganha com isso?

Negan olhou para o céu, um sorriso triste brincando em seus lábios.

— Eu ganho um motivo para acordar amanhã. E, acredite ou não, docinho, isso é mais do que eu esperava ter quando saí daquela cela.

Eles caminharam de volta para Alexandria em silêncio. A tensão entre eles não havia desaparecido; ela havia se transformado em algo novo, algo sem nome e perigoso. Quando chegaram aos portões, S/N parou e olhou para ele.

— Se você contar a alguém sobre isso... — ela começou.

— O que? Que a grande S/N tem sentimentos humanos? — ele interrompeu com uma piscadela. — Meu segredo está guardado com a Lucille. E ela não é muito de falar ultimamente.

S/N revirou os olhos, mas não conseguiu evitar um pequeno repuxo nos lábios. Era a primeira vez que ela quase sorria perto dele.

Ao entrar em Alexandria, ela viu Carol observando da varanda de sua casa. Carol não disse nada, apenas acenou levemente com a cabeça antes de entrar. S/N sabia que o julgamento viria mais cedo ou mais tarde, mas, por enquanto, ela só queria dormir.

No dia seguinte, a rotina recomeçou. O trabalho na enfermaria era incessante. Maggie apareceu por volta do meio-dia com algumas ervas que S/N havia pedido.

— Você saiu ontem à noite — disse Maggie, sem rodeios.

— Precisava de ar — respondeu S/N, concentrada em moer algumas folhas.

— S/N... — Maggie hesitou, colocando a mão sobre a dela. — Eu perdi quase tudo. Eu não posso perder você para a escuridão dele.

S/N olhou para a amiga, vendo a dor e o medo em seus olhos. Ela sentiu uma pontada de culpa, mas também uma clareza que não tinha antes.

— Você não vai me perder, Maggie. Mas você precisa entender uma coisa. A escuridão já está aqui. Ela está em todos nós. O Negan... ele apenas parou de fingir que ela não existe.

Maggie retirou a mão, a expressão endurecendo.

— Isso é o que ele quer que você acredite. Que somos todos iguais a ele. Mas não somos.

— Não somos — concordou S/N. — Mas isso não significa que não possamos usar a sombra dele para nos proteger às vezes.

Maggie saiu da enfermaria sem dizer mais nada. S/N sabia que aquela conversa estava longe de terminar.

À tarde, S/N foi até o jardim comunitário. Ela viu Negan trabalhando sob o sol forte, ajudando a consertar um dos sistemas de irrigação. Ele parecia exausto, mas não reclamava. Quando ele a viu, ele apenas inclinou a cabeça, um reconhecimento silencioso do que havia acontecido na floresta.

Ela se aproximou dele, carregando uma caneca de água gelada.

— Beba isso — disse ela, estendendo a caneca. — Não quero ter que tratar você por insolação.

Negan pegou a caneca, suas mãos roçando nas dela. O contato enviou um choque pelo braço de S/N, mas ela não recuou.

— Obrigado, doutora — ele disse, bebendo a água avidamente. — Você é um anjo de misericórdia, mesmo quando está tentando me matar com o olhar.

— Volte ao trabalho, Negan — ela disse, mas não havia veneno em sua voz.

Enquanto se afastava, ela sentiu o olhar dele em suas costas. Ela sabia que estava caminhando em uma corda bamba. De um lado, sua lealdade à família que a acolheu e as memórias de todos os que morreram. Do outro, a conexão inexplicável com o homem que representava tudo o que eles lutaram contra.

Mas, pela primeira vez, S/N não estava com medo de cair. Ela percebeu que, em um mundo onde os mortos caminham, a única coisa que realmente importa é quem está ao seu lado quando as luzes se apagam. E, por mais distorcido que fosse, Negan havia provado que ele estaria lá, segurando a lanterna no escuro.

Naquela noite, S/N não teve pesadelos. Ela sonhou com uma clareira iluminada pelo luar, onde as feridas podiam ser lavadas e o ódio podia, finalmente, dar lugar a algo que parecia muito com a paz.

Ela acordou com o som do assobio dele vindo da rua. Era o mesmo assobio que outrora causava terror, mas agora, para ela, era apenas um lembrete de que ela não estava sozinha em sua quebra. S/N levantou-se, vestiu sua jaqueta e preparou-se para mais um dia. A guerra dentro dela ainda não havia acabado, mas ela finalmente havia assinado um armistício.

E, no mundo de The Walking Dead, isso era o mais próximo de um final feliz que alguém poderia esperar. Ela saiu de casa e, ao ver Negan acenar para ela de longe, S/N permitiu-se um pequeno e imperceptível sorriso. O monstro e a enfermeira, unidos pelos destroços de um mundo que não os queria mais. Era estranho, era perigoso, mas era terrivelmente real.