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Entre a morte e ódio

O Labirinto de Vidro e Cinzas

— Você está fazendo de novo — disse a voz arrastada, cortando o silêncio pesado da enfermaria.

S/N não levantou os olhos do microscópio que havia conseguido recuperar em uma das últimas buscas. Seus dedos, embora firmes, apertavam o ajuste de foco com uma força desnecessária. O cheiro de álcool isopropílico e mofo era o seu único conforto, uma barreira química entre ela e o homem encostado no batente da porta.

— Fazendo o quê, Negan? — perguntou ela, a voz desprovida de qualquer emoção, como se estivesse lendo uma lista de sintomas de um livro médico.

— Fingindo que é uma máquina — Negan deu um passo para dentro, o som de suas botas no piso de madeira ecoando como batidas de um coração pesado. — Você organiza esses frascos, limpa essas lâminas e costura as pessoas como se estivesse remendando sacos de estopa. Mas eu vi o jeito que você olhou para o horizonte quando o alarme tocou hoje cedo. Você estava procurando por mim.

S/N finalmente se afastou do aparelho, cruzando os braços sobre o jaleco improvisado e manchado. Seus olhos encontraram os dele, frios e impenetráveis.

— Eu estava procurando por ameaças, Negan. Você é uma delas, mas não a única. Agora, se você não tem um ferimento séptico ou uma bala alojada em algum lugar, saia da minha enfermaria. Tenho trabalho a fazer.

Negan soltou uma risada curta, um som seco que não carregava o deboche de antigamente, mas algo que beirava a melancolia. Ele se aproximou da mesa, ignorando a distância de segurança que ela tentava impor.

— Você é uma mentirosa terrível, docinho. E o pior é que está mentindo para a única pessoa que conhece o sabor da sua mentira.

— Saia — sibilou ela, sentindo o calor subir pelo pescoço, uma reação física que ela odiava por não conseguir controlar.

Ele não saiu. Em vez disso, inclinou-se sobre a mesa, diminuindo o espaço entre eles até que ela pudesse sentir o cheiro de couro e pólvora que sempre o acompanhava.

— O que aconteceu na cabana... o que aconteceu na horta... você pode tentar enterrar sob mil camadas de gaze e antisséptico. Mas está aí. Eu sinto o seu pulso acelerar toda vez que eu chego perto. Você não me odeia mais, S/N. Você tem medo do quanto gosta de mim.

— Eu não gosto de você! — Ela explodiu, empurrando-o para trás com as mãos espalmadas em seu peito. — Eu sinto nojo de mim mesma por cada segundo que passei perto de você sem tentar te matar. Eu sinto ódio por cada palavra que você diz porque você acha que tem o direito de me decifrar!

Negan não recuou. Ele segurou os pulsos dela, não com força, mas com uma firmeza que a obrigava a encará-lo.

— Então me mate — desafiou ele, a voz agora baixa e rouca. — Há uma faca de bisturi bem ali na mesa. Pegue-a e acabe com essa confusão. Se você me odeia tanto, por que eu ainda estou respirando?

S/N sentiu as lágrimas arderem em seus olhos, uma mistura de exaustão e fúria. Suas mãos tremiam contra o peito dele, sentindo o ritmo constante do coração de Negan. Ela queria atacá-lo, queria feri-lo, mas, acima de tudo, queria que ele parasse de dizer a verdade.

— Porque eu sou uma enfermeira — sussurrou ela, a voz quebrada. — Eu salvo vidas. Até as que não valem a pena.

Negan soltou os pulsos dela lentamente, seus olhos escuros suavizando por um breve momento.

— É uma desculpa nobre — disse ele —, mas nós dois sabemos que não é a única.

Ele se afastou, caminhando em direção à porta, mas parou antes de sair.

— O grupo que avistamos... o Daryl acha que eles são batedores. Se houver um ataque, não tente ser a heroína solitária. Eu vou estar por perto. Quer você admita ou não que precisa de mim.

A porta se fechou, deixando S/N sozinha com o silêncio opressivo de suas próprias negações. Ela se deixou escorregar até o chão, as mãos cobrindo o rosto. Como ela havia chegado a esse ponto? Como o homem que personificava o fim de tudo o que era bom havia se tornado a única pessoa capaz de enxergar através de sua armadura?

Mais tarde, enquanto o sol se punha em tons de roxo e cinza, S/N encontrou Maggie perto do arsenal. Maggie estava limpando sua arma com uma eficiência mecânica, o rosto endurecido pelas perdas que nunca cicatrizariam.

— Ele esteve na enfermaria de novo — disse Maggie, sem olhar para cima. Não era uma pergunta.

— Ele é persistente — respondeu S/N, tentando manter o tom casual enquanto organizava sua bolsa de campo.

— S/N, eu conheço você desde que éramos quase crianças — Maggie parou o movimento da flanela e olhou para a amiga. — Eu vi você enfrentar coisas que matariam a maioria das pessoas. Mas você está diferente. Está distante.

— É a guerra, Maggie. Alpha tirou muito de nós. Estou apenas cansada.

Maggie deu um passo à frente, colocando a mão no ombro de S/N. Sua voz era suave, mas carregava o peso de um aviso.

— O Negan não é um de nós. Ele nunca será. Ele ajudou contra os Sussurradores porque era do interesse dele sobreviver. Não confunda utilidade com redenção. E, por favor, não deixe que ele te arraste para o buraco onde ele vive.

— Eu sei quem ele é, Maggie — disse S/N, sentindo o peso da mentira em sua língua. — Eu nunca esqueceria o Glenn. Nunca.

— Eu sei que não — Maggie sorriu tristemente e voltou ao seu trabalho.

S/N saiu dali sentindo-se como uma traidora. Cada interação gentil com Maggie ou Daryl parecia uma facada em suas próprias costas. Ela estava vivendo uma vida dupla, uma onde ela era a leal enfermeira de Alexandria, e outra onde ela era uma mulher que buscava o olhar de um assassino no meio da multidão para se sentir segura.

A noite trouxe o pânico.

O grito do sentinela na torre norte rasgou o ar, seguido quase instantaneamente pelo som de explosões. Alexandria estava sob ataque. Não eram Sussurradores, mas um grupo paramilitar bem armado, interessado nos suprimentos e na infraestrutura da comunidade.

S/N entrou em modo automático. Ela correu para a enfermaria, mas antes que pudesse chegar, uma granada atingiu o prédio vizinho, lançando detritos e chamas para todos os lados. O caos era absoluto. Pessoas corriam, gritos de dor ecoavam e o som de tiros era constante.

— S/N! — O grito de Daryl veio de algum lugar à direita. — Vá para o posto de triagem nos fundos! Agora!

Ela não hesitou. Pegou sua bolsa e começou a se mover entre as sombras, evitando os focos de incêndio. No caminho, encontrou um morador caído, com um estilhaço na perna. Ela se ajoelhou, as mãos movendo-se com a precisão que Negan tanto criticava.

— Vai ficar tudo bem, respire — disse ela, aplicando um torniquete improvisado.

Enquanto trabalhava, um vulto se aproximou por trás. S/N sacou sua faca, pronta para golpear, mas parou quando viu o reflexo da luz nas lâminas de um facão familiar.

— Eu disse que estaria por perto — Negan estava coberto de fuligem, os olhos brilhando com uma intensidade selvagem. — Tire ele daqui. Eu cubro vocês.

— Negan, você devia estar nos portões! — gritou ela por cima do barulho das explosões.

— O Daryl e a Maggie estão lá. Meu trabalho é garantir que a nossa melhor médica não vire estatística. Agora, mova-se!

Eles avançaram sob fogo cruzado. Negan movia-se com a brutalidade eficiente que o tornara o líder dos Salvadores, mas agora essa violência era um escudo para ela. Ele derrubou dois invasores que tentaram interceptá-los, seus movimentos fluidos e letais. S/N, apesar do horror, não pôde deixar de sentir uma onda de alívio por ele estar ali.

Chegaram ao posto de triagem, uma área protegida por muros de concreto. S/N entregou o ferido aos outros ajudantes e virou-se para Negan. Ele estava ofegante, um corte sangrando em sua bochecha.

— Você está ferido — disse ela, estendendo a mão para o rosto dele sem pensar.

Negan segurou a mão dela no meio do caminho, seus dedos sujos de sangue e pólvora apertando os dela.

— Eu estou bem. Continue salvando as pessoas, docinho. É o que você faz de melhor.

Ele se virou para voltar ao combate, mas S/N o segurou pela manga da camisa.

— Negan! — Ela hesitou, as palavras presas na garganta. — Tome cuidado.

Ele deu aquele sorriso torto, o mesmo que a irritava e a encantava em medidas iguais.

— Você quase soou como se se importasse.

— Vá logo antes que eu mude de ideia e te deixe sangrar — retrucou ela, recuperando sua máscara de frieza.

A batalha durou horas. Alexandria resistiu, mas o preço foi alto. Quando o sol começou a nascer, revelando a destruição e os corpos espalhados, S/N estava exausta, suas roupas encharcadas com o sangue de amigos e inimigos.

Ela estava sentada no meio-fio, as mãos trêmulas finalmente cedendo ao cansaço, quando viu Negan se aproximar. Ele caminhava com dificuldade, apoiando-se em um pedaço de metal. Daryl estava a alguns metros de distância, observando-os com uma expressão sombria.

Negan parou na frente dela e, sem dizer uma palavra, estendeu um cantil de água.

S/N pegou o cantil, suas mãos roçando nas dele. Ela olhou para Daryl, que desviou o olhar com um suspiro de desaprovação, e depois olhou para Negan.

— Ganhamos — disse ele, a voz falhando.

— Ganhamos — repetiu ela, tomando um gole da água que parecia ter gosto de poeira e vitória amarga.

— Você salvou o Scott. E a pequena Gracie. Eu vi — comentou ele, sentando-se no chão ao lado dela, ignorando as convenções sociais de Alexandria que o manteriam distante.

— Fiz meu trabalho.

— Pare com isso, S/N — disse ele, a voz agora séria. — Não há mais ninguém ouvindo. Você não precisa ser a "Enfermeira de Ferro" agora. O mundo quase caiu de novo hoje.

S/N sentiu a primeira lágrima cair, seguida por outra. Ela odiava a vulnerabilidade, odiava que ele fosse o único a permiti-la.

— Eu sinto que estou traindo todo mundo — sussurrou ela, as palavras saindo como um lamento sufocado. — Cada vez que eu te olho e não sinto ódio... eu sinto que estou apagando a memória de quem morreu.

Negan suspirou e, desafiando todos os olhares de Alexandria, passou o braço pelos ombros dela, puxando-a para perto. S/N resistiu por um segundo, a mente gritando "não", mas o corpo, exausto e faminto por conforto, cedeu.

— Memória não é ódio, S/N — disse ele, encostando a cabeça na dela. — Você pode honrar os mortos e ainda assim querer estar viva. E estar viva significa sentir coisas que não fazem sentido. Coisas complicadas. Coisas que envolvem caras como eu.

— Você é um idiota convencido — disse ela, limpando o rosto no ombro dele.

— E você é uma teimosa incurável. Acho que estamos quites.

Ficaram ali por um longo tempo, enquanto Alexandria começava a se reconstruir ao redor deles. Maggie passou por eles, carregando uma caixa de suprimentos; ela parou, olhou para os dois e, por um momento, a dor em seu rosto foi substituída por algo que parecia uma aceitação resignada. Ela não aprovava, talvez nunca aprovasse, mas ela via que S/N precisava daquilo para não quebrar.

S/N sabia que, a partir daquele dia, nada seria igual. Ela continuaria ignorando seus sentimentos em público, continuaria sendo a enfermeira ágil e silenciosa que todos respeitavam. Mas, nas sombras, no silêncio entre as batalhas, ela sabia que havia encontrado seu porto seguro no lugar mais improvável do mundo.

— Isso ainda não nos torna um casal, Negan — disse ela, afastando-se um pouco e tentando recuperar sua dignidade.

— Claro que não — ele sorriu, levantando-se com esforço. — Somos apenas dois destroços flutuando no mesmo oceano. Mas, ei, é melhor do que afundar sozinho, não acha?

S/N levantou-se também, ajustando sua bolsa de primeiros socorros. Ela olhou para as ruínas de Alexandria e depois para o homem ao seu lado. O ódio ainda estava lá, em algum lugar profundo, um lembrete do passado. Mas o presente era vasto e faminto, e ele exigia algo que ela só conseguia encontrar nos olhos de Negan: a permissão para ser humana, com todas as suas falhas e contradições.

— Vamos — disse ela, começando a caminhar em direção à enfermaria destruída. — Temos feridos para cuidar. E você precisa de pontos nesse rosto antes que infeccione.

— Sim, senhora — respondeu Negan, seguindo-a de perto. — Mas só se você prometer usar aquela anestesia que você guarda para os seus favoritos.

S/N não respondeu, mas, pela primeira vez em muito tempo, o peso em seu peito parecia um pouco mais leve. Ela continuaria lutando contra o que sentia, continuaria construindo muros de vidro ao seu redor, mas sabia que, toda vez que Negan assobiasse ou fizesse um comentário sarcástico, uma nova rachadura apareceria. E, talvez, no fim das contas, a cura não estivesse nos remédios, mas na coragem de deixar o vidro quebrar.