Entre a morte e ódio
O Labirinto entre a Culpa e o Desejo
O retorno a Alexandria foi marcado por um silêncio que pesava mais do que as sacolas de suprimentos que o grupo carregava. A missão fora um sucesso técnico — haviam encontrado comida e remédios suficientes para garantir algumas semanas de fôlego —, mas, para S/N, cada passo em direção aos portões de ferro da comunidade parecia um passo em direção a uma cela de sua própria autoria.
O tornozelo ainda latejava, uma dor física que ela usava como âncora para não se perder nos pensamentos que gravitavam em torno de Negan. Ele caminhava alguns metros atrás, mantendo a postura relaxada, mas seus olhos, sempre que encontravam os dela, carregavam uma promessa silenciosa de que o que aconteceu na cabana não seria enterrado tão facilmente.
Assim que cruzaram os portões, a agitação de Alexandria os envolveu. Pessoas famintas e exaustas se aproximaram com esperança nos olhos. Maggie começou a coordenar a distribuição, sua voz firme escondendo o cansaço. Daryl, após um aceno curto para S/N, dirigiu-se ao arsenal.
S/N sentiu-se isolada no meio da multidão.
— Você precisa ir para a enfermaria — disse Negan, aproximando-se o suficiente para que apenas ela ouvisse. — Esse tornozelo não vai se curar sozinho só porque você é teimosa.
S/N sentiu um arrepio percorrer sua espinha ao ouvir aquela voz tão próxima. Ela se virou, a máscara de frieza voltando ao lugar com uma precisão cirúrgica.
— Eu sei o que fazer com meu próprio corpo, Negan — respondeu ela, a voz baixa e cortante. — Cuide da sua vida.
Negan soltou uma risada curta, aquele som anasalado que costumava irritá-la, mas que agora fazia seu coração falhar uma batida.
— Como quiser, docinho — disse ele, dando um passo atrás e levantando as mãos em sinal de rendição. — Mas lembre-se: máscaras cansam. E a sua está rachada.
Ele se afastou, desaparecendo entre as casas, deixando S/N parada no meio da rua, lutando para respirar. Ela sentia o olhar de Maggie sobre si. Sua melhor amiga estava a poucos metros, entregando latas de conserva a uma família, mas seus olhos azuis estavam fixos em S/N com uma intensidade analítica.
S/N forçou-se a caminhar até a enfermaria. O trajeto foi lento. Cada movimento era um lembrete do peso de Negan sobre ela na cabana, do gosto de metal e desespero de seu beijo. Ela entrou no pequeno prédio branco e fechou a porta, encostando a cabeça na madeira fria. O silêncio da enfermaria era seu único refúgio.
— S/N? — A voz de Carol veio do canto da sala. Ela estava sentada em uma das macas, limpando uma faca. — Você demorou.
— O caminho foi difícil, Carol — respondeu S/N, tentando manter a voz estável enquanto se sentava para examinar o tornozelo.
Carol se levantou e caminhou até ela. Seus movimentos eram leves, quase imperceptíveis. Ela se agachou e começou a ajudar S/N a desamarrar a bota.
— O Daryl disse que vocês ficaram isolados — comentou Carol, sem levantar o olhar. — Você e o Negan.
S/N sentiu o sangue congelar.
— Foi um acidente. O desmoronamento nos separou do resto do grupo.
Carol parou o que estava fazendo e olhou diretamente nos olhos de S/N. Havia uma sabedoria terrível naqueles olhos cinzentos, uma percepção que vinha de anos sobrevivendo a monstros e se tornando um deles quando necessário.
— Ele é perigoso, S/N — disse Carol, a voz suave, quase um sussurro. — Não do jeito que costumava ser, com o bastão e o teatro. Ele é perigoso porque ele sabe como encontrar as pessoas que estão sangrando por dentro.
— Eu não estou sangrando, Carol — mentiu S/N, desviando o olhar.
— Todos estamos — retrucou Carol, terminando de tirar a bota de S/N. — Mas você está deixando ele ver a ferida. E homens como o Negan... eles não curam. Eles apenas ocupam o espaço da dor até que você não consiga mais distinguir o que é você e o que é ele.
S/N não respondeu. Ela não podia. Qualquer palavra seria uma confissão. Ela apenas aceitou o curativo que Carol fez e agradeceu, desejando que a amiga saísse logo para que ela pudesse desabar em paz.
A noite caiu sobre Alexandria como um manto pesado. S/N não conseguia dormir. O quarto parecia pequeno demais, as paredes pareciam estar se fechando. Ela se levantou, vestiu o casaco e saiu para caminhar. A lua estava cheia, iluminando as ruas desertas com uma luz prateada e fantasmagórica.
Seus pés a levaram, quase contra sua vontade, para os limites da comunidade, perto de onde Negan costumava trabalhar durante o dia. Ela o encontrou sentado em um banco perto da horta, observando as plantas que começavam a brotar.
— O sono também fugiu de você? — perguntou ele, sem se virar.
S/N parou a alguns metros de distância.
— Eu vim para dizer que o que aconteceu... não pode se repetir. Nunca.
Negan levantou-se lentamente e virou-se para ela. Ele parecia cansado, as linhas em seu rosto mais profundas sob a luz do luar.
— Você veio até aqui no meio da noite para me dizer algo que poderia ter dito amanhã? — Ele deu um passo à frente. — Ou você veio porque o silêncio da sua casa estava gritando o meu nome?
— Pare com isso! — sibilou ela, a raiva voltando a borbulhar. — Você acha que pode simplesmente entrar na minha cabeça e bagunçar tudo? Você destruiu a vida das pessoas que eu amo!
— E eu estou pagando por isso todos os malditos dias! — retrucou Negan, sua voz ganhando intensidade. — Eu vivo em uma cela, eu trabalho como um escravo, eu aguento o desprezo de cada pessoa neste lugar. Mas você... você me olha e não vê um prisioneiro. Você vê um homem. E isso te apavora porque você se sente atraída por esse homem.
S/N avançou, encurtando a distância entre eles. Ela queria esbofeteá-lo, queria gritar que ele estava errado, mas quando chegou perto o suficiente, a força a abandonou.
— Eu odeio o que você me faz sentir — sussurrou ela, as lágrimas finalmente transbordando. — Eu odeio sentir que sou a única que te entende. Eu odeio sentir que, perto de você, eu não preciso fingir que sou a enfermeira perfeita que salva todo mundo.
Negan estendeu a mão e, com uma hesitação rara, tocou o rosto dela. Seus dedos eram calejados, mas o toque era incrivelmente gentil.
— Então não finja — disse ele. — Aqui, agora, não há Maggie, não há Daryl, não há o fantasma do Glenn. Há apenas nós dois. Duas pessoas que o mundo tentou mastigar e cuspir fora.
S/N fechou os olhos, entregando-se ao toque. Era uma traição a cada princípio que ela defendia, a cada memória de seus amigos mortos, mas naquele momento, a solidão era uma dor mais forte do que a culpa.
— Por que eu? — perguntou ela, a voz quebrada. — De todas as pessoas aqui, por que você insiste comigo?
Negan aproximou o rosto do dela, até que suas testas se encostassem.
— Porque você é a única que não olha para mim com pena ou com um ódio cego. Você olha para mim e vê a verdade. E a verdade é que eu sou um desgraçado que encontrou algo bonito no meio das cinzas. E esse algo é você, S/N.
Ele a beijou novamente. Desta vez, não houve a urgência desesperada da cabana. Foi um beijo lento, quase exploratório, carregado de uma tristeza profunda e de uma aceitação inevitável. S/N sentiu-se afundar, como se estivesse caindo em um abismo, mas pela primeira vez, ela não tinha medo da queda.
Eles se separaram quando ouviram o som de passos metálicos na passarela de vigia acima deles. S/N recompôs-se rapidamente, limpando o rosto.
— Você precisa ir — disse Negan, sua voz voltando ao tom pragmático. — Se nos virem juntos assim, não haverá explicação que te salve.
— Eu sei — respondeu ela. — Negan... isso não nos torna "nós". Não há um "nós" neste mundo.
— Talvez não — disse ele, voltando a se sentar no banco. — Mas há o agora. E o agora é a única coisa que realmente possuímos.
S/N caminhou de volta para casa, sentindo o peso do segredo como uma âncora em seu pescoço. Ela sabia que estava brincando com fogo, que a qualquer momento a verdade poderia explodir e destruir o pouco de paz que Alexandria havia conquistado. Mas, ao deitar-se em sua cama, ela percebeu que o tremor em suas mãos havia desaparecido.
Nos dias que se seguiram, a tensão em Alexandria aumentou. Um novo grupo de sobreviventes fora avistado nas proximidades, e os preparativos para uma possível defesa começaram. S/N estava sobrecarregada na enfermaria, preparando kits de trauma e organizando os poucos estoques de morfina.
Maggie entrou na enfermaria no final de uma tarde exaustiva. Ela trazia uma caneca de chá e um semblante preocupado.
— Você mal tem saído daqui, S/N — disse Maggie, colocando o chá sobre a mesa. — Precisa descansar.
— Há muito o que preparar, Maggie. Se houver um ataque...
— Se houver um ataque, precisaremos de você inteira, não de um fantasma — interrompeu Maggie. Ela hesitou por um momento antes de continuar. — Eu vi você conversando com o Negan perto da horta, algumas noites atrás.
O coração de S/N disparou, mas ela manteve as mãos ocupadas com um rolo de gaze.
— Ele estava tendo problemas para dormir. Eu dei a ele algumas orientações médicas básicas.
Maggie caminhou até ela e colocou a mão sobre o ombro da amiga.
— S/N, eu confio em você com a minha vida. Mas o Negan... ele é um mestre em encontrar as fraquezas das pessoas. Ele usa a empatia como uma arma. Por favor, não deixe que ele te use para conseguir o que quer.
S/N olhou para Maggie e sentiu uma pontada de agonia. Como ela poderia explicar que Negan não estava usando sua empatia, mas sim sua própria dor?
— Eu sei quem ele é, Maggie — disse S/N, e era a verdade mais dolorosa que ela já havia pronunciado. — Eu nunca vou esquecer o que ele fez.
— Espero que não — respondeu Maggie, retirando a mão. — Porque se você esquecer, você se perde. E eu não posso perder mais ninguém.
Maggie saiu, e S/N sentiu-se sufocar. A lealdade a Maggie era a base de sua vida em Alexandria, mas a conexão com Negan era algo que ela não conseguia mais ignorar. Era como se ela vivesse em dois mundos paralelos: um onde ela era a enfermeira heroica e leal, e outro onde ela era apenas uma mulher quebrada buscando conforto nos braços de um monstro.
Naquela tarde, enquanto buscava água no poço central, ela cruzou com Daryl. Ele estava limpando suas flechas, mas parou assim que a viu.
— Você está agindo de forma estranha — disse ele, sem rodeios. — Desde que voltamos daquela missão. O que aconteceu naquela cabana, S/N?
S/N sentiu o suor frio em sua nuca. Daryl tinha um instinto quase animal para mentiras.
— Nada, Daryl. Já te contei. Ficamos presos, ele me ajudou com o tornozelo e esperamos o socorro.
Daryl aproximou-se, seus olhos semicerrados.
— Ele te tocou? Ele te ameaçou? Se ele fez algo...
— Ele não fez nada, Daryl! — interrompeu ela, a voz um pouco mais alta do que pretendia. — Por que é tão difícil acreditar que podemos simplesmente sobreviver juntos sem que algo terrível aconteça?
Daryl cuspiu no chão, uma expressão de desgosto em seu rosto.
— Porque é o Negan. E nada com ele é simples. Tome cuidado. Você está andando em gelo fino, e eu não vou estar lá para te puxar se você afundar.
Ele se afastou, deixando S/N com a sensação de que as paredes de Alexandria estavam se tornando grades de uma prisão.
Mais tarde, Negan foi designado para ajudar no reforço dos portões sul. S/N passou por ele enquanto levava suprimentos para a torre de vigia. Ele estava carregando uma viga de madeira pesada, o suor escorrendo por seu pescoço. Quando seus olhos se encontraram, não houve sorriso, não houve provocação. Houve apenas um entendimento mútuo do perigo em que ambos se encontravam.
— S/N — ele chamou baixinho quando ela passou por ele.
Ela parou, mas não se virou.
— Eles estão desconfiados — sussurrou ela. — Maggie e Daryl. Eles sabem que algo mudou.
— Eles sempre souberam que algo mudaria — respondeu Negan, colocando a viga no chão. — Eles só não esperavam que fosse com o bicho-papão deles.
— Isso não é uma piada, Negan! Se eles descobrirem...
— Se eles descobrirem, eles vão ter que lidar com o fato de que o mundo não é preto e branco — interrompeu ele, aproximando-se um passo. — Você não fez nada de errado, S/N. Você apenas escolheu não estar sozinha.
— Escolher você é a coisa mais errada que eu já fiz — disse ela, finalmente virando-se para olhá-lo.
— Talvez — admitiu ele, um brilho de admiração em seus olhos. — Mas é a única coisa que te faz parecer viva de verdade ultimamente.
S/N seguiu seu caminho, mas as palavras dele ecoaram em sua mente. Ele tinha razão. O perigo, a proibição, a conexão proibida... tudo aquilo injetava uma dose de adrenalina em suas veias que ela não sentia há anos. Em um mundo de mortos, sentir-se viva era um vício perigoso.
A noite trouxe um alerta. O grupo de sobreviventes desconhecidos fora avistado a menos de um quilômetro dos muros. Alexandria entrou em estado de alerta máximo. Tochas foram acesas, sentinelas dobradas. S/N estava na enfermaria, verificando os estoques pela décima vez, quando Negan entrou.
Ele estava armado com um facão e usava o olhar frio de quem já havia comandado exércitos.
— Eles estão vindo — disse ele. — São muitos. Mais do que o Daryl calculou.
— Como você sabe? — perguntou S/N, sentindo o medo começar a subir por sua garganta.
— Eu vi os rastros hoje cedo. Eu não disse nada porque não queria causar pânico prematuro, mas eles não são apenas saqueadores. Eles são organizados.
— Você precisa contar ao Rick... quer dizer, ao Gabriel e à Maggie — corrigiu-se ela.
— Eu já contei — disse Negan, aproximando-se dela. — Mas eu vim aqui por outro motivo. Se as coisas ficarem feias... se os portões caírem... eu quero que você vá para o porão da casa da Judith. É o lugar mais seguro.
— Eu não vou me esconder, Negan. Eu sou a enfermeira. Eu tenho que estar onde os feridos estiverem.
Negan segurou o rosto dela com as duas mãos, uma urgência selvagem em seus olhos.
— Ouça-me bem. Eu não passei por tudo isso, eu não sobrevivi a Alpha e a essa comunidade inteira me odiando, para te perder agora. Você vai para o porão se as coisas saírem do controle. Prometa-me.
S/N olhou para o homem à sua frente. Naquele momento, não havia Negan o vilão, nem Negan o redimido. Havia apenas um homem desesperado para proteger a única coisa que ainda o ligava à sua humanidade.
— Eu prometo — sussurrou ela.
Ele a beijou rapidamente, um toque de despedida que carregava o peso de uma batalha iminente.
— Eu te encontro quando o sol nascer — disse ele, saindo da enfermaria e desaparecendo na noite.
S/N ficou sozinha, o som do alarme começando a soar ao longe. Ela pegou sua bolsa de primeiros socorros e suas facas. A guerra estava à porta, mas a maior batalha de S/N já havia sido travada e perdida. Ela havia se apaixonado pelo homem que deveria odiar, e agora, enquanto os primeiros tiros ecoavam no ar, ela percebeu que faria qualquer coisa para garantir que ele estivesse lá para vê-la na manhã seguinte.
O ódio havia mudado. A dor havia mudado. E S/N, a enfermeira que outrora sonhara em curar o mundo, percebeu que a única cura que ela realmente desejava era aquela que encontrava no abraço sombrio de Negan.
A batalha por Alexandria estava começando, mas para S/N e Negan, a luta pela sobrevivência de algo real no meio do caos era a única que realmente importava. E, enquanto as sombras se moviam do lado de fora, S/N preparou-se para o que quer que viesse, sabendo que, no fim, eles eram apenas dois seres destruídos tentando encontrar um lugar onde a escuridão não fosse tão fria.