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Entre Chamas e Geadas

O Segredo nos Jardins de Vidro

A Rainha Lyra Frostveil estava sentada em sua sacada privativa, observando a lua refletir nas planícies congeladas de Glaciarum. O silêncio do palácio de gelo, que costumava ser seu maior conforto, agora parecia opressor. Seus dedos traçavam distraidamente o tecido de seda de seu robe, mas sua mente estava a quilômetros dali, presa naquela sala de reuniões abafada, sentindo o calor das mãos de Kael Ignis em sua cintura.

— Idiota... Bárbaro... — sussurrou ela para o vento frio, mas não havia convicção em seus insultos.

Ela tentava ler um relatório sobre a produção de cristais de luz, mas as palavras dançavam diante de seus olhos. Toda vez que fechava as pálpebras, via aquele brilho vermelho e predatório nos olhos de Kael. Sentia o contraste absurdo de sua pele fria contra o calor vulcânico dele. Lyra soltou um suspiro irritado e jogou o pergaminho sobre a mesa de cristal.

Ela era a Rainha do Gelo. Deveria ser inalcançável. Mas Kael não apenas a alcançou; ele a incendiou. E o pior de tudo era a saudade física que sentia, uma fome que o gelo não conseguia saciar.

— Se eu não fizer nada, vou acabar enlouquecendo — resmungou, levantando-se bruscamente.

Lyra pegou seu dispositivo de comunicação — uma placa de cristal encantada que permitia mensagens rápidas entre os líderes das civilizações. Seus dedos hesitaram sobre a superfície polida. O que ela escreveria? "Sinto sua falta"? Jamais. "Quero você"? Nem morta.

Ela mordeu o lábio inferior, a expressão endurecendo em sua habitual máscara de teimosia. Digitou rapidamente, com a precisão de quem estava declarando guerra, e não um encontro amoroso.

"A discussão sobre o tratado de mineração não foi concluída. Encontre-me nos Jardins de Vidro, na fronteira neutra, em uma hora. Não se atrase, Ignis. E não ouse pensar que isso é algo além de assuntos de Estado."

Ela enviou a mensagem e jogou o cristal na cama, o coração martelando contra as costelas.

— Pronto. Agora ele sabe que eu ainda mando — disse para si mesma, embora soubesse que Kael veria através de cada palavra.

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No Reino de Pyros, Kael Ignis estava jogado em seu trono de obsidiana, girando uma adaga de fogo entre os dedos. Ele estava entediado. Seus generais eram eficientes, seu povo estava próspero, mas nada lhe dava o ímpeto que as discussões com Lyra proporcionavam.

Quando seu cristal de comunicação vibrou com uma luz azulada, ele quase deixou a adaga cair. Ele leu a mensagem e um sorriso lento e vitorioso se espalhou por seu rosto.

— "Assuntos de Estado", hein, Lyra? — Kael riu baixo, uma vibração rouca que ecoou pelo salão vazio. — Você é péssima mentirosa.

Ele se levantou, jogando a adaga para o alto e pegando-a pelo cabo com destreza. Ele não precisava de escolta. Sabia exatamente o que aquela mensagem significava. Era o código de uma tsundere para "eu não aguento mais ficar longe de você".

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Os Jardins de Vidro eram uma maravilha arquitetônica situada no vale que dividia os dois reinos. Eram estufas gigantescas onde flores de cristal cresciam sob o luar. Era um lugar de paz, mas naquela noite, o ar parecia carregado de eletricidade.

Lyra chegou primeiro. Ela usava uma capa de pele branca sobre um vestido mais leve, e seus cabelos prateados estavam soltos, caindo como uma cascata de luar sobre seus ombros. Ela andava de um lado para o outro, chutando pequenas pedras de gelo.

— Ele não vem. Ele vai me dar um bolo só para me irritar — resmungou ela, cruzando os braços. — Quando eu o vir, vou congelar os pés dele no chão e deixá-lo lá até o amanhecer...

— Falando sozinha de novo, Frostveil? Isso é sinal de loucura, sabia?

A voz de Kael veio das sombras, quente e carregada de deboche. Lyra deu um pulo, mas rapidamente recuperou a compostura, virando-se com o queixo erguido e os olhos faiscando em azul gélido.

— Você está atrasado — mentiu ela. Ele estava exatamente no horário.

Kael saiu das sombras. Ele não usava suas vestes formais de rei, mas sim uma túnica de couro negro que deixava seus braços musculosos à mostra. O calor que ele emanava parecia distorcer o ar ao seu redor.

— Eu vim o mais rápido que meu dragão pôde voar — disse ele, aproximando-se com passos lentos e deliberados. — Então, que "assuntos de Estado" são tão urgentes que não podiam esperar até a reunião de amanhã?

Lyra sentiu o rosto esquentar.

— O tratado... as rotas de comércio... — Ela gaguejou por um segundo antes de recuperar a voz cortante. — Você sabe que eu não suporto deixar pendências. E sua atitude na sala de punição foi deplorável. Eu vim aqui para deixar claro que aquilo não vai se repetir.

Kael parou a poucos centímetros dela. O cheiro dele — fumaça, madeira de sândalo e algo puramente masculino — invadiu os sentidos de Lyra, fazendo seus joelhos fraquejarem.

— Ah, entendi — murmurou ele, inclinando-se para frente. — Você me chamou aqui, no meio da noite, em um lugar isolado, apenas para me dizer que não quer me beijar de novo?

— Exatamente! — exclamou ela, embora não tenha recuado quando ele invadiu seu espaço pessoal.

— Então por que seu coração está batendo tão rápido que eu consigo ouvir daqui? — Kael estendeu a mão, mas em vez de tocar o rosto dela, ele apenas roçou os dedos na gola de sua capa. — E por que você está tremendo, Lyra? Não me diga que a Rainha do Gelo está com frio.

— Eu não estou com frio! — rebateu ela, os olhos brilhando. — Eu estou irritada! Você é presunçoso, arrogante e... e...

— E você está louca para que eu te cale — completou ele.

Kael não esperou por uma resposta. Ele a agarrou pela cintura e a puxou contra si. O impacto do corpo frio de Lyra contra o calor intenso de Kael fez ambos soltarem um suspiro lúbrico.

— Me solte, seu bárbaro... — sussurrou ela, mas suas mãos já estavam subindo pelo peito dele, agarrando o couro de sua túnica.

— Você quer mesmo que eu solte? — perguntou ele, a voz vibrando contra os lábios dela. — Se você me mandar parar agora, eu juro que vou embora e nunca mais te toco.

Lyra olhou para aqueles olhos vermelhos que pareciam brasas vivas. Ela viu o desafio ali, mas também viu o desejo bruto que espelhava o seu. Sua máscara de orgulho rachou por completo.

— Se você for embora... eu te caço e te mato — sibilou ela, antes de puxá-lo para um beijo desesperado.

Desta vez, não havia mesas de carvalho ou conselheiros do outro lado da porta. Havia apenas a liberdade da noite e o desejo acumulado de dois opostos que se recusavam a aceitar que eram perfeitos um para o outro.

Kael a levantou com facilidade, sentando-a em um mureto de cristal que cercava uma fonte de água termal. Suas mãos eram ávidas, explorando a pele de Lyra como se estivesse mapeando um novo território conquistado.

— Você é tão teimosa — murmurou ele entre beijos que desciam pelo pescoço dela. — Por que é tão difícil admitir que você me quer?

— Porque você é um idiota irritante! — Lyra arfou, jogando a cabeça para trás enquanto sentia os dentes de Kael morderem levemente sua clavícula. — Eu odeio o jeito que você sorri... odeio o jeito que você ganha as discussões... e odeio o quanto eu gosto disso.

Kael riu, um som vitorioso que foi abafado pelos lábios de Lyra.

— Eu também te odeio, minha rainha — disse ele, a voz carregada de uma promessa perigosa. — E vou passar o resto da noite te mostrando o quanto.

O vestido de Lyra, uma peça de arte em seda azul, foi deslizado pelos seus ombros com uma urgência que não permitia delicadezas. O ar frio da noite atingiu sua pele, mas durou apenas um segundo, pois logo o calor de Kael a envolveu novamente. Ele era o seu sol em meio ao inverno eterno, a única coisa capaz de fazê-la sentir que não era feita apenas de gelo e dever.

As mãos de Lyra exploravam o corpo musculoso de Kael com uma audácia que ela nunca soube que possuía. Ela arranhou suas costas, sentindo a firmeza de seus músculos, enquanto ele a possuía com uma intensidade que a fazia esquecer o próprio nome.

— Kael... — ela chamou, a voz quebrada e vulnerável.

— Estou aqui — respondeu ele, os olhos fixos nos dela. — Eu não vou a lugar nenhum.

Naquele jardim de vidro, sob a luz das estrelas, o fogo e o gelo não travaram uma guerra. Eles criaram uma tempestade. Cada toque era uma faísca, cada suspiro era um floco de neve derretendo em vapor. Lyra se entregou completamente, deixando de lado a rainha estressadinha para se tornar apenas uma mulher que ardia de paixão.

Quando o ápice finalmente os atingiu, Lyra sentiu como se o mundo estivesse desabando ao seu redor. Ela se agarrou a Kael como se ele fosse a única coisa sólida no universo, e ele a segurou com uma força que prometia proteção contra qualquer coisa, até mesmo contra o próprio orgulho deles.

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Horas depois, a lua já estava começando a baixar no horizonte. Eles estavam sentados juntos, envoltos na capa de pele de Lyra, observando o vapor subir da fonte termal. O silêncio agora era confortável, preenchido apenas pelo som de suas respirações sincronizadas.

Lyra estava encostada no peito de Kael, sentindo as batidas estáveis de seu coração. Ela ainda parecia um pouco emburrada, mas era uma carranca muito menos convincente do que antes.

— Você sabe que amanhã, na reunião, eu vou votar contra a sua proposta de expansão, não sabe? — murmurou ela, traçando círculos imaginários no braço dele.

Kael soltou uma risada baixa e beijou o topo da cabeça prateada dela.

— Eu não esperava nada diferente, Lyra. Se você concordasse comigo em tudo, eu ficaria preocupado.

Ela se afastou um pouco para olhar para ele, os olhos azuis voltando a ter aquele brilho afiado.

— E não pense que isso se tornará um hábito. Eu sou uma rainha ocupada. Não tenho tempo para ficar me encontrando com reis bárbaros no meio da noite.

Kael sorriu, aquele sorriso de canto que ela tanto amava odiar.

— Claro que não. Foi apenas um "assunto de Estado", certo?

— Exatamente — disse ela, embora tenha se aninhado mais perto dele logo em seguida. — Um assunto de Estado muito... exaustivo.

Kael a abraçou com mais força, sentindo o perfume de flores de gelo que emanava dela.

— Sabe, Frostveil... para uma mulher tão fria, você queima mais do que qualquer vulcão em Pyros.

Lyra corou intensamente, virando o rosto para esconder o sorriso que teimava em aparecer.

— Cale a boca, Kael.

— Sim, majestade — respondeu ele, mas seu tom era qualquer coisa, menos submisso.

Eles ficaram ali por mais algum tempo, dois soberanos que, por algumas horas, deixaram de ser inimigos para serem apenas amantes. Sabiam que, ao amanhecer, voltariam a discutir, a trocar insultos e a lutar por seus povos. Mas agora, sob o manto da noite, a paz reinava entre o fogo e o gelo — uma paz forjada em suor, desejo e no reconhecimento de que, às vezes, a melhor maneira de vencer um inimigo é rendendo-se a ele.

Lyra fechou os olhos, sentindo o calor de Kael protegê-la do orvalho da manhã. Ela ainda era a Rainha de Glaciarum, e ele ainda era o Rei de Pyros. Mas o segredo que compartilhavam nos Jardins de Vidro era um tesouro que nenhum tratado poderia descrever, e que nenhum conselho de anciões jamais seria capaz de entender.

— Kael? — chamou ela suavemente.

— Hum?

— Se você contar para alguém que eu fui a primeira a mandar a mensagem... eu te transformo em um cubo de gelo e te uso para esfriar meu vinho.

Kael riu, um som rico e vibrante que ecoou pelo vale.

— Seu segredo está seguro comigo, minha rainha estressadinha. Desde que você prometa que o próximo "assunto de Estado" seja na minha tenda de campanha. O chão de cristal é um pouco duro para as minhas costas.

Lyra deu um tapa leve no peito dele, mas não conseguiu evitar que uma risada curta escapasse de seus lábios.

— Veremos, Ignis. Veremos.