Voltar ao resumo

Entre Chamas e Geadas

Geada e Labaredas de Ciúme

O Grande Salão das Civilizações nunca pareceu tão sufocante para Lyra Frostveil. A reunião pós-punição deveria ter sido um golpe de mestre diplomático, mas a Rainha de Glaciarum mal conseguia focar nos mapas de fronteira à sua frente. Seus olhos azuis, geralmente tão calmos quanto um lago congelado, estavam fixos em uma única direção: o Rei Kael Ignis.

Ou melhor, na Rainha Seraphina, das Ilhas do Sol, que parecia ter decidido que o pescoço de Kael era o lugar mais interessante do mundo para sussurrar segredos comerciais.

— Como eu dizia — a voz de Seraphina era como mel escorrendo sobre brasas —, a rota marítima do sul seria muito mais proveitosa se Pyros e as Ilhas do Sol unissem suas... frotas. Não concorda, Rei Kael?

Kael, com aquela arrogância que Lyra conhecia tão bem, mantinha um sorriso de canto, os olhos vermelhos brilhando com um divertimento que Lyra interpretou imediatamente como traição. Ele não a afastava. Ele não dizia "saia daqui, estou ocupado pensando na Rainha de Gelo". Ele apenas ouvia, a postura musculosa relaxada enquanto Seraphina tocava levemente o braço dele, as unhas douradas brilhando contra o veludo negro de suas vestes.

Lyra sentiu a temperatura ao seu redor cair drasticamente. Uma fina camada de geada começou a se formar na borda da mesa de mármore onde suas mãos estavam apoiadas.

— Rainha Lyra? — o Mediador chamou, parecendo preocupado com o frio repentino na sala. — A senhora concorda com a cláusula de exportação de cristais?

— Eu concordo que esta reunião é uma perda de tempo monumental — Lyra disparou, levantando-se bruscamente. O som da cadeira arrastando no chão de pedra foi como um trovão. — Se o Rei de Pyros está mais interessado em... "diplomacia de proximidade" do que em governar, sugiro que encerremos por hoje.

Kael finalmente desviou o olhar de Seraphina para Lyra. Suas sobrancelhas subiram, e aquele brilho predatório que ele reservava para as provocações dela intensificou-se.

— Algum problema, Frostveil? — perguntou ele, a voz carregada de um tom aveludado que fez o estômago dela dar voltas. — Achei que você estivesse ocupada demais com seus relatórios para notar o que acontece ao redor.

— Eu noto tudo, Ignis — ela sibilou, os cabelos prateados chicoteando quando ela se virou para sair. — Inclusive a falta de decoro.

Lyra saiu do salão a passos largos, o vestido azul escuro balançando furiosamente. Ela não parou até chegar ao corredor externo, onde o ar era mais fresco, mas seu sangue ainda fervia. Como ele ousava? Depois da noite anterior, depois de tudo o que disseram e fizeram nos Jardins de Vidro, ele se deixava levar pelos encantos baratos de uma rainha tropical?

— Patético. Homens de fogo são todos iguais — ela resmungou para as paredes de pedra. — Impulsivos, volúveis e...

— E extremamente atraentes, pelo que você me disse ontem à noite — a voz de Kael ecoou logo atrás dela.

Lyra girou nos calcanhares, os olhos faiscando. Kael estava encostado em uma pilastra, os braços cruzados sobre o peito, observando-a com uma expressão de puro triunfo.

— O que você quer, Ignis? — ela perguntou, a voz gélida. — A Rainha Seraphina ficou sem fôlego de tanto falar no seu ouvido ou ela só veio buscar o que esqueceu?

Kael deu um passo à frente, diminuindo a distância com aquela calma exasperante.

— Ora, ora. O que é isso que estou sentindo? — Ele fingiu farejar o ar. — Cheira a... neve queimada? Ou seria apenas o cheiro de uma Rainha de Gelo morrendo de ciúmes?

— Ciúmes? — Lyra soltou uma risada seca e sem humor. — Não seja ridículo. Eu não sinto ciúmes de bárbaros. Eu sinto repulsa pela falta de profissionalismo. Aquele flerte barato no meio de uma sessão oficial foi um insulto ao Conselho.

— Flerte? — Kael arqueou uma sobrancelha, aproximando-se ainda mais, até que Lyra pudesse sentir o calor emanando dele. — Eu não estava flertando. Ela estava falando. Eu estava... ouvindo. É o que diplomatas fazem, sabe?

— Ela estava praticamente pendurada no seu pescoço! — Lyra explodiu, dando um passo em direção a ele e apontando o dedo para seu peito. — Se você quer se envolver com mulheres que usam menos tecido do que uma bandeira de sinalização, o problema é seu. Mas não faça isso na minha frente!

Kael agarrou a mão dela antes que ela pudesse retirá-la. A pele dele estava ardendo, um contraste violento com os dedos frios de Lyra.

— Por que não na sua frente, Lyra? — ele provocou, a voz caindo para um sussurro perigoso. — Por que isso te incomoda tanto? Se somos apenas rivais, se o que aconteceu ontem foi apenas um "erro tático", por que você parece pronta para congelar as Ilhas do Sol inteiras só porque a rainha deles me tocou o braço?

— Porque... porque você é irritante! — ela gritou, tentando puxar a mão, mas ele a segurou com firmeza, puxando-a para mais perto. — Porque você é meu inimigo, e eu não quero que meu inimigo seja distraído por qualquer rostinho bonito que apareça!

— Mentira — murmurou Kael, os olhos vermelhos fixos nos lábios dela. — Você está com ciúmes porque sabe que eu sou o único que consegue derreter esse seu gelo. E você odeia a ideia de que outra pessoa possa tentar roubar o fogo que agora você sabe que te pertence.

— Você é um convencido, arrogante, presunçoso... — Lyra continuava a lista de insultos, mas sua voz estava perdendo a força à medida que o calor de Kael a envolvia.

— Continue — ele incentivou, um sorriso ladino brincando em seus lábios. — Adoro quando você fica estressadinha. Suas bochechas ficam vermelhas e você fica... irresistível.

Lyra tentou manter a expressão de desprezo, mas era difícil quando ele a olhava daquela maneira, como se ela fosse a única coisa que importava em todo o palácio.

— Eu te odeio — ela sussurrou, embora seu corpo estivesse se inclinando involuntariamente para o dele.

— Eu sei — Kael respondeu, soltando a mão dela para envolver sua cintura e puxá-la contra seu corpo musculoso. — Mas você me odeia muito mais quando eu não estou te beijando, não é?

— Não se atreva... — ela começou, mas o aviso foi silenciado quando Kael capturou seus lábios com uma urgência que a deixou sem fôlego.

O beijo não era gentil. Era uma disputa de poder, uma resposta à tensão que havia crescido durante toda a reunião. Lyra correspondeu com uma ferocidade que surpreendeu até a si mesma, suas mãos subindo para os cabelos negros de Kael, puxando-o para mais perto enquanto ela tentava apagar a imagem da outra rainha tocando-o.

Kael a empurrou contra a parede do corredor, suas mãos explorando as curvas que ele havia memorizado na noite anterior. O contraste entre o frio da pedra e o calor do corpo dele fazia Lyra soltar gemidos baixos de frustração e desejo.

— Ela não é nada, Lyra — Kael murmurou contra a pele do pescoço dela, sua respiração quente enviando arrepios por toda a sua espinha. — Nenhuma delas é você.

— É bom que não sejam — Lyra arfou, recuperando um pouco de sua arrogância tsundere. — Porque se eu vir aquela mulher encostando em você de novo, eu juro que transformo o palácio dela em um iceberg.

Kael se afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos dela, um brilho de diversão genuína em seu rosto.

— Você é possessiva para alguém que diz que me odeia.

— Eu não sou possessiva — ela rebateu, ajeitando o vestido com movimentos bruscos, embora seu rosto estivesse corado. — Eu apenas prezo pela ordem. E você é minha... responsabilidade diplomática.

Kael soltou uma risada alta, um som que ecoou pelo corredor vazio.

— Responsabilidade diplomática? Essa é nova.

— Cale a boca, Kael! — ela exclamou, voltando a caminhar, mas desta vez ela não estava fugindo.

Kael a seguiu, caminhando ao seu lado com uma confiança renovada.

— Então, Rainha Frostveil, o que sua "responsabilidade diplomática" deve fazer agora para compensar o terrível insulto de ter ouvido outra rainha falar?

Lyra parou e olhou para ele de soslaio, um pequeno e perigoso sorriso surgindo no canto de seus lábios.

— Para começar, você vai me levar para jantar. Em um lugar onde não haja rainhas de ilhas tropicais. E depois... você vai passar o resto da noite tentando me convencer de que eu não deveria te congelar.

Kael estendeu o braço para ela, oferecendo-o com uma reverência exagerada.

— Será um prazer absoluto ser sua vítima, majestade.

Lyra aceitou o braço dele, entrelaçando o seu com uma firmeza que dizia claramente que ela não pretendia soltá-lo tão cedo.

— E Kael? — ela disse, enquanto começavam a caminhar.

— Sim?

— Se você sorrir para a Seraphina amanhã... eu mesma corto sua língua.

Ele riu novamente, puxando-a para mais perto de seu calor.

— Eu nunca sonharia com isso, minha rainha de gelo. Afinal, eu preciso da minha língua para coisas muito mais interessantes do que sorrir para diplomatas.

Lyra bufou, tentando esconder o sorriso que ameaçava desmanchar sua fachada de seriedade. Ela ainda o odiava, é claro. Odiava o jeito que ele a provocava, odiava o jeito que ele a conhecia tão bem e, acima de tudo, odiava o fato de que, no fundo, ela nunca se sentiu tão viva quanto quando estava queimando nos braços do rei de fogo.

Mas, por enquanto, ela se contentaria em mantê-lo sob sua vigilância gélida, garantindo que qualquer labareda que Kael Ignis decidisse acender, fosse exclusivamente para ela. E se alguma outra rainha ousasse se aproximar... bem, Glaciarum sempre tinha espaço para mais uma estátua de gelo em seus jardins.