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Entre Chamas e Geadas

Noites de Vapor e Veludo

O vento soprava lá fora, carregando o frio cortante das montanhas de Glaciarum, mas dentro da carruagem real de Pyros, o ar estava denso e carregado de um calor que não vinha apenas das pedras vulcânicas aquecidas sob os assentos. Lyra Frostveil estava sentada o mais longe possível de Kael Ignis, ou ao menos tentava. O espaço era reduzido, e cada vez que a carruagem balançava em um desnível da estrada, seu ombro roçava no braço musculoso dele, enviando choques elétricos por sua espinha.

— Você está muito quieta, Lyra — comentou Kael, quebrando o silêncio com aquela voz rouca que parecia vibrar diretamente nos ossos dela. — Onde está a rainha que não para de reclamar por um segundo sequer?

Lyra apertou as mãos sobre o colo, sentindo o tecido do seu vestido azul escuro.

— Estou apenas pensando no absurdo que é isso tudo — rebateu ela, sem olhar para ele. — Eu deveria estar no meu palácio, revisando os decretos de exportação, e não escondida em uma carruagem com um bárbaro que cheira a fumaça e problemas.

Kael soltou uma risada baixa, um som que Lyra odiava amar.

— Você adora essa fumaça. E quanto aos problemas... bem, você mesma disse que o tédio de Glaciarum estava te matando.

— Eu nunca disse isso! — Ela finalmente virou o rosto para encará-lo, os olhos azuis faiscando sob a luz fraca das lanternas internas. — Eu disse que a diplomacia era monótona, o que é bem diferente.

— Sei — Kael inclinou-se para frente, invadindo o espaço dela. Ele estendeu a mão e, com um movimento lento, afastou uma mecha de cabelo prateado do rosto dela. — Por isso seus olhos brilharam quando eu sugeri que fugíssemos daquela recepção chata?

— Foi um momento de fraqueza — sussurrou ela, embora não tenha se afastado do toque dele. — E agora você me arrasta para um... hotel? Um rei não deveria ter um pouco mais de classe, Ignis?

— Não é um hotel qualquer, minha rainha estressadinha. É o Refúgio das Águas Termais. Um lugar neutro, discreto e, acima de tudo, quente. — Ele sorriu de canto, aquele sorriso que sempre a deixava com vontade de beijá-lo ou de congelá-lo. — Achei que você apreciaria o contraste.

A carruagem parou suavemente. Kael desceu primeiro e, com uma cortesia que Lyra considerava irritante de tão charmosa, estendeu a mão para ajudá-la. Ela aceitou, sentindo a palma dele queimar contra a sua luva fina.

O estabelecimento era imponente, construído em pedra negra e madeira nobre, encravado em uma encosta onde fontes naturais de água quente criavam uma névoa perpétua. Era o lugar perfeito para quem não queria ser encontrado. Kael já havia providenciado tudo sob um pseudônimo. Para o mundo, eles eram apenas um casal de nobres em viagem. Para eles, era o campo de batalha final.

Ao entrarem na suíte imperial, Lyra parou na soleira, impressionada apesar de si mesma. O quarto era enorme, com uma lareira monumental já acesa e uma varanda que dava para uma piscina termal privativa, de onde subiam nuvens de vapor que se misturavam ao luar.

— Satisfeita? — perguntou Kael, fechando a porta pesada e trancando-a com um clique seco que fez o coração de Lyra saltar.

— É aceitável — mentiu ela, caminhando até o centro do quarto e retirando sua capa de pele branca. — Mas não pense que isso muda o fato de que eu ainda te acho um insolente.

Kael retirou sua túnica de veludo, ficando apenas com uma camisa de seda negra entreaberta que revelava o início do peito musculoso e bronzeado.

— Você diz muito essa palavra, "insolente". Eu prefiro "determinado". — Ele caminhou até uma pequena mesa onde havia uma garrafa de vinho e duas taças de cristal. — Vinho de Pyros? É forte, mas ajuda a soltar a língua... como se a sua precisasse de ajuda.

— Eu não preciso de álcool para dizer o que penso de você — afirmou Lyra, aceitando a taça apenas porque suas mãos precisavam de algo para segurar.

Eles ficaram ali, em pé, separados por poucos metros, mas a tensão entre eles era como uma corda esticada ao limite. O calor da lareira competia com a aura fria que Lyra naturalmente emanava, criando um clima temperado e eletrizante.

— Você está nervosa — observou Kael, bebendo um gole longo e mantendo os olhos vermelhos fixos nela.

— Eu não fico nervosa, Ignis. Eu fico... impaciente.

— Impaciente por quê? — Ele deixou a taça de lado e começou a caminhar em direção a ela, cada passo lento e predatório. — Pelo que vai acontecer aqui? Por que você sabe que, desta vez, não há guardas, não há conselheiros e não há portas para batermos e fingirmos que nada aconteceu?

Lyra recuou um passo, até sentir o batente da varanda contra suas costas.

— Você se acha o centro do mundo, não é? — Ela tentou manter a voz firme, mas sua respiração estava ficando curta. — Acha que pode simplesmente me trazer aqui e eu vou cair nos seus braços como uma camponesa encantada.

— Eu não quero uma camponesa encantada — disse ele, parando tão perto que Lyra podia sentir o calor emanando de seu corpo como uma fornalha. — Eu quero a rainha que me desafia. Eu quero a mulher que tenta me congelar com o olhar enquanto queima por dentro.

Ele estendeu as mãos e as apoiou na parede, de cada lado da cabeça de Lyra, prendendo-a. O cheiro de Kael — sândalo, vinho e fogo — a envolveu completamente.

— Você é insuportável — sussurrou ela, embora seus olhos estivessem fixos nos lábios dele.

— E você é a criatura mais linda e irritante que eu já vi — respondeu ele, a voz agora caindo para um tom perigosamente suave. — Admita, Lyra. Admita que você não veio aqui pelo vinho ou pela vista.

Lyra sentiu o gelo em seu coração rachar. Ela sempre foi a rainha da compostura, a soberana que nunca perdia o controle. Mas com Kael, o controle era uma ilusão que se desintegrava ao menor toque.

— Eu odeio o jeito que você me olha — disse ela, as mãos subindo para o peito dele, inicialmente para empurrá-lo, mas seus dedos acabaram se fechando no tecido da camisa. — Odeio o jeito que você acha que me conhece.

— Eu conheço — afirmou ele, inclinando o rosto, roçando o nariz no dela. — Eu conheço o fogo que você esconde sob essa geada toda.

Kael não esperou por mais insultos. Ele capturou os lábios dela em um beijo que foi como uma explosão. Não houve hesitação, apenas uma fome acumulada por meses de discussões acaloradas e olhares roubados. Lyra soltou um gemido abafado, entregando-se ao beijo com uma urgência que a surpreendeu. Ela era gelo, sim, mas o gelo, quando submetido a um calor extremo, não apenas derrete — ele ferve.

As mãos de Kael desceram pela cintura dela, puxando-a para mais perto, até que não restasse nenhum espaço entre eles. Lyra passou os braços pelo pescoço dele, os dedos se enterrando nos cabelos negros e curtos do rei, puxando-o com uma possessividade que ela nunca soube que possuía.

— Kael... — arfou ela quando ele interrompeu o beijo para trilhar um caminho de fogo pelo seu pescoço.

— Diga meu nome de novo — pediu ele, a voz vibrando contra a pele dela.

— Kael, seu idiota... — ela murmurou, a cabeça caindo para trás enquanto ele encontrava o ponto sensível abaixo de sua orelha.

Ele a pegou no colo com uma facilidade que a deixou sem fôlego e a carregou até a enorme cama de dossel coberta com lençóis de seda negra. Quando ele a deitou, o contraste dos cabelos prateados de Lyra contra o tecido escuro era de uma beleza quase irreal.

— Você parece uma deusa caída — sussurrou Kael, pairando sobre ela.

— E você parece um demônio que veio me levar para o inferno — rebateu ela, recuperando um pouco de sua arrogância tsundere, embora estivesse puxando a camisa dele para fora das calças.

— Se o inferno for aqui, eu não pretendo sair nunca mais.

Kael livrou-se da camisa, revelando o tronco musculoso e as cicatrizes de batalhas passadas que Lyra, em um momento de ternura inesperada, começou a traçar com as pontas dos dedos frios. O toque dela fazia Kael estremecer, uma reação que ele tentava esconder com sorrisos provocadores, mas que seus olhos vermelhos denunciavam.

— Você é fria — murmurou ele, segurando a mão dela e beijando a palma.

— E você está pegando fogo — respondeu ela. — É uma combinação desastrosa.

— Ou perfeita.

Com uma agilidade nascida do desejo, Kael começou a desamarrar os cordões complicados do vestido de Lyra. Ela o ajudou, impaciente com a própria vestimenta. Quando o tecido azul finalmente deslizou pelo seu corpo, revelando a pele alva e as curvas delicadas sob a luz da lareira, Kael parou por um segundo, apenas admirando-a.

— O que foi? — perguntou ela, sentindo o rosto esquentar. — Perdeu a língua, Ignis?

— Só estou tentando processar como alguém pode ser tão irritante e tão perfeita ao mesmo tempo — disse ele, voltando a beijá-la, desta vez com mais calma, explorando cada centímetro de sua boca.

O encontro de seus corpos foi uma colisão de elementos. Onde Kael tocava, deixava um rastro de calor que parecia queimar a pele de Lyra; onde ela o tocava, trazia um alívio refrescante que apenas a incitava a querer mais. Eles se moviam em um ritmo frenético, uma dança de poder e rendição onde nenhum dos dois queria ser o primeiro a ceder, mas ambos estavam desesperados para se perder um no outro.

— Eu ainda te odeio — sussurrou Lyra no ouvido dele, enquanto as mãos de Kael exploravam suas coxas.

— Eu também te odeio, minha rainha — respondeu ele, a voz carregada de uma luxúria sombria. — E vou te mostrar exatamente o quanto durante o resto da noite.

A noite avançou entre os estalidos da lenha na lareira e os sons de prazer que ecoavam pelo quarto. Naquele hotel isolado, eles não eram soberanos de nações inimigas. Eram apenas dois polos opostos que finalmente haviam encontrado seu centro. Kael a possuía com uma intensidade que beirava a adoração, e Lyra o recebia com uma entrega que ela nunca imaginou ser capaz de oferecer a ninguém, muito menos a ele.

Quando o ápice chegou, foi como uma tempestade de vapor. Lyra gritou o nome dele, as unhas cravando-se nos ombros musculosos de Kael, enquanto ele se enterrava nela, buscando a união total entre o fogo e o gelo. Por um momento eterno, o mundo lá fora, com suas guerras e tratados, deixou de existir. Havia apenas o calor dele, o frio dela e a ebulição que criavam juntos.

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Horas depois, a luz da lua entrava pela varanda, banhando o quarto em tons de prata. Lyra estava deitada com a cabeça no peito de Kael, ouvindo o coração dele desacelerar. Ele mantinha um braço em volta dela, os dedos traçando padrões preguiçosos em seu ombro.

— Você está acordada? — perguntou ele, a voz rouca de sono e satisfação.

— Infelizmente — murmurou ela, embora não fizesse menção de se mover. — Estou tentando entender como permiti que isso acontecesse.

Kael soltou uma risada curta, que fez o peito dele vibrar sob a bochecha dela.

— Você permitiu porque é tão teimosa quanto eu. E porque sabia que ninguém mais no mundo conseguiria lidar com esse seu temperamento, exceto eu.

Lyra levantou o rosto para encará-lo, o olhar voltando a ser afiado, embora houvesse uma suavidade nova em seus traços.

— Não se ache tanto, Ignis. Isso foi apenas... uma necessidade biológica.

— Uma necessidade biológica que durou três rodadas e envolveu você gritando meu nome como se eu fosse seu salvador? — Ele arqueou uma sobrancelha, o sorriso provocador de volta ao lugar.

Lyra sentiu o rosto arder e deu um soco leve no peito dele.

— Cale a boca! Eu não gritei. Eu... eu estava apenas expressando minha desaprovação de forma sonora.

Kael riu alto desta vez, puxando-a para um beijo rápido e estalado.

— Você é inacreditável, Lyra Frostveil. Por que é tão difícil admitir que você gosta de mim?

— Porque você é um bárbaro arrogante que não sabe o que é um protocolo diplomático — respondeu ela, voltando a se aninhar nele. — E porque, se eu admitir, você nunca mais vai me deixar em paz.

— Você tem razão — concordou ele, a voz ficando séria por um momento. — Eu nunca vou te deixar em paz. Glaciarum e Pyros podem estar em trégua, mas a guerra entre nós dois está apenas começando.

Lyra fechou os olhos, sentindo o calor reconfortante de Kael. Ela sabia que ele tinha razão. Amanhã eles voltariam para suas capitais, voltariam a trocar insultos nas reuniões e a disputar cada centímetro de território. Mas, por baixo das coroas e das vestes elegantes, haveria sempre a lembrança daquela noite no hotel, do vapor subindo das águas termais e do fogo que nenhum gelo seria capaz de apagar.

— Kael? — chamou ela baixinho.

— Hum?

— Se você contar para qualquer pessoa sobre... sobre o que aconteceu aqui, eu juro que transformo seu reino em uma pista de patinação.

Kael sorriu na escuridão, beijando o topo da cabeça prateada dela.

— Seu segredo está seguro comigo, minha rainha. Mas só porque eu quero repetir a "desaprovação sonora" o mais rápido possível.

Lyra bufou, mas desta vez, não havia raiva em seu gesto. Havia apenas a aceitação de que, entre o fogo e o gelo, ela finalmente havia encontrado o lugar onde não precisava ser apenas uma rainha de cristal. Ela podia ser apenas Lyra, a mulher que, contra todas as probabilidades, havia se apaixonado pelo seu maior inimigo.

— Dorme logo, Ignis — disse ela, fechando os olhos. — Temos uma reunião amanhã e eu pretendo derrotar todas as suas propostas.

— Mal posso esperar — respondeu ele, fechando os olhos também, com um sorriso vitorioso nos lábios.

O silêncio voltou a reinar na suíte, quebrado apenas pelo estalar final da lareira. Naquela noite, o Rei do Fogo e a Rainha do Gelo descobriram que a maior batalha de suas vidas não seria vencida com exércitos, mas com a rendição mútua sob lençóis de seda e promessas sussurradas no vapor.