Entre Chamas e Geadas
Marcas de Fogo na Alvorada de Gelo
O sol da manhã filtrava-se pelas cortinas de veludo pesado da suíte imperial, pintando o quarto com tons de âmbar e ouro. Lyra Frostveil despertou lentamente, sentindo um peso incomum e reconfortante sobre sua cintura. Por alguns segundos, a névoa do sono impediu que a realidade a atingisse, mas o calor intenso que emanava do corpo ao seu lado foi um lembrete vívido e abrasador de tudo o que ocorrera na noite anterior.
Ela abriu os olhos e deparou-se com o peito nu de Kael Ignis. Ele ainda dormia, a expressão predatória substituída por uma serenidade que ela nunca vira em suas reuniões diplomáticas. Os cabelos negros estavam bagunçados sobre o travesseiro, e o ritmo de sua respiração era lento e profundo.
— Idiota... — sussurrou ela, embora sua voz não carregasse nenhum veneno.
Lyra moveu-se com cautela, tentando não acordá-lo. Ela precisava recuperar sua compostura, vestir-se e voltar a ser a Rainha de Glaciarum antes que o mundo lá fora percebesse que sua soberana havia passado a noite fundindo-se com o Rei de Pyros. Com um esforço considerável, ela deslizou para fora da cama, sentindo o ar fresco do quarto arrepiar sua pele.
Ela caminhou até o grande espelho de cristal que adornava o canto do quarto, pretendendo apenas ajeitar o cabelo prateado antes de procurar seu vestido. No entanto, ao parar diante do reflexo, o ar fugiu de seus pulmões e seus olhos azuis arregalaram-se em puro choque.
— Não... ele não fez isso... — murmurou ela, levando a mão à base do pescoço.
Lá, bem acima da clavícula, brilhava uma marca arroxeada, nítida e inegável. Não era apenas uma; ao virar-se levemente, viu outra mancha no ombro e mais algumas que desapareciam sob a linha onde o lençol a cobria momentos antes. Eram marcas de posse, marcas de fogo deixadas na neve.
— Kael Ignis! — O grito dela ecoou pelo quarto, carregado de uma mistura de fúria e uma vergonha tão avassaladora que ela sentiu as pontas dos dedos congelarem involuntariamente.
Na cama, Kael despertou de sobressalto, sentando-se com a agilidade de um guerreiro. Seus olhos vermelhos varreram o quarto em busca de perigo, mas pararam na figura de Lyra, que estava parada diante do espelho, cobrindo o pescoço com as mãos e tremendo de indignação.
— O que foi? O palácio está sendo invadido? — perguntou ele, a voz ainda rouca de sono, mas já carregada daquele tom divertido que a irritava.
— Olhe para isso! — Lyra apontou para o próprio pescoço, aproximando-se da cama com passos pesados. — Olhe o que você fez, seu bárbaro inconsequente! Como eu vou aparecer na reunião do Conselho hoje? Eu tenho um tratado para assinar, e agora parece que fui atacada por uma fera selvagem!
Kael relaxou contra a cabeceira da cama, cruzando os braços musculosos e observando-a com um sorriso que beirava o êxtase. Ele percorreu o corpo dela com o olhar, detendo-se nas marcas que ele mesmo havia esculpido com tanto empenho.
— Fera selvagem? — Ele riu, um som grave que pareceu vibrar nas paredes. — Eu prefiro pensar que é uma obra de arte. Um toque de cor nessa sua pele tão pálida, Lyra. Ficou muito bem em você.
— Ficou bem?! — Lyra sentiu o rosto queimar, uma cor avermelhada subindo por suas bochechas que nada tinha a ver com a temperatura ambiente. — Eu sou a Rainha de Glaciarum! Eu represento a pureza, a ordem e o controle! Como vou explicar para os meus generais que o Rei de Pyros deixou marcas de dentes no meu pescoço?
— Diga que foi um acidente com um cristal de gelo pontiagudo — sugeriu Kael, levantando-se da cama com uma nudez casual que fez Lyra desviar o olhar imediatamente, embora seu coração desse um solavanco. — Ou, melhor ainda, diga a verdade. Diga que seu "inimigo" finalmente encontrou uma maneira de te calar.
— Você é odioso! — Ela buscou o vestido no chão, tentando cobrir-se apressadamente. — Eu devia ter te congelado no momento em que você encostou em mim. Isso é uma sabotagem política! Você fez isso de propósito para me desestabilizar diante dos outros líderes!
Kael caminhou até ela, ignorando a tentativa dela de criar distância. Ele parou atrás de Lyra, envolvendo-a com seu calor e afastando as mãos dela do pescoço para admirar seu trabalho novamente.
— Sabotagem? — sussurrou ele perto da orelha dela. — Lyra, eu fiz isso porque você estava implorando para que eu não parasse. E, se bem me lembro, você não pareceu nem um pouco preocupada com o Conselho quando estava cravando suas unhas nas minhas costas.
Lyra fechou os olhos, a lembrança das sensações da noite anterior voltando com uma força que a deixou tonta.
— Isso é diferente... — protestou ela, embora sua voz tivesse perdido a força. — O que acontece entre quatro paredes deve permanecer entre quatro paredes. Agora eu vou ter que usar uma gola alta em pleno verão das terras neutras! Todos vão saber!
— Deixe que saibam — disse Kael, virando-a para que ela o encarasse. — Deixe que vejam que o gelo não é tão impenetrável quanto dizem. Além disso... — Ele tocou a marca no pescoço dela com o polegar, um gesto possessivo que a fez estremecer. — ...eu gosto de saber que, mesmo quando você estiver lá, sentada naquela cadeira fria e fingindo que me odeia, você vai sentir o calor do que fizemos toda vez que o tecido roçar na sua pele.
— Você é um sádico — acusou ela, embora seus dedos se fechassem nos braços dele.
— E você é uma mentirosa — rebateu ele, dando um beijo casto exatamente em cima da mancha arroxeada. — Admita, Lyra. Você está morrendo de vergonha, mas também está adorando o fato de que eu te marquei.
— Eu não estou adorando nada! — Ela o empurrou, finalmente conseguindo vestir o vestido, embora estivesse todo amarrotado e com alguns ganchos difíceis de fechar. — Eu vou precisar de muita maquiagem e de um feitiço de ocultação. Se alguém fizer uma piadinha sequer sobre o meu pescoço, eu juro que Pyros enfrentará uma era glacial antes do pôr do sol.
Kael começou a se vestir também, rindo da agitação dela.
— Você fica tão adorável quando está em pânico. Onde está aquela soberana altiva que me chamou de "bárbaro foguente" ontem?
— Ela está tentando preservar o que resta de sua dignidade! — Lyra lutava com os laços do corpete, sua frustração crescendo a cada segundo. — Droga... esses laços...
— Deixe-me ajudar — ofereceu Kael, aproximando-se novamente.
— Não! Você já ajudou o suficiente! — Ela tentou se afastar, mas ele a segurou gentilmente pelos ombros e a virou de costas.
— Fique quieta, Frostveil. Ou vamos nos atrasar para a reunião e aí sim eles terão motivos para suspeitar.
Lyra bufou, mas cedeu. Sentir as mãos quentes de Kael trabalhando com habilidade nas fitas de seu vestido era uma tortura doce. Ela podia sentir o olhar dele em sua nuca, e a cada toque acidental, um novo arrepio percorria seu corpo.
— Pronto — disse ele, terminando o último laço. — Está quase tão perfeita quanto estava sem nada.
Lyra girou para ele, os olhos faiscando.
— Se você disser mais uma palavra sobre o que aconteceu nesta sala quando estivermos diante do Conselho, eu juro que te transformo em uma estátua de gelo para decorar meu jardim de inverno.
— Ah, a rainha tsundere voltou — provocou Kael, pegando a capa de pele dela no chão e colocando-a sobre os ombros de Lyra. — Não se preocupe, minha rainha. Seu segredo está seguro comigo. Mas não espere que eu pare de sorrir toda vez que você olhar para mim com esse ar de superioridade ferida.
Lyra ajeitou a gola do vestido o mais alto que pôde, verificando-se uma última vez no espelho. A marca ainda era visível se alguém olhasse de perto, mas ela esperava que o frio de sua expressão fosse suficiente para manter os curiosos à distância.
— Vamos logo — ordenou ela, recuperando sua postura ereta e seu olhar gélido. — E mantenha uma distância de pelo menos dois metros de mim no corredor.
— Como desejar, majestade — disse Kael, fazendo uma reverência exagerada, mas seus olhos vermelhos brilhavam com uma promessa que dizia que, entre eles, a distância nunca mais seria real.
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A caminhada até a sala de reuniões foi uma prova de fogo para Lyra. Cada guarda que a saudava, cada nobre que passava por ela, parecia estar olhando diretamente para o seu pescoço. Ela caminhava com a cabeça tão erguida que seu pescoço começava a doer, e sua expressão estava tão fechada que o ar ao seu redor parecia condensar.
Kael, por outro lado, caminhava alguns passos atrás com uma confiança irritante. Ele cumprimentava a todos com uma alegria incomum para um homem que acabara de ser "punido" em uma sala trancada no dia anterior.
Ao entrarem no Grande Salão, o silêncio caiu sobre os delegados das outras civilizações. O Grande Mediador pigarreou, ajustando os óculos.
— Rainha Lyra, Rei Kael. Folgo em ver que ambos parecem... descansados. Estão prontos para retomar as discussões sobre as fronteiras térmicas?
— Estamos — disse Lyra, sua voz saindo tão afiada quanto uma lâmina de gelo. Ela sentou-se em sua cadeira, mantendo a gola do vestido impecavelmente posicionada. — Gostaria de começar revisando os termos da seção quatro. Há imprecisões que não posso tolerar.
— Concordo — disse Kael, sentando-se à frente dela. Ele apoiou os cotovelos na mesa e inclinou-se levemente, o olhar fixo em Lyra. — Há muitas coisas que precisam de uma... análise mais profunda.
Lyra sentiu o chute por baixo da mesa. Kael havia tocado seu pé com o dele, de forma deliberada. Ela o encarou com fúria silenciosa, mas ele apenas sustentou o olhar, com um brilho de puro divertimento.
A reunião prosseguiu por horas. Lyra tentava manter o foco, mas a consciência das marcas sob sua roupa era uma distração constante. Ela sentia a pele latejar levemente, um lembrete físico da possessividade de Kael. E, para piorar, ele não parava de provocá-la.
— Rainha Lyra — disse o Mediador em certo ponto —, a senhora parece estar com calor. Seu rosto está um pouco corado. Deseja que abramos as janelas?
— Não! — exclamou ela, um pouco rápido demais. — Estou perfeitamente bem. É apenas... a iluminação deste salão que está excessiva.
Kael soltou uma risada baixa, que ele tentou disfarçar como um tossido.
— Talvez seja a intensidade do debate, Mediador — comentou Kael, inclinando-se para trás na cadeira. — A Rainha Frostveil é conhecida por sua paixão... pela diplomacia. Às vezes, as coisas ficam um pouco acaloradas, não é, Lyra?
Ela apertou a caneta de cristal em sua mão com tanta força que pequenas rachaduras apareceram na superfície do objeto.
— Rei Kael deveria focar menos na minha temperatura e mais nos números que estou apresentando — rebateu ela, os olhos azuis prometendo uma morte lenta e congelante.
— Oh, eu estou focado — murmurou ele, de modo que apenas ela pudesse ouvir. — Especialmente naquela mancha roxa que está aparecendo logo acima da sua gola agora que você se inclinou.
Lyra quase saltou da cadeira. Ela levou a mão ao pescoço instantaneamente, fingindo ajustar o cabelo, enquanto lançava um olhar assassino para Kael. Ele apenas piscou para ela, triunfante.
A vergonha de Lyra atingiu o ápice quando, durante uma pausa para o café, a Rainha Seraphina das Ilhas do Sol aproximou-se.
— Lyra, querida, que vestido encantador — disse Seraphina, analisando-a com olhos de águia. — Mas uma gola tão alta em um dia como hoje? Você não tem medo de sufocar?
— Eu prefiro a proteção — respondeu Lyra, a voz tensa. — O clima das terras neutras é imprevisível.
— É mesmo? — Seraphina inclinou a cabeça, um sorriso malicioso surgindo em seus lábios. — Porque eu poderia jurar que vi uma marca bem curiosa ali... parece quase um...
— Um hematoma de treinamento! — interrompeu Lyra, o coração disparado. — Eu estive praticando com a lança de gelo. Acidentes acontecem.
Kael, que estava por perto bebendo vinho, aproximou-se com uma naturalidade irritante.
— É verdade — disse ele, colocando a mão no ombro de Lyra, o que a fez enrijecer. — A Rainha é muito dedicada aos seus treinos. Eu mesmo ajudei em algumas... manobras de combate ontem à noite. Ela é uma oponente muito difícil de imobilizar, mas quando se consegue... os resultados são marcantes.
Lyra sentiu que ia desmaiar de vergonha. Ela deu um pisão no pé de Kael com toda a força de seu salto, fazendo o rei soltar um arquejo de dor, embora ele tenha mantido o sorriso no rosto.
— Com licença — disse Lyra, saindo apressadamente em direção ao terraço.
Ela precisava de ar. Precisava de gelo. Precisava de qualquer coisa que não fosse o calor de Kael e aquela sensação de estar sendo exposta. Ela parou na mureta de pedra, respirando fundo, sentindo o vento frio da tarde acalmar seus nervos.
Poucos instantes depois, os passos pesados e familiares soaram atrás dela.
— Você quase quebrou meus dedos, sabia? — reclamou Kael, parando ao lado dela.
— Eu deveria ter quebrado seu pescoço! — Ela virou-se para ele, os olhos marejados de frustração. — Você não tem limites? Você quase contou para a Seraphina! Você está se divertindo com a minha humilhação!
Kael parou de sorrir. Ele viu a vulnerabilidade genuína no olhar dela e sentiu uma pontada de remorso, embora mínima. Ele deu um passo à frente, entrando no espaço dela de forma mais suave desta vez.
— Lyra... eu não estou te humilhando.
— Está sim! — Ela apontou para o pescoço. — Você me deixou assim sabendo que eu teria que enfrentar essas pessoas. Você quer que eles pensem que eu sou fraca, que eu me rendi a você.
Kael segurou as mãos dela, forçando-a a olhar para ele.
— Ninguém pensa que você é fraca. Eles olham para você e veem uma rainha que é tão poderosa que até o fogo de Pyros quer um pedaço dela. — Ele suspirou, sua expressão tornando-se mais séria. — Eu deixei essas marcas porque eu queria que você se lembrasse de que, por trás de toda essa política e dessas coroas, existe algo real entre nós. Algo que não pode ser discutido em uma mesa de reuniões.
Lyra desviou o olhar, sua respiração acalmando-se aos poucos.
— Você é um idiota arrogante — sussurrou ela.
— E você é a rainha mais estressadinha e linda que já existiu — ele rebateu, levantando o queixo dela para que seus olhos se encontrassem. — Peço desculpas se te fiz passar vergonha, mas não me arrependo de uma única marca que deixei.
Lyra olhou para ele por um longo tempo. O ódio ainda estava lá, mas agora era uma camada fina sobre um oceano de algo muito mais profundo e perigoso. Ela soltou um suspiro longo, relaxando os ombros.
— Você vai ter que me compensar por isso, Ignis.
— Ah, é? E como a senhora deseja ser compensada? — Ele sorriu, o brilho divertido voltando aos olhos.
— Para começar, você vai assinar o tratado de mineração com as taxas que eu propus. Sem discussões.
Kael soltou uma gargalhada.
— Você está usando o que aconteceu entre nós para ganhar vantagens políticas? Que escandaloso, Rainha Frostveil.
— Eu chamo isso de justiça — disse ela, ajustando a gola do vestido com um ar de superioridade reconquistada. — E se você se comportar bem pelo resto da tarde, talvez eu não te congele quando voltarmos para o hotel.
Kael inclinou-se, sussurrando contra os lábios dela.
— Eu aceito o desafio. Mas prepare-se, Lyra... porque se eu assinar esse tratado, vou querer que você me mostre sua gratidão de uma forma que vai exigir muito mais do que apenas uma gola alta para esconder amanhã.
Lyra corou novamente, mas desta vez, ela não desviou o olhar. Ela deu um sorriso de canto, tão desafiador quanto o dele.
— Veremos quem vai marcar quem desta vez, Rei de Pyros.
Ela passou por ele, voltando para o salão com a elegância de uma rainha e a determinação de uma mulher que acabara de descobrir que o fogo não era apenas algo a ser combatido, mas algo a ser dominado. Kael a seguiu, observando o balanço de seus quadris e o brilho prateado de seu cabelo, sabendo que, embora as marcas no pescoço dela pudessem desaparecer em alguns dias, a marca que ela deixara em seu coração era eterna.
A reunião do Conselho continuou, e embora Lyra Frostveil ainda parecesse a soberana de gelo de sempre, todos notaram que, pela primeira vez, o Rei de Pyros não discutiu uma única cláusula proposta por ela. O Mediador chamou isso de milagre diplomático. Lyra e Kael, trocando olhares cúmplices por cima dos pergaminhos, sabiam que era algo muito mais quente e proibido.
Afinal, entre o fogo e o gelo, o segredo mais bem guardado era que a ebulição era o estado mais prazeroso de se estar. E Lyra, apesar de toda a vergonha e das marcas escondidas, nunca se sentira tão poderosa quanto naquele momento, governando seu reino com uma mão e mantendo o fogo de Kael sob seu controle na outra.