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Entre espadas e trono

O Labirinto entre o Ódio e a Necessidade

O silêncio da Fortaleza de Marfim era, às vezes, mais ensurdecedor do que o clamor das espadas no campo de batalha. Cinco dias haviam se passado desde que Sonya vira as cicatrizes de Lookmhee. Cinco dias desde que a General Punyapat partira para a fronteira sem dizer uma única palavra, deixando apenas uma guarda reforçada e o eco de sua voz rouca no quarto da Torre Leste.

Sonya caminhava de um lado para o outro, seus passos abafados pelo tapete grosso. Ela odiava a si mesma por cada vez que parava diante da porta, aguçando os ouvidos na esperança de reconhecer o passo rítmico e pesado da general. Era uma traição ao seu próprio sangue, ao seu pai e ao seu povo. Como podia uma prisioneira sentir falta de sua captora?

— É o isolamento — sussurrou Sonya para as paredes frias. — É apenas a mente tentando se agarrar a qualquer presença humana.

Mas ela sabia que era mentira. O que ela sentia falta não era de "qualquer presença". Era daquela voltagem elétrica que preenchia o ar quando a mulher de um metro e oitenta entrava no recinto. Era da forma como os olhos escuros de Lookmhee a despiam de todas as defesas, forçando-a a ser apenas Sonya, e não a Herdeira de Pedersen. Sem Lookmhee, a torre era apenas pedra e tédio. Com ela, era um campo de batalha psicológico onde Sonya se sentia, estranhamente, mais viva do que nunca.

Naquela tarde, o sol começou a se despedir, tingindo o céu de um laranja sangrento que lembrava Sonya das chamas que consumiram sua carruagem. A porta da torre se abriu. Não era a General. Era um dos guardas da unidade de elite, um homem chamado Kael, que trazia a bandeja de jantar. Ele era mais jovem que os outros, com olhos que percorriam o corpo de Sonya com uma ousadia que a General jamais permitiria em seus subordinados.

— A princesa parece pálida — disse o guarda, colocando a bandeja sobre a mesa. Ele não se retirou imediatamente como de costume. — Talvez precise de mais do que apenas pão e vinho para se manter animada.

Sonya sentiu um calafrio de repulsa. Ela endireitou a postura, buscando a dignidade que Lookmhee, apesar de tudo, sempre respeitava.

— Deixe a bandeja e saia — ordenou ela, a voz firme.

O guarda deu um passo à frente, diminuindo a distância. Ele não tinha a aura de autoridade de Lookmhee; ele exalava apenas uma malícia barata.

— A General está longe, lidando com os rebeldes na fronteira sul — disse ele, um sorriso torto surgindo em seu rosto. — Quem sabe se ela voltará? O boato é que a resistência Pedersen está lutando como demônios. Você pode nunca mais ver a sua dona.

— Ela não é minha dona — sibilou Sonya, recuando até que suas costas encontrassem a parede.

— Se ela morrer, você será distribuída entre os vitoriosos — Kael continuou, a voz ficando mais baixa e viscosa. — Por que não começar a ganhar favores agora? Um beijo da herdeira real deve valer mais do que ouro.

Ele avançou bruscamente, prendendo Sonya contra a parede com o peso de seu corpo. Sonya tentou empurrá-lo, mas ele era um soldado treinado, forte e movido por uma audácia suicida.

— Tire as mãos de mim! — gritou ela, virando o rosto enquanto ele tentava forçar os lábios contra o pescoço dela.

— Vamos, princesa... — ele murmurou, a mão subindo pela cintura dela de forma invasiva. — Ninguém precisa saber.

O ar no quarto mudou em um instante. Não houve um grito de aviso, apenas o som de metal deslizando contra couro e um estrondo quando a porta de carvalho bateu contra a parede com tal força que uma das dobradiças se partiu.

O guarda congelou. Sonya, com o coração na garganta, olhou por cima do ombro do homem e viu a morte em pessoa.

Lookmhee Punyapat estava parada na soleira. Ela estava coberta de poeira e sangue seco, sua armadura negra riscada por golpes recentes de espada. Mas era o seu rosto que causava terror. A pequena cicatriz no canto de sua boca estava branca, e seus olhos não eram mais humanos; eram duas fendas de escuridão absoluta, focadas inteiramente no homem que tocava sua propriedade.

— Afaste-se — disse Lookmhee. A voz não era alta, mas vibrava com uma promessa de dor tão intensa que o guarda soltou Sonya imediatamente, caindo de joelhos.

— G-General! — gaguejou Kael, o rosto perdendo toda a cor. — Eu... eu só estava...

— Você tocou nela — interrompeu Lookmhee, caminhando lentamente para dentro do quarto. Cada passo dela parecia o badalar de um sino fúnebre. — Eu dei ordens explícitas. Se ela perdesse um fio de cabelo sem minha permissão, suas cabeças rolariam.

— Por favor, General! Foi um momento de fraqueza! — o guarda implorou, as mãos tremendo.

Lookmhee não respondeu com palavras. Com uma rapidez que os olhos de Sonya mal conseguiram acompanhar, a general sacou sua espada pesada. Ela não desferiu um golpe limpo. Ela usou o punho da arma para quebrar o nariz do guarda com um estalo seco e, enquanto ele gritava no chão, ela cravou a bota em sua garganta, cortando o ar dele.

— Você achou que, por eu estar longe, o que é meu estava desprotegido? — Lookmhee perguntou, sua voz soando como o gelo trincando.

Ela se inclinou, agarrando o guarda pelos cabelos e forçando-o a olhar para ela. Com a outra mão, ela sacou uma adaga curta — a mesma que Sonya usara para feri-la semanas antes, agora limpa e afiada.

— Vou garantir que você nunca mais sinta desejo por nada — sussurrou a general.

O que se seguiu foi uma demonstração de brutalidade metódica. Lookmhee não o matou de imediato. Ela o marcou, retalhando os tendões dos braços que ousaram segurar Sonya e, finalmente, com um movimento preciso e cruel, atravessou a garganta do homem, cravando-o no chão de madeira da torre. O sangue jorrou, manchando as botas de Lookmhee e o tapete que Sonya tanto odiava.

O guarda deu um último espasmo e ficou imóvel.

Lookmhee permaneceu de pé sobre o cadáver, a respiração pesada, os ombros subindo e descendo. O sangue pingava de sua lâmina. O cheiro metálico inundou o quarto, misturando-se ao sândalo e à poeira da estrada.

Sonya estava encolhida no canto, tremendo da cabeça aos pés. O horror da cena deveria tê-la feito fugir para o lado oposto, mas quando Lookmhee se virou para ela, os olhos da general ainda estavam selvagens, injetados de sangue e carregados de uma possessividade maníaca.

— Você está ferida? — perguntou Lookmhee, dando um passo em direção a ela.

Sonya olhou para a general. Lookmhee parecia um monstro, um demônio que acabara de sair de um massacre. Mas, naquele momento, o medo do guarda, o nojo do toque indesejado e a solidão dos últimos cinco dias colidiram dentro de Sonya.

Impulsivamente, sem pensar na lógica ou na sua própria segurança, Sonya avançou e envolveu a cintura de Lookmhee em um abraço apertado. Ela enterrou o rosto no peito blindado da general, buscando o calor e a solidez daquela presença imponente.

Lookmhee congelou. Seus braços, ainda sujos de sangue, ficaram suspensos no ar por um segundo eterno. Ela nunca fora abraçada. Nunca fora buscada como um refúgio. O contato da princesa, tão pequena e frágil em comparação à sua estatura de um metro e oitenta, pareceu desarmar algo profundo dentro de sua alma blindada.

Lentamente, Lookmhee deixou a espada cair no chão com um baque metálico. Suas mãos, ainda trêmulas pela adrenalina do combate e da fúria, desceram e envolveram as costas de Sonya, puxando-a para mais perto, como se quisesse fundir a princesa à sua armadura.

— Ele não vai mais tocar em você — murmurou Lookmhee, sua voz perdendo a aspereza e tornando-se um rosnado protetor. — Ninguém vai.

Sonya soluçou contra o peito dela.

— Por que demorou tanto? — a pergunta saiu como um sussurro abafado.

Lookmhee fechou os olhos, descansando o queixo no topo da cabeça de Sonya. O cheiro dos cabelos castanho-claro da princesa era a única coisa limpa naquele quarto cheio de morte.

— Eu tive que terminar a guerra lá fora — disse Lookmhee, apertando o abraço. — Para que eu pudesse voltar para a minha guerra aqui dentro.

Sonya se afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos dela. A diferença de altura era gritante, forçando a princesa a olhar para cima, mas não havia mais o desafio de antes. Havia uma necessidade mútua, uma conexão sombria forjada no sangue e na obsessão.

— Você é um monstro — disse Sonya, as lágrimas escorrendo por suas bochechas.

Lookmhee estendeu a mão enfaixada — a ferida de Sonya que ainda não cicatrizara completamente — e limpou uma lágrima com o polegar áspero.

— Eu sou o seu monstro, Sonya — corrigiu a general, um brilho de posse absoluta retornando aos seus olhos. — E você é a única razão pela qual eu ainda não queimei o mundo inteiro.

Sonya não protestou. Ela sentia o sangue de Lookmhee em suas mãos, o mesmo sangue que ela mesma derramara uma vez, e percebeu, com um pavor fascinado, que não queria mais estar em nenhum outro lugar. O ódio ainda estava lá, mas ele havia se transformado em algo mais denso, algo que a prendia à General Punyapat mais firmemente do que qualquer corrente.

Lookmhee inclinou-se, sua testa encostando na de Sonya.

— Você sentiu minha falta? — perguntou a general, a voz carregada de uma vulnerabilidade que ela só mostrava na penumbra.

— Senti — admitiu Sonya, fechando os olhos. — Eu odiei cada segundo disso.

Lookmhee soltou uma risada baixa, um som que vibrou no peito de Sonya.

— Ótimo. Porque eu nunca mais vou deixar você sozinha o suficiente para sentir falta de nada que não seja o meu toque.

A general pegou Sonya nos braços, erguendo-a como se ela não pesasse nada, e caminhou para longe do cadáver no chão, em direção à cama de dossel. O mundo lá fora podia estar em ruínas, Pedersen podia estar caindo, mas dentro daquela torre, a General e a Herdeira haviam finalmente encontrado seu equilíbrio cruel.

A obsessão de Lookmhee encontrara seu porto, e Sonya, em meio ao horror e à paixão, descobrira que, às vezes, a única proteção contra a escuridão era o próprio mestre das sombras.