Entre espadas e trono
O Altar de Cinzas e Seda
O silêncio que se seguiu à morte do guarda foi preenchido apenas pelo som da chuva pesada que começava a fustigar as janelas da Torre Leste. Lookmhee não chamou os servos para limparem o sangue. Ela não se importava com a imundície no chão; sua atenção estava inteiramente voltada para a mulher em seus braços. Ela depositou Sonya sobre os lençóis de seda com uma delicadeza que contrastava violentamente com a brutalidade de minutos atrás.
A general sentou-se na borda da cama, sua figura de um metro e oitenta projetando uma sombra vasta sobre a princesa. Lookmhee começou a retirar as peças de sua armadura, peça por peça, deixando o metal ensanguentado cair no tapete. Quando restou apenas a túnica negra, ela se voltou para Sonya. Os olhos castanhos da herdeira estavam fixos nela, uma mistura de choque, desejo e uma rendição que nenhum exército jamais conseguira arrancar dos Pedersen.
— Você está tremendo — observou Lookmhee, estendendo a mão para acariciar o rosto de Sonya. O polegar da general passou pela cicatriz no canto de sua própria boca, um tique nervoso que surgia sempre que sua obsessão atingia o ápice.
— Você o matou sem hesitar — sussurrou Sonya, a voz embargada. — Por mim.
— Eu mataria um deus se ele ousasse olhar para você daquela maneira — respondeu Lookmhee, aproximando-se. — Eu avisei, Sonya. Você é minha. Cada gota de sangue no meu corpo pertence a você, assim como cada suspiro seu me pertence.
Sonya sentiu o calor emanando de Lookmhee. O cheiro de sândalo, metal e a ferocidade da guerra envolvia seus sentidos. Ela sabia que deveria recuar, que deveria odiar aquela mulher que estava destruindo o legado de sua família, mas quando Lookmhee se inclinou, Sonya não se moveu. Pelo contrário, ela inclinou o rosto, buscando o contato.
O primeiro beijo não foi suave. Foi uma colisão de anos de rivalidade, semanas de tensão e uma fome que nenhuma das duas conseguia mais esconder. Lookmhee tomou os lábios de Sonya com uma possessividade avassaladora, suas mãos grandes emoldurando o rosto da princesa como se ela fosse um tesouro sagrado e proibido. Sonya gemeu contra a boca da general, suas mãos subindo para os ombros largos de Lookmhee, agarrando o tecido da túnica, puxando-a para mais perto, querendo sentir o peso daquela mulher sobre si.
Era o gosto de vinho e perigo. Lookmhee explorava a boca de Sonya com uma autoridade metódica, mas havia um desespero subjacente, um tremor nas mãos da general que revelava o quanto ela estava à mercê daquela mulher menor. Quando se separaram por um instante para buscar ar, as testas permaneceram coladas, as respirações misturando-se no ar frio do quarto.
— Diga — ordenou Lookmhee, a voz rouca e baixa. — Diga que você não quer mais ninguém. Diga que este castelo, esta torre... que este é o seu lugar agora.
— Eu não posso... — começou Sonya, mas Lookmhee a silenciou com um beijo curto e faminto no pescoço.
— Você pode — insistiu a general. — O seu reino está caindo, Sonya. As torres de Pedersen serão apenas pó daqui a um mês. O seu pai é um homem quebrado que valoriza mais a coroa do que a própria filha. Eu não. Eu valorizo você acima de todos os impérios.
Lookmhee afastou-se apenas o suficiente para olhar nos olhos de Sonya, sua expressão subitamente séria, despida de sua máscara militar.
— Se eu lhe pedisse agora... você renunciaria à sua coroa? — Lookmhee perguntou, e havia uma vulnerabilidade rara em seu tom. — Você deixaria de ser a herdeira de um trono fantasma para ser apenas minha? Para viver aqui, sob a minha proteção, onde ninguém nunca mais poderá feri-la?
Sonya sentiu o peso da pergunta. Renunciar à coroa era renunciar à sua identidade, ao seu povo, a tudo o que lhe fora ensinado desde o nascimento. Mas ela olhou para as cicatrizes nas mãos de Lookmhee, lembrou-se da forma como a general a protegera e percebeu que a liberdade que Pedersen lhe oferecia era uma gaiola de expectativas, enquanto o cativeiro de Punyapat era o único lugar onde ela se sentia verdadeiramente vista.
— O que você faria se eu dissesse não? — perguntou Sonya, um resto de seu espírito desafiador brilhando nos olhos.
Lookmhee sorriu, um gesto sombrio e belo.
— Eu daria o mundo a você em uma bandeja de prata se você aceitasse — disse a general, acariciando os cabelos castanhos da princesa. — Mas se você recusasse... eu tomaria o mundo à força e o queimaria até que não sobrasse nada além de nós duas. Eu não hesitaria em destruir cada cidade do seu reino para garantir que você não tivesse para onde voltar a não ser para os meus braços.
— Você é uma tirana — murmurou Sonya, mas seus dedos traçavam o contorno da mandíbula forte de Lookmhee.
— Sou a sua tirana — corrigiu Lookmhee. — Escolha, meu amor. A coroa de um reino que não existe mais, ou a vida ao lado da mulher que moveria montanhas para ver você sorrir.
Sonya puxou Lookmhee pelo colarinho, selando sua escolha com um beijo que selava seu destino. Não havia mais volta.
— Eu renuncio — sussurrou Sonya entre os beijos. — Que Pedersen queime. Eu fico com você.
Lookmhee soltou um som que era metade risada, metade rosnado de triunfo. Ela ergueu Sonya, deitando-a completamente sobre os travesseiros, cobrindo seu corpo com o dela. A diferença de tamanho era intimidante, mas Sonya sentia-se, pela primeira vez, invencível.
— Eu farei tudo por você, minha princesa — prometeu Lookmhee, seus olhos brilhando com uma devoção quase religiosa. — Cada batalha que eu vencer a partir de hoje será em seu nome. Cada vida que eu poupar ou tirar será por sua vontade. Você não precisa mais de uma coroa de ouro. Eu farei de você a rainha do meu coração, e esse é um trono que ninguém jamais poderá usurpar.
Naquela noite, sob o olhar das estrelas escondidas pela chuva, a guerra entre os reinos de Pedersen e Punyapat chegou ao fim dentro daquela torre. Não através de tratados ou diplomacia, mas através da rendição total de uma herdeira e da obsessão absoluta de uma general. Lookmhee Punyapat, a mulher de gelo, encontrara seu fogo; e Sonya Saranphat, a princesa cativa, descobrira que não havia liberdade maior do que pertencer à sua maior inimiga.