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Entre luz e Sombra

O Labirinto de Vidro e a Dança das Facas

As semanas que se seguiram à invasão do meu pai foram estranhas, marcadas por um silêncio cauteloso e uma vigilância redobrada. Jimin cumpriu sua promessa: a segurança da mansão foi completamente reformulada. Agora, não eram apenas homens de terno nos corredores, mas uma rede invisível de proteção que parecia envolver cada passo que eu dava. No entanto, o que mais mudou não foi o ambiente ao meu redor, mas o que eu sentia dentro de mim.

Havia uma névoa constante na minha mente, um cansaço que o sono de dez horas não conseguia dissipar. Atribui isso ao estresse pós-traumático. Afinal, ver o próprio pai ser baleado e levado para nunca mais voltar não era algo que se superasse com facilidade. Mas, além do cansaço, havia algo mais. Um mal-estar matinal que eu escondia de Jimin com a mesma habilidade que ele escondia seus negócios obscuros de mim.

Eu estava na biblioteca, tentando organizar os primeiros esboços da escola de artes que Jimin estava financiando. Era um projeto ambicioso, uma forma de retribuir à comunidade e, talvez, limpar um pouco do sangue que manchava o sobrenome Park. Mas o cheiro do café fresco que a camareira havia deixado sobre a mesa subitamente pareceu insuportável.

Senti meu estômago dar um nó violento. Corri para o banheiro adjacente, mal conseguindo fechar a porta antes de colocar para fora o pouco que havia comido no café da manhã. Quando finalmente me levantei, pálida e trêmula, vi meu reflexo no espelho. Meus olhos pareciam maiores, e havia uma fragilidade em meu rosto que eu não reconhecia.

— Emilly? — A voz de Jimin ecoou do outro lado da porta, carregada de uma preocupação imediata.

Limpei a boca rapidamente e lavei o rosto com água gelada, tentando recuperar a compostura. Abri a porta e o encontrei parado ali, já sem o paletó, com o semblante tenso.

— Estou aqui — respondi, forçando um sorriso que não chegou aos meus olhos.

Ele deu um passo à frente, segurando meu rosto com as mãos frias. Seus olhos âmbar percorreram cada centímetro da minha pele, lendo-me como se eu fosse um de seus relatórios confidenciais.

— Você está pálida. Mais do que o normal — disse ele, o tom de voz baixando para aquele sussurro possessivo que sempre me fazia estremecer. — O que está acontecendo? Você não tocou na comida ontem à noite e agora se tranca no banheiro.

— É apenas o estresse, Jimin — menti, desviando o olhar. — O projeto da escola está me consumindo mais do que eu esperava. E as lembranças do que aconteceu... ainda são difíceis.

Jimin suspirou, puxando-me para um abraço apertado. Ele enterrou o rosto no meu pescoço, respirando fundo, como se tentasse absorver minha dor para si.

— Eu odeio ver você assim — murmurou ele. — Se esse projeto está te fazendo mal, nós paramos. Eu posso contratar cem pessoas para fazerem isso por você.

— Não! — exclamei, afastando-me um pouco para olhá-lo. — Eu preciso disso. Preciso sentir que estou construindo algo real, algo que não seja baseado em medo ou dívidas. Por favor, não tire isso de mim.

Ele me observou em silêncio por um longo momento. Havia uma luta interna visível em seus olhos; o protetor implacável contra o homem que queria me ver realizar meus sonhos.

— Está bem — cedeu ele, finalmente. — Mas você vai ver um médico hoje. Sem discussões.

— Jimin, não precisa...

— Não foi um pedido, Emilly — interrompeu ele, a autoridade de mafioso brilhando por um segundo. — Foi uma ordem de quem não suportaria perder você. O doutor Kang virá à tarde.

Ele me beijou suavemente, um toque de lábios que prometia proteção eterna, e saiu para atender a uma ligação que não parava de vibrar em seu bolso. Fiquei ali, parada no meio da biblioteca, sentindo uma mão descer instintivamente para o meu ventre ainda plano. Uma suspeita terrível e maravilhosa começou a brotar no meu peito, mas eu a esmaguei. Não podia ser. Não agora, quando o mundo de Jimin estava em chamas.

A tarde chegou com a rapidez de uma sentença. O doutor Kang, um homem de meia-idade que trabalhava exclusivamente para a organização de Jimin, chegou com sua maleta de couro e uma expressão profissional. Jimin insistiu em ficar na sala, sentado na poltrona à minha frente, observando cada movimento do médico como um falcão.

— A senhorita tem apresentado náuseas, tonturas e fadiga extrema — resumiu o médico, após colher uma amostra de sangue. — O senhor Park me informou sobre os eventos traumáticos recentes, o que poderia explicar um colapso nervoso. No entanto, os sintomas são bastante específicos.

— E o que isso significa? — perguntou Jimin, a voz tensa, os dedos batendo nervosamente no braço da poltrona.

— Significa que precisamos descartar outras possibilidades antes de receitar qualquer sedativo — respondeu Kang, mantendo a calma. — Vou levar esses exames para o laboratório particular e terei os resultados em duas horas.

As duas horas seguintes foram as mais longas da minha vida. Jimin tentou me distrair falando sobre a nova segurança do perímetro, mas eu mal ouvia. Eu conseguia sentir o olhar dele sobre mim, um olhar que misturava adoração e um medo profundo de que eu estivesse doente. Ele não suportaria se algo me acontecesse por culpa do mundo dele.

Quando o doutor Kang retornou, o silêncio na sala era tão denso que parecia sufocar. Jimin levantou-se de um salto assim que o médico entrou.

— E então? — questionou Jimin, a impaciência transbordando. — É anemia? Exaustão? Diga logo.

O médico olhou de Jimin para mim, e pela primeira vez, vi um pequeno sorriso surgir em seus lábios, algo raro para alguém que lidava com ferimentos de bala diariamente.

— Não é uma doença, senhor Park — disse o doutor Kang, entregando um envelope a Jimin. — A senhorita Emilly está perfeitamente saudável. Os sintomas são decorrentes de uma gestação. Ela está grávida de aproximadamente seis semanas.

O mundo pareceu parar. O som do vento lá fora, o tique-taque do relógio, até mesmo minha própria respiração... tudo cessou. Olhei para Jimin, esperando ver choque, raiva ou talvez o pânico de um homem que vive em guerra constante.

Jimin estava estático. O envelope tremeu levemente em sua mão. Ele olhou para o papel, depois para o médico, e finalmente para mim. Seus olhos âmbar, que eu já vira serem frios como gelo e quentes como fogo, agora estavam inundados de algo que eu nunca vira antes: uma vulnerabilidade absoluta.

— Grávida? — a voz dele saiu como um sopro, quase inaudível.

— Sim, senhor. Meus parabéns — disse o médico, recolhendo suas coisas e fazendo uma reverência discreta antes de sair, sabendo que aquele momento não pertencia a mais ninguém.

Ficamos sozinhos. O silêncio que se seguiu não era mais opressor, mas carregado de uma eletricidade nova. Jimin caminhou lentamente em minha direção. Ele parecia ter medo de que, se andasse rápido demais, eu pudesse quebrar. Ele se ajoelhou entre minhas pernas, como fizera na noite em que prometeu me proteger, e apoiou a testa no meu colo.

Senti suas mãos subirem trêmulas até meu ventre. Ele o tocou com uma reverência que me fez chorar instantaneamente.

— Um filho — sussurrou ele, a voz embargada. — Meu... nosso.

— Jimin... — comecei, as lágrimas escorrendo livremente. — Eu não sabia. Eu juro que não sabia.

— Eu sei — disse ele, levantando o rosto. Havia lágrimas nos olhos dele também, algo que eu nunca imaginei ver no rosto do homem mais temido de Seul. — Como eu pude ser tão cego? Eu deveria ter percebido. Eu deveria ter cuidado melhor de você.

— Você cuida de mim todos os dias — respondi, segurando o rosto dele. — Mas Jimin... e agora? O seu mundo... as pessoas que querem te derrubar...

A expressão dele mudou instantaneamente. A doçura permaneceu, mas uma determinação feroz e implacável tomou conta de seus traços. Ele se levantou, puxando-me para cima com ele, abraçando-me de uma forma que me fazia sentir que nada no universo poderia me tocar.

— Agora, o jogo mudou — disse ele, a voz voltando ao tom autoritário, mas com uma promessa nova. — Se antes eu era um homem perigoso, agora eu serei o próprio pesadelo de quem ousar olhar na sua direção. Eu vou construir uma fortaleza em volta de vocês dois, Emilly. Ninguém, absolutamente ninguém, vai chegar perto do que é meu.

— Você está feliz? — perguntei, precisando ouvir as palavras.

Jimin sorriu, e foi o sorriso mais bonito que já vi. Não era enigmático, não era de canto. Era um sorriso de pura e genuína alegria, que iluminou todo o seu rosto.

— Eu nunca achei que teria o direito de ter algo assim — confessou ele, beijando minhas mãos. — Um herdeiro. Uma família. Você me deu o que todos os meus milhões e todo o meu poder nunca puderam comprar: um futuro.

Ele me pegou no colo, girando-me levemente na biblioteca, fazendo-me rir em meio às lágrimas. Naquele momento, as sombras da máfia pareciam distantes. Não importava quem estivesse lá fora, ou as guerras que Jimin teria que lutar. Dentro daquelas paredes, sob o teto de carvalho e cercados por livros antigos, éramos apenas dois jovens prestes a enfrentar o maior desafio de nossas vidas.

— Eu vou precisar mudar muitas coisas — disse ele, colocando-me no chão, mas mantendo-me perto. — Vou precisar de mais homens na escolta, vou precisar limpar alguns setores da organização de forma mais... definitiva. Não quero nenhuma ponta solta quando esse bebê nascer.

— Jimin, não comece uma guerra por causa disso — pedi, preocupada.

— Eu não vou começar uma guerra, Emilly — disse ele, acariciando meu cabelo com uma calma aterrorizante. — Eu vou terminá-las. Todas elas. Eu quero que nosso filho cresça em um mundo onde o nome Park Jimin signifique respeito, não apenas medo.

Passamos o restante da tarde planejando, não apenas a escola de artes, mas o quarto do bebê, as consultas médicas e como contaríamos aos poucos aliados em quem Jimin confiava. Pela primeira vez, vi Jimin relaxar de verdade. Ele não olhava mais para a porta a cada cinco minutos; ele olhava para mim.

No entanto, a realidade do nosso mundo sempre encontrava uma forma de se infiltrar. Ao anoitecer, o telefone de Jimin tocou. Ele atendeu, e vi seu semblante endurecer novamente.

— Sim — disse ele, secamente. — Eu sei quem foi. Não, não espere. Quero que a mensagem seja clara. Se eles tocarem em um fio de cabelo de qualquer pessoa sob minha proteção, eu não vou apenas matá-los. Eu vou apagar a existência deles da história.

Ele desligou e olhou para mim. A transição entre o pai amoroso e o mafioso impiedoso foi instantânea, mas desta vez, eu não senti medo. Eu sabia que aquela ferocidade era o que manteria minha pequena família segura.

— Problemas? — perguntei.

— Apenas negócios — respondeu ele, vindo até mim e me beijando com paixão. — Nada com que você precise se preocupar. A partir de hoje, sua única preocupação é ficar saudável e feliz. O resto... o resto eu resolvo com fogo e sangue, se necessário.

Deitamo-nos naquela noite, e Jimin manteve a mão sobre meu ventre o tempo todo, como se estivesse guardando um tesouro sagrado. Eu sabia que a gravidez traria novos perigos. Eu sabia que eu era agora o alvo supremo para qualquer um que quisesse atingir o rei da máfia. Mas, olhando para o perfil de Jimin à luz da lua, eu me senti invencível.

Meu pai havia me vendido por uma dívida, mas o destino havia me dado um império. E agora, dentro de mim, crescia o futuro desse império. A garota que um dia temeu por sua vida agora era a mulher que carregava a esperança de um homem que todos julgavam não ter alma.

— Jimin? — sussurrei, quase pegando no sono.

— Sim, minha vida?

— Nós vamos ficar bem, não vamos?

Ele se inclinou e me deu um beijo suave nos lábios.

— Nós seremos a única coisa que restará de pé quando a poeira baixar, Emilly. Eu prometo.

E enquanto o sono me envolvia, eu soube que ele estava falando a verdade. Park Jimin nunca quebrava uma promessa, especialmente quando se tratava do que ele amava. A dança das facas continuaria lá fora, mas dentro do nosso labirinto de vidro, o amor havia acabado de plantar sua semente mais forte. E nada, nem mesmo a morte, seria capaz de arrancá-la de nós.