Entre luz e Sombra
O Rugido da Tempestade e o Primeiro Grito
Nove meses podem parecer uma eternidade quando se vive dentro de uma fortaleza de vidro e aço, mas para mim, cada dia ao lado de Park Jimin foi uma lição de sobrevivência e de um amor que desafiava a lógica. A mansão, antes um mausoléu de mármore frio, transformara-se. O quarto ao lado do nosso agora estava repleto de móveis em tons de creme e cinza, com detalhes em ouro que apenas o gosto extravagante de Jimin poderia escolher. O berço, entalhado à mão, parecia esperar por um príncipe.
Mas o mundo lá fora não se acalmara. Jimin estava mais tenso do que nunca. A proximidade do nascimento do nosso filho o tornara uma fera enjaulada, alternando entre momentos de doçura extrema e explosões de fúria contra qualquer um que cometesse a menor falha na segurança. Ele mal dormia, passando as noites vigiando meu sono, com a mão espalmada sobre a minha barriga enorme, sentindo os chutes do pequeno herdeiro que ele já amava com uma possessividade assustadora.
A noite em que tudo mudou começou com uma tempestade de verão, daquelas que parecem querer lavar os pecados de Seul. Relâmpagos cortavam o céu, iluminando momentaneamente o escritório onde eu tentava ler, enquanto Jimin revisava relatórios financeiros no computador.
— Você deveria estar na cama, Emilly — disse ele, sem desviar os olhos da tela, embora sua voz carregasse aquela preocupação constante.
— O sofá é confortável, Jimin — respondi, sentindo uma pressão incômoda na base da coluna. — E o bebê está agitado. Acho que ele gosta do som dos trovões.
Jimin levantou-se e caminhou até mim. Ele ajoelhou-se entre minhas pernas, descansando a cabeça no meu colo. Aquele homem, que horas antes decidira o destino de carregamentos milionários e comandara interrogatórios implacáveis, agora buscava refúgio nos meus braços.
— Eu sinto que algo está prestes a acontecer — sussurrou ele, a voz rouca. — Não é apenas a tempestade. É uma inquietação no sangue.
— É apenas o nervosismo de ser pai, Jimin — eu disse, acariciando seus cabelos loiros, agora um pouco mais compridos. — Vai dar tudo certo.
Foi nesse exato momento que a primeira contração me atingiu. Não foi um aviso gentil; foi como se uma garra de ferro apertasse meu útero e torcesse. Soltei um arquejo agudo, apertando os ombros de Jimin.
Ele se afastou instantaneamente, os olhos âmbar dilatados de pânico.
— O que foi? O que você sentiu?
— Foi... uma contração — respondi, tentando controlar a respiração. — Mas ainda deve estar no começo. O médico disse que...
Antes que eu pudesse terminar a frase, uma dor muito mais intensa me dobrou. Senti um calor repentino entre as pernas e o som de algo se rompendo. Olhei para baixo, vendo o tapete caro ser manchado pelo líquido amniótico.
— Jimin — murmurei, a voz trêmula —, a bolsa estourou.
O caos que se seguiu foi uma coreografia de eficiência brutal. Jimin não gritou, mas sua voz ecoou pelo rádio de comunicação com uma autoridade que fez a casa inteira se mover em segundos.
— Código Ouro! Agora! Preparem o comboio e avisem o hospital. O doutor Kang deve estar na entrada em cinco minutos ou eu mesmo o busco pelo pescoço!
Ele me pegou no colo com uma facilidade que sempre me impressionava. Apesar do peso da gravidez, Jimin me carregava como se eu fosse feita de penas. Enquanto descíamos as escadas, vi vultos de homens armados se posicionando. A tempestade lá fora rugia, mas o perigo dentro da mansão era palpável.
— Senhor — disse o senhor Kim, surgindo no corredor com um fuzil em mãos —, recebemos um alerta. Há movimentação suspeita nos perímetros sul. Eles sabem que é hoje.
Jimin parou por um segundo, seus olhos brilhando com uma fúria assassina. Ele apertou-me mais contra o peito.
— Eles acham que podem usar o nascimento do meu filho como uma distração? — Jimin deu um sorriso que não tinha nada de humano. — Kim, ordene força total. Não quero sobreviventes. Ninguém interrompe o nascimento de um Park.
Fui colocada no banco traseiro da SUV blindada. Jimin sentou-se ao meu lado, segurando minha mão com tanta força que meus dedos ficaram brancos. O comboio partiu sob a chuva torrencial, as sirenes cortando a noite.
As contrações estavam ficando mais próximas, ondas de dor lancinante que me faziam perder o sentido da realidade. Eu gritava, e a cada grito meu, via Jimin fechar os olhos, sofrendo junto comigo, incapaz de lutar contra um inimigo que ele não podia alvejar.
— Dói, Jimin! Dói muito! — eu chorava, apertando o estofado de couro.
— Eu estou aqui, Emilly. Olhe para mim — ele ordenou, puxando meu rosto para que nossos olhos se encontrassem. — Respire comigo. Só mais um pouco. Você é a mulher mais forte que eu já conheci. Você sobreviveu a mim, vai sobreviver a isso.
De repente, o carro deu uma guinada violenta. O som de tiros ricocheteando na blindagem ecoou como pipoca estourando.
— Emboscada! — gritou o motorista.
— Mantenha o carro andando! — rugiu Jimin. Ele sacou a arma da cintura, mas não me soltou. — Se o carro parar, você morre primeiro!
Eu estava em pleno trabalho de parto no meio de uma zona de guerra. A ironia não me escapava, mas a dor era grande demais para qualquer pensamento lógico. Outra contração me atingiu, e eu senti uma pressão insuportável.
— Ele está vindo! — gritei, arqueando as costas. — Jimin, eu não consigo chegar ao hospital! Ele vai nascer agora!
Jimin olhou para fora, onde seus homens trocavam tiros com veículos que tentavam nos fechar, e depois olhou para mim. A decisão em seus olhos foi instantânea.
— Encoste em qualquer lugar seguro! Agora! — ordenou ele. — Kim, faça um perímetro! Ninguém passa por esse carro!
O comboio parou sob um viaduto de concreto que nos protegia da chuva, mas não do som da batalha. Os homens de Jimin saltaram, criando uma barreira humana de metal e fogo ao redor do nosso carro.
Jimin jogou o paletó no chão do carro e puxou a camisa, rasgando os botões para ter mais mobilidade. Ele se posicionou entre minhas pernas, as mãos sujas de pólvora e sangue, mas seus olhos estavam focados apenas em mim.
— Emilly, você precisa empurrar — disse ele, a voz agora estranhamente calma, o tom de quem assume o comando em meio ao desastre. — Eu vou pegar ele. Eu prometo.
— Eu não consigo... eu tenho medo... — eu soluçava, o suor misturando-se às lágrimas.
— Olhe para mim! — ele gritou sobre o som de uma explosão próxima. — Você é minha rainha. E este é o nosso filho. Empurre, Emilly! Agora!
Eu gritei, um som que pareceu rasgar minha garganta, e empurrei com cada fibra do meu ser. O mundo lá fora era um borrão de tiros e gritos, mas dentro daquele carro, o tempo havia parado.
— Estou vendo a cabeça — disse Jimin, e vi uma lágrima solitária escorrer pelo seu rosto, limpando a fuligem de sua bochecha. — Mais uma vez, meu amor. Só mais uma vez por mim.
Reuni forças que eu nem sabia que possuía. Pensei em tudo o que passamos, no contrato que meu pai assinou, na primeira vez que Jimin me tocou, na vida que construímos sobre alicerces tão frágeis. Com um último esforço hercúleo, senti o alívio imediato da pressão.
Um choro agudo e forte preencheu o interior do veículo, abafando por um momento o som da guerra externa.
Jimin segurava um pequeno embrulho ensanguentado e trêmulo. Ele parecia em transe, observando a pequena criatura que lutava para respirar o ar carregado de fumaça e chuva. Com uma habilidade surpreendente, ele limpou o rosto do bebê com sua camisa de seda e o envolveu no que restava do tecido.
— É um menino — sussurrou Jimin, a voz quebrada. — Ele é... ele é perfeito.
Ele colocou o bebê no meu peito. A pele quente e úmida do meu filho contra a minha foi a sensação mais pura que já experimentei. O pequeno parou de chorar ao sentir meu batimento cardíaco, e eu, exausta e trêmula, só conseguia soluçar de alívio.
Jimin inclinou-se e beijou minha testa, depois beijou a pequena cabeça do filho. Naquele momento, o senhor Kim bateu no vidro, com o rosto sujo de sangue, mas com um sinal de positivo.
— O caminho está limpo, senhor. Os agressores foram eliminados.
Jimin olhou para o subordinado, e a aura de pai desapareceu por um breve segundo, substituída pela frieza do líder.
— Quero os nomes de quem planejou isso na minha mesa antes do amanhecer — disse ele. — Ninguém toca na minha família e vive para contar a história.
Ele voltou a olhar para nós, e sua expressão suavizou-se novamente. Ele passou o braço ao meu redor, protegendo-nos enquanto o carro voltava a se mover, desta vez em direção à segurança do hospital particular.
— Como ele vai se chamar? — perguntei, a voz fraca, observando os traços do bebê que já lembravam tanto os de Jimin.
Jimin olhou para o filho, que agora dormia serenamente, alheio ao fato de que nascera em meio a um tiroteio.
— Ji-hoon — decidiu ele. — Significa "sabedoria" e "esperança". Porque ele é a esperança de que eu possa ser algo melhor do que o homem que fui até hoje.
Ao chegarmos ao hospital, uma equipe médica já nos esperava. Fui levada para uma maca, mas Jimin não soltou minha mão em nenhum momento. Ele caminhava ao meu lado, coberto de sangue, com a camisa rasgada e o olhar de quem destruiria o mundo para nos manter seguros.
Mais tarde, já instalada em uma suíte luxuosa e protegida por um andar inteiro de seguranças, observei Jimin. Ele estava sentado na poltrona ao lado do berço de acrílico, observando Ji-hoon. Ele ainda não havia se limpado totalmente; havia uma mancha de sangue seco em seu pescoço, mas ele parecia em paz.
— Você está bem? — perguntei, minha voz quebrando o silêncio do quarto.
Jimin levantou-se e veio até a minha cama. Ele sentou-se na borda e pegou minha mão, beijando cada um dos meus dedos.
— Eu nunca tive medo de morrer, Emilly — confessou ele. — Mas hoje, quando ouvi o primeiro choro dele e vi você lutar daquela forma... eu tive pavor. Pavor de que este mundo fosse demais para vocês.
— Nós sobrevivemos, Jimin. Ele sobreviveu.
— Sim, ele sobreviveu — Jimin sorriu, um sorriso sombrio e belo ao mesmo tempo. — E ele vai crescer sabendo que é o dono deste império. Eu vou ensinar a ele como governar, mas você... você vai ensinar a ele como amar.
Ele se inclinou e me deu um beijo longo, um beijo que selava nosso novo contrato. Não era mais um acordo de dívida, mas um pacto de sangue e vida.
— Eu te amo — sussurrei contra seus lábios.
— Eu amo vocês mais do que a minha própria alma — respondeu ele.
Lá fora, a tempestade havia passado, dando lugar a uma madrugada límpida. O sol logo nasceria sobre Seul, iluminando o novo herdeiro da máfia. Park Jimin havia comprado minha vida por uma dívida, mas eu havia lhe dado algo que ele nunca esperou possuir: um motivo para viver, e não apenas para reinar.
Adormeci ouvindo o som da respiração ritmada de Jimin e o leve ressonar de Ji-hoon. O perigo sempre estaria lá, à espreita nas sombras, mas eu sabia que, enquanto Park Jimin estivesse de pé, nada no mundo seria capaz de apagar a luz que havíamos criado naquela noite de tempestade. O preço do sangue havia sido pago, e o que restava era apenas o início de um reinado que não seria escrito com medo, mas com a força indomável de uma família que nasceu do fogo.