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entre mundos

Pétalas de Cerejeira e Baunilha

O despertador tocou às seis da manhã, mas eu já estava com os olhos abertos, encarando o teto e repassando cada segundo da tarde anterior. O toque de Keonho no meu rosto ainda parecia queimar na minha pele, uma lembrança vívida que fazia meu estômago dar piruetas. Eu sabia que, a partir daquele momento, nada seria "normal" novamente. E, por isso, eu não podia simplesmente vestir o uniforme de qualquer jeito e sair correndo.

Levantei-me com uma determinação que raramente sentia em manhãs de terça-feira. Abri o guarda-roupa e encarei a saia plissada do uniforme do Saint-Jude. Geralmente, eu optava pela calça, por ser mais prática para correr pelos corredores e me esconder nas últimas fileiras da sala, mas hoje era diferente. Eu queria me sentir bonita, não apenas para ele, mas para mim mesma, como se estivesse celebrando aquele novo capítulo.

Vesti a saia, ajustando-a cuidadosamente. Coloquei a meia calça fina e optei por sapatos mocassins bem polidos. No banheiro, dediquei um tempo extra ao meu cabelo. Em vez do rabo de cavalo apressado, fiz ondas suaves com o modelador, deixando os fios caírem livremente sobre os ombros. A maquiagem foi o que o Luis chamaria de "estratégia de guerra invisível": um pouco de corretivo para esconder as olheiras de quem ficou acordada lendo fanfics (ou melhor, vivendo uma), um blush rosado para dar aquele ar de saúde e um gloss de cereja que deixava os lábios brilhantes sem parecer exagerado.

— Helena, você vai para a escola ou para um tapete vermelho? — perguntou minha mãe, encostada no batente da porta, com uma sobrancelha erguida e um sorriso divertido.

— É só... um dia especial, mãe — respondi, sentindo minhas bochechas ganharem uma cor natural que dispensava o blush. — Quero começar o trimestre com o pé direito.

— Sei bem o nome desse "pé direito" — ela riu, entregando-me a mochila. — Vá logo, antes que se atrase.

Caminhei para a escola sentindo o vento fresco da manhã balançar minha saia. Eu estava nervosa. E se ele achasse que eu estava tentando demais? E se ele nem notasse? A insegurança de fã ainda sussurrava no fundo da minha mente, mas eu a silenciei assim que avistei os portões do Saint-Jude.

Logo na entrada, encontrei Luis. Ele estava encostado em um poste, mexendo no celular, mas quando me viu, quase deixou o aparelho cair.

— Uau! — Ele assobiou, aproximando-se com aquele olhar de quem ia me zoar pelo resto da vida. — O papagaio foi ao dentista e você resolveu ir ao salão? Helena, você está... diferente. De um jeito bom. De um jeito "quero impressionar um certo idol do segundo ano".

— Cala a boca, Luis! — Eu ri, dando um tapinha no braço dele. — Eu só queria mudar um pouco. A calça estava me incomodando.

— Sei, sei. E esse gloss de cereja também é por causa do conforto, imagino — ele brincou, enquanto subíamos as escadas. — Mas prepare o coração. O 2ºA está tendo aula de Educação Física no pátio agora. Você vai ter que passar por eles para ir para a sua sala.

Meu coração errou uma batida. Passar pelo pátio significava que ele me veria à luz do dia, cercado pelos colegas de grupo e por metade da escola. Respirei fundo, ajeitei a alça da mochila e tentei manter a postura.

Ao chegarmos ao pátio, o som de bolas de basquete quicando e gritos de incentivo preenchia o ar. Localizei Keonho quase instantaneamente. Ele estava vestindo o short e a camiseta de treino da escola, o que por si só já era um crime contra a minha sanidade mental. O suor fazia alguns fios de cabelo grudarem em sua testa, e ele parecia concentrado em um passe para o James.

Eu tentei passar discretamente pelo canto, mas Luis, o traidor, fez questão de tossir alto e acenar para o grupo.

— E aí, pessoal! Bom treino! — gritou meu amigo.

Keonho parou a bola no mesmo instante. Seus olhos percorreram o pátio até me encontrarem. Eu congelei. Por um momento, o tempo pareceu parar. Vi o momento exato em que o olhar dele mudou de reconhecimento para surpresa, e depois para algo que eu só conseguia descrever como admiração pura.

Ele caminhou em nossa direção, ignorando os protestos do James sobre o jogo ter parado. A cada passo dele, eu sentia que minhas pernas iam ceder.

— Oi, Luis — disse ele, mas seus olhos não saíram dos meus por um segundo sequer. — Oi, Helena.

— Oi, Keonho — respondi, tentando manter a voz firme, embora estivesse falhando miseravelmente.

Ele me olhou de cima a baixo, não de um jeito invasivo, mas com uma curiosidade genuína. Um sorriso lento e encantador começou a surgir em seus lábios, o tipo de sorriso que ele raramente mostrava nas fotos oficiais, algo mais íntimo.

— Você está... — ele hesitou, passando a mão pelo pescoço suado — ...você está linda hoje, Helena. Quer dizer, você sempre está, mas hoje tem algo diferente. A saia combinou muito com você. E seu cabelo está incrível.

Eu senti meu rosto entrar em combustão espontânea. O elogio dele foi tão direto e sincero que perdi a fala por alguns segundos.

— Obrigada — consegui gaguejar. — Eu só... resolvi mudar um pouco. O tempo está ficando mais quente, não é?

— Com certeza — ele concordou, a voz baixando um tom, tornando-se mais aveludada. — Ficou perfeito. De verdade.

Luis soltou um pigarro forçado, claramente se divertindo com o nosso momento de dorama na vida real.

— Bom, eu adoraria ficar aqui vendo vocês dois trocarem olhares apaixonados, mas temos aula de Química e eu não quero levar suspensão — disse Luis, puxando-me levemente pelo braço.

— A gente se vê no intervalo? — perguntou Keonho, dando um passo à frente, como se não quisesse que eu fosse embora ainda.

— Sim, claro — respondi, já sendo arrastada por Luis.

Passei o resto da manhã em transe. As palavras "você está linda" ecoavam na minha mente como o refrão de uma música viciante. Eu não conseguia focar em nada. A cada vez que eu olhava para baixo e via a saia, lembrava do olhar dele e um sorriso involuntário surgia no meu rosto.

Quando o sinal do intervalo finalmente tocou, eu e Luis fomos para a nossa mesa de costume sob a figueira. Eu estava ansiosa, esperando ver Keonho aparecer a qualquer momento. Mas quem apareceu primeiro não foi ele.

— E aí, casal do ano! — Uma voz vibrante e cheia de energia ecoou pelo pátio.

Olhei para o lado e vi Sean caminhando em nossa direção com uma pose de modelo, usando os óculos escuros pendurados na gola da camisa. Atrás dele, Keonho vinha logo em seguida, já trocado e usando o uniforme normal, parecendo um pouco tímido pela abordagem barulhenta do amigo.

— Sean! — eu disse, sentindo a adrenalina de fã subir novamente. — Oi!

— Oi, Helena! — Sean parou na frente da mesa, colocando as mãos nos quadris. — Eu ouvi dizer que você estava deslumbrante hoje e tive que vir conferir. O Keonho não parou de falar que "a Helena está com um brilho diferente" desde que o treino acabou.

— Sean, cala a boca! — Keonho resmungou, dando um empurrão de leve no ombro do amigo, o rosto ganhando tons de vermelho.

— O quê? É a verdade! — Sean riu, olhando para nós dois com um brilho travesso nos olhos. — Escutem, eu tive uma ideia brilhante. O treino de dança da tarde foi cancelado porque o coreógrafo teve um imprevisto, e o Keonho está livre de gravações até as seis.

Eu e Luis trocamos olhares curiosos.

— E o que isso significa? — perguntou Luis.

— Significa — Sean anunciou dramaticamente — que todos nós vamos sair daqui agora e vamos tomar sorvete naquela sorveteria nova que abriu perto da praça. Por minha conta! Bom, tecnicamente é por conta do cartão do manager que ele esqueceu comigo, mas não contem para ninguém.

Meu coração disparou. Sair da escola com o Keonho e o Sean? Para tomar sorvete? Em público?

— Eu não sei se é uma boa ideia — eu disse, preocupada. — E se alguém vir vocês? As fãs...

— Ah, Helena, relaxa! — Sean descartou a preocupação com um gesto de mão. — A gente coloca um boné, uma máscara e finge que somos apenas estudantes normais matando aula. Além disso, aquela sorveteria tem um andar superior bem reservado.

Keonho olhou para mim, sua expressão suavizando. Ele parecia realmente querer ir, longe das pressões da escola e da empresa.

— Você quer ir, Helena? — perguntou ele, ignorando o Sean e focando apenas em mim. — Eu adoraria tomar um sorvete com você. Sem papagaios envolvidos, eu prometo.

Eu ri, sentindo a última resistência desmoronar.

— Eu adoraria.

— Ótimo! — Sean bateu palmas. — Luis, você vem também, não aceito "não" como resposta. Vamos logo, antes que o inspetor resolva fazer a ronda no portão lateral.

Saímos da escola como se estivéssemos em uma missão secreta. Sean e Keonho colocaram seus bonés e máscaras pretas, transformando-se instantaneamente naquelas figuras misteriosas e estilosas que víamos nos aeroportos. Caminhamos em grupo, conversando e rindo, e por alguns minutos, eu realmente esqueci que estava andando ao lado de dois dos maiores idols da atualidade.

A sorveteria era adorável, com tons pastéis e um cheiro doce de baunilha que flutuava no ar. Como Sean prometeu, o andar superior estava vazio. Escolhemos uma mesa perto da janela, de onde podíamos ver o movimento da rua lá embaixo.

— Quatro taças gigantes de sundae, por favor! — pediu Sean para a garçonete, que parecia desconfiada, mas feliz com o pedido grande.

Quando os sorvetes chegaram, a conversa fluiu naturalmente. Sean era uma metralhadora de histórias engraçadas sobre os bastidores do Cortis, contando como o James tinha medo de baratas e como o Martin vivia perdendo os fones de ouvido. Eu ria tanto que minha barriga doía, sentindo-me cada vez mais confortável naquele grupo improvável.

Em certo momento, Sean e Luis começaram uma discussão acalorada sobre qual era o melhor sabor de sorvete, levantando-se para ir até o balcão pedir coberturas extras, deixando-me sozinha com Keonho na mesa.

O silêncio que se seguiu não foi desconfortável, mas carregado de uma doçura nova. Keonho mexia no seu sorvete de menta com chocolate, parecendo pensativo.

— Você está se divertindo? — perguntou ele, levantando os olhos para mim.

— Muito — respondi sinceramente. — Eu nunca imaginei que estaria aqui, tomando sorvete com você e o Sean. Parece um sonho, para ser honesta.

— Para mim também parece um pouco — ele confessou, deixando a colher de lado e apoiando os cotovelos na mesa, aproximando-se de mim. — Mas não um sonho de fã e ídolo. Um sonho de... bom, de estar com alguém que eu realmente gosto de passar o tempo.

Senti meu coração falhar uma batida. Ele estava sendo tão aberto, tão vulnerável.

— Keonho... — comecei, mas ele me interrompeu suavemente.

— Eu notei sim, Helena — disse ele, com um brilho terno nos olhos. — Que você se arrumou mais hoje. E eu adorei. Mas quero que você saiba que, mesmo se você fosse para a escola de pijama e com o cabelo bagunçado, eu ainda acharia você a garota mais incrível daquele lugar.

Eu não sabia o que dizer. As palavras pareciam pequenas demais para o que eu estava sentindo. Estendi a mão sobre a mesa e, para minha surpresa, ele a segurou. Os dedos dele eram quentes e envolveram os meus com uma firmeza reconfortante.

— Obrigado por vir hoje — ele sussurrou. — E obrigado por ser você.

— Eu que agradeço, Keonho — respondi, apertando a mão dele de volta. — Por me ver. De verdade.

Ficamos ali, de mãos dadas por cima da mesa da sorveteria, enquanto o sol da tarde iluminava o ambiente. Naquele momento, não importava o debut, as lives, o fandom ou as pressões da fama. Havia apenas o sabor de baunilha, o som da risada do Sean ao fundo e a certeza de que aquele gloss de cereja tinha sido a melhor escolha que eu já fizera.

A paixão que começou com suspiros nos corredores estava se transformando em algo muito mais sólido e doce, como um sundae perfeitamente montado, e eu estava pronta para saborear cada colherada dessa nova realidade ao lado do meu "utt", que agora, era simplesmente o meu Keonho.

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