entre mundos
O Aroma de Café e o Ritmo dos Corações
A tarde na sorveteria havia deixado um rastro de açúcar e coragem no meu peito. Parecia que, depois de confessar (mesmo que indiretamente) que eu me importava e de ele retribuir com aquela intensidade silenciosa, o ar no Colégio Saint-Jude tinha mudado. Não era mais apenas o oxigênio misturado ao cheiro de cera de assoalho e livros velhos; agora, tinha o perfume dele.
Na quarta-feira, a rotina escolar tentou me puxar de volta para a terra, mas eu flutuava. Luis não parava de me mandar mensagens durante a aula de Geografia, perguntando se o "sorvete de baunilha tinha gosto de amor verdadeiro". Eu apenas revirava os olhos, mas o sorriso não saía do meu rosto.
No entanto, a vida de um trainee que já debutou não é feita apenas de momentos doces em sorveterias escondidas. O Cortis estava em meio aos preparativos para o lançamento de um single especial de inverno, e o cansaço começou a marcar o rosto de Keonho de forma mais profunda.
Eu o vi no corredor entre a terceira e a quarta aula. Ele estava encostado nos armários, com as pálpebras pesadas e uma lata de café gelado na mão que parecia ser a única coisa mantendo-o em pé. O brilho que vi na sorveteria tinha sido substituído por uma névoa de exaustão.
Aproximei-me devagar, sentindo aquela velha timidez tentar voltar, mas a preocupação foi maior.
— Ei — sussurrei, parando ao lado dele. — Você parece que foi atropelado por um caminhão de ensaios.
Keonho abriu um olho, depois o outro, e um sorriso fraco, mas genuíno, surgiu em seus lábios.
— Acho que o caminhão passou por cima de mim, deu ré e passou de novo — ele brincou, a voz rouca. — Terminamos a gravação às quatro da manhã e tivemos que estar aqui às sete e meia para a prova de Literatura.
— Isso é loucura, Keonho. Você precisa descansar.
— Eu sei — ele suspirou, encostando a cabeça no metal frio do armário. — Mas o comeback não espera. E a escola também não. Às vezes, eu só queria... sei lá, sumir por uma hora. Sem câmeras, sem coreógrafos gritando "mais uma vez", sem fórmulas de Bhaskara.
Olhei para os lados. O corredor estava começando a esvaziar conforme os alunos entravam nas salas. Tive uma ideia súbita, daquelas que o meu "eu" de um mês atrás jamais teria coragem de executar.
— Vem comigo — eu disse, pegando a mão dele.
— Helena, a aula vai começar...
— Só vem. Eu conheço um lugar.
Puxei-o pelas escadas de serviço, aquelas que quase ninguém usava porque levavam ao antigo depósito de instrumentos musicais no sótão do prédio de artes. Era um lugar poeirento, cheio de capas de violoncelo vazias e estantes de partituras tortas, mas tinha uma janela circular enorme que dava para o jardim dos fundos e, o mais importante, era silencioso.
Entramos e fechei a porta silenciosamente. O sol entrava em feixes, iluminando as partículas de poeira que dançavam no ar.
— O que estamos fazendo aqui? — perguntou ele, olhando ao redor com curiosidade.
— Você disse que queria sumir por uma hora — respondi, apontando para um amontoado de tapetes de ginástica antigos que estavam limpos o suficiente. — Aqui ninguém vem. O professor de música só sobe aqui uma vez por mês. Você tem quarenta e cinco minutos até o próximo sinal. Dorme. Eu fico de vigia.
Keonho me olhou com uma mistura de surpresa e gratidão que fez meu coração apertar. Ele não protestou. Esticou-se nos tapetes, usando a própria mochila como travesseiro.
— Você é um anjo, Helena — ele murmurou, fechando os olhos quase instantaneamente.
Sentei-me no chão, a poucos centímetros dele, abrindo meu caderno de desenho para fingir que estava fazendo algo produtivo. Mas eu não conseguia desenhar. Eu só conseguia olhar para ele. Sem a maquiagem de palco, sem o penteado perfeito, Keonho parecia apenas um garoto de dezoito anos carregando o peso do mundo nos ombros.
O silêncio do sótão era quebrado apenas pela respiração rítmica dele. Depois de cerca de vinte minutos, percebi que ele estava franzindo a testa enquanto dormia, como se estivesse tendo um sonho agitado. Sem pensar muito, estendi a mão e comecei a passar os dedos de leve pelos cabelos dele, um gesto de carinho que eu só tinha coragem de fazer porque ele estava inconsciente.
Aos poucos, a expressão dele relaxou.
— Helena... — ele murmurou no sono, um som tão baixo que eu quase achei ter imaginado.
Meu coração disparou. Ele estava sonhando comigo?
Continuei o carinho, sentindo a textura macia dos fios escuros. Era um momento de paz tão absoluto que eu desejei que o sinal nunca tocasse. Ali, naquele sótão empoeirado, não havia Cortis, não havia fãs, não havia pressões. Havia apenas nós dois.
Quando o sinal finalmente ecoou, distante e estridente, Keonho despertou com um sobressalto. Ele piscou várias vezes, desorientado, até que seus olhos focaram em mim.
— Eu dormi mesmo? — perguntou ele, sentando-se e esfregando o rosto.
— Como uma pedra — sorri, recolhendo minhas coisas. — Como você se sente?
Ele se espreguiçou, e eu pude ouvir seus ossos estalarem.
— Muito melhor. Sério, Helena, eu precisava disso mais do que de café. Obrigado por me "sequestrar".
— Disponha sempre que precisar de um esconderijo — brinquei, levantando-me.
Ele se levantou também, mas antes que pudéssemos sair, ele me segurou pelo pulso, girando-me gentilmente para encará-lo. A proximidade era perigosa. Eu conseguia sentir o calor que emanava dele.
— Por que você faz essas coisas por mim? — ele perguntou, a voz baixa e séria. — Digo, os biscoitos, o esconderijo, a paciência... Você sabe que eu sou um caos agora. Minha vida é um cronograma de outras pessoas.
Respirei fundo, sentindo que aquele era o momento da verdade.
— Porque eu não vejo o "caos", Keonho — respondi, olhando nos olhos dele. — Eu vejo o garoto que me ajudou a pegar um livro na biblioteca. O garoto que gosta de história. E porque... bom, porque você é a pessoa que eu mais admiro no mundo, e não é por causa da música. É por causa de quem você é quando as luzes se apagam.
Keonho ficou em silêncio por um longo tempo. Ele soltou meu pulso, mas apenas para deslizar a mão até a minha bochecha, repetindo o gesto da tarde anterior, mas desta vez com mais firmeza, com mais intenção.
— Você vai acabar me fazendo me apaixonar de verdade, Helena — ele sussurrou, o rosto se aproximando do meu. — E eu não sei se a empresa tem um plano de contingência para isso.
Minha respiração parou. O espaço entre nós era mínimo. Eu conseguia ver as pequenas sardas no nariz dele, o brilho nos seus olhos escuros. Eu queria que ele me beijasse. Eu queria tanto que doía.
Mas, como se o universo adorasse uma ironia, a porta do sótão se abriu com um estrondo.
— Eu sabia! — A voz de Luis ecoou pelo espaço, cheia de uma diversão maligna. — Eu procurei vocês em todos os lugares! O inspetor está subindo as escadas, se vocês não saírem agora, vão ser pegos em "flagrante de vadiagem".
Nós nos afastamos rapidamente, ambos vermelhos como pimentas. Keonho tossiu, ajeitando a camisa, enquanto eu tentava desesperadamente parecer que estava apenas... estudando a poeira do sótão.
— Luis! — exclamei, a voz uma oitava acima do normal. — Estávamos apenas...
— Descansando, eu sei, eu sei — Luis entrou, balançando a cabeça. — Keonho, o Juhoon está te procurando feito um louco. Vocês têm ensaio fotográfico em dez minutos na quadra. E você, Helena, tem aula de História. E o professor está de mau humor.
Keonho suspirou, mas o sorriso não saiu de seus lábios. Ele olhou para mim uma última vez antes de seguir Luis para fora.
— A gente se fala depois? — ele perguntou.
— Com certeza.
Assisti-os descerem as escadas, ouvindo Luis provocar Keonho sobre "esconderijos românticos". Voltei para a minha sala com o coração em festa. A aula de História foi um borrão, mas eu não me importava. Eu tinha o toque dele gravado na minha pele e a promessa de algo muito maior do que uma simples admiração de fã.
Naquela noite, enquanto eu estudava no meu quarto, meu celular vibrou. Era uma mensagem de um número desconhecido, mas eu soube imediatamente quem era.
"Obrigado pelo sono de beleza. E sobre o que eu disse no sótão... eu não estava brincando. Durma bem, Helena. — K."
Abri um sorriso tão grande que minhas bochechas doeram. Olhei para o pôster dele na parede e, pela primeira vez, ele não parecia uma estrela distante e inalcançável. Ele parecia alguém que estava apenas a uma mensagem de distância.
No dia seguinte, o clima na escola estava agitado. O Cortis ia fazer uma pequena apresentação surpresa no intervalo para promover o novo single, e todos estavam eufóricos. Eu estava no pátio com o Luis, tentando manter a calma enquanto os equipamentos de som eram montados.
— Você está nervosa? — perguntou Luis, comendo um sanduíche.
— Um pouco. É estranho ver ele como "Keonho do Cortis" depois de ontem.
— Acostume-se, amiga. Ele é os dois. E ele parece gostar que você conheça os dois lados.
A música começou. "Winter Glow" era uma balada suave, perfeita para o clima frio que envolvia o colégio. Keonho, Sean, Juhoon, Martin e Sean assumiram suas posições. Quando Keonho começou a cantar a primeira estrofe, sua voz preencheu o pátio, límpida e emocionante.
Eu estava no meio da multidão, apenas mais uma aluna uniformizada. Mas, no meio do refrão, Keonho olhou diretamente para onde eu estava. Ele não desviou o olhar. Ele cantou o verso "você é o meu refúgio no meio da neve" olhando fixamente para mim.
Algumas garotas ao meu redor começaram a cochichar, tentando seguir a linha de visão dele, mas eu não me importei. Para o mundo, ele era o idol talentoso. Para mim, ele era o garoto que dormiu na minha frente em um sótão empoeirado.
Após a apresentação, enquanto eles eram cercados por alunos pedindo autógrafos, Keonho conseguiu fazer um sinal discreto para mim — um pequeno toque no coração e um aceno de cabeça.
Eu sorri de volta, sentindo que, não importa o quão famosa a banda se tornasse, ou o quão cheia a agenda dele ficasse, nós tínhamos o nosso próprio ritmo.
Mais tarde, enquanto eu guardava meus livros no armário para ir embora, senti alguém parar atrás de mim.
— O show foi bom? — A voz de Sean me fez pular de susto.
— Sean! — eu disse, rindo. — Foi incrível. Vocês foram maravilhosos.
— É, o Keonho estava especialmente inspirado hoje — Sean deu um sorriso cúmplice. — Ele não parava de dizer que a "musa" dele estava na plateia.
Senti meu rosto esquentar pela milésima vez naquela semana.
— Ele disse isso?
— Palavra por palavra. Escuta, Helena, vamos ter uma pequena comemoração na casa do Martin hoje à noite. Só o grupo e alguns amigos próximos. O Keonho queria te convidar, mas ele ficou com medo de parecer muito... apressado. O que você acha? O Luis também vai.
Eu hesitei. Entrar no círculo íntimo do Cortis era um passo enorme. Mas então lembrei do bilhete, do sorvete e do sótão.
— Eu adoraria ir — respondi.
— Ótimo! Te mando o endereço. E Helena?
— Sim?
— Obrigada por cuidar dele. Ele está muito mais feliz desde que começou a falar de você.
Sean se afastou com um aceno, deixando-me ali, processando a informação. Eu não era apenas uma fã. Eu era a razão da felicidade do meu ídolo.
A noite na casa do Martin foi mágica. Foi a primeira vez que vi todos os membros relaxados. Martin era o anfitrião perfeito, Juhoon era hilário e o outro Sean era incrivelmente doce. Passamos a noite comendo pizza, jogando videogame e ouvindo demos de músicas que ainda nem tinham sido lançadas.
Keonho e eu ficamos sentados em um canto do sofá, dividindo um cobertor por causa do frio.
— Você está confortável? — ele perguntou, passando o braço por cima dos meus ombros.
— Nunca estive melhor — respondi, encostando a cabeça no ombro dele.
— Sabe, Helena — ele começou, a voz baixa para que os outros não ouvissem — , eu sempre tive medo de que, se eu me aproximasse de alguém, essa pessoa só veria a imagem que a empresa criou. Mas com você, eu sinto que posso ser eu mesmo.
— E esse é o Keonho que eu amo — eu disse, e a palavra "amor" saiu com uma naturalidade que me surpreendeu.
Ele parou por um segundo, o braço apertando um pouco mais meu ombro. Ele se inclinou e beijou o topo da minha cabeça.
— E eu acho que estou começando a sentir o mesmo por você.
A noite continuou, cheia de risadas e música, mas para mim, o mundo se resumia àquele sofá e ao garoto ao meu lado. Eu sabia que haveria desafios. Haveria o segredo, a pressão da mídia, a distância durante as turnês. Mas, enquanto tivéssemos os nossos momentos, os nossos esconderijos e a nossa verdade, eu sabia que poderíamos enfrentar qualquer coisa.
Saí da casa do Martin naquela noite com a certeza de que a minha vida de fã tinha terminado, e a minha vida como a namorada (ou quase isso) de Keonho estava apenas começando. E, sinceramente? Era muito melhor do que qualquer edit de fã que eu já tivesse visto.
No caminho para casa, olhei para o céu estrelado e fiz um pedido silencioso. Que o inverno durasse o suficiente para termos mais momentos sob cobertores, e que a primavera trouxesse novos começos. Mas, acima de tudo, que o ritmo dos nossos corações continuasse batendo em sincronia, independentemente da música que estivesse tocando nas paradas de sucesso.
Porque no final das contas, o amor não precisava de um debut oficial. Ele só precisava de dois corações dispostos a ouvir a mesma melodia. E a nossa melodia estava apenas na introdução.