entre mundos
Entre Linhas Vermelhas e Parques de Inverno
O sol de sábado entrava timidamente pelas frestas da cortina do meu quarto, mas eu já estava de pé muito antes do despertador sequer pensar em tocar. O motivo? Uma notificação que chegou às 22h30 da noite anterior e que eu li tantas vezes que quase decorei os pixels da tela.
"Ei, Helena. Tenho o sábado livre. Quer dar uma volta no parque? Prometo que não vai ter sótão, nem papagaios, só a gente. — K."
Eu não apenas respondi um "Sim" entusiástico, como passei as horas seguintes planejando mentalmente cada detalhe do que eu vestiria. Afinal, não era apenas um encontro na escola ou uma escapada rápida para tomar sorvete com o Sean de vela. Era o nosso primeiro "encontro" de verdade, fora das paredes do Saint-Jude.
Diante do espelho, eu sentia minhas mãos levemente trêmulas enquanto finalizava a maquiagem. Escolhi algo que realçasse meus olhos, mas sem parecer que eu estava pronta para um tapete vermelho — um esfumado leve, cílios bem curvados e, claro, o gloss de cereja que já tinha se tornado minha marca registrada. O cabelo, eu deixei solto, com ondas largas que caíam pelas minhas costas, exatamente como ele tinha elogiado no pátio.
A roupa foi uma escolha estratégica. Vesti uma blusa vermelha, de um tom vibrante que contrastava com a minha pele clara. Ela era um pouco colada, valorizando minha silhueta, e tinha um decote discreto, mas que me fazia sentir muito mais confiante e madura do que a Helena que se escondia atrás de moletons largos nos corredores. Combinei com uma saia branca rodada e meus tênis brancos favoritos, para aguentar a caminhada no parque.
Mas o toque final era o que realmente me definia. Presos no passador da saia, como um amuleto, estavam dois photocards: um do Keonho (meu utt supremo) e um do grupo Cortis completo. Na minha bolsa lateral, eu carregava orgulhosamente um photocard do Jake, do Enhypen, e um do Luis, do grupo Lngshort. Eu podia estar indo a um encontro com um idol, mas nunca deixaria de ser uma fangirl orgulhosa.
O ponto de encontro era a entrada sul do Parque das Oliveiras, um lugar conhecido por suas trilhas arborizadas e um lago que parecia ter saído de um filme romântico. Quando cheguei, meu coração deu aquele solavanco familiar.
Lá estava ele.
Keonho estava encostado em um corrimão de madeira, vestindo uma calça jeans escura e um suéter oversized preto que o deixava com um ar incrivelmente aconchegante. Ele usava um boné preto virado para trás e a máscara estava abaixada no queixo, já que o parque estava relativamente vazio naquela manhã fria.
Quando ele me viu, seus olhos brilharam de uma forma que me fez esquecer como se respira. Ele endireitou a postura, guardando o celular no bolso.
— Uau — disse ele, a voz saindo em um sopro enquanto eu me aproximava. — Helena, você... você está maravilhosa. O vermelho realmente é a sua cor.
— Obrigada, Keonho — respondi, sentindo o rosto esquentar, mas sustentando o olhar. — Você também não está nada mal para alguém que vive escondido atrás de máscaras.
Ele riu, aquele som rico e melódico que eu queria gravar e colocar em um loop eterno.
— É bom poder respirar ar puro sem ser através de um filtro de tecido — ele disse, estendendo a mão para mim. — Vamos caminhar?
Caminhamos lado a lado pela trilha principal. No início, havia aquela tensão elétrica, aquele silêncio de quem tem muito a dizer, mas não sabe por onde começar. Mas, ao contrário da escola, não havia pressa. As folhas secas estalavam sob nossos pés, e o som dos pássaros substituía o sinal estridente das aulas.
— Eu vi isso — disse Keonho de repente, apontando discretamente para os photocards pendurados na minha saia. — É sério que você trouxe o meu card para o nosso encontro?
— Claro! — respondi, rindo com um pouco de atrevimento. — Ele é o meu amuleto de boa sorte. E olha aqui na bolsa... tenho o Jake e o Luis também. Não pense que você tem exclusividade no meu coração de fã.
Keonho fingiu uma expressão de dor, levando a mão ao peito.
— Golpe baixo, Helena. Como posso competir com o Jake? E o Luis... bom, o Luis é meu amigo, então eu perdoo. Mas saiba que eu sou muito ciumento com a minha fã número um.
— Ah, é? — provoquei, parando em frente a um grande carvalho. — E o que o grande Keonho do Cortis pretende fazer a respeito?
Ele parou também, virando-se para mim. A proximidade era diferente aqui fora. Sem armários, sem salas de aula, sem o Luis interrompendo. O vento soprou, jogando uma mecha do meu cabelo no rosto, e Keonho, com a naturalidade de quem já fazia aquilo há anos, estendeu a mão para afastá-la.
— Pretendo provar que a versão real é muito melhor que a de papel — sussurrou ele, os dedos roçando minha orelha.
Continuamos a caminhada até chegarmos a uma ponte de pedra que cruzava o lago. O reflexo das árvores na água criava um cenário perfeito. Keonho parou, apoiando os cotovelos no parapeito e olhando para o horizonte.
— Sabe, Helena — começou ele, a voz tornando-se mais séria — , eu passei a semana toda pensando no que aconteceu no sótão. No que o Luis interrompeu.
Meu estômago deu um nó, mas do tipo bom.
— Eu também pensei muito nisso — confessei, ficando ao lado dele.
— Eu sempre achei que minha vida seria apenas trabalho, escola e mais trabalho. Que eu não teria espaço para... isso. Para alguém que me fizesse querer fugir da rotina. Mas você apareceu com aqueles biscoitos de aveia e aquela confusão de papagaios e, de repente, o Cortis não era a única coisa importante no meu dia.
Eu olhei para ele, vendo a sinceridade em cada linha do seu rosto.
— Eu sempre te admirei de longe, Keonho. Mas conhecer você... o Keonho que se cansa, que ri das minhas bobeiras, que se preocupa comigo... isso é muito mais do que eu jamais sonhei.
Ele se virou para mim, segurando minhas duas mãos.
— Eu não posso prometer que vai ser fácil. As fãs, a empresa, o tempo curto... mas eu quero tentar. Se você estiver disposta a enfrentar o caos comigo.
— Eu já estou no caos, Keonho — respondi, sorrindo. — Eu sou uma fangirl, lembra? O caos é o meu habitat natural.
Ele riu, mas desta vez o riso morreu rápido, dando lugar a um olhar intenso que fixou-se nos meus lábios. Ele se inclinou devagar, dando-me todo o tempo do mundo para recuar. Mas eu não recuei. Pelo contrário, eu me inclinei na direção dele, fechando os olhos.
Quando nossos lábios finalmente se tocaram, foi como se todas as músicas do Cortis, todos os ensaios, todas as aulas de história e todos os encontros nos corredores tivessem sido apenas o prelúdio para aquele momento. O beijo era calmo, doce e tinha gosto de descoberta. Era a confirmação de que o que tínhamos era real, palpável e muito mais forte do que qualquer barreira de celebridade.
Quando nos afastamos, ele encostou a testa na minha, ambos respirando um pouco ofegantes.
— Definitivamente melhor que o photocard — murmurei, fazendo-o soltar uma risada abafada.
— Muito melhor — concordou ele.
Passamos o resto da tarde explorando o parque. Compramos algodão-doce, tiramos fotos bobas (que ele prometeu guardar em uma pasta secreta no celular) e conversamos sobre tudo e sobre nada. Pela primeira vez, eu não me senti apenas a "Helena do 1ºC" ou a "fã do Keonho". Eu era a Helena, e ele era o Keonho.
Sentamos em um banco de frente para o lago enquanto o sol começava a baixar, pintando o céu de rosa e laranja.
— O que o Luis vai dizer quando souber disso? — perguntei, recostando a cabeça no ombro dele.
— Ele provavelmente vai cobrar comissão como cupido — Keonho respondeu, passando o braço por cima dos meus ombros e me puxando para mais perto. — Mas ele é um bom amigo. Ele sabia que eu precisava de um empurrão.
— Ele sabia que nós dois precisávamos — corrigi.
Keonho pegou o photocard dele que estava pendurado na minha saia e o observou por um momento.
— Sabe, Helena, eu fico feliz que você seja fã do grupo. Mas fico ainda mais feliz por você ser fã do garoto que está aqui agora.
— Eu sempre serei, Keonho. Nos palcos ou nos corredores da escola.
Enquanto a noite caía e o frio aumentava, ele me abraçou mais forte, protegendo-me do vento. Eu olhei para a minha bolsa, onde os cards do Jake e do Luis brilhavam discretamente, e depois para o garoto ao meu lado. A vida era engraçada. Às vezes, o seu ídolo favorito não é apenas uma imagem em um pedaço de papel ou um vídeo no TikTok. Às vezes, ele é a pessoa que segura a sua mão no parque e faz você sentir que o mundo inteiro está em harmonia.
— Vamos? — perguntou ele, levantando-se e me ajudando a levantar. — Tenho que te levar para casa antes que o meu manager comece a rastrear meu GPS.
— Vamos — respondi.
Caminhamos de volta para a saída do parque, de mãos dadas, sem nos escondermos. Naquele momento, sob a luz dos primeiros postes que se acendiam, eu sabia que aquele era apenas o primeiro de muitos sábados. O mistério da escola tinha se transformado em uma certeza no parque, e eu mal podia esperar para ver qual seria o próximo acorde da nossa música.
Ao chegar em casa, depois de um adeus demorado na porta e de um último beijo que me deixou nas nuvens, entrei no meu quarto e olhei para a parede cheia de pôsteres. Sorri para a imagem do Cortis, mas meu olhar se demorou na foto do Keonho.
Peguei o photocard que levei comigo e o coloquei de volta no lugar, mas desta vez, ao lado dele, colei uma pequena pétala de flor que tinha caído no meu cabelo durante o passeio no parque.
Meu celular vibrou.
"Cheguei no dormitório. O Sean já está perguntando como foi o encontro. Devo contar para ele sobre o beijo ou deixamos ele na curiosidade? — K."
Sorri, digitando a resposta enquanto meu coração batia no ritmo perfeito da felicidade.
"Deixe ele na curiosidade, Keonho. Alguns segredos são só nossos. — H."
Afinal, a melhor parte de amar um idol não era o que o mundo via, mas o que acontecia quando as cortinas se fechavam e só restávamos nós dois, entre linhas vermelhas e parques de inverno.