entre tapas e beijos
O Despertar das Cores no Cinza
A luz da manhã finalmente venceu as frestas do galpão, não mais como um cinza melancólico, mas como fios dourados que faziam a poeira dançar no ar. O cheiro de chuva ainda estava impregnado nas paredes, mas agora ele se misturava ao calor humano e àquela sensação de "pós-tempestade" que não tinha nada a ver com a meteorologia. Deb acordou primeiro, ou talvez nunca tivesse realmente dormido de forma profunda, protegida pelo casulo improvisado de sua jaqueta jeans oversized e pelos braços de Moon.
Moon ainda respirava de forma rítmica, o rosto enterrado na curva do pescoço de Deb. Sem a máscara da ironia ou o brilho desafiador nos olhos, ela parecia menor, quase frágil, embora Deb soubesse que aquela garota tinha a força de um furacão. Deb permitiu-se, pela primeira vez em meses, observar Moon sem a necessidade de desviar o olhar ou preparar uma resposta atravessada.
— Você encara as pessoas enquanto elas dormem? Isso é meio assustador, sabia? — A voz de Moon saiu rouca, abafada contra a pele de Deb, acompanhada por um sorriso preguiçoso que se formou contra seu pescoço.
Deb sentiu o rosto esquentar instantaneamente, a velha timidez tentando retomar seu posto, mas ela a empurrou para o lado com um ombro figurativo.
— Eu não estava encarando. Estava apenas... certificando-me de que você não tinha caído da mesa durante a noite. Você se mexe muito.
Moon se afastou o suficiente para olhar para Deb, com um olho entreaberto e o cabelo sidecut completamente bagunçado, o que a deixava adorável de um jeito que Deb nunca admitiria em voz alta.
— Sei. E esse seu braço em volta de mim era o quê? Um cinto de segurança? — Moon riu baixinho, esticando-se como um gato, o que fez os músculos de suas costas darem um espetáculo particular para Deb.
— Exatamente. Segurança em primeiro lugar — Deb respondeu, tentando manter a voz firme, embora seus dedos estivessem brincando inconscientemente com a ponta do cabelo de Moon.
Moon sentou-se na mesa, puxando a regata preta do chão e vestindo-a, mas sem pressa de ir embora. Ela observou Deb, que tentava organizar as roupas com uma seriedade quase cômica.
— Ei, Deb — chamou Moon, o tom agora mais suave, desprovido de qualquer provocação.
Deb parou de lutar com o zíper de sua bota e olhou para cima.
— O quê?
— A gente está bem? Tipo... você não vai surtar quando a gente cruzar o portão do campus e fingir que eu sou um delírio coletivo causado pelo mofo deste lugar, vai?
Deb sentiu um aperto no peito ao perceber a insegurança genuína na voz de Moon. Ela largou a bota, aproximou-se e sentou-se entre as pernas de Moon, colocando as mãos sobre os joelhos tatuados da outra.
— Moon, eu passei tempo demais fingindo ser algo que eu não era para manter uma zona de conforto que, no fim das contas, era bem desconfortável — Deb disse, olhando nos olhos de Moon com uma sinceridade que a desarmou. — Eu não sou boa com palavras bonitas, você sabe. Eu prefiro consertar coisas quebradas ou carregar caixas pesadas. Mas... eu não quero consertar o que aconteceu aqui. E eu definitivamente não quero carregar o peso de te perder.
Moon piscou, surpresa pela honestidade bruta de Deb. Um brilho marejado surgiu em seus olhos antes que ela o escondesse com uma risada curta.
— Uau. A Deb "hétero" realmente morreu no temporal, hein? Que bom. Ela era meio chata às vezes.
— Ei! — Deb protestou, dando um leve empurrão no ombro de Moon, que prontamente a puxou para um abraço apertado.
— Eu estou brincando. — Moon sussurrou no ouvido dela. — Obrigada por ser você, Deb. De verdade.
Elas ficaram ali por um tempo, aproveitando a quietude que agora parecia preenchida por algo novo. A tensão sexual elétrica do início da noite havia se transformado em um calor confortável, algo que prometia durar mais do que apenas um encontro fortuito. Deb levantou-se e estendeu a mão para Moon, ajudando-a a descer da mesa.
— Vamos. Se a gente demorar mais, vão achar que fomos sequestradas por alienígenas ou que o galpão finalmente desabou sobre nós.
— E qual seria a nossa desculpa? — Moon perguntou, pegando sua mochila e jogando-a sobre o ombro. — "Desculpe, professor, ficamos presas porque a Deb precisava de uma crise existencial e eu precisava beijar a marra dela"?
— Cala a boca, Moon — Deb sorriu, abrindo a porta pesada do galpão.
O mundo lá fora estava vibrante. O cheiro de terra molhada era revigorante, e as cores das árvores do campus ao longe pareciam mais nítidas. Elas caminharam lado a lado pela trilha de terra, os ombros se esbarrando ocasionalmente.
— Sabe — Moon começou, chutando uma pedrinha no caminho —, eu sempre achei que você usava essas jaquetas enormes para parecer mais durona, mas agora eu acho que é só porque você gosta de se esconder.
— Talvez — Deb admitiu, enfiando as mãos nos bolsos. — Mas hoje eu não sinto que preciso me esconder de nada.
Moon parou de repente, fazendo Deb parar também. Sem aviso, Moon ficou na ponta dos pés e deu um beijo rápido e estalado na bochecha de Deb, bem perto do canto da boca.
— O que foi isso? — Deb perguntou, sentindo o rosto queimar de novo.
— Um teste de campo — Moon piscou, voltando a andar com um saltito. — Queria ver se você ia fugir para o mato. Você ficou, então acho que estamos no caminho certo.
— Você é impossível — Deb resmungou, mas não conseguiu esconder o sorriso que iluminava seu rosto.
Enquanto se aproximavam dos primeiros prédios universitários, o burburinho dos estudantes começando o dia começou a alcançá-las. Deb sentiu um leve frio na barriga. Era o momento da verdade. Ela olhou para Moon, que caminhava com sua confiança habitual, mas que de vez em quando lançava olhares de soslaio para Deb, como se verificasse se ela ainda estava lá.
Deb tomou uma decisão. Ela tirou a mão direita do bolso e, com um movimento que exigiu mais coragem do que qualquer briga ou desafio físico que já enfrentara, buscou a mão de Moon. Seus dedos se entrelaçaram com firmeza.
Moon parou por um milésimo de segundo, os olhos arregalados de surpresa, antes de fechar a mão com força na de Deb.
— Olha só... a Deb tem atitude mesmo — Moon provocou, mas sua voz estava carregada de uma ternura que Deb nunca ouvira antes.
— Eu disse que não ia mais fingir — Deb respondeu, mantendo o olhar para frente, o queixo erguido e a postura masculina que lhe era natural, mas agora sem o peso da mentira.
— As pessoas vão falar, você sabe — comentou Moon, balançando as mãos unidas enquanto caminhavam pelo pátio central.
— Deixa falarem — Deb deu de ombros, sua veia engraçadinha voltando à tona. — Pelo menos agora elas vão ter um motivo real para terem inveja de mim.
— Inveja de você? — Moon riu alto, atraindo o olhar de alguns estudantes que passavam. — Por quê?
— Porque eu estou de mãos dadas com a garota mais irritante, convencida e absurdamente linda deste campus — Deb disse, parando em frente ao prédio de artes. — E elas não estão.
Moon ficou em silêncio por um momento, algo raro. Ela olhou para as mãos unidas e depois para o rosto de Deb, que sustentava um sorriso de lado confiante.
— Ok, você venceu essa rodada — Moon admitiu, aproximando-se e encostando a testa na de Deb, ignorando completamente quem estivesse assistindo. — Mas não se acostuma, tá? Eu ainda sou a mestre da provocação aqui.
— Veremos, Moon. Veremos.
Elas se despediram com um olhar que dizia muito mais do que qualquer palavra, uma promessa silenciosa de que o Galpão 4 era apenas o começo de uma história escrita em cores vibrantes sobre um fundo que antes era apenas cinza. Deb entrou em sua sala de aula sentindo-se dez quilos mais leve, e quando um de seus amigos perguntou por que ela estava com aquele sorriso bobo no rosto, ela apenas respondeu:
— A chuva passou. E o sol resolveu aparecer de um jeito diferente hoje.
Longe dali, no corredor de música, Moon cantarolava uma melodia indie qualquer, sentindo o calor da mão de Deb ainda impresso na sua. Ela sabia que a jornada de Deb estava apenas começando, e que haveria dias de dúvida e medo, mas ela estaria lá para cada um deles. Afinal, não era todo dia que se encontrava alguém que conseguia calar sua boca com um beijo e abrir seu coração com uma jaqueta jeans velha.
A "hétero" misteriosa tinha ficado para trás, e em seu lugar, Deb descobriu que ser ela mesma era a coisa mais corajosa — e fofa — que ela já tinha feito. E com Moon ao seu lado, o resto do mundo era apenas ruído de fundo.