entre tapas e beijos
O Eco Amargo do Silêncio
A chuva que caía naquela noite não tinha a mesma poesia de meses atrás. Não era o som acolhedor que as isolara no Galpão 4, transformando o mundo em um refúgio de zinco e descobertas. Desta vez, o barulho da água batendo na janela do pequeno apartamento de Moon era agressivo, um ruído constante que parecia sublinhar a tensão insuportável entre as duas.
Deb estava parada perto da porta, com as mãos enfiadas nos bolsos da jaqueta jeans — a mesma jaqueta de sempre, mas que agora parecia pesar toneladas sobre seus ombros. Sua mandíbula estava travada, uma linha rígida que denunciava o quanto ela estava tentando conter a explosão.
— Você não pode simplesmente decidir as coisas por nós duas, Moon! — A voz de Deb saiu mais alta do que pretendia, ecoando nas paredes decoradas com pôsteres de bandas indie e luzes de fada que, naquele momento, pareciam patéticas diante da gravidade da situação. — Você aceitou esse estágio em outra cidade sem nem me perguntar o que eu achava. Sem nem considerar como a gente ia ficar.
Moon, que estava sentada na ponta da cama, levantou-se abruptamente. Seus olhos, que costumavam brilhar com deboche carinhoso, agora estavam nublados por uma mistura de mágoa e teimosia.
— Eu não aceitei ainda, Deb! Eu disse que recebi a proposta! — Moon gesticulou com as mãos, as tatuagens nos antebraços parecendo mais nítidas sob a luz fria do teto. — Mas a sua primeira reação não foi dizer "parabéns, Moon, que oportunidade incrível". Foi me atacar. Foi agir como se eu estivesse tentando fugir de você.
— E não está? — Deb deu um passo à frente, a postura masculina e imponente sendo usada agora como uma armadura de defesa. — Você é aberta, livre, pansexual, "do mundo"... Eu sou a garota que finalmente se assumiu por sua causa, que mudou a vida inteira para estar com você. E na primeira chance de atravessar o estado, você brilha os olhos?
— Isso é golpe baixo! — Moon gritou, a voz falhando por um segundo. — Minha sexualidade ou meu jeito de ser não têm nada a ver com a minha ambição profissional. Você está projetando as suas inseguranças em cima de uma conquista minha. Você ainda tem medo, Deb. Mesmo depois de todos esses meses, você ainda tem medo de que eu acorde um dia e perceba que você não é o suficiente.
O silêncio que se seguiu foi cortante. Deb sentiu como se tivesse levado um soco no estômago. A verdade dói mais quando vem de quem nos conhece melhor. O medo de Deb, aquele que ela tentava esconder sob a fachada de namorada protetora e resolvida, fora exposto de forma crua.
— Se você acha que eu sou tão insegura assim — disse Deb, a voz agora perigosamente baixa e trêmula —, talvez você realmente deva ir embora. Talvez a gente tenha sido apenas um "clichê de galpão" que durou tempo demais.
Moon recuou, o rosto empalidecendo.
— Você não disse isso.
— Eu disse. Se é tão fácil para você planejar uma vida longe daqui, então talvez o que a gente tem não seja tão sólido quanto eu pensava.
— Sai daqui, Deb. — Moon apontou para a porta, as lágrimas começando a transbordar. — Se você prefere quebrar tudo antes mesmo de tentarmos conversar como duas pessoas que se amam, então sai. Eu não vou ficar aqui implorando para você confiar em mim.
Deb não hesitou. O orgulho, aquele velho companheiro que a ajudara a fingir ser "hétero" por anos, assumiu o controle. Ela deu as costas, abriu a porta e saiu para o corredor frio, ouvindo o som seco da porta de Moon batendo atrás de si.
Ela caminhou até o seu carro sob a chuva torrencial, ignorando o fato de que estava ficando encharcada. Dirigiu sem destino por quase uma hora, as mãos apertando o volante até os nós dos dedos ficarem brancos. A raiva era um combustível potente, mas, conforme os minutos passavam, ela começava a dar lugar a um vazio sufocante.
Deb parou o carro em um acostamento qualquer. O som da chuva no teto do veículo a levou de volta para aquele primeiro dia. Lembrou-se do gosto de menta de Moon, da forma como ela a desafiara a ser verdadeira, da vulnerabilidade que Moon raramente mostrava a mais ninguém além dela. Ela pensou na proposta de estágio. Era o sonho de Moon. Moon sempre falara sobre trabalhar naquela galeria específica.
— Que droga, Deb... — sussurrou para si mesma, batendo a testa contra o volante.
Ela percebeu que sua reação não fora por falta de amor, mas por excesso de medo de perdê-lo. Ela agira como a "durona" de novo, tentando encerrar o assunto antes que ele pudesse machucá-la, sem perceber que o silêncio e a distância eram os verdadeiros vilões.
Enquanto isso, no apartamento, Moon estava encolhida no chão, abraçada aos próprios joelhos. Ela odiava brigar com Deb. Odiava como Deb conseguia ser tão teimosa e como, às vezes, parecia que elas ainda falavam línguas diferentes. Mas, acima de tudo, ela odiava a ideia de um futuro onde Deb não estivesse. O estágio não valia nada se ela não tivesse a pessoa que a inspirava a ser melhor para compartilhar a notícia.
O som de batidas suaves na porta fez Moon sobressaltar-se. Ela limpou o rosto rapidamente com as costas das mãos, tentando recuperar um pouco de dignidade.
— Deb, se for você para dizer mais alguma grosseria, eu juro que...
Ao abrir a porta, ela encontrou uma Deb completamente ensopada. A jaqueta jeans estava escura pela água, o cabelo curto colado na testa e os ombros, antes tão rígidos, agora estavam caídos. Deb parecia pequena, apesar da estatura.
Nenhuma das duas disse nada por um longo minuto. O único som era o da água pingando das roupas de Deb no tapete da entrada.
— Eu sou uma idiota — Deb começou, a voz rouca, os olhos vermelhos. — Eu sou uma idiota possessiva e covarde que morre de medo de não ser o bastante para você.
Moon sentiu o resto de sua raiva evaporar. Ela abriu mais a porta, dando espaço para Deb entrar.
— Você é — concordou Moon, a voz ainda embargada pelo choro recente. — Uma idiota completa.
Deb entrou, mas parou no meio da sala, sem saber o que fazer com as mãos.
— Eu não quero que você perca essa oportunidade. Eu só... eu entrei em pânico. Eu pensei que, se você fosse, você ia encontrar pessoas mais interessantes, pessoas que não têm dificuldade para dizer o que sentem, pessoas que não são... complicadas como eu.
Moon aproximou-se devagar. Ela estendeu a mão e tocou o rosto molhado de Deb, afastando uma mecha de cabelo.
— Deb, olha para mim. — Moon esperou até que os olhos marejados de Deb encontrassem os seus. — Eu sou pansexual, eu sou livre, eu sou tudo isso que você diz. E, em todo esse mundo que eu quero explorar, eu escolhi você. Eu escolho você todos os dias. Você acha mesmo que um estágio em outra cidade mudaria o que eu sinto?
Deb soltou um soluço que estava preso em sua garganta há horas. Foi um som quebrado, cru, que desfez qualquer rastro de sua pose de durona.
— Eu tive tanto medo, Moon. — Deb cobriu o rosto com as mãos, os ombros sacudindo. — Eu achei que, se eu te empurrasse primeiro, não ia doer tanto quando você fosse embora.
Moon não esperou mais. Ela envolveu Deb em um abraço apertado, ignorando o fato de que suas próprias roupas estavam ficando molhadas pela umidade da outra. Deb enterrou o rosto no ombro de Moon e desabou. Foi um choro pesado, de meses de tensões acumuladas, de anos escondendo quem era, e da percepção de que, pela primeira vez, ela tinha algo precioso demais para perder.
— Eu não vou a lugar nenhum sem a gente dar um jeito nisso juntas — sussurrou Moon, acariciando a nuca de Deb, sentindo os tremores da namorada diminuírem aos poucos. — A gente é uma equipe, lembra? A "hétero" engraçadinha e a pan convencida. Nada derruba a gente.
Deb riu entre as lágrimas, um som úmido e aliviado. Ela se afastou um pouco, apenas o suficiente para olhar para Moon, as mãos ainda agarradas à cintura da outra como se ela fosse sua única âncora.
— Eu ainda sou irritante? — perguntou Deb, tentando recuperar um pouco do seu humor característico, embora seu rosto estivesse inchado e manchado.
— A pessoa mais irritante que eu já conheci — Moon sorriu, limpando as lágrimas de Deb com os polegares. — E a mais corajosa também. Demora um pouco para essa coragem chegar no seu coração às vezes, mas ela está aí.
Deb respirou fundo, sentindo o perfume de Moon — aquele cheiro de menta e casa — e finalmente relaxou.
— Me desculpa. Por tudo o que eu disse. Eu não queria... eu nunca quis dizer que a gente era um clichê de galpão. Você é a melhor coisa que já aconteceu na minha vida, Moon.
— Eu sei — disse Moon, com o velho brilho de deboche voltando aos olhos, embora carregado de ternura. — Agora, vai tomar um banho quente antes que você pegue uma pneumonia e eu tenha que cuidar de você por uma semana.
— Você cuidaria? — Deb arqueou uma sobrancelha, o sorriso de lado voltando a aparecer.
— Eu reclamaria o tempo todo, mas cuidaria.
Deb puxou Moon para um beijo. Não foi um beijo carregado de tensão sexual como os de costume, mas um beijo lento, salgado pelas lágrimas e doce pela reconciliação. Era um beijo que pedia desculpas e prometia tentativas.
Mais tarde, enroladas em um cobertor no sofá, com duas canecas de chá esquecidas na mesa de centro, elas conversaram de verdade. Deb ouviu sobre o estágio, sobre como Moon queria que elas tentassem a distância ou como poderiam planejar visitas nos fins de semana. Moon ouviu sobre os medos de Deb, sobre como o processo de se assumir para a família ainda era uma ferida aberta e como Moon era seu porto seguro.
— A gente vai conseguir — disse Moon, encostando a cabeça no ombro largo de Deb.
— A gente vai — concordou Deb, beijando o topo da cabeça de Moon. — Mas, da próxima vez que você tiver uma notícia dessas, me conta em um lugar sem objetos cortantes por perto, tá?
Moon riu, o som ecoando de forma doce no apartamento agora silencioso.
— Pode deixar, minha "bad boy" sentimental.
Ali, no calor do abraço e na honestidade das lágrimas, elas entenderam que amar não era apenas sobre os momentos de paixão isolados em galpões abandonados, mas sobre a coragem de permanecer quando a chuva lá fora era fria e as palavras eram difíceis. Deb não precisava mais de jaquetas pesadas para se proteger do mundo; o abraço de Moon era toda a proteção de que ela precisaria.