Entre tapas e beijos.
Veludo, Graxa e o Peso do Silêncio
O silêncio no apartamento dos Jardins nunca foi tão barulhento. Gabriele passava os dedos pelas páginas de um livro de arte, mas não lia uma única palavra. Sua mente era um projetor viciado, repetindo em loop a imagem das tulipas amarelas esmagadas no tapete e o peso do corpo de Hylda sobre o seu. O sexo havia sido uma colisão, um expurgo de décadas de repressão e cinismo, mas o pós-escrito daquele encontro era uma nota de rodapé amarga: elas passaram a se evitar como se a outra fosse portadora de uma praga bíblica.
Nas semanas que se seguiram, o apartamento de Ana tornou-se um campo minado de olhares desviados. Quando o grupo de escrita se reunia, Hylda chegava sempre de mãos dadas com Amy, agindo como o pilar de sustentação da jovem. Gabriele, por sua vez, tornara-se uma sombra de elegância gélida, mal saindo de seu quarto ou limitando-se a comentários tão curtos que pareciam telegramas.
A culpa corroía Hylda. Ela olhava para Amy — que atravessava uma de suas fases de carência extrema, falando sem parar sobre teatro experimental — e sentia-se um embuste. Cada vez que ela abraçava a namorada para acalmá-la de uma crise de choro ou de euforia, seu coração traidor buscava o cheiro de lavanda e sofisticação de Gabriele.
Foi em uma noite de insônia que Hylda cometeu seu primeiro ato de rebeldia digital. Enquanto Amy dormia profundamente após um episódio de hiperatividade, Hylda pegou o celular da jovem. Foi fácil encontrar o contato. Estava salvo como "Tia Gabi (Não atender se estiver de mau humor)". Hylda copiou o número para o seu aparelho e, com as mãos trêmulas, enviou a primeira mensagem.
"Precisamos conversar sobre o que aconteceu. Não consigo mais olhar para as flores da minha calçada sem lembrar do seu tapete."
A resposta veio três horas depois, às quatro da manhã.
"Flores são biodegradáveis, Hylda. O que fizemos foi apenas um descarte de resíduos emocionais. Não confunda biologia com poesia."
E assim começou uma guerra de trincheiras via WhatsApp. Gabriele era cortante, exigindo uma brutalidade que a excitava. Suas mensagens eram comandos, provocações que remetiam àquela noite agressiva. Ela queria a Hylda que batia com tulipas, a Hylda que a prensava contra a parede. Mas Hylda, em sua essência, era a "padre" que Ana descrevera. Ela era insegura, romântica e, por baixo da jaqueta de couro, buscava uma conexão que fosse além da fricção da pele.
— Você está rindo para o celular de novo — disse Gustaf, entrando na sala de Gabriele no trabalho sem bater. — Deixe-me adivinhar: a operária tatuada finalmente aprendeu a usar emojis?
Gabriele fechou a tela do aparelho com uma rapidez suspeita, ajeitando o corte chanel.
— Ela é um incômodo, Gustaf. Uma interrupção desnecessária na minha programação literária.
— Sei — Gustaf sentou-se na beirada da mesa, pegando um dos cristais de decoração de Gabriele. — Você está com aquela cara de quem leu um livro proibido e gostou. O que ela quer?
— Ela quer... — Gabriele hesitou, sentindo um rubor incomum — ...ela quer me levar ao cinema. De mãos dadas. Ela me manda fotos de pores do sol, Gustaf. É patético. Eu quero a mulher que me tratou como se eu fosse um manual de instruções de uma prensa hidráulica, e ela me oferece poesia de cordel.
Gustaf soltou uma gargalhada que ecoou pelo escritório.
— Gabi, querida, você é uma masoquista de luxo. Mas cuidado, esse tipo de "brincar de casinha" costuma terminar em casamento ou em tragédia grega. E com a Amy no meio, eu aposto na tragédia.
A situação atingiu o ápice quando Hylda, em um surto de coragem ou desespero, disse a Amy que precisava sair com Gabriele para "resolver um mal-entendido burocrático sobre o condomínio". Era uma mentira esfarrapada, mas Amy, em sua desconexão habitual, apenas deu de ombros e pediu que trouxessem chocolate.
O encontro aconteceu em um cinema de rua antigo, um lugar que cheirava a pipoca velha e nostalgia. Gabriele chegou vestindo um sobretudo bege que custava mais do que o carro de Hylda, enquanto a outra usava uma camisa de flanela limpa e parecia ter passado um perfume mais suave.
— Você está atrasada — disse Gabriele, olhando para o relógio de pulso como se estivesse cronometrando um lançamento de foguete.
— O trânsito estava horrível — Hylda respondeu, aproximando-se com um sorriso tímido. Ela estendeu a mão e, para o horror e fascínio de Gabriele, entrelaçou seus dedos nos dela. — Oi, meu amor.
Gabriele estancou no meio da calçada, olhando para as mãos unidas como se fossem um par de algemas.
— "Amor"? — Gabriele sibilou, a voz carregada de incredulidade. — Estamos brincando de casinha agora, Hylda? Por acaso a Amy vai deixar de ser sua namorada e passar a ser nossa filha adotiva? Que tipo de delírio doméstico é esse?
— É o tipo de delírio de quem não quer apenas te usar contra uma parede — Hylda disse, a voz firme apesar da insegurança óbvia. — Eu gosto de você, Gabriele. Gosto de verdade. E se eu tiver que enfrentar esse seu mau humor de rainha exilada para ter cinco minutos de carinho, eu vou enfrentar.
Gabriele abriu a boca para uma réplica devastadora, mas as palavras morreram em sua garganta. Havia uma honestidade no olhar de Hylda que a desarmava de uma forma que a agressividade nunca conseguira.
— Você é ridícula — murmurou Gabriele, mas não soltou a mão de Hylda.
Entraram no cinema. O filme era um drama iraniano longo e denso, mas nenhuma das duas prestava atenção à legenda. No escuro da última fileira, a dinâmica entre elas começou a oscilar perigosamente.
— Eu sinto falta... — Gabriele sussurrou, inclinando-se para o ouvido de Hylda — ...daquela mão áspera me segurando com força. Você está sendo doce demais, e isso me irrita.
Hylda suspirou, sentindo a provocação.
— Você quer que eu seja bruta porque é a única forma que você sabe receber afeto sem se sentir vulnerável — Hylda passou o braço pelos ombros de Gabriele, puxando-a para perto. — Mas hoje, você vai ter que aguentar ser cuidada.
— Eu não sou um dos seus projetos de caridade da fábrica, Hylda.
— Não — Hylda virou o rosto de Gabriele para si, os olhos brilhando na luz refletida da tela. — Você é a mulher mais difícil, ranzinza e fascinante que eu já conheci.
O beijo que se seguiu começou lento, quase exploratório, bem diferente do embate no apartamento. Hylda explorava a boca de Gabriele com uma ternura que fazia a outra mulher tremer. Mas a natureza de ambas era intensa demais para o romantismo puro. Em poucos minutos, as mãos de Gabriele já estavam sob a camisa de Hylda, arranhando suas costas, enquanto Hylda a pressionava contra o braço da poltrona do cinema.
— Aqui não — ofegou Gabriele, embora estivesse puxando Hylda para mais perto.
— Por que não? — Hylda sussurrou, a voz carregada de uma malícia que Gabriele reconheceu. — Você não queria selvageria?
O celular de Gabriele vibrou na bolsa. Era Gustaf. Ela ignorou. Vibrou novamente. Era Ana.
— Temos que parar — Gabriele disse, afastando-se minimamente, o batom borrado e o olhar perdido. — Isso é um absurdo. Você tem uma namorada de vinte e seis anos que provavelmente está tendo um colapso criativo agora, e eu tenho uma reputação de mulher séria a zelar.
— Sua reputação está no chão, Gabriele — Hylda riu, limpando o canto da boca com o polegar. — Junto com as tulipas.
Saíram do cinema antes do filme terminar. A garoa fina de São Paulo as recebeu na calçada. Hylda parou em frente a Gabriele e ajeitou a gola do sobretudo dela.
— Eu vou terminar com ela — disse Hylda, a voz séria. — Não por você, mas por ela. Ela merece alguém que esteja inteiro ali. E eu... eu estou em pedaços espalhados entre a fábrica e o seu apartamento.
Gabriele sentiu um nó na garganta. A vulnerabilidade de Hylda era o que mais a assustava, mais do que qualquer briga.
— Não faça promessas que o seu coração de "santa" não possa cumprir, Hylda.
— Eu não sou santa, Gabriele. Eu sou apenas uma mulher que demorou cinquenta e sete anos para encontrar alguém que me desafie a ser melhor e pior ao mesmo tempo.
Gabriele olhou para Hylda sob a luz amarelada do poste. O cinismo ainda estava lá, a pose arrogante também, mas havia uma fenda na armadura.
— Se você aparecer na minha porta com mais tulipas — disse Gabriele, tentando recuperar o tom ranzinza —, eu juro que chamo a polícia.
— E se eu aparecer com um vinho ruim e um desejo enorme de te irritar?
Gabriele deu um meio sorriso, o primeiro que realmente chegava aos seus olhos naquela noite.
— Nesse caso... eu talvez deixe a porta destrancada.
Hylda a viu entrar no táxi. Enquanto o carro se afastava, Gabriele pegou o celular e viu a mensagem de Gustaf: "O cinema foi bom ou você já mandou a operária para o inferno?".
Ela digitou a resposta com os dedos ainda formigando pelo toque de Hylda:
"O filme foi péssimo. Mas o roteiro da vida real está ficando perigosamente interessante."
Ao chegar em casa, Gabriele encontrou Ana na cozinha, tomando chá.
— Como foi a "reunião de condomínio" com a Hylda? — perguntou Ana, com um olhar que dizia que ela sabia muito mais do que aparentava.
— Produtiva — respondeu Gabriele, passando direto para o quarto. — Resolvemos algumas pendências estruturais.
Mirtes miou ao ver a dona, pulando na cama. Gabriele deitou-se, ainda vestida, olhando para o teto. Ela sabia que o caos estava apenas começando. Amy, o clube de escrita, a diferença de mundos... tudo era um desastre anunciado. Mas, pela primeira vez, Gabriele não queria ler sobre a vida. Ela queria vivê-la, mesmo que isso significasse ter pétalas de flores e marcas de dedos espalhadas por sua alma impecável.