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ERICK+JORGE

Marcas na Pele e Promessas de Búzios

O reflexo no espelho do estúdio privativo revelava a pele ainda avermelhada, mas o traço fino em tinta preta já estava perfeito. Bem ali, no finalzinho do cóccix, repousava a assinatura elegante que carregava tanto peso e tanta história: *Pulgar*.

Jorge vestiu a bermuda jeans com extremo cuidado para não irritar a região recém-tatuada e soltou uma risadinha baixa, cheia de malícia. Sabia muito bem o efeito devastador que aquela marca causaria no marido. Conhecia cada centímetro daquele chileno colossal de quarenta anos e sabia que Erick não apenas enlouqueceria de tesão ao ver seu sobrenome cravado na pele de Carrascal, como também teria um ataque silencioso de ciúmes do tatuador de confiança — o mesmo homem que desenhara noventa por cento dos corpos de ambos ao longo de quase duas décadas.

Tudo aquilo fazia parte do plano meticuloso que Jorge começara a arquitetar na terça-feira.

Trezentos e sessenta e cinco dias se multiplicavam por treze anos de um casamento forjado no fogo. Eles haviam se conhecido através de amigos em comum naquele submundo impiedoso: as noites partilhadas com Varela e Arrascaeta, os jantares tensos com Samuel Lino e Wallace Yan, as alianças lucrativas negociadas ao lado de Luiz Araújo e Pedro, a lealdade inquebrantável dos parceiros Léo Ortiz e Léo Pereira, além das estratégias afinadas com Jorginho. O que começara como respeito entre conhecidos logo virara uma irmandade em negócios e, inevitavelmente, desabara sob a força incontrolável da atração mútua.

Eram homens de mundos opostos, mas de almas idênticas. Erick era o herdeiro de sangue azul da máfia chilena, educado para liderar a fortuna e as armas deixadas por Seu Pablo com a ferocidade de um predador impenetrável. Jorge, por sua vez, trilhara o caminho mais áspero: nascido na miséria de Cartagena, conhecera a fome e o peso do trabalho honesto antes de erguer seu próprio cartel. Fora entregador de encomendas, lavara chão de padaria de madrugada, servira mesas cheias de insultos e limpara montanhas de pratos engordurados para alimentar o filho Santino e garantir uma velhice digna para Dona Olga e seus irmãos. Dona Olga, a ex-empregada doméstica que nunca aceitara aquele submundo, mas que amava Erick como a um filho legítimo — um amor maternal recíproco que o chileno defendia com a própria vida.

E aquele sábado seria o marco de treze anos de alianças sagradas.

Jorge alugara uma mansão cinematográfica isolada nas falésias de Búzios, contratara um banquete privativo com o melhor da culinária latina e encomendara garrafas raras daquela tequila mexicana de fogo líquido que sempre fazia Erick perder a compostura. Os planos de Jorge eram audaciosos e explícitos: queria se entregar tanto ao marido ao longo daquele fim de semana que mal conseguiria ficar de pé na noite de domingo.

Com o peito inflado de expectativa e aquele sorriso arteiro que iluminava seu rosto bronzeado, Jorge chegou à imensa residência na Zona Sul do Rio por volta das duas da tarde. Subiu os degraus cantarolando uma salsa colombiana baixinho, empurrou a porta dupla da suíte principal e parou no meio do caminho.

Sobre a cama king-size, repousava uma mala executiva de couro aberta. Erick, impecável em sua camisa de linho escura com as mangas arregaçadas exibindo as tatuagens densas nos antebraços, dobrava paletós com a precisão fria de sempre.

Jorge piscou, o sorriso murchando ligeiramente nas pontas.

— Amor? — chamou o colombiano, encostando-se no closet. — O que é essa mala aí? Tá indo pra onde?

Erick ergueu o olhar escuro e penetrante, aquele olhar sério que intimidava até os generais mais temidos do continente, mas que sempre suavizava diante de Carrascal.

— Surgiu uma emergência em São Paulo, mi vida — respondeu o chileno com a voz rouca e habitual. — O carregamento das docas precisa ser inspecionado pessoalmente e as reuniões com os distribuidores do Sul vão até o final de semana. Estou saindo no voo das cinco, mas no domingo, antes do jantar, já estou de volta em casa.

Jorge congelou. Seus olhos amendoados fixaram-se no rosto do marido em busca de qualquer centelha de deboche ou ironia.

— Você tá de brincadeira comigo, não tá, Erick?

Erick franziu a testa marcada, parando com uma camisa preta suspensa entre as mãos calejadas:

— Não estou brincando. O que foi? Aconteceu alguma coisa com a segurança ou com o Santino?

Jorge sentiu o ar escapar-lhe dos pulmões, deixando para trás um peso gelado. Deu um passo trêmulo para a frente.

— Você... você tá esquecendo de alguma coisa importante nesse fim de semana, Erick?

O chileno sustentou o olhar, visivelmente confuso, repassando mentalmente os relatórios financeiros e os planos de rota das cargas.

— Não. Está tudo alinhado com a nossa equipe do porto e os homens de prontidão. Só tenho esse compromisso em São Paulo e volto direto pra cá.

Naquele milésimo de segundo, o brilho radiante que acompanhara Jorge a semana inteira apagou-se por completo. Os ombros do colombiano caíram. Ele não apenas esqueceu; ele sequer fazia ideia de que data era aquela.

Antes que Jorge pudesse articular a decepção que lhe arranhava a garganta, o celular de Erick vibrou insistentemente sobre a cômoda de mármore. Jorge lançou um olhar involuntário para a tela luminosa: *Don Roberto*.

O nome do chefe mafioso chileno não vinha desacompanhado. Vinha com um fardo que Jorge conhecia muito bem.

— Se o Don Roberto vai estar nessas reuniões em São Paulo... — Jorge começou, a voz saindo perigosamente baixa e amarga —, a Gabriela vai estar junto, não vai?

Erick soltou um suspiro cansado, esfregando a ponte do nariz com os dedos anelados antes de pegar o aparelho.

— Jorge, por favor. É uma viagem estritamente de trabalho. Eu não sei quem o pai dela vai levar e pouco me importa se a filha dele estará presente ou não.

— Claro — soltou Jorge, dando uma risada seca e sem vida. — Pouco importa. Você não sabe de nada mesmo.

Sem esperar pela resposta do marido e ignorando a chamada que Erick começara a atender em espanhol firme, Jorge deu as costas. Saiu do quarto sentindo um nó doloroso no peito. Desceu as escadas em passos pesados, sentindo o ardor da tatuagem recente em suas costas queimar como uma zombaria cruel.

Direcionou-se ao minibar localizado na ampla sala de estar, ignorando os funcionários e a rotina da casa. Serviu uma dose generosa de uísque puro. Virou de uma só vez. A queimação desceu pela garganta, mas não aliviou o aperto no coração. Serviu a segunda, a terceira, a quarta dose em intervalos curtos de puro silêncio.

Largou o copo de cristal sobre a madeira nobre, arrancou a camisa de botões sem qualquer delicadeza e cruzou os portões da propriedade apenas de bermuda jeans e pés descalços, caminhando rumo à faixa de areia da praia logo em frente. Precisava que o vento marítimo levasse embora a humilhação de ter planejado o mundo inteiro para alguém que sequer se dera ao trabalho de olhar o calendário.

***

No andar superior, Erick encerrava a ligação com Don Roberto, alinhando os últimos detalhes da segurança armada para o desembarque em Congonhas. Guardou o celular no bolso e voltou-se para a mala, fechando o zíper lateral.

A porta do quarto rangeu devagar.

Santino, aos dezoito anos, entrou segurando uma maçã, com os cabelos impecavelmente cortados à moda do pai Jorge e a postura imponente que herdara de Erick. O jovem parou no meio do cômodo, cruzou os braços e encarou a bagagem avantajada com um sorriso irônico nos lábios.

— Caralho, pai Erick... — zombou o garoto, dando uma mordida na fruta. — Vai se mudar de vez pra Búzios ou o quê? Três dias numa casa de praia onde vocês dois provavelmente nem vão colocar roupa no corpo, e o senhor levando metade do closet?

Erick encarou o filho com um olhar severo, ajeitando a gola da camisa:

— Que Búzios o quê, moleque? Não fala besteira. Estou indo para São Paulo agora à tarde. Reunião de negócios com o conselho do Sul.

O sorriso debochado de Santino desvaneceu instantaneamente. Ele piscou, confuso.

— Como assim, São Paulo? O senhor tá de sacanagem, né?

— Já disse que não estou — retrucou Erick, já irritado com a repetição daquela pergunta. — Volto no domingo à noite. Por que diabos vocês dois estão com essa conversa fiada de Búzios hoje?

Santino encarou o padrasto como se ele tivesse acabado de pousar de outro planeta. O jovem soltou uma risada incrédula, balançando a cabeça em choque:

— O senhor esqueceu. Puta que pariu... O senhor realmente esqueceu.

— Esqueci o quê, Santino? Fala logo antes que eu perca a paciência.

— O aniversário de casamento de vocês, chefe! — exclamou o rapaz, gesticulando no ar. — Treze anos! Amanhã é sábado, porra! O meu pai Jorge passou a porra da semana inteira trancado no telefone arrumando uma surpresa surreal pra vocês dois. Alugou uma mansão nababesca em Búzios, fechou buffet particular, encomendou as bebidas que vocês gostam e quase me deixou surdo escolhendo as músicas pro fim de semana. Ele ia te fazer uma surpresa hoje à noite pra vocês pegarem a estrada juntos!

O mundo de Erick Pulgar pareceu desabar em um silêncio estarrecedor.

O homem que comandava centenas de soldados armados, o estrategista frio que nunca hesitara diante de uma ameaça, sentiu as mãos congelarem. As peças do quebra-cabeça caíram sobre sua mente com a violência de um tiro à queima-roupa: o brilho constante nos olhos castanhos de Jorge ao longo da semana; os cochichos do marido com Santino debruçados sobre a tela do iPad; os sorrisos travessos que recebia antes de dormir; o abatimento repentino e a perda de cor no rosto do colombiano minutos atrás...

— Treze anos... — murmurou Erick, a voz falhando, sentindo um suor frio brotar em sua nuca. — Amanhã faz treze anos.

Santino não se conteve. O rapaz desabou em uma gargalhada escandalosa, dobrando o corpo de tanto rir ao ver o temido líder da máfia chilena completamente atordoado e sem ação.

— Caralho! Eu nunca pensei que fosse ver o grande Erick Pulgar entrar em desespero por causa de uma data! O pai Jorge vai te esfolar vivo, chefe! O senhor tá muito fodido!

— Cala a boca, Santino! — rosnou Erick, mas sem qualquer autoridade real, o desespero evidente em seus olhos escuros. Ele deu dois passos rápidos na direção do garoto. — Para de rir, seu moleque insolente!

— Sai fora! — gritou Santino entre gargalhadas, desviando do chileno e disparando pelo corredor escada abaixo.

Erick correu atrás do filho pelos degraus, praguejando em espanhol, determinado a silenciar as provocações do garoto. No entanto, assim que ambos alcançaram a sala principal, os passos cessaram de imediato.

A porta de entrada acabara de ser aberta.

Jorge entrava devagar. Estava sem camisa, com o peito bronzeado e coberto de tatuagens exposto, os pés sujos de areia e uma latinha de cerveja gelada na mão esquerda. Seu olhar estava vago, o rosto fechado em uma expressão de mágoa ferida que fez o estômago de Erick revirar em pura culpa.

Santino estancou no meio da sala, limpou o pigarro e tentou fingir a mais perfeita inocência, cruzando as mãos atrás das costas e olhando para o teto:

— Bom... o clima tá meio pesado aqui, né? Acho que vou ver se os carros da garagem tão abastecidos...

Jorge lançou um olhar cortante na direção do filho. Sabia, com precisão cirúrgica, que o garoto abrira a boca.

— Não precisa fugir, Santino — disse Jorge, a voz mansa, mas fria como gelo, dando um gole demorado na cerveja.

Erick engoliu o orgulho. Deu passos firmes e lentos até parar a um metro do marido, abaixando a cabeça em um gesto de rendição que ninguém no submundo jamais testemunharia.

— Jorge... me perdoa — começou o chileno, a voz embargada pela sinceridade crua. — Eu fui um idiota cego. O excesso de trabalho, as cobranças do porto... nada disso é desculpa. Eu esqueci a data mais importante da minha vida. Mas a viagem de negócios não existe mais. Já mandei cancelarem tudo. Vai lá em cima, pega suas coisas... a gente vai pra Búzios agora mesmo.

Jorge encarou o marido por alguns segundos. O coração do colombiano ainda ardia com o descaso. Ele cruzou os braços sobre o peito nu, empinou o queixo bronzeado e formou aquele clássico e irresistível biquinho nos lábios cheios, virando o rosto para o lado oposto com pura birra:

— Não tem viagem nenhuma pra Búzios.

— Jorge...

— Se você precisou que o nosso filho te lembrasse de treze anos de casamento, Pulgar, significa que essa porra não é importante pra você — disparou o colombiano, com a ginga ferida transbordando em marra. — Cancela o buffet, cancela a casa e vai pra São Paulo encontrar o Don Roberto e a filha dele. Eu fico muito bem aqui no Rio com a minha cerveja.

Erick conhecia aquele biquinho. Sabia exatamente o que ele significava: Jorge estava profundamente magoado, mas por baixo da carcaça de durão, estava implorando para ser mimado, dominado e convencido de que ainda era o centro do universo de Pulgar.

O chileno deu mais um passo, colando a estrutura imponente do seu corpo contra a lateral de Jorge.

— Não faz isso com a gente, mi vida — murmurou Erick ao pé do ouvido dele, deslizando a mão áspera e calejada pela curva da cintura nua do colombiano.

Jorge tentou dar um passo para trás para manter a pose, mas Erick foi mais rápido: passou o braço esquerdo pelas costas do marido, puxando-o para si com firmeza inabalável, enquanto a outra mão subia para segurar a nuca de Carrascal.

— Erick, me solta... eu tô puto com você — sussurrou Jorge, mas a voz já perdeu a força quando os lábios quentes do chileno roçaram a pele sensível logo abaixo de sua mandíbula.

— Pode ficar puto, meu amor... — sussurrou Erick contra a orelha de Jorge, a voz decaindo para aquele tom gutural, rouco e deliciosamente obsceno que sempre fazia o colombiano fraquejar. — Você tem todo o direito do mundo de me castigar. Mas vai me castigar naquela casa de praia, olhando pro mar, enquanto eu beijo cada pedaço desse corpo gostoso até você esquecer que um dia teve raiva de mim.

Jorge fechou os olhos com força, mordendo o lábio inferior. O calor das mãos de Erick espalhava choques elétricos por sua espinha, desarmando cada barreira defensiva que ele tentara erguer.

— Você não presta, Erick... — gemeu Jorge baixinho, a latinha de cerveja quase escapando de seus dedos quando Erick mordiscou suavemente o lóbulo de sua orelha, descendo a boca em beijos possessivos até a curva da clavícula.

— Eu sou o seu homem, caralho — rosnou o chileno, esfregando a pelve contra o quadril de Jorge com uma lentidão provocadora. — E você é a minha vida inteira. Eu vou te foder tanto naquele quarto em Búzios, Jorge... vou te abrir com tanta calma e tanto fundo que você vai passar o domingo inteiro gemendo o meu nome sem conseguir levantar daquela cama.

Jorge soltou um suspiro rendido, a cabeça tombando para trás contra o ombro largo de Erick, seu corpo amolecendo por completo entre os braços do mafioso chileno, como sempre acontecia há mais de uma década.

Um pigarro alto e escandaloso quebrou o transe da sala.

— Cof, cof! Olá? Tem gente viva aqui na sala ainda, se vocês não perceberam!

Jorge deu um sobressalto, empurrando o peito de Erick para longe com as bochechas coradas, enquanto o chileno apenas virava o rosto de lado com um sorriso ladino e presunçoso.

Santino estava parado perto da escada, os olhos arregalados e uma careta hilária desenhada no rosto.

— Pelo amor de Deus... Se continuarem com essa pouca vergonha aqui no meio da sala, o pai Jorge já vai voltar grávido de Búzios antes mesmo de vocês pegarem a serra!

Erick jogou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada alta, genuína e retumbante, que preencheu todo o casarão.

Jorge, ainda recuperando o fôlego e arrumando a postura, fuzilou o filho com o olhar e colocou as mãos na cintura:

— E por que caralhos seria eu a voltar grávido, Santino? Por que não o seu pai Erick, hein? Me explica essa porra!

A pergunta pairou no ar por um segundo. A imagem mental do gigante Erick Pulgar, de quarenta anos, coberto de tatuagens da cabeça aos pés e com cara de assassino da máfia, ostentando uma barriga de gravidez, fez Santino tapar os dois ouvidos com as mãos com uma expressão de puro pânico:

— Chega! Chega! Meus ouvidos são puros! Não quero saber das intimidades sexuais de vocês, pelo amor de Cristo!

Santino deu meia-volta e saiu em disparada pelo corredor dos fundos, berrando teatralmente, repetindo exatamente a mesma cena de quando tinha apenas sete anos e presenciava os beijos apaixonados dos pais na sala.

Erick olhou para a direção por onde o rapaz fugira, ainda rindo com o peito subindo e descendo, e depois voltou seus olhos escuros e cheios de adoração para Jorge.

— Grávido eu não sei, mi vida — Erick murmurou com um brilho lascivo nos olhos, puxando o colombiano pela cintura mais uma vez, colando as testas sob a luz da tarde. — Mas que você não vai conseguir andar direito até segunda-feira de manhã... disso você pode ter certeza absoluta.

Jorge soltou uma risada fraca, acariciando o maxilar quadrado do marido com infinita ternura:

— É melhor você cumprir cada palavra dessa promessa, Pulgar. Principalmente quando eu te mostrar o que mandei fazer nas minhas costas hoje de manhã.

Erick ergueu uma sobrancelha, intrigado e faminto, selando os lábios do marido em um beijo profundo, lento e reconciliador.

Meia hora depois, com duas malas apressadas guardadas no porta-malas do esportivo blindado e a bênção zombeteira de Santino acenando da varanda, os dois chefes partiram em direção à orla de Búzios para celebrar os treze anos do amor mais leal, perigoso e inabalável que aquele mundo já testemunhara.

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