eu com voce
Águas Claras e Confissões Roubadas
O sol do início da tarde espalhava uma luminosidade dourada e quente sobre o vale particular dos Piastri. O dia começara com uma calmaria rara, quase irreal para os padrões do judiciário nov-iorquino. Como prometera, Oscar cumprira parte dos despachos urgentes por videoconferência diretamente do colossal escritório que mantinha na ala leste da mansão, cercado por telas de alta definição, arquivos criptografados e pilhas de pareceres técnicos. Ele não conseguira se desligar completamente do dever — um homem com tamanha carga de responsabilidade jamais o faria —, mas fizera questão de não colocar os pés fora da propriedade.
Lily, por outro lado, decidira que aquela folga merecia ser aproveitada em sua plenitude.
Após uma manhã preguiçosa entre lençóis e algumas horas verificando os relatórios de pedidos da confeitaria pelo tablet, ela vestira um biquíni delicado em tom pêssego, combinando com uma saída de praia fluida de renda branca que ia até os tornozelos. Seus cabelos estavam presos em um coque frouxo no alto da cabeça, deixando a nuca exposta à brisa suave que subia das colinas.
A área da piscina de borda infinita era uma obra-prima de arquitetura contemporânea: mármore travertino claro, espreguiçadeiras estofadas sob ombrelones elegantes e uma vista deslumbrante para os bosques privativos da propriedade. A água cristalina, levemente aquecida, refletia o azul límpido do céu sem nuvens.
Lily já havia nadado algumas braçadas tranquilas e agora descansava com os cotovelos apoiados na borda molhada, sentindo o sol beijar seus ombros claros.
O som suave de sapatos no deck de pedra anunciou a aproximação de duas figuras familiares. Clara, a governanta mais jovem, e Teresa, a cozinheira-chefe da casa, vinham trazendo uma bandeja de prata com jarras de limonada fresca com hortelã, fatias de melancia gelada e pequenas taças com frutas vermelhas.
Diferente de muitas das mansões nababescas da costa leste, onde os funcionários viviam sob uma frieza quase militar, a atmosfera naquela casa era impregnada pela cordialidade afetuosa que Lily trouxera consigo desde o primeiro dia de casamento. Ela jamais admitira ser servida sem compartilhar um sorriso, uma conversa sincera ou as receitas que inventava em sua própria cozinha. Com o tempo, as funcionárias haviam se tornado muito mais do que subordinadas; eram confidentes silenciosas, protetoras e verdadeiras amigas.
— Pensei que você fosse se derreter nesse sol, menina — disse Teresa, pousando a bandeja pesada na mesinha de apoio ao lado da espreguiçadeira com a familiaridade carinhosa de quem cuidava de Lily como de uma filha. — O calor hoje está de rachar as pedras.
Lily sorriu amplamente, virando-se na água e apoiando os antebraços na borda para encará-las.
— A água está divina, Teresa. Vocês deveriam tirar uma hora e pular aqui também. Ninguém vai se importar.
Clara soltou uma risadinha, cruzando os braços sobre o avental impecável.
— Se o Meritíssimo pisar aqui fora e me encontrar de maiô dando braçadas na piscina dele, acho que sou extraditada para a Austrália em cinco minutos, senhora Piastri.
— Deixe de bobagem — retrucou Lily, rindo do exagero. — Oscar tem aquela cara fechada e aquele jeito de quem vai condenar o planeta inteiro à prisão perpétua, mas não morde ninguém.
— Não morde a senhora, né? — brincou Teresa, servindo um copo alto de limonada e estendendo para Lily. — Nós, meros mortais, preferimos manter o respeito. Aquele olhar dele parece raio-X de aeroporto. Mas que o homem estava de um humor extraordinário hoje de manhã, isso estava. Ele desceu para buscar café antes das reuniões e até me deu bom dia com um quase sorriso. Coisa rara desde o julgamento daquele banco francês no mês passado.
Lily aceitou o copo gelado, sentindo o alívio refrescante descer pela garganta. Contudo, ao ouvir o comentário de Teresa, uma onda sutil de calor subiu direto do seu peito para as bochechas, tingindo a pele clara com um rubor irresistível e traiçoeiro.
Ela deu mais um gole na limonada para tentar disfarçar, mas os olhos atentos de Clara não deixaram o detalhe passar batido. A governanta arqueou as sobrancelhas, inclinando-se para a frente com um brilho maroto e cúmplice no olhar.
— Olha lá... Ficou vermelha feito morango maduro — provocou Clara em um sussurro divertido. — Por que será, dona Lily?
Lily engoliu em seco, olhando ao redor da propriedade quase deserta antes de apoiar os antebraços na borda novamente. A dúvida que a vinha carcomindo desde o despertar daquela manhã finalmente venceu a timidez. Ela mordeu o lábio inferior, vacilou por um segundo e, com a voz bem baixinha, quase inaudível contra o murmúrio da cascata d'água, perguntou:
— Meninas... posso fazer uma pergunta um pouco vergonhosa? Mas vocês precisam jurar que vão ser completamente sinceras.
Teresa e Clara entreolharam-se, imediatamente intrigadas. Teresa puxou uma das cadeiras acolchoadas e sentou-se na ponta, apoiando as mãos nos joelhos.
— Pronto. Lá vem. Desembucha, menina, que segredo nesta casa não sai nem por ordem judicial.
Lily respirou fundo, as pontas das orelhas ardendo de vergonha.
— Ontem à noite... quando nós voltamos do baile de gala... — Ela hesitou, cobrindo parte do rosto molhado com a mão livre. — Ficou muito barulhento? Digo... deu para ouvir alguma coisa lá embaixo ou nos corredores?
Um silêncio de dois segundos pairou no ar, interrompido apenas pelo zumbido distante da brisa nas árvores. Em seguida, Clara soltou uma gargalhada curta que tentou abafar com a mão na boca, enquanto Teresa sacudia a cabeça, exibindo um sorriso maternal e cheio de malícia sábia.
— Ah, minha querida... — começou Teresa, rindo entre dentes. — Você acha mesmo que duas paredes de carvalho e o isolamento acústico deste palácio conseguem conter o juiz Piastri quando ele resolve demonstrar a paixão dele?
Lily cobriu o rosto inteiro com as duas mãos, soltando um gemido abafado de puro desespero.
— Meu Deus... Não acredito! Deu para ouvir?
— Menina, não precisa morrer de vergonha — consolou Clara, rindo abertamente agora, sentando-se na borda da espreguiçadeira. — As portas dos quartos de serviço ficam no fim do corredor oposto, mas eu estava descendo para verificar se a adega estava trancada por volta da meia-noite e meia. Digamos apenas que ninguém nesta mansão tinha a menor dúvida de que a senhora estava sendo muito, muito bem amada.
— Ele é intenso demais — sussurrou Lily, os olhos arregalados por entre os dedos, o rosto queimando como fogo. — Oscar não sabe ser calmo nem no quarto. Quando ele fecha aquela porta, é como se... como se o mundo fosse acabar se ele não...
— Se ele não marcasse território — completou Teresa com naturalidade, piscando um olho. — Homem poderoso, cheio de pressão na cabeça e perdidamente apaixonado pela esposa é desse jeito mesmo, Lily. Ele passa o dia inteiro se controlando, fingindo que é feito de mármore diante dos advogados e dos criminosos. Quando chega em casa e encontra a mulher da vida dele... minha filha, o vulcão entra em erupção. A gente nem liga. Pelo contrário! A gente até agradece, porque sabemos que no dia seguinte o patrão vai estar muito mais calmo para trabalhar.
— É verdade — concordou Clara, assentindo vigorosamente. — Se o tribunal soubesse que o segredo para ter um juiz menos impiedoso é apenas mandar a senhora fazer uma visita rápida com um prato de doces, os réus fariam vaquinha para comprar a sua confeitaria inteira.
Lily não conseguiu conter o riso, embora as mãos ainda estivessem quentes contra as faces. A cumplicidade daquelas duas mulheres afastava o peso do constrangimento e trazia a leveza que ela sempre encontrava nas relações mais simples.
— Ele quase desmontou a cama de madeira maciça — murmurou Lily, confessando em um sopro, mais para si mesma do que para elas. — Teve uma hora em que achei que a cabeceira fosse atravessar a parede.
— Aquela cama veio de Florença, entalhada à mão — riu Teresa, erguendo-se e recolhendo o prato vazio de frutas. — Se quebrar, o juiz tem dinheiro de sobra para mandar buscar outra de navio fretado. O importante é o amor de vocês, Lily. A gente trabalha para famílias ricas há anos e o que mais se vê por aí é casal que mal se olha na cara, dormindo em quartos separados e mantendo as aparências para os jornais. Ver um homem como Oscar Piastri venerar o chão em que você pisa é um colírio para os olhos de qualquer um.
— Ele é protetor até demais às vezes — admitiu Lily, a doçura tomando o lugar da vergonha enquanto seu coração se aquecia com as palavras da cozinheira. — Mas eu não trocaria esse cuidado por nada neste mundo.
— E nem deve — disse Clara, levantando-se também e ajeitando a bandeja. — Agora nós vamos deixar a senhora em paz antes que...
Clara interrompeu a frase no meio, seus olhos se desviando para as grandes portas de vidro de correr que conectavam a sala de estar ao terraço externo.
Teresa seguiu o olhar da governanta e deu um leve cutucão em Clara com o cotovelo.
— Falando no dono da fazenda... — sussurrou Teresa com uma piscadela discreta para Lily. — Nós estamos nos retirando, senhora Piastri. Aproveite o resto da tarde.
As duas deram meia-volta com passos rápidos e treinados, cumprimentando a figura que acabara de cruzar o umbral com reverências breves e respeitosas antes de desaparecerem pelo corredor lateral dos jardins.
Lily virou-se dentro da água.
Oscar caminhava em sua direção.
Ele havia abandonado a rigidez dos ternos escuros. Vestia apenas uma bermuda de banho preta de corte reto e uma camisa de linho branco completamente desabotoada, que balançava com a brisa e revelava o peito esculpido, os ombros largos e a linha atlética de seu abdômen. Os cabelos castanhos claros estavam ligeiramente desgrenhados de tanto passar os dedos enquanto lia minutas de processos, e seus olhos claros cintilavam com uma intensidade tranquila sob o brilho do sol.
Ele parecia jovem, arrebatadoramente belo e completamente desprovido daquela couraça impenetrável que aterrorizava o distrito federal de Nova York.
Ao parar na borda da piscina, Oscar fixou o olhar em Lily, deslizando os olhos pelo colo úmido dela, pelos ombros desnudos e pelo decote sutil do biquíni pêssego que contrastava com a transparência da água. Ele não disse nada de imediato; apenas a contemplou com aquela fome silenciosa e irrevogável que jamais diminuía.
— Você demorou — quebrou ela o silêncio, nadando suavemente até ficar a poucos centímetros de onde ele estava de pé, apoiando as duas mãos molhadas nos tornozelos firmes do marido.
Oscar soltou a respiração, um meio sorriso preguiçoso curvando seus lábios.
— O procurador-geral da República achou que uma decisão de bloqueio de bens internacionais podia ser discutida em dez minutos. Tive que lembrá-lo de como a constituição funciona. Mas agora... meus telefones estão desligados até amanhã de manhã.
Com um movimento fluido e natural, Oscar despiu a camisa de linho, atirando-a sobre uma das espreguiçadeiras, e mergulhou diretamente na piscina.
O corte na água foi limpo e silencioso. Segundos depois, ele emergiu bem na frente de Lily, sacudindo a cabeça para afastar os cabelos molhados dos olhos. A água escorria por seus ombros largos e pelas costas musculosas, fazendo sua pele clara brilhar sob a luz do sol.
Antes que ela pudesse falar qualquer coisa, os braços fortes de Oscar envolveram a cintura de Lily por baixo da água, erguendo-a contra o corpo dele com uma facilidade desconcertante. As pernas de Lily instintivamente se fecharam ao redor dos quadris dele, e suas mãos descansaram sobre os ombros molhados do juiz.
— Você está muito sorridente — comentou ele, a voz grave e rouca ressoando perto da orelha dela enquanto a água os sustentava em um abraço fluido. — O que Teresa e Clara estavam cochichando com você com tanta animação antes de eu sair?
O rubor voltou instantaneamente ao rosto de Lily, tão vivo que ela tentou desviar os olhos, escondendo o rosto na curva do pescoço molhado dele.
— Nada demais... — murmurou ela, sentindo o calor da pele de Oscar contrastar com a temperatura fresca da água.
Oscar estreitou os olhos, aquele faro aguçado de magistrado detectando a mentira doce no mesmo segundo. Uma de suas mãos subiu pela coluna dela, espalmando-se em suas costas nuas e pressionando-a ainda mais contra seu peito.
— Lily... — advertiu ele com aquele tom baixo, aveludado e irresistivelmente dominante que sempre fazia seu estômago dar voltas. — Você sabe que é uma péssima mentirosa. Seus olhos entregam tudo. O que vocês estavam falando?
Lily escondeu ainda mais o rosto, soltando um riso envergonhado contra a pele salgada do marido.
— Eu perguntei a elas... se nós tínhamos feito muito barulho ontem à noite.
Oscar congelou por uma fração de segundo. Em seguida, o peito dele vibrou contra o dela quando uma risada baixa, rouca e incrivelmente genuína escapou de sua garganta — um som tão livre e descontraído que pouquíssimas pessoas no mundo sequer sonhavam que ele era capaz de produzir.
— Você perguntou isso aos funcionários? — indagou ele, erguendo a cabeça dela pelo queixo para fazê-la encará-lo.
— Eu fiquei preocupada! — defendeu-se ela, fazendo um biquinho involuntário que só o fez achar a cena ainda mais adorável. — Você não tem noção da força que tem, Oscar. Nem de como você fica quando perde o controle. A Teresa disse que a cabeceira quase atravessou a parede e que a Clara ouviu tudo do corredor da adega!
O olhar de Oscar desceu para a boca dela, escurecendo sutilmente enquanto a diversão dava lugar àquela chama possessiva e profunda que ele nunca tentava apagar.
— E você achou ruim? — murmurou ele, aproximando os lábios perigosamente dos dela.
— Eu não disse isso... — sussurrou Lily, sentindo a respiração dele aquecer seu rosto molhado. — Mas é constrangedor saber que todo mundo sabe exatamente o que a gente estava fazendo.
— Lily, meu amor, esta casa tem mais de trinta cômodos e quase dois mil metros quadrados de terreno — disse Oscar, os dedos desenhando a linha da mandíbula dela com uma carícia lenta e hipnotizante. — Mas mesmo que estivéssemos em uma cabana de madeira no meio da floresta, eu não mudaria uma única vírgula do que fiz com você ontem. Nem vou mudar do que pretendo fazer hoje.
— Oscar... — ela tentou protestar com um suspiro fraco, mas o aperto dele em sua cintura tornou-se mais firme.
— Eu passei anos da minha vida vivendo em silêncio absoluto, Lily — continuou o bilionário, a voz carregada de uma gravidade apaixonada e desarmante. — Sentado em salas gélidas, ouvindo discursos ensaiados e mentiras polidas. Com você... com você eu não quero silêncio. Não quero moderação. Quando estou com você, sou um homem de carne e osso. E se a casa inteira ouvir o quanto eu amo a minha esposa e o quanto perco o juízo por ela, eles que coloquem protetores auriculares, porque eu não vou pedir desculpas por desejar você mais do que a minha própria vida.
O coração de Lily acelerou contra o peito dele, batendo no mesmo compasso vigoroso e urgente. Toda a vergonha infantil dissipou-se, afogada pela torrente de devoção e masculinidade protetora que Oscar sempre depositava aos seus pés. Ela levou as mãos molhadas ao rosto dele, acariciando suas bochechas e os traços fortes que o mundo temia, mas que para ela eram apenas o lar mais seguro do universo.
— Você é louco — sussurrou ela com ternura infinita.
— Louco por você — retrucou ele, antes de fechar a distância restante e tomar seus lábios em um beijo profundo.
A água ao redor deles agitou-se suavemente enquanto Oscar a puxava ainda mais para si, aprofundando o beijo com uma paixão que roubou o ar dos pulmões de Lily. O gosto fresco do sol, a umidade cristalina e o calor abrasador de seus corpos colados criavam uma sinfonia perfeita de sensações. Lily enlaçou os braços ao redor do pescoço dele, entregando-se por inteiro ao homem que comandava tribunais com punho de ferro, mas que derretia sob a menor de suas carícias.
Quando finalmente se separaram para respirar, Oscar descansou a testa contra a dela, seus olhos azuis-esverdeados brilhando com uma paz plena e inabalável.
— O que você quer fazer agora, Sra. Piastri? — perguntou ele em voz baixa, deslizando os lábios de leve pelo nariz empinado dela.
Lily sorriu, aquele sorriso doce e luminoso que carregava o aroma da baunilha de sua infância e a promessa de um futuro eterno ao lado dele.
— Quero nadar com você até o outro lado. Depois, quero que você me ajude a preparar um almoço tarde na cozinha. Sem funcionários, sem gravatas e sem processos por perto.
Oscar sorriu de canto, soltando as pernas dela na água para que pudessem flutuar lado a lado, sem nunca soltar sua mão firme e protetora.
— Seu pedido é uma ordem irrevogável, meu amor. O tribunal está oficialmente em recesso.