Fácil de amar
O Som das Cordas e o Nome do Coração
A luz do entardecer banhava a sala de música da mansão Bang com um tom alaranjado e quente. O ambiente, repleto de estantes de partituras, violões pendurados e o grande piano de cauda no centro, era o santuário de Seungmin. Mas, nas últimas semanas, tornara-se o refúgio de Minjae.
Seungmin estava sentado em uma cadeira ergonômica, com a tipóia já aposentada, embora ainda fizesse movimentos cautelosos. Ele observava Minjae, que estava debruçado sobre um sintetizador, com os fones de ouvido no pescoço e uma expressão de concentração absoluta. O garoto estava mais magro do que antes, mas o brilho nos olhos estava voltando, substituindo a névoa de medo que o acompanhara por anos.
— Você está forçando muito o pulso esquerdo, Minjae — observou Seungmin, levantando-se devagar. — Se continuar assim, vai ter uma tendinite antes mesmo de lançar sua primeira demo.
O garoto deu um pequeno pulo, saindo de seu transe criativo, e olhou para o mentor com um sorriso tímido.
— Eu só queria terminar essa sequência de acordes, Hyung. Parece que o som não está "cheio" o suficiente.
Seungmin aproximou-se, parando atrás do jovem. Ele estendeu a mão e, com uma delicadeza que apenas anos de técnica vocal e instrumental proporcionam, ajustou a postura dos ombros de Minjae.
— A música não vem apenas da força, mas do espaço que você deixa entre as notas. Relaxa. Seus ombros estão nas orelhas.
Minjae soltou um suspiro longo e deixou o corpo relaxar sob o toque de Seungmin. Era estranho, ele pensava, como o toque de um homem podia ser tão diferente. Onde antes havia o peso do medo e a expectativa da dor, agora havia apenas segurança.
— Melhor? — perguntou Seungmin, deslizando a mão para o cabelo do garoto, bagunçando-o levemente.
— Sim — respondeu Minjae, a voz baixa. — Obrigado, Hyung.
— Agora, chega de produção por hoje. Já são seis horas e você prometeu que me ajudaria com o jantar. A Sora está na faculdade e o Chan está preso em uma audição de novos trainees. Somos só nós dois.
Eles caminharam para a cozinha, um trajeto que se tornara rotineiro. Seungmin, apesar de ser conhecido por seu sarcasmo e língua afiada nos tempos de idol, revelara-se um cuidador meticuloso. Ele era quem lembrava Minjae de tomar as vitaminas, quem trocava os curativos das feridas que já haviam cicatrizado e quem, nas noites em que os pesadelos voltavam, aparecia na porta do quarto com um copo de leite quente e um livro de poesias.
— O que vamos fazer? — perguntou Minjae, lavando as mãos na pia de mármore.
— Kimchi-jjigae — anunciou Seungmin, pegando os ingredientes. — E não ouse dizer que está muito apimentado. É a receita da minha família.
Enquanto cortavam os vegetais em silêncio, Minjae observava Seungmin pelo canto do olho. Ele via as pequenas cicatrizes que ainda restavam no rosto do mais velho, marcas daquela noite no apartamento. Aquilo sempre trazia uma onda de culpa, mas o modo como Seungmin agia — como se as marcas fossem medalhas de honra e não lembranças de trauma — ajudava Minjae a respirar.
— No que está pensando? — perguntou Seungmin, sem desviar os olhos do tofu que cortava.
— Naquela noite — confessou Minjae, a voz vacilante. — Às vezes eu ainda me pergunto por que você foi. Você podia ter ligado para a polícia e ficado em casa. Estaria seguro. Não teria essas marcas.
Seungmin parou a faca e olhou diretamente para o garoto. Seu olhar era suave, mas carregava a firmeza de um carvalho.
— Minjae, se eu tivesse ficado em casa, eu teria perdido a chance de ter esse jantar com você hoje. Marcas na pele somem ou se tornam parte de quem somos. Mas a marca de perder alguém que amamos... essa nunca cicatriza. Eu não fui lá por dever. Eu fui porque você é meu.
O garoto sentiu um nó na garganta. "Você é meu". Aquela frase ecoava em sua mente. Ele nunca pertencera a ninguém de forma positiva. Ele era um objeto de raiva para o progenitor biológico, um fardo para o sistema. Mas ali, naquela cozinha com cheiro de tempero e lar, ele era algo valioso.
— Eu nunca tive ninguém que lutasse por mim — sussurrou Minjae, as lágrimas começando a arder. — Eu achava que o mundo era só silêncio e pancada.
Seungmin largou a faca, limpou as mãos no avental e caminhou até o menino. Ele o puxou para um abraço, um daqueles abraços de "urso" que Chan costumava dar, mas com a quietude e a paz que só Seungmin possuía.
— O silêncio acabou, Minjae. Agora, você tem uma sinfonia inteira ao seu redor.
Eles terminaram o jantar entre conversas sobre música e as reclamações engraçadas de Seungmin sobre como Chan era desarrumado com as meias pela casa. Minjae ria, uma risada que soava como música para os ouvidos de Seungmin.
Após a refeição, eles se acomodaram no sofá da sala de estar. Seungmin estava com um livro, e Minjae estava com a cabeça apoiada no ombro do mais velho, algo que ele começara a fazer com mais frequência nos últimos dias.
— Hyung? — chamou Minjae, após um longo tempo de silêncio confortável.
— Hum? — murmurou Seungmin, virando uma página.
— O Chan-hyung me disse que os papéis da guarda permanente e da adoção oficial saíram hoje. Ele vai trazer para assinarmos amanhã.
Seungmin fechou o livro lentamente, seu coração dando um salto de alegria que ele tentou esconder sob sua fachada calma.
— Isso é uma notícia maravilhosa, Minjae. Como você se sente com isso?
O garoto se afastou um pouco para olhar nos olhos de Seungmin. Havia uma hesitação ali, uma vulnerabilidade que parecia prestes a transbordar.
— Eu me sinto... em casa. Mas eu estava pensando em uma coisa.
— O que foi?
Minjae respirou fundo, as mãos brincando com a barra da camiseta.
— Eu passei a vida toda chamando um homem de "pai", mas ele nunca agiu como um. Ele era só... o homem que me machucava. E aí eu conheci você e o Chan. O Chan é como um sol, ele me guia e me protege. Mas você...
Seungmin inclinou a cabeça, esperando.
— Você me curou — continuou Minjae, a voz embargada. — Você sangrou por mim. Você cuida de mim quando eu não consigo cuidar de mim mesmo. Você me ensinou que eu tenho uma voz.
Seungmin sentiu os próprios olhos umedecerem, algo raro para o homem que sempre se orgulhara de ser o "rocha" emocional do Stray Kids.
— Eu não quero mais chamar vocês apenas de Hyung — disse o garoto, as lágrimas finalmente caindo. — Se os papéis dizem que eu sou seu filho... eu posso... eu posso te chamar de Appa também?
O silêncio que se seguiu não foi pesado, foi sagrado. Seungmin sentiu como se o tempo tivesse parado. Dez anos de casamento com Chan, uma carreira de sucesso, uma filha maravilhosa como Sora... tudo parecia ter levado a este momento singular de redenção.
— Oh, Minjae... — Seungmin estendeu os braços e puxou o garoto para seu colo, como se ele ainda fosse uma criança pequena, e não um adolescente de dezesseis anos.
— Desculpe, se for muito cedo... — começou Minjae, escondendo o rosto no pescoço de Seungmin.
— Não — interrompeu Seungmin, a voz falhando enquanto ele também chorava. — Não é cedo. Na verdade, meu coração já te chama de filho desde o momento em que vi você pela primeira vez naquela sala de ensaio.
Seungmin afastou o rosto do garoto apenas o suficiente para beijar sua testa, um gesto de bênção.
— Pode me chamar do que você quiser, meu querido. Mas "Appa"... eu acho que é a palavra mais bonita que eu já ouvi em toda a minha vida.
Minjae soluçou, mas desta vez era um choro de alívio, de libertação.
— Obrigado, Appa — sussurrou ele, a palavra saindo naturalmente, como se estivesse guardada em sua alma esperando o momento certo para florescer. — Obrigado por me salvar.
— Nós salvamos um ao outro, Minjae — respondeu Seungmin, embalando o filho. — Nós salvamos um ao outro.
Nesse momento, a porta da frente se abriu. Bang Chan entrou, parecendo exausto, com a pasta de couro debaixo do braço e o cabelo bagunçado. Ele parou na entrada da sala, observando a cena: seu marido e o garoto que ele tanto amava, abraçados e chorando no sofá.
— O que aconteceu? — perguntou Chan, a preocupação imediata em sua voz. — Minjae? Minnie? Vocês estão bem? Alguém ligou? O agressor...
Seungmin olhou para o marido e sorriu através das lágrimas, um sorriso radiante que Chan não via há anos com tanta intensidade.
— Estamos ótimos, Channie — disse Seungmin. — Só estávamos conversando sobre a família.
Minjae se limpou, sentando-se ereto, e olhou para o homem que agora era legalmente seu protetor.
— Appa Chan — disse Minjae, sua voz ganhando uma nova confiança. — Você chegou tarde para o jantar, mas o Appa Seungmin guardou um pouco para você.
Chan congelou no lugar. A pasta de couro escorregou de sua mão, caindo no tapete com um baque surdo. Ele olhou de Minjae para Seungmin, seus olhos arregalados, o lábio inferior tremendo levemente.
— O que você... como você me chamou? — perguntou Chan, a voz falhando completamente.
— De Appa — repetiu Minjae, com um sorriso travesso que lembrava muito o de Seungmin. — Algum problema com isso?
Chan soltou um som que foi metade risada, metade soluço. Ele atravessou a sala em três passos largos e se jogou sobre os dois no sofá, envolvendo Seungmin e Minjae em um abraço esmagador, daqueles que faziam as costelas de Seungmin reclamarem, mas que ninguém ousaria interromper.
— Nenhum problema — disse Chan, enterrando o rosto no ombro de Minjae. — É o melhor som do mundo.
Sora, que acabara de chegar e observava tudo da porta, limpou uma lágrima solitária antes de jogar sua mochila no chão e correr para se juntar à pilha de abraços no sofá.
— Ei! Não comecem a reunião de família sem a filha favorita! — exclamou ela, fazendo todos rrirem.
Naquela noite, na mansão dos Bang, as sombras do passado foram finalmente dissipadas pela luz de um novo nome. O som do vidro quebrado fora substituído pelo som de corações se curando. Seungmin olhou para sua família — seu marido, sua filha e seu novo filho — e soube que, apesar de todas as cicatrizes e de todas as lutas, a música que eles estavam compondo juntos era a obra-prima de sua vida.
E enquanto a noite caía sobre Seul, o eco de um simples "Appa" permanecia no ar, uma promessa silenciosa de que, a partir de agora, Minjae nunca mais estaria sozinho no silêncio. Ele tinha uma voz, ele tinha um nome, e acima de tudo, ele tinha um pai que daria a vida por ele — e que, felizmente, agora estava lá para ensiná-lo a viver.