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Fada e pirata

O Eclipse da Alma em Solaria

O silêncio no Palácio de Solaria nunca fora tão ensurdecedor. Geralmente, as tardes eram preenchidas pelo som de harpas mágicas ou pelas discussões vibrantes de Stella sobre a nova coleção de verão. Mas, naquela tarde, o ar parecia ter se transformado em chumbo. O sol, sempre tão radiante, brilhava com uma luz pálida, como se o próprio astro sentisse que algo terrível estava prestes a ser revelado.

Rose, a filha de Bloom e Jim, caminhava pelo corredor das alas privadas com um pressentimento ruim. Ela e Luna eram inseparáveis, mas nos últimos dias, a prima se tornara um fantasma. Luna não ria mais das piadas de Jim, não participava dos treinos de Bloom e evitava o olhar da própria mãe. Rose sabia que Luna estava saindo com um rapaz da guarda aristocrática, um jovem de sorriso fácil e olhos frios que Jim nunca aprovou, chamando-o de "tubarão em pele de cordeiro".

Ao passar pela porta do quarto de Luna, Rose ouviu um som que gelou seu sangue: um gemido abafado, seguido pelo barulho de algo caindo no chão.

— Luna? — Rose chamou, batendo de leve. — Luna, sou eu. Abre a porta.

Não houve resposta, apenas um som de respiração falha. Rose não hesitou. Usando a pequena centelha de fogo que herdara da mãe, ela derreteu a tranca e empurrou a porta. O que viu a fez perder o fôlego.

Luna estava caída no chão do banheiro, encolhida em posição fetal. O tapete branco estava manchado de um vermelho vivo e assustador. O rosto da princesa estava da cor do mármore, coberto de suor frio, e seus olhos estavam revirados. Perto de sua mão, um frasco vazio de uma substância alquímica proibida rolava pelo chão.

— PAI! — O grito de Rose ecoou pelas paredes de pedra, carregado de um pavor que Solaria nunca conhecera. — PAI, SOCORRO! BLOOM! ALGUÉM AJUDE!

Jim foi o primeiro a chegar. Ele se moveu com a velocidade sobrenatural da Terra do Nunca, atravessando o corredor como uma sombra veloz. Quando entrou no quarto e viu Luna, o pirata arrogante e destemido sentiu o chão desaparecer sob seus pés.

— Luna... — A voz de Jim falhou, um som quebrado que Rose nunca tinha ouvido.

Ele se ajoelhou no sangue, pegando o corpo frágil da afilhada nos braços. A pele dela estava gélida.

— Rose, chame sua mãe e a Stella agora! — Jim ordenou, a voz recuperando a autoridade através do desespero puro. — Diga aos curandeiros que preparem a sala de emergência! AGORA!

Jim a carregou pelo palácio, correndo como se sua própria vida dependesse daqueles passos. Ele não olhava para os lados, não via os olhares chocados dos servos. Seus olhos violetas estavam fixos no rosto de Luna. Ele via nela a menininha de óculos que ele protegera, a criança que ele ensinara a lutar. E agora, ela estava escorrendo por entre seus dedos.

Horas depois, o hospital real estava sob um bloqueio total. Stella estava colapsada em uma cadeira, sendo amparada por Bloom, cujas mãos tremiam violentamente. Jim estava encostado na parede oposta, a camisa de linho ainda manchada com o sangue de Luna. Ele parecia ter envelhecido séculos em poucas horas.

Quando o curandeiro-chefe saiu da sala de cirurgia mágica, seu rosto não trazia alívio.

— Ela vai viver — disse ele, a voz baixa —, mas as notícias não são boas.

— O que aconteceu? — Stella perguntou, a voz sumindo. — Por que ela estava sangrando daquele jeito?

O curandeiro hesitou, olhando para Jim e depois para Bloom.

— A Princesa Luna... ela ingeriu uma dose maciça de uma pílula abortiva de mercado negro. Pela gravidade da hemorragia e pelos danos teciduais causados pela toxicidade da substância... ela teve uma infecção generalizada no útero.

— Aborto? — Stella sussurrou, os olhos arregalados. — Gravidez? Ela... ela nunca me disse nada.

— Houve mais, Rainha Stella — o curandeiro continuou, com pesar. — Examinamos os traumas físicos. Não foram consistentes com uma relação consensual. A princesa sofreu uma agressão violenta. Ela foi estuprada.

O silêncio que se seguiu foi como uma explosão. Stella soltou um grito abafado, escondendo o rosto nas mãos. Bloom sentiu uma onda de calor emanar de seu corpo, as chamas da Chama do Dragão ameaçando sair do controle em pura agonia e ódio pelo agressor.

Mas foi Jim quem reagiu de forma mais assustadora. Ele não gritou. Ele não chorou. Ele simplesmente se endireitou, e seus olhos violetas tornaram-se duas pedras de gelo mortais. A aura de pirata, o homem que não temia a morte, envolveu-o como uma capa.

— E as consequências? — Jim perguntou, a voz tão fria que parecia vir do fundo do oceano.

— A hemorragia foi controlada, mas para salvar a vida dela, tivemos que realizar um procedimento de cauterização mágica total — explicou o médico. — A Princesa Luna não poderá mais gerar filhos. O dano é permanente.

Stella desabou no choro, um som lancinante que preencheu o corredor. Bloom a abraçou, chorando junto, sentindo a decepção consigo mesma por não ter percebido o sofrimento da afilhada, a raiva pelo monstro que fizera aquilo e o medo do que viria a seguir.

Jim se afastou do grupo sem dizer uma palavra. Ele precisava sair dali antes que destruísse o hospital com as próprias mãos. Ele foi para a varanda, socando a balaustrada de pedra com tanta força que seus nós dos dedos sangraram.

— Aquele maldito... — rosnou Jim para o céu noturno. — Eu vou cortá-lo em pedaços tão pequenos que nem a magia poderá reuni-los.

— Jim, pare — a voz de Bloom surgiu atrás dele. Ela estava exausta. — A vingança não vai curar o que foi tirado dela.

— Ele tirou a inocência dela, Bloom! — Jim virou-se, os olhos brilhando de fúria. — Ele a forçou, e ela ficou com tanto medo de nós, tanto medo do julgamento, que tentou se matar com aquela droga! Ela achou que éramos monstros que a rejeitariam!

— Nós falhamos com ela, Jim — Bloom disse, as lágrimas escorrendo livremente. — Nós criamos uma redoma de vidro tão perfeita que ela teve medo de nos mostrar as rachaduras. Agora, o que importa é como ela vai acordar. Ela vai se sentir destruída.

Dois dias depois, Luna finalmente abriu os olhos. O quarto estava na penumbra, mas ela sentiu a presença deles imediatamente. Stella estava sentada ao lado da cama, segurando sua mão. Bloom estava aos pés da cama, e Jim estava nas sombras, perto da janela.

Luna tentou falar, mas sua garganta parecia cheia de cinzas. As lembranças vieram como um vendaval: o cheiro de álcool dele, a força bruta contra a qual ela não pôde lutar, a dor, o medo, o teste de gravidez positivo que pareceu uma sentença de morte, e a pílula que ela comprou em um beco escuro de Solaria.

— Mamãe... — Luna sussurrou, a voz quebrada.

— Eu estou aqui, meu amor — Stella disse, beijando a mão da filha. — Eu estou aqui.

— Eu sinto muito — Luna começou a soluçar, o corpo tremendo sob os lençóis. — Eu estraguei tudo. Eu sou... eu sou suja. Eu matei o que estava dentro de mim e agora... eu sei o que o médico disse. Eu ouvi as enfermeiras conversando. Eu não sou mais uma mulher completa, não é? Eu sou um deserto.

— Nunca mais diga isso — a voz de Jim veio das sombras, firme e cortante. Ele se aproximou da luz, e Luna viu a dor nos olhos dele. — Você não é suja, Luna. O que aconteceu com você foi um crime cometido por um covarde. E o que você fez... você agiu por desespero e medo.

— Eu tive medo de você, Jim — Luna confessou, olhando para ele com uma tristeza profunda. — Eu tive medo que você me olhasse com nojo. Que você visse que eu não era mais a sua princesa corajosa.

Jim sentiu como se uma adaga tivesse atravessado seu coração. Ele se sentou na beira da cama e, pela primeira vez na vida de Luna, ele não agiu como o pirata arrogante ou o tio brincalhão. Ele agiu como um pai cujo mundo havia sido devastado.

— Luna, olhe para mim — disse Jim, segurando o rosto dela com as mãos calejadas. — Eu passei séculos sendo um pirata. Eu menti, eu roubei, eu fiz coisas de que não me orgulho para sobreviver. Eu sou a pessoa mais imperfeita desta sala. Você acha mesmo que eu teria coragem de te julgar?

— Mas eu perdi a chance de ter uma família — Luna chorou, a dor transbordando. — Eu tirei isso de mim mesma. Eu me sinto imunda, mamãe. Eu sinto o toque dele na minha pele toda vez que fecho os olhos.

Stella subiu na cama e abraçou a filha, ignorando os fios e os aparelhos mágicos.

— Nós vamos tirar esse sentimento de você, Luna. Nem que leve o resto das nossas vidas. Você não é o que aconteceu com você. Você não é a sua capacidade de ter filhos. Você é Luna, a luz de Solaria. E o sol pode ser eclipsado, mas ele nunca deixa de existir.

Bloom aproximou-se, colocando a mão sobre as de Luna e Stella.

— Nós vamos encontrar quem fez isso, Luna. A justiça será feita. Mas agora, sua única missão é respirar. Um dia de cada vez.

Luna olhou para os três. Ela via a raiva contida de Jim, a dor profunda de Stella e a determinação feroz de Bloom. Havia uma decepção no ar, sim, mas não era com ela. Era uma decepção coletiva por um mundo que permitira que aquilo acontecesse com uma de suas filhas.

— Eu me sinto tão vazia — Luna sussurrou, fechando os olhos.

— Então nós vamos preencher esse vazio com todo o amor que temos — Jim prometeu, sua voz soando como um juramento sagrado. — Eu não vou sair do seu lado. E aquele homem... Luna, ele nunca mais vai ferir ninguém. Eu te dou a minha palavra de pirata.

As semanas que se seguiram foram as mais difíceis da história daquela família. Luna passava por crises de pânico onde sentia que seu corpo não lhe pertencia. Havia dias em que ela não conseguia se olhar no espelho, sentindo que a imagem refletida era a de alguém "quebrado".

Stella, em um ato de amor extremo, cancelou todos os seus compromissos reais. Ela passava as tardes penteando os cabelos de Luna, contando histórias de quando ela era pequena, tentando reconectar a filha com a própria beleza. Bloom trazia ervas da Terra do Nunca que ajudavam a acalmar a mente e a alma, ensinando Luna a usar sua magia não para lutar, mas para se curar por dentro.

E Jim... Jim tornou-se o guardião silencioso. Ele ficava sentado na porta do quarto de Luna durante as noites em que os pesadelos eram mais fortes. Ele não falava muito, mas sua presença era uma âncora. Ele ensinou Luna que ser "forte" não significava não cair, mas ter a coragem de aceitar a mão de quem quer te levantar.

Certa noite, meses depois do ocorrido, Luna saiu para a varanda. Jim estava lá, olhando para o horizonte de Solaria.

— Jim? — ela chamou baixinho.

— Sim, pequena?

— Eu ainda me sinto suja às vezes — ela admitiu, abraçando o próprio corpo. — E eu ainda choro quando penso que nunca vou ver o rosto de um filho meu.

Jim virou-se para ela. Ele não ofereceu clichês.

— A cicatriz vai ficar lá, Luna. Eu não vou mentir para você. Mas cicatrizes são marcas de sobreviventes. E quanto a filhos... — ele apontou para si mesmo e para Bloom, que observava da porta. — Eu não precisei de laços de sangue para amar você mais do que a minha própria vida. A família é construída na dor e na cura, não apenas no nascimento.

Luna encostou a cabeça no ombro de Jim. Pela primeira vez em muito tempo, o sol de Solaria parecia estar começando a aquecer sua pele novamente.

— Você pegou ele, não é? — perguntou ela, referindo-se ao agressor, que havia desaparecido misteriosamente das masmorras antes do julgamento.

Jim ficou em silêncio por um longo tempo. Seus olhos violetas brilharam com uma satisfação sombria que ele não pretendia esconder.

— Digamos que ele descobriu que a Terra do Nunca tem lugares onde o tempo não passa, mas a dor é eterna — respondeu Jim, a voz calma. — Ele nunca mais será um problema para ninguém neste ou em qualquer outro mundo.

Luna não sentiu alegria com a notícia, mas sentiu um peso saindo de seus ombros. A justiça de um pirata era cruel, mas era a única que parecia equilibrar a balança de sua alma ferida.

— Obrigada, pai — Luna sussurrou.

Jim estancou. Aquela palavra... ele nunca a tinha ouvido vindo dela. Ele sentiu uma lágrima solitária queimar seu rosto, algo que ele não permitia há séculos. Ele a abraçou com força, um abraço que prometia que, não importava o quão suja ela se sentisse ou o quão vazio fosse seu ventre, ela sempre seria a princesa do seu coração.

Bloom e Stella observavam das sombras, de mãos dadas. O caminho para a cura total ainda era longo e cheio de espinhos, mas ali, sob as luas de Solaria, a família que a dor unira provava ser mais forte do que qualquer tragédia. Luna estava aprendendo a brilhar novamente, não com a luz ofuscante da inocência, mas com o brilho temperado e resistente de quem atravessou o inferno e voltou para contar a história.

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