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Fada e pirata

O Despertar da Flor de Obsidiana

O sol de Solaria parecia mais suave naquela manhã, filtrado pelas cortinas de linho fino que Rose, com sua energia habitual, abrira para deixar o dia entrar. Luna estava sentada diante da penteadeira de cristal, observando seu reflexo. Aos dezoito anos, ela carregava a majestade de Stella e a intensidade silenciosa que cultivara nos últimos meses de recuperação. Seus olhos azuis, antes sempre marejados de uma melancolia profunda, agora tinham o brilho da resiliência, embora a sombra do trauma ainda espreitasse nos cantos de seu sorriso.

— Luna, você precisa parar de franzir a testa — disse Rose, passando uma escova de cerdas macias pelos longos cabelos loiros da prima. — Se continuar assim, o bordado do seu vestido de coroação vai acabar saindo torto só de olhar para você.

Luna soltou um riso curto, mas sem humor.

— O vestido é o de menos, Rose. É a reunião com o Conselho hoje. Eles ainda me olham como se eu fosse um vaso de porcelana quebrado que foi colado às pressas. Eles sabem o que aconteceu, mesmo que ninguém diga em voz alta.

— Eles que se atrevam a dizer algo — Rose rebateu, os olhos azul-violeta faiscando com a mesma fúria que Jim demonstrava quando alguém o irritava. — O papai já deixou claro que qualquer comentário sobre a sua "aptidão" será tratado como alta traição. E você sabe que ele não brinca em serviço.

Luna suspirou, sentindo o vazio familiar no ventre. A cauterização mágica que salvara sua vida também selara seu destino como uma linhagem que terminaria nela. Para o Conselho, uma rainha que não podia gerar herdeiros era uma anomalia política; para ela, era uma ferida aberta que latejava toda vez que via uma criança no jardim do palácio.

— Eu me sinto pronta para governar, Rose — sussurrou Luna —, mas não sei se estou pronta para ser vista. O medo de que alguém se aproxime demais... de que alguém tente me tocar...

Rose parou de escovar e colocou as mãos nos ombros de Luna, apertando-os com carinho.

— Você não precisa deixar ninguém chegar perto se não quiser. Mas não deixe o que aquele monstro fez tirar o seu trono. Você é a luz deste reino, Luna. Com ou sem herdeiros, você é o sol.

A conversa foi interrompida por batidas firmes na porta. Bloom entrou, trazendo consigo o aroma de chá de camomila e a aura de calma que sempre acalmava Luna.

— Estão prontas? — perguntou Bloom, sorrindo para as duas. — O Conselho já está reunido, e temos visitas inesperadas. Uma tribo das Terras Distantes de Solaria chegou aos portões. Eles pedem uma audiência urgente com a Rainha e a Herdeira.

Luna sentiu um frio na barriga. As Terras Distantes eram territórios selvagens, habitados por tribos indígenas que raramente se envolviam com a política da capital. Se eles estavam ali, a crise era real.

No Grande Salão, o calor era intenso. Stella estava sentada no trono, usando uma coroa de ouro leve, sua expressão séria enquanto ouvia os murmúrios dos conselheiros. Jim estava postado ao lado dela, com a mão no punho da espada, seus olhos violetas varrendo o salão com desconfiança. Quando Luna entrou, acompanhada por Bloom e Rose, o silêncio se instalou.

Um grupo de homens e mulheres de pele bronzeada pelo sol implacável e vestes de couro e tecidos rústicos estava no centro do salão. À frente deles, dois homens se destacavam. O mais velho tinha o rosto marcado pelo tempo, mas o mais jovem capturou a atenção de todos.

Ele era alto, com músculos definidos que pareciam esculpidos em carvalho. Seus cabelos eram negros e presos em uma trança complexa, e seus olhos eram escuros e penetrantes como os de um predador noturno. Ele não usava joias de ouro, mas sim colares de dentes de animais e pedras brutas.

— Majestade — disse o homem mais velho, curvando-se levemente. — Sou Taka, ancião da Tribo do Vale das Sombras. E este é meu irmão mais novo, Puma, nosso principal guerreiro.

Stella inclinou a cabeça, mantendo a dignidade.

— O que traz o povo do Vale até a capital? Vossas terras são férteis e protegidas pela tradição.

— Eram, Majestade — interveio Puma. Sua voz era profunda, uma ressonância que pareceu vibrar no peito de Luna. — Uma praga de magia seca está matando nossas colheitas e secando nossos rios. Meu povo está morrendo de sede e fome. Viemos pedir o auxílio de Solaria, não como súditos, mas como aliados que compartilham o mesmo sol.

Luna sentiu o olhar de Puma se desviar de Stella e pousar nela. Foi um contato visual intenso, quase invasivo, mas estranhamente desprovido da malícia que ela aprendera a temer nos homens. Ele a observava com uma curiosidade crua, como se pudesse ver através das camadas de seda e da armadura emocional que ela construíra.

— Esta é minha filha, a Princesa Luna — apresentou Stella, notando a troca de olhares.

Puma deu um passo à frente, e Jim instantaneamente se retesou, os olhos brilhando em aviso. O guerreiro parou a uma distância respeitosa e falou algo em sua língua nativa, uma sequência de sons guturais e melódicos que Luna não compreendeu, mas que soaram como um elogio.

— O que ele disse? — perguntou Jim, a voz perigosa.

Taka, o irmão mais velho, sorriu de forma enigmática.

— Ele disse que a herdeira tem a aura de uma flor de obsidiana. Uma flor que nasce no fogo e sobrevive à escuridão. Ele diz que ela é um sol que está prestes a se tornar a lua... forte, serena e necessária para o equilíbrio.

Luna sentiu o rosto esquentar. Ela não estava acostumada a ser vista daquela forma — não como uma vítima, não como uma peça política, mas como uma força da natureza.

— Eu agradeço as palavras de seu irmão — disse Luna, sua voz saindo mais firme do que esperava. — Se o seu povo sofre, Solaria não fechará os olhos.

— O sol brilha para todos — acrescentou Puma em um idioma comum, embora com um sotaque carregado —, mas nem todos sabem apreciar o calor após a tempestade.

Ele fez um gesto gentil, levando a mão ao coração e curvando a cabeça, mas manteve os olhos fixos nos dela por um segundo a mais do que o protocolo exigia. Não houve tentativa de toque, não houve avanço. Apenas um reconhecimento silencioso.

Após a reunião, enquanto os preparativos para o envio de suprimentos eram discutidos, Luna retirou-se para a varanda lateral do palácio. Ela precisava de ar. A presença de Puma a deixara confusa; ele exalava uma masculinidade selvagem que deveria tê-la assustado, mas, em vez disso, despertara uma faísca de algo que ela achava que morrera no banheiro daquele hospital: a curiosidade.

— Ele é interessante, não é? — A voz de Jim a fez pular levemente. Ele estava encostado em uma coluna, observando-a.

— Ele é... diferente, Jim.

— Ele é um guerreiro — disse Jim, aproximando-se e colocando a mão no ombro da afilhada. — Ele vê o mundo em termos de sobrevivência e honra. Eu vi como ele olhou para você, Luna. Ele não viu uma princesa frágil. Ele viu uma igual.

— Eu não sei se quero que alguém me veja, Jim — confessou Luna, as lágrimas ameaçando surgir. — Toda vez que um homem me olha, eu sinto que ele está procurando as marcas do que aconteceu. Eu sinto que ele vai descobrir que eu estou... oca.

— Aquele homem não sabe o que é "vazio", Luna — Jim disse, olhando para onde a tribo estava acampada nos jardins. — O povo dele vive da terra. Eles sabem que a terra que foi queimada é a que produz os frutos mais fortes. Ele não está procurando perfeição. Ele está procurando fogo.

Bloom e Stella juntaram-se a eles, observando o movimento lá embaixo.

— Stella está preocupada com o Conselho — comentou Bloom —, mas eu estou preocupada com você, Luna. A coroação é em três dias. Você tem certeza de que quer seguir com isso agora?

— Eu tenho — afirmou Luna, olhando para as próprias mãos. — Eu não posso deixar o medo governar minha vida. Se eu não for rainha, o que resta de mim?

— Resta você, meu amor — disse Stella, abraçando a filha. — Mas ser rainha pode ser a sua forma de cura.

Naquela noite, Luna não conseguiu dormir. Ela desceu aos jardins, querendo sentir a brisa noturna. Perto da fogueira da tribo do Vale, ela viu Puma. Ele estava sentado sozinho, afiando uma lança de madeira negra. Ele não usava camisa, e as tatuagens em seus braços pareciam ganhar vida sob a luz das chamas.

Ao percebê-la, ele não se levantou bruscamente. Ele apenas parou o que estava fazendo e indicou o lugar ao seu lado na pedra.

— A noite em Solaria é curta — disse Puma. — Mas o silêncio é profundo.

Luna aproximou-se, mantendo uma distância segura, mas sentando-se.

— O silêncio pode ser barulhento às vezes — ela respondeu.

Puma a olhou, a luz da fogueira dançando em seus olhos escuros.

— Na minha tribo, dizemos que o barulho vem do que tentamos esconder. O que a princesa esconde atrás de tanta seda?

Luna sentiu um nó na garganta.

— Eu escondo uma história que ninguém quer ouvir, Puma. Uma história de perda.

Puma soltou a lança e olhou para as estrelas.

— Eu perdi minha esposa e meu filho na última grande seca — ele disse, a voz desprovida de autopiedade, apenas carregada de uma aceitação ancestral. — O deserto levou o que eu mais amava. Eu também me senti oco por muito tempo. Achei que minha linhagem morreria comigo e que eu seria apenas um guerreiro sem futuro.

Luna virou-se para ele, surpresa pela vulnerabilidade súbita.

— E como você... como você continuou?

— Eu percebi que a vida não é sobre o que plantamos para nós mesmos, mas sobre a sombra que deixamos para os outros — Puma explicou, voltando o olhar para ela. — Eu protejo minha tribo. Eu cuido dos órfãos dos meus irmãos. Eu sou pai de muitos, mesmo não sendo pai de nenhum. A fertilidade da alma é maior do que a do corpo, Luna de Solaria.

Luna sentiu um impacto no peito. Aquelas palavras eram exatamente o que ela precisava ouvir, algo que nem mesmo Bloom ou Stella conseguiram formular com tanta clareza.

— Você me viu hoje — disse ela, a voz trêmula. — Seu irmão disse que eu era uma flor de obsidiana.

— Obsidiana é vidro vulcânico — Puma disse, inclinando-se levemente em direção a ela, mas respeitando o espaço. — É afiada, é forte e nasce do caos. Você não é uma rosa de jardim que precisa ser regada. Você é a rocha que sustenta o jardim.

Ele estendeu a mão, a palma para cima, sobre a pedra entre eles. Ele não tentou tocá-la. Ele apenas ofereceu a presença.

— Se você permitir — sussurrou Puma —, eu gostaria de ver a sua coroação. Gostaria de ver o momento em que a flor de obsidiana assume o seu lugar ao sol.

Luna olhou para a mão dele, depois para o rosto marcado e honesto do guerreiro. Pela primeira vez em anos, o toque não parecia uma ameaça, mas uma possibilidade. Ela não colocou a mão sobre a dele, mas sorriu — um sorriso pequeno, genuíno e corajoso.

— Eu gostaria que você estivesse lá, Puma.

— Então eu estarei — ele prometeu.

Luna levantou-se e começou a caminhar de volta para o palácio. Antes de entrar, ela olhou para trás. Puma ainda estava lá, uma silhueta de força e paciência contra a escuridão.

No dia da coroação, o palácio estava transformado. Ouro e seda por todos os lados. Stella estava radiante, embora seus olhos brilhassem com lágrimas de orgulho. Bloom e Jim estavam na primeira fila, Rose ao lado deles, todos observando Luna caminhar em direção ao altar.

Luna usava o vestido que Stella desenhara — uma obra-prima de tecidos que pareciam feitos de luz solar líquida. Mas, em seu pescoço, ela adicionara algo novo: um pequeno pingente de obsidiana bruta que Puma lhe enviara naquela manhã, preso a um cordão de couro simples.

Quando a coroa foi colocada em sua cabeça e o grito de "Vida longa à Rainha Luna!" ecoou pelo salão, Luna procurou um rosto na multidão. Ela o encontrou perto das grandes portas. Puma estava lá, ereto, com a mão no coração.

Ela não era mais a menina que se escondia no banheiro. Ela não era apenas a vítima de um crime hediondo. Ela era Luna, Rainha de Solaria, a Flor de Obsidiana. O vazio em seu ventre ainda estava lá, mas o vazio em sua alma estava começando a ser preenchido pela luz de uma nova esperança.

Jim, observando da primeira fila, sorriu de canto e trocou um olhar de cumplicidade com Bloom.

— Ela conseguiu, ruiva — sussurrou Jim.

— Ela sempre conseguiria — Bloom respondeu, apertando a mão dele. — Ela só precisava lembrar que o sol nunca deixa de brilhar, mesmo depois do eclipse mais longo.

Luna ergueu o cetro, e naquele momento, o sol de Solaria brilhou com uma intensidade renovada, banhando a nova rainha em uma luz que prometia não apenas poder, mas, finalmente, a paz.

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